domingo, 10 de novembro de 2013

Um jantar com amor

Não haverá por certo muitas coisas que nos façam desligar de um clássico jogo de futebol entre o Benfica e o Sporting que no final acabou com sete golos, repartidos até de uma forma que me é muito simpática.
Mas se pensarmos numa amizade de trinta anos, daquelas inabaláveis pelo tempo e pela distância que por motivos pessoais ou profissionais por vezes se coloca entre nós, então a mesa redonda que nos reúne aos quatro é de facto muito mais importante do que qualquer golo do Cardozo, por melhor que ele seja.
A Jeropiga vinda directamente da Beira Baixa para nos servir de aperitivo tem um travo doce que alinha com os afectos que os olhares não calam por nos vermos assim neste conforto indescritível de estar juntos.
E há tanto tempo que preparávamos este encontro.
A sopa é de feijão e tem couve e massa, com uma força camponesa e bem Portuguesa que alinha e rima perfeitamente com a força deste gostarmos uns dos outros, ao estilo de impenetrável fortaleza, onde não cabem sequer aquelas “dificuldadezinhas” ridículas que parecem ser sempre inócuas e inconsequentes mas que depois e por efeito de acumulação sempre vão minando e destruindo os alicerces do essencial.
Regado com um vinho tinto do Alentejo que traz com ele o sol, o chão da terra que foi berço da nossa amizade, e esse tudo, e até humor, que nos caracteriza a nós, os Homens do sul, o jantar só poderia mesmo beneficiar dessas tantas gargalhadas que sempre são autênticos foguetes na alegria da festa de estarmos juntos.
Os folhados que combinaram a alheira e os espinafres alinharam totalmente com este hino à tolerância e aos prazeres e benefícios do respeito pela diversidade que tem caracterizado sempre a nossa amizade.
Somos mais ricos quando nos desafiamos e nos obrigamos a questionar as opções. Daí geralmente resultam melhores e mais fundadas opções, passos em frente no crescimento.
E para isso (e muito mais) servem os amigos.
A sobremesa teve marmelos assados que nos trouxeram o Outono até à mesa, alinhados com mousse de chocolate que, juntamente com o café que chegou mais tarde, nos transportou até às terras “estranhas” das viagens que gostamos de compartir; e um gelado de limão, que juntamente com o Limoncello do fina,l foi um travo de frescura como é e será sempre a nossa amizade que se renova em cada encontro, em cada palavra, e às vezes até nos silêncios.
No final comemos castanhas assadas, acabámos a ver fotos de outros tempos e a ler palavras de hoje, alinhando projectos para o futuro pois longa queremos que seja a estrada, o caminho que sempre iremos percorrer em conjunto.     
E quando já tínhamos visto o resultado do jogo e já nos tínhamos abraçado na demonstração de um maravilhoso fair-play, despedimo-nos com esta certeza de que breve se fará o momento do reencontro pois já íamos com saudades.
Permitam-me apenas que partilhe convosco que a palavra mais usada nas nossas quatro horas de jantar foi sem dúvida: amor.
O que comprova que os momentos com o “amor” se sobrepõem até aos hat-tricks do Cardozo, às vitórias do Benfica e são aqueles que contam na nossa afinal tão breve história.  

sábado, 9 de novembro de 2013

As paredes da vergonha

Já há muito que a noite caiu sobre a cidade e é por entre as luzes que fazem de cada colina os pedaços de um imenso presépio, que as gentes se cruzam na busca de infinitos e insondáveis destinos algures entre becos e sinuosas vielas, mas sempre unidos pela força de um eterno amor à cidade do Tejo, o rio que por ora dorme e que só se dá por ele na luz de um cacilheiro que do Cais do Sodré se faz ao sul.
Há ecos de Liberdade no Carmo, anda à solta a poesia entre a Brasileira e o Camões de mão dada com o homem das castanhas, há a voz e o riso do povo a ecoar pela Bica na calçada que o elevador sobe lentamente, há o fado no Bairro Alto… e há a universalidade, o ADN da cidade, que derrotou passaportes e fronteiras e que nos fez um povo só.
Não interessa se somos de cá ou fora, nesta noite somos todos, a gente de Lisboa, aqui, no conforto de uma casa nossa e imensa, brindando à vida, mais com o riso e as gargalhadas, do que com generosos copos cheios de um bom vinho.
A nossa casa é sempre o sítio onde nos sentimos bem.
Eu sou apenas mais um subindo a Calçada do Combro e cruzando-me com a multidão, com o anonimato de milhares de rostos, mas no privilégio, doce benefício, de uma paz imensa.
Queria eu que a história desta noite tivesse acabado aqui, mas infelizmente assim não aconteceu.
Entre os sacos gigantescos de lixo com os despojos das habitações e do comércio, que aguardam a passagem de um carro que os recolha, há gente, muita gente, dormindo nas calçadas da cidade, abafando-nos os sorrisos pela consciência que em nós despertam da sua dor imensa.
Só a lua e Lisboa parecem não lhes ter virado as costas.
Faz hoje precisamente vinte e quatro anos que caiu o muro de Berlim numa noite em que acreditámos jamais se construiriam paredes de vergonha para separar cidades e para afastar os Homens.
Pura ilusão.
Talvez como nunca antes, persistem muros de vergonha em todas as cidades, muros sem cimento ou sem tijolos, mas muros erguidos pela imbecilidade desta ditadura económica que retira dos Homens a dimensão de uma vida e lhes dá o estatuto de meras e simples coisas, um número a mais ou a menos nas estatísticas que sustentam o poder.
Em Lisboa…
Persistem ecos de Liberdade no Carmo, há poesia entre o Chiado e o Camões, há povo…
Oxalá nunca morram e os consigamos sobrepor a toda a indiferença que nos marcam os dias.
Necessitamos deles mais do nunca para fazer novas cidades. Cidades sem muros, sem paredes de vergonha.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Eu “Sei lá”… “Não há coincidências”

Estar sozinho a tomar o pequeno-almoço num hotel dá-nos tempo de sobra para, entre uma visita e outra ao buffet, alimentar a escrita “bebendo” dos personagens que se sentam ao nosso lado.
Hoje foi um desses dias e não me acusem por favor de ser um mal-educado que escuta conversas alheias porque estando eu em Coimbra, estes personagens falavam num tom que até da tumba na Igreja de Santa Cruz, o D. Afonso Henriques poderia acompanhar tal novela.
Chegaram juntas e usavam entre elas o tratamento de amigas, e amigas seriam, mas uma delas era claramente a líder.
Com um cinto dourado alinhado com o tom das dezenas de pulseiras que tilintavam nos seus pulsos, com anéis em quase todos os dedos, Com uma mala, perdão, carteira da Louis Vuitton, com sapatos XPTO, com tanta base e tanto rímel que com ele poderíamos quiçá dar lustro à Torre Eiffel de alto a baixo, esta “amiga” líder cedo deixou romper o verniz.
Quando a amiga se levantou para ir buscar algo e ela permaneceu sentada, através de um olhar de claro desdém a denunciar que pelo seu neurónio solitário poderia estar a passar algo do género: “ai coitadinha filha que mal te ficam essas calças com as ancas tão largas que tens”; cedo percebi que a amizade era curta.
E quando a determinada altura da refeição escancarou a boca para com uma unha de gel retirar um pedaço de comida que se tinha alojado algures cá atrás entre os dentes, percebi de vez que a criatura era na verdade uma “contrafacção de lady”, mas daquelas tão baratas que até a ASAE a cinquenta quilómetros dá por ela.
A mim, não me bastava ter de levar centenas de vezes com as declarações da Margarida Rebelo Pinto acerca da crise, que, por certo por me ter portado muito mal, o destino me enviou este acréscimo de castigo com dois genéricos dos seus personagens a sentarem-se ao meu lado para me acompanhar durante o pequeno-almoço.
Será por certo para eu manifestar aqui a minha solidariedade à Margarida.
É verdade, a pobre anda descorçoada, até a Júlia Pinheiro, a Fátima Lopes e o Luís Norton de Matos, imagine-se, escrevem e publicam romances estragando-lhe definitivamente as vendas.
Para além disso, tinha também de aparecer aquela coisa das “Cinquenta sombras de Grey” com descrições mais ousadas do que as dela no que ao pénis e às vaginas diz respeito, com o mulherio em surdina a discutir aquelas coisas e desprezando de vez as historietas sobre as tias de cascais que alugam quartos para cometer adultério no Hotel Ibis da Área de Serviço da A5…
A Margarida tinha mesmo de fazer algo para assegurar a sua quota de mercado e assim resolveu ir chocar o mundo com uma declaração de todo imprópria, sei lá, tá a ver?
Mas valha-nos isso pois imagine-se que a mulherzinha nos tinha decido chocar despindo-se toda e subindo a Rua do Carmo montada numa burra?
O inestético que seria a criatura a cruzar o Chiado…
Aquilo é só ossos e ainda pensavam que andávamos a desenterrar os fenícios.
Necessidade a quanto obrigas!
Agora muito a sério e apesar de lhe ter dedicado estas palavras, acho que não devemos perder muito tempo com a Margarida Rebelo Pinto, nem sequer odiá-la pois ela não merece.
Só merece ser odiado quem é importante e ela não o é de todo.
Se fez estas declarações por pensar desta forma, não me surpreende pois é o tipo de afirmações que costumam fazer os acéfalos.
Se as fez por Marketing, ganhe vergonha e abra realmente os olhos, pegue nela e vá até um supermercado pois talvez se aperceba que muitas das pessoas que lhe compravam os livros, não o fazem agora para irem comprar os da concorrência, fazem-no tão só porque necessitam do dinheiro para ir comprar papo-secos para os filhos.
As minhas companheiras de pequeno-almoço saíram da sala aos risinhos e de braço dado…
Amigas.
São assim os dias da hipocrisia e “não há coincidências”.
“Sei lá…”.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Não é por existirem nuvens que o sol deixa de nos fazer o dia

Já há muitos anos e ainda quando a catequese paroquial era ministrada nas instalações do Convento de Santa Cruz no piso imediatamente acima da Sociedade Artística, uma reconhecida “artista” da sociedade calipolense, efectivamente mais rica de escudos do que virtudes, repreendeu-me em plena lição quando no âmbito daquela sempre cretina discussão sobre “o que queres ser quando fores grande” eu ousei assumir uma ruptura com o destino e dizer-lhe algo que saía do território muito limitado entre um pai barbeiro e uma mãe costureira.
- Tu sabes lá quanto custa pagar uma universidade?
E ali, naquele hiato entre a escola e a brincadeira, momento em que supostamente eu iria aprender a amar a Deus, aquele “morcego” esquálido e tenebroso quase matava o meu amor por mim reduzindo-me a auto-estima quase até ao nível das classificações da filha que frequentava a mesma turma que eu e que não era uma aluna brilhante apesar de ser boa rapariga.
Poderia eu agora explicar como foram os indefectíveis de direita que semearam a esquerda no Alentejo, germinada e crescida por acção do adubo da “legítima revolta”… mas hoje não me apetece de todo ir por aí.
Esta história vem à baila depois de ontem me ter acudido à memória ao fim do dia algures no trajecto entre Lisboa e Coimbra.
Ontem, dia 6 de Novembro, foi dia do 73º aniversário do meu pai, acontecimento que levou o meu amigo Álvaro Coelho a sugerir-me que algo escrevesse sobre o meu progenitor, apesar de já o ter feito antes e em múltiplas ocasiões.
E pensando caminho fora, ao som do fado para fugir aos relatos de futebol veiculados pelo rádio, este acontecimento surgiu porque de entre tudo e de entre toda a vida que devo de facto aos meus pais, há algo que por genética e educação também muito lhes tenho a agradecer: um sentido positivo para a vida e a garra de sempre acreditar que o que vem a seguir será melhor.
Ao contrário das pessoas negativas, aquelas se fixam sempre no lado negro de tudo e que no limite até conseguem olhar o parto como antes de mais um momento terrível de dor (ou de um corte no útero em caso de cesariana e anestesia), sempre me ensinaram que até da morte se pode fazer passagem para algo de positivo. Basta ter fé e apenas querer e lutar com muita garra.
E viessem “morcegos tenebrosos” a pairar sobre mim que eu estive sempre vacinado para lutar contra eles, sobretudo através de um bom sorriso que é a coisa que mais irrita quem nos quer ver menos bem.
Ontem o sono derrotou-me à chegada e já não tive tempo nem forças para transcrever pelas minhas modestas palavras, o enorme que foi esta dádiva e herança dos meus pais. Faço-o hoje que por coincidência é dia de aniversário da minha colega e amiga Júlia Lameira que chamo aqui à baila porque de entre todo o muito que nos fez amigos, esta sina de sempre olhar para o copo “meio cheio” foi algo que muito nos aproximou.
De facto, não é por existirem nuvens que o sol deixa sempre de nos fazer o dia.
Entretanto, de saída sempre vos digo que apesar do “morcego” sempre fui um homem de fé… e seguirei sendo.
E porque dos fracos não reza a História, jamais enunciarei o nome da dita criatura agoirenta.
Mas porque aos fortes deve sempre a História fazer justiça, deixem-me que partilhe convosco três nomes: Mimi Lisboeta, Adélia Duarte e Bárbara Elisa.
Também foram minhas catequistas, grandes amigas e por obra e mérito dos seus exemplos fantásticos de mulheres na vivência de uma fé enorme, foram sementes da minha própria fé, aliadas e impulsos sérios nesta vontade de sempre ser grande e ser maior.
Foram sempre, um pouco de sol.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Não separe o Homem…

Num breve passeio em Roma na tarde de um sábado muito recente e na onda de aproveitar para espreitar a infinidade de igrejas que se cruzam no nosso caminho, algures perto da Fontana di Trevi e num templo do qual não me recordo o nome deparei-me com uma disposição diferente dos bancos destinados aos fiéis, em semi-circulo junto ao altar.
Achei interessante porque mesmo sem ter assistido a algum acto de culto fiquei com a clara sensação de que naquele local, a comunicação por palavras, gestos e sobretudo olhares, encerrava em si os dois sentidos naturais, não condenando ninguém ao estatuto de só emissor ou só receptor, numa clara e assumida morte do púlpito como máquina de emissão de verdades a uma massa de gente anónima a quem só era permitido abrir a boca no final para dizer:
- Ámen.
Visita profética, aquela.
Ao preparar o sínodo do próximo ano cujo tema será a família, o Papa Francisco decidiu de uma forma inédita auscultar a opinião dos fiéis, a até aqui “multidão dos ámen’s”, convidando-os a partilhar a sua forma de pensar e ver todos os assuntos mais “quentes” relativos à família.
De uma assentada colheu dois frutos. O primeiro foi dar voz efectiva aos leigos concretizando o respeito que a hierarquia da igreja sempre publicitou ter mas pouco concretizou ao longo dos séculos. O segundo foi tão-só reconhecer que há diferenças que devem ser tidas em conta e discutidas, sem que perante elas se assuma a atitude hipócrita da avestruz. Escrevê-las tratando-as pelo nome correcto e real, já foi um grande passo em frente.
Como católico e à luz da minha fé e das minhas convicções, li atentamente as questões colocadas pelo Papa à reflexão dos leigos e não me parece difícil expressar a minha opinião.
Deve a fé centrar-se mais no conteúdo do que na forma, nos valores de carácter e nas virtudes, muito mais do que nas aparências, e sempre, no amor entre os Homens como expressão de amor a Deus e supremo louvor pela obra da criação.
A família é a unidade central e um micro território de crescimento da fé, dos valores, das virtudes de carácter e do próprio amor, amor presente desde logo na raiz de uma partilha real de vida que me é perfeitamente indiferente se é estabelecida entre um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres, ou então e no caso de famílias monoparentais, no compromisso consigo próprio de um homem ou de uma mulher.
O que importa, reforço, é somente o amor. E não há amor que possa assentar em algo que não seja a verdade de nós mesmos por muito diferentes que possamos ser.
E um contexto de amor, independentemente da forma, é sempre o ideal para educar uma criança e para fazer dela um Homem maior e recheado dos maiores valores.
No casamento, Deus une o que o Homem Lhe pede que una quando expressa no altar, um “sim” que algures no tempo e por várias circunstâncias se pode transformar num rotundo “não”.
A mudança é inerente ao próprio Homem, é natural, não sendo nunca sinónimo de obrigatória redução de virtudes. Pelo contrário, a mudança ocorre muitas vezes no sentido da lucidez e da verdade.
Restringir o acesso aos sacramentos das pessoas divorciadas que mais tarde “afinaram” as suas famílias é claramente uma injustiça, uma condenação feita com base apenas na forma visível e à luz das leis dos Homens que sempre persistem no tempo em olhar Deus como um “carrasco” que efectivamente não é.
É exigente, o que é bem diferente.
Numa situação extrema, quem é que de forma mais efectiva louva a Deus através do respeito por si próprio, uma mulher que comunga todos os dias porque se mantém casada com um homem que a sova diariamente? Ou será a mulher que assume o fim do seu casamento e que mais tarde refaz a sua vida com outro homem ficando dessa forma afastada dos sacramentos?
E mesmo que não haja violência envolvida, a vontade consciente do Homem num determinado momento e a sua coerência tornam legítimo o afinar de todas as opções.
Para estas situações que aqui abordei, considero que o princípio é sempre o mesmo e consiste basicamente no respeito pelo Homem e na vivência efectiva da caridade porque é por aí que se respeita e louva a Deus, e o mundo pode avançar de encontro ao amor.
Quanto ao resultado desta consulta aos leigos espero que o Homem não separe mais uma vez aquilo que Deus uniu quando na essência criou o Homem com uma infinita capacidade de amar.
E já agora que morra de vez a hipocrisia.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As “casas secretas” do “país das maravilhas”

Depois de ter partilhado hotel no fim-de-semana com uma actriz que não é cantora mas que enche os maiores pavilhões do país para a ouvir cantar ao jeito de um personagem de ficção de uma telenovela da TVI, e ainda no contexto dos fascículos distribuídos diariamente pelo Correio da Manhã sobre a “bárbara” versão Portuguesa e Século XXI de “A Bela e o Monstro”; “encarrilho” na ideia de que em Portugal, ficção e realidade se imiscuem numa larga zona cinzenta onde uma e outra são impossíveis de separar.
Acho também, e na sequência disso, que ter uma “Secret Story“ é definitivamente um “Factor X” para “Quem quer ser milionário”. Se a tiver, não é “Seguro” que atinja o êxito, que sempre pode surgir também por “Portas” travessas, mas por certo dará “Passos de Coelho” para tal, num país posto propositadamente a crescer ao ritmo “alucinante” de uma tartaruga coxa.
E nesta nacional “Casa dos Segredos” a voz é como sempre a do dono, neste caso, a dona, que apesar de não saber expressar-se em Português, utiliza um elementar sistema de tradução simultânea para converter o seu Alemão natal na linguagem seca e mortífera dos Euros, a qual todos infelizmente entendemos. Por vezes até bem demais.
E quando alguém tenta transgredir logo se escuta:
- Dies ist die stimme.
Que é mais ou menos como quem diz:
- Venham de lá mais uns milhões.
Uma sessão do parlamento tem afinal tudo a ver com uma gala dominical apresentada pela Teresa Guilherme, embora no caso do hemiciclo, a loura seja menos espampanante, esteja habitualmente sentada e tenha uma leve pronúncia à moda de “Bigeu”.
Os intervenientes, ausentes e presentes, mas todos, figuras distintas do “programa”, leia-se nação, têm os seus segredos bem (ou mal) guardados. Nesta camuflagem dos vícios privados pelo “manto diáfano” de um tão ténue e falso sentido de responsabilidade, o maior artista é sempre o que melhor esconde os seus próprios segredos (ou os da sua trupe):
- “Forrei a marquise com o dinheiro que ganhei no BPN”;
- “A minha mulher é pobrezinha mas o meu genro comprou o Pavilhão Atlântico”;
- “Em Paris, mantive uma relação incestuosa durante dois anos com o PEC IV”;
- “Tirei a licenciatura por fax a um domingo”;
- “Travesti-me de doutor”;
- “A minha mulher vai à missa e eu vou para a Fundação dormir a sesta e sonhar com o Miterrand”;
- “Adoro submarinos e ainda irei jogar à Batalha Naval no Alfeite”;
- “Quero muito reformar o Estado mas dado que a Troika recomendou o aumento da idade da dita, a reforma fica para depois”;
- “Sou ex-toxicodependente no que a aplicações financeiras de empresas públicas diz respeito”;
- “Já fui a um casting do La Feria e no duche canto sempre a Nini dos meus quinze anos
As nomeações para a saída da casa (do poder) são feitas semanalmente pelos concorrentes com recurso às capas de distintos jornais e, de tempos a tempos, o público é chamado a votar as expulsões (ou não) através de chamadas que só são de valor acrescentado para a produção do programa (Orçamento de Estado) pois para o votante têm um sistemático valor subtraído às pensões, subsídios de férias e Natal, ordenados, etc.
O conteúdo pornográfico é em tudo semelhante ao do programa da TVI embora o televisivo seja bem mais pudico pois usa e abusa dos edredões. Na nação é mesmo tudo às claras e sem dó nem piedade.
Por isso sempre podemos dizer que estamos… lixados. E neste caso sem margem para quaisquer dúvidas pois não é ficção e é a mais pura realidade.
Precisa-se pois com urgência de uma nova grelha de programas mas já agora com um pouco mais de… chamemos-lhe decência.

sábado, 2 de novembro de 2013

“Se estivesses aqui o meu irmão não teria morrido”

Era o fim de tarde de um domingo do verão mais quente que alguma vez vivi, 1981.
A porta aberta dispensou o gesto habitual da mão enfiada pelo postigo para abrir o trinco da fechadura que nunca teve chave e, escada acima, o silêncio da gente vestida de negro abafou-me o grito que ressoava sempre no eco daqueles degraus que a meio faziam uma estranha curva. Era inútil chamar por ela, a avó Chica jazia inerte no leito que algumas vezes partilhou comigo na noite que antecedia uma qualquer ida ao campo, habitualmente para lavar a roupa nas águas límpidas de um ribeiro ali para os lados da Fonte Cebola e do Monte das Quatro Cruzes.
Os espelhos do quarto, onde eu desde a cama a via pentear-se pacientemente na elaboração de uma longa trança depois enrolada num toutiço, reflectiam agora o seu rosto que estranhamente negava o estatuto de cadáver e sorria para nós.
Sem tempo para que eu afinasse o grito e pudesse chamar por ele ao longo da escada da estranha curvatura, o avô Joaquim partiu também treze dias depois, e com ele morreu para mim a casa mais alegre que alguma vez conheci, a casa da janela que vivia enfeitada de cravos, a casa da cozinha que tinha um alguidar de aromas que a perfumavam a partir do poial dos cântaros, a casa de altos tectos onde pendurávamos uma balança enorme de dois braços que nos permitiam pesar as peras muito pequenas que trazíamos do Colmeal da Mulatinha, que ficava muito para lá do Carapiteiro mas quase encostado à parede da Tapada Real.
Jamais saberei se nesse estio com marca de Alentejo, o verão dos meus quinze anos, comecei a aprender o que é a morte, ou se tão-somente comecei eu próprio a morrer, iniciando uma longa viagem para um destino que a fé me impõe acreditar que não é um fim mas apenas um passo mais, de encontro à eternidade.
Porque se é certo que a morte de alguém que amamos nos ensina mais sobre a própria morte e nos familiariza com ela numa intimidade que a faz tratar por tu, também é certo que morremos, que partimos lentamente ao ritmo da partida de todos aqueles que nos fizeram como somos e nos deram os dias mais felizes das nossas vidas.
E a vida hoje trouxe-me até Guimarães e foi na Senhora da Oliveira numa nesga de meia hora algures por volta do meio-dia, que pela fé, na Eucaristia, me uni a Deus e a todos os meus mortos.
Ao ritmo da chuva que insiste em cair sobre o dia, o padre repete no Evangelho as palavras da fé de Marta, irmã de Maria, a propósito da morte de Lázaro: “Senhor, se Tu estivesses aqui o meu irmão não teria morrido”.
E o Senhor ressuscitou Lázaro.
Ecoam em mim estas palavras nos instantes em que me devolvo às ruas da cidade Património da Humanidade e, passo a passo caminho pelos trilhos estreitos ladeados pelas perfeitas fachadas de granito.
Vou só com os meus pensamentos e as minhas memórias apercebendo-me que enquanto eu estiver aqui, estarão vivos comigo e em mim, todos aqueles que eu amei, que me amaram e que pelos afectos se inscreveram como imortais na minha história pessoal.
Se as palavras de Marta a Jesus se referem à vida eterna, também é verdade que a uma escala muito pessoal e não divina, também se aplicam a nós pois é eterna em cada um, a vida de todos aqueles que nos deram e nos dão vida.
O dia de finados é afinal um dia de ressurreições através da bênção das memórias, um brinde aos que por tanto nos amarem viverão para sempre em nós.
E as lágrimas que insistimos em chorar naquele dia em que os espelhos de casa reflectem o rosto inerte dos nossos, são apenas de saudade, são pedaços desta tristeza que sempre sentimos quando temos de dizer um “até já” a todos aqueles a quem tanto queremos e que tanto queremos junto a nós.