quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os roubos “à LAGARDEre”

Há cerca de um ano, em Outubro de 2012, o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição presidida pela francesa Christine Lagarde que beneficiou dos efeitos secundários dos impulsos sexuais do seu antecessor, assumiu num relatório, o erro na avaliação prévia do impacto da austeridade nos países do Euro sob assistência financeira. Os modelos de projecção estimavam que por cada euro de austeridade se perdia 0,5 Euros no PIB e os dados reais revelaram que por cada Euro de corte na despesa pública ou agravamento de impostos, o PIB perdeu entre 0,9 e 1,7 Euros.
Na mesma linha, num relatório da mesma instituição apresentado no passado mês de Setembro, uma equipa liderada por Olivier Blanchard (Economista Chefe) defendeu que as políticas defendidas pela instituição ao nível orçamental mostraram, desde o início da crise financeira em 2008, estar erradas em muitos pontos essenciais, defendendo que ao contrário do até aí praticado, a austeridade deve ser aplicada de forma progressiva, com cuidado, para não provocar um efeito contraproducente na economia.
Ontem, numa teleconferência desde Washington, o chefe da missão do FMI para Portugal, Subir Lall, afirmou ser necessária mais austeridade em Portugal reduzindo salários e pensões, mas assegurando que a economia cresça de uma forma sustentada.
Perante esta sucessão de afirmações fico sem saber como classificar esta relação do FMI com Portugal. Será doença bipolar, esquizofrenia, sadismo ou tão só incompetência?
Esta hesitação assiste-nos apenas quando abordamos a questão de uma forma clínica, porque se o fizermos de uma forma popular e algo brejeira, não teremos dúvidas de que se trata de uma real e verdadeira palhaçada pois não é necessário ser um grande economista para entender que não se estimula o engordar de uma porca cortando-lhe na ração.
E certo, certo… é que a incompetência de quem nos governou e de quem nos governa, nos colocou inteiramente à mercê de loucos, tendo com isso comprometido decisivamente a nossa independência como nação soberana.
Na conferência de ontem, para além de considerações sobre a crise política em Portugal que ocorreu no último verão, inadmissíveis se pensarmos que um técnico de uma instituição internacional não deve julgar assuntos que são do foro exclusivamente interno de uma nação fundadora e contribuinte dessa instituição, é feita um pressão asquerosa sobre o Tribunal Constitucional num claro desrespeito pela instituição que salvaguarda o cumprimento da carta magna da nossa república, a “lei suprema” que até o Presidente da República jura cumprir e fazer cumprir, mas que nos últimos tempos tem sido sujeita a estes ataques sem que ele recrimine os autores de tal atentado à dignidade e à essência da nação.
O Sr. Lall apontou novamente para o papão dos “Mercados” e para os riscos de tudo aquilo que os põe de mau humor e a castigar-nos, muito ao jeito do inferno que está sempre preparado para receber os meninos maus e que roubem rebuçados.
Acredito que pelo ritmo que levamos, chegaremos de facto aos “Mercados” em 2014 mas como mendigos esfarrapados à porta dos ditos e de mão estendida a pedir esmola, tal o roubo “à LAGARDEre” de que os nossos bolsos têm sido vítimas.
E quem diz “à LAGARDEre” pode dizer à grande e “à Francesa” pois sendo Madame Lagarde do país que invadia os outros para roubar e violar, sempre podemos dizer que uma coisa lhe assiste: a coerência de sair aos seus.
Com tudo isto acho que nós também devemos actuar como os nossos antepassados e aplicar-lhes o tratamento que sempre ouvi dizer lhes foi aplicado em Alcains, morder-lhe como cães.
Mas com os nossos melhores dentes.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

As lições improváveis

Há muito confirmei que a vida é um processo contínuo de aprendizagem, sendo a própria idade a desmontar aquela falsa ideia que nos acode em jovens, de que chegará o dia em que seremos essencialmente emissores de informação, “mestres” do alto de uma cátedra legitimada em grande parte pelo muito que já vivemos.
O tempo vai de facto ensinando muita coisa, sobretudo através das experiências que vivenciamos e das pessoas que connosco se cruzam e partilham os dias, mas estar vivo é sinónimo de abordar cada amanhecer com a sofreguidão de aprender, muito mais do que com a certeza do muito que vamos ensinar ao mundo.
Até porque o que de melhor temos para ensinar aos outros, passamo-lo de forma natural e espontânea na virtude de sermos nós próprios e sendo grandes no que somos e fazemos, com o exemplo a ser muito mais eficaz do que a conversa na concretização desse desiderato.
E dos dias vamos colhendo lições que nos surgem quando menos esperamos e inspirações que podem chegar dos “professores” mais improváveis e das circunstâncias aparentemente mais banais.
Do alto dos meus quarenta e sete anos tenho recebido lições extraordinárias dos meus sobrinhos que têm oito e seis anos.
Basta estar atento e disponível para aprender…
O Luís, com seis anos, não gosta de se deitar e adormecer sem espreitar a lua. Se for caso disso até pode solicitar a reabertura das persianas para concretizar o seu objectivo, ensinando-me dessa forma que “adormecer” sobre o que quer que seja sem antes saborear o seu lado mais luminoso, quer seja da noite ou da própria vida, é um verdadeiro desperdício.
Até parece irrelevante pois a lua, mais ou menos cheia consoante a fase do seu ciclo, todas as noites brilha por entre as estrelas, mas é um facto que adormecer depois da poesia de a “saborear” é mesmo outra coisa e quantas vezes, um bom substituto para os indutores do sono.
O João, com oito anos, desenvolveu uma técnica que combina no mesmo espaço de tempo, a higiene oral e as orações da noite, e é vê-lo a esfregar os dentes ao mesmo tempo que reza, acelerando dessa forma a ida para a cama e a possibilidade de adormecer de mão dada com o irmão, o Luís, que já viu a lua e está deitado na cama de baixo do beliche que partilham.
Mais do que uma lição de optimização do tempo ou então uma demonstração da complementaridade no que ao tratamento do corpo e da alma diz respeito, chamou-me a atenção, esta possibilidade que tantas vezes desprezamos de transformar as pequenas coisas em acções de louvor a Deus ou tão-só à própria vida, o que no caso de um crente será uma e a mesma coisa. 
Porque mais do que debitar palavras decoradas há mais ou menos tempo na catequese (e rezar uma Ave Maria ou um Padre Nosso enquanto esfregamos os dentes com Colgate é algo que só o João consegue com os seus super-poderes), louva a Deus e à vida quem vive intensamente, quem vive com brilho, com prazer, quem se cuida e cuida dos outros, e sobretudo, quem em cada instante corre para o momento de dar a mão ao seu “irmão” para juntos poderem mergulhar nos sonhos mais profundos e saborosos.
Com a bênção da lua ou do então do sol, que muito bons são os sonhos que nos apanham acordados e em pleno dia.
É tudo afinal, demasiado simples, e como vêem as lições estão aí à mão de semear.
As lições… e a poesia que tem sempre lugar assegurado nas coisas mais simples da vida.
E poeta, eu?
Não.
Definitivamente, gosto apenas de saborear os detalhes, que nenhum é desprezível quando se gosta de viver.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Acelerar para o futuro

No dia em que recebi o convite para a festa das Bodas de Prata que assinalam os vinte e cinco anos de casamento de uns amigos de infância, fiquei também a saber que o meu irmão, cinco anos mais novo, vai ter no sábado um jantar para comemorar os vinte anos de curso, fui confrontado com o facto de uma colega cuja idade anda pela casa dos trinta desconhecer em absoluto o filme com a Julie Andrews, “Millie, uma rapariga moderna” que eu sei de cor e salteado, e acabei sentado na cadeira do barbeiro a ouvir no melhor sotaque da Baía:
- O siô todos os méis tem maisss cabelos brancos na cabeça e na barrrba.
E tivesse eu tendência para a depressão e sairia a correr directamente para o sofá de um psicólogo ou quiçá a afogar-me em alguns químicos do arsenal terapêutico que a minha condição de farmacêutico me permite conhecer perfeitamente.
Mas não.
Acabei a responder ao barbeiro que por este ritmo talvez em Dezembro já esteja apto a ser um “Pai Natal” muito credível sem necessidade de recorrer a pastas de algodão; e quando foi colocado por detrás de mim aquele espelho que me permite ver se o altinho da nuca ficou bem disfarçado no corte com o pente três, até consegui olhar para o espelho à minha frente e pensar de mim para mim:
- Até nem estás nada mal.
E desculpem-me a presunção mas como cada um pode tomar a que quer… auto-estima para cima.
Já no regresso a casa, não pude no entanto deixar de pensar como o tempo passou demasiado depressa. Parece ter sido ontem que andávamos atarefadíssimos a ajudar os nossos amigos a ultimar os preparativos para a festa da boda ou a montar as patifarias costumeiras na ocasião, que por certo serão objecto de um post num futuro próximo.
Mas, tempo por tempo, sempre é melhor olhar para o futuro, por muito boas que sejam as memórias ou as histórias que coleccionámos num percurso mais ou menos longo, onde a maior dificuldade esteve sempre associada aos momentos da despedida de gente tão grata para nós num processo indutor daquela saudade que dói.
E olhando para o futuro, activo se torna em nós nestes momentos em que o espelho nos reflecte uma cara muito próxima daquela que nos habituámos a ver nos nossos pais, um elevado sentido de urgência, para que não haja nenhum sonho ou vontade que deixemos ficar órfão.
Que não fique nenhum beijo por dar, nenhum momento de amor assassinado às mãos da vil solidão, nenhum olhar castrado na sua vontade de gritar e cantar o amor, nenhuma palavra por dizer ou escrever, nenhum livro por ler ou poema por dizer, nenhum quadro por pintar, nenhuma canção por trautear, nenhum filme ou peça de teatro por ver, nenhuma música por escutar, nenhum pôr-do-sol deixado ao abandono, nenhum horizonte por espreitar, nenhuma praia sem os nossos passos marcados na areia num caminhar conjunto e de mão dada, nenhuma árvore por plantar e nenhum fruto por colher, nenhum perfume por roubar na carícia de uma rosa ou de um manjerico, nenhuma montanha por subir, nenhum pão por amassar, nenhuma dança ou ritmo por bailar, nenhum amanhecer sem o conforto de um abraço e de um espreguiçar conjunto, nenhum sorriso por libertar, nenhum petisco por saborear, nenhum copo de bom vinho por beber depois de um brinde com quem o coração nos pede que o façamos, nenhuma viagem por fazer, nenhum gesto por cumprir, nenhuma conversa abafada, nenhuma anedota ou piada sem o epílogo da melhor gargalhada…
E adiar será talvez a morte da oportunidade de cumprir estas por vezes tão pequenas coisas, privando-nos assim definitivamente de ser um pouco mais feliz.
Eu sei que a vida nos é por vezes madrasta, obrigando-nos a adiar e a suspender estes sonhos e vontades. Mas se isso acontecer que seja sempre por factores exteriores a nós e que jamais carreguemos aquele duro fardo que se chama arrependimento.
Vou então despachar-me…
Não é por mais nada, é que quando os meus amigos Manuela e Zé Maria fizerem as Bodas de Ouro eu terei setenta e dois anos, e se agora já tenho hipertensão, diabetes, estigmatismo e miopia, dores nas costas… para além de mau feitio, nessa altura já devo ter doenças de todas as letras do glossário, devo ser um “velho” podre de aborrecido, para além de que não terei quaisquer dúvidas das minhas apetências para fazer de Pai Natal.
Tenho no entanto quase a certeza de que continuarei a gostar de me ver ao espelho… e juro-vos que tal não será por culpa do agravamento da miopia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Os vampiros pimba do “Show Biz”

Depois de um agradável passeio por Lisboa num domingo de Outono e quando a brisa fresca que se intensificou com o pôr-do-sol, nos convida a um par de horas de sofá antes de chegar o momento do jantar, começa o baile em ritmo de vira ou baile mandado com o comando da televisão a fazer-nos passar pelas dezenas de canais sem que algum deles nos prenda a atenção.
Os três canais generalistas transmitem sessões de variedades de música pimba directamente de um recanto algures em Portugal, com um casal de apresentadores a utilizar o espaço entre as cantigas que falam dos desgostos de amor, do bacalhau ou dos talos do nabo, para permitir ao público o envio de beijinhos para a família, repetindo também até à exaustão, um número de valor acrescentado que habilita o telespectador para o sorteio de uma agradável quantia de dinheiro.
E todos os argumentos servem para convencer o público a pagar os sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para o tal número mágico.
Numa destas passagens assisto a um apresentador na TVI a utilizar o argumento mais cretino da tarde, referindo o grande número de desempregados neste momento em Portugal e como qualquer deles se sentiria feliz se antes do telejornal lhe caíssem quarenta mil euros na conta bancária. Convida então os desempregados a pagarem sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para um número que, afinal de contas, vai tão-só engrossar as contas da produção do programa.
A crise existe e já provocou um elevado número de vítimas, indivíduos em verdadeiro desespero, mas é indigna esta utilização da miséria dos outros como degrau a pisar na subida para uma descarada promoção dos interesses pessoais e comerciais de pessoas e de entidades sem quaisquer escrúpulos, este puxar do desespero de outrem para um programa de variedades e “roubar” descaradamente a quem já tem muito pouco acenando com uma doce mas apenas ilusão.
Demasiadas vezes se abusa da dor e da miséria dos outros numa atitude desprovida de quaisquer escrúpulos.
Objectivamente, à hora do jantar haverá a mesma (pouca) comida na mesa e a carteira estará mais vazia porque se gastou dinheiro nas chamadas telefónicas… e não ligou ninguém da TVI.
E num programa em que supostamente se estaria a comemorar o S. Martinho, em directo e ao vivo a partir de Penafiel, o apresentador faz o contrário do Santo que um dia rasgou a sua capa ao meio para dar a um mendigo fazendo com que o sol brilhasse no primeiro verão com o seu nome, São Martinho, no momento em que por causa do seu sagrado pedaço de capa que restou e que passou a ser objecto de devoção num espaço de reduzidas dimensões, todas as pequenas igrejas se passassem a chamar “Capelas”: rouba o pouco que o mendigo ainda tem e segue feliz embrulhado na sua capa, passando o microfone a alguma Ruth Marlene ou Bruno Vanderley para que actuem na companhia dos seus animados grupos de bailarinos que se mexem todos, e também os lábios, como se de cor soubessem as letras picantes das cantigas.
Revoltado avanço mais um pouco nos números do meu comando da Zon e apercebo-me que os canais de notícias estão a transmitir em directo o comício que comemora os cem anos de Álvaro Cunhal.
Como declaração prévia de interesses devo dizer que politicamente me considero nos antípodas de Cunhal, mas não posso deixar de lhe reconhecer um enorme mérito pela luta de uma vida, pela sua enorme coerência e pela convicção com que buscou a liberdade no país do Estado Novo, pagando um elevadíssimo preço a nível pessoal e familiar.
Adepto ou não dos seus ideais, é impossível não lhe reconhecer esse mérito e não posso eu deixar de lamentar que os líderes de hoje não o acompanhem no valor e sobretudo na força de buscar aquilo em que se acredita, numa perspectiva de comunidade e não apenas do desafogo económico e comodismo de âmbito pessoal.
Afinal de contas, é por isso que estamos na situação difícil de “mendigos” e à mercê dos vampiros que já não atacam só pela “noite calada” como os que cantava Zeca Afonso, atacam ao final da tarde e enquanto nos distraem e nos dão música. 

domingo, 10 de novembro de 2013

Um jantar com amor

Não haverá por certo muitas coisas que nos façam desligar de um clássico jogo de futebol entre o Benfica e o Sporting que no final acabou com sete golos, repartidos até de uma forma que me é muito simpática.
Mas se pensarmos numa amizade de trinta anos, daquelas inabaláveis pelo tempo e pela distância que por motivos pessoais ou profissionais por vezes se coloca entre nós, então a mesa redonda que nos reúne aos quatro é de facto muito mais importante do que qualquer golo do Cardozo, por melhor que ele seja.
A Jeropiga vinda directamente da Beira Baixa para nos servir de aperitivo tem um travo doce que alinha com os afectos que os olhares não calam por nos vermos assim neste conforto indescritível de estar juntos.
E há tanto tempo que preparávamos este encontro.
A sopa é de feijão e tem couve e massa, com uma força camponesa e bem Portuguesa que alinha e rima perfeitamente com a força deste gostarmos uns dos outros, ao estilo de impenetrável fortaleza, onde não cabem sequer aquelas “dificuldadezinhas” ridículas que parecem ser sempre inócuas e inconsequentes mas que depois e por efeito de acumulação sempre vão minando e destruindo os alicerces do essencial.
Regado com um vinho tinto do Alentejo que traz com ele o sol, o chão da terra que foi berço da nossa amizade, e esse tudo, e até humor, que nos caracteriza a nós, os Homens do sul, o jantar só poderia mesmo beneficiar dessas tantas gargalhadas que sempre são autênticos foguetes na alegria da festa de estarmos juntos.
Os folhados que combinaram a alheira e os espinafres alinharam totalmente com este hino à tolerância e aos prazeres e benefícios do respeito pela diversidade que tem caracterizado sempre a nossa amizade.
Somos mais ricos quando nos desafiamos e nos obrigamos a questionar as opções. Daí geralmente resultam melhores e mais fundadas opções, passos em frente no crescimento.
E para isso (e muito mais) servem os amigos.
A sobremesa teve marmelos assados que nos trouxeram o Outono até à mesa, alinhados com mousse de chocolate que, juntamente com o café que chegou mais tarde, nos transportou até às terras “estranhas” das viagens que gostamos de compartir; e um gelado de limão, que juntamente com o Limoncello do fina,l foi um travo de frescura como é e será sempre a nossa amizade que se renova em cada encontro, em cada palavra, e às vezes até nos silêncios.
No final comemos castanhas assadas, acabámos a ver fotos de outros tempos e a ler palavras de hoje, alinhando projectos para o futuro pois longa queremos que seja a estrada, o caminho que sempre iremos percorrer em conjunto.     
E quando já tínhamos visto o resultado do jogo e já nos tínhamos abraçado na demonstração de um maravilhoso fair-play, despedimo-nos com esta certeza de que breve se fará o momento do reencontro pois já íamos com saudades.
Permitam-me apenas que partilhe convosco que a palavra mais usada nas nossas quatro horas de jantar foi sem dúvida: amor.
O que comprova que os momentos com o “amor” se sobrepõem até aos hat-tricks do Cardozo, às vitórias do Benfica e são aqueles que contam na nossa afinal tão breve história.  

sábado, 9 de novembro de 2013

As paredes da vergonha

Já há muito que a noite caiu sobre a cidade e é por entre as luzes que fazem de cada colina os pedaços de um imenso presépio, que as gentes se cruzam na busca de infinitos e insondáveis destinos algures entre becos e sinuosas vielas, mas sempre unidos pela força de um eterno amor à cidade do Tejo, o rio que por ora dorme e que só se dá por ele na luz de um cacilheiro que do Cais do Sodré se faz ao sul.
Há ecos de Liberdade no Carmo, anda à solta a poesia entre a Brasileira e o Camões de mão dada com o homem das castanhas, há a voz e o riso do povo a ecoar pela Bica na calçada que o elevador sobe lentamente, há o fado no Bairro Alto… e há a universalidade, o ADN da cidade, que derrotou passaportes e fronteiras e que nos fez um povo só.
Não interessa se somos de cá ou fora, nesta noite somos todos, a gente de Lisboa, aqui, no conforto de uma casa nossa e imensa, brindando à vida, mais com o riso e as gargalhadas, do que com generosos copos cheios de um bom vinho.
A nossa casa é sempre o sítio onde nos sentimos bem.
Eu sou apenas mais um subindo a Calçada do Combro e cruzando-me com a multidão, com o anonimato de milhares de rostos, mas no privilégio, doce benefício, de uma paz imensa.
Queria eu que a história desta noite tivesse acabado aqui, mas infelizmente assim não aconteceu.
Entre os sacos gigantescos de lixo com os despojos das habitações e do comércio, que aguardam a passagem de um carro que os recolha, há gente, muita gente, dormindo nas calçadas da cidade, abafando-nos os sorrisos pela consciência que em nós despertam da sua dor imensa.
Só a lua e Lisboa parecem não lhes ter virado as costas.
Faz hoje precisamente vinte e quatro anos que caiu o muro de Berlim numa noite em que acreditámos jamais se construiriam paredes de vergonha para separar cidades e para afastar os Homens.
Pura ilusão.
Talvez como nunca antes, persistem muros de vergonha em todas as cidades, muros sem cimento ou sem tijolos, mas muros erguidos pela imbecilidade desta ditadura económica que retira dos Homens a dimensão de uma vida e lhes dá o estatuto de meras e simples coisas, um número a mais ou a menos nas estatísticas que sustentam o poder.
Em Lisboa…
Persistem ecos de Liberdade no Carmo, há poesia entre o Chiado e o Camões, há povo…
Oxalá nunca morram e os consigamos sobrepor a toda a indiferença que nos marcam os dias.
Necessitamos deles mais do nunca para fazer novas cidades. Cidades sem muros, sem paredes de vergonha.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Eu “Sei lá”… “Não há coincidências”

Estar sozinho a tomar o pequeno-almoço num hotel dá-nos tempo de sobra para, entre uma visita e outra ao buffet, alimentar a escrita “bebendo” dos personagens que se sentam ao nosso lado.
Hoje foi um desses dias e não me acusem por favor de ser um mal-educado que escuta conversas alheias porque estando eu em Coimbra, estes personagens falavam num tom que até da tumba na Igreja de Santa Cruz, o D. Afonso Henriques poderia acompanhar tal novela.
Chegaram juntas e usavam entre elas o tratamento de amigas, e amigas seriam, mas uma delas era claramente a líder.
Com um cinto dourado alinhado com o tom das dezenas de pulseiras que tilintavam nos seus pulsos, com anéis em quase todos os dedos, Com uma mala, perdão, carteira da Louis Vuitton, com sapatos XPTO, com tanta base e tanto rímel que com ele poderíamos quiçá dar lustro à Torre Eiffel de alto a baixo, esta “amiga” líder cedo deixou romper o verniz.
Quando a amiga se levantou para ir buscar algo e ela permaneceu sentada, através de um olhar de claro desdém a denunciar que pelo seu neurónio solitário poderia estar a passar algo do género: “ai coitadinha filha que mal te ficam essas calças com as ancas tão largas que tens”; cedo percebi que a amizade era curta.
E quando a determinada altura da refeição escancarou a boca para com uma unha de gel retirar um pedaço de comida que se tinha alojado algures cá atrás entre os dentes, percebi de vez que a criatura era na verdade uma “contrafacção de lady”, mas daquelas tão baratas que até a ASAE a cinquenta quilómetros dá por ela.
A mim, não me bastava ter de levar centenas de vezes com as declarações da Margarida Rebelo Pinto acerca da crise, que, por certo por me ter portado muito mal, o destino me enviou este acréscimo de castigo com dois genéricos dos seus personagens a sentarem-se ao meu lado para me acompanhar durante o pequeno-almoço.
Será por certo para eu manifestar aqui a minha solidariedade à Margarida.
É verdade, a pobre anda descorçoada, até a Júlia Pinheiro, a Fátima Lopes e o Luís Norton de Matos, imagine-se, escrevem e publicam romances estragando-lhe definitivamente as vendas.
Para além disso, tinha também de aparecer aquela coisa das “Cinquenta sombras de Grey” com descrições mais ousadas do que as dela no que ao pénis e às vaginas diz respeito, com o mulherio em surdina a discutir aquelas coisas e desprezando de vez as historietas sobre as tias de cascais que alugam quartos para cometer adultério no Hotel Ibis da Área de Serviço da A5…
A Margarida tinha mesmo de fazer algo para assegurar a sua quota de mercado e assim resolveu ir chocar o mundo com uma declaração de todo imprópria, sei lá, tá a ver?
Mas valha-nos isso pois imagine-se que a mulherzinha nos tinha decido chocar despindo-se toda e subindo a Rua do Carmo montada numa burra?
O inestético que seria a criatura a cruzar o Chiado…
Aquilo é só ossos e ainda pensavam que andávamos a desenterrar os fenícios.
Necessidade a quanto obrigas!
Agora muito a sério e apesar de lhe ter dedicado estas palavras, acho que não devemos perder muito tempo com a Margarida Rebelo Pinto, nem sequer odiá-la pois ela não merece.
Só merece ser odiado quem é importante e ela não o é de todo.
Se fez estas declarações por pensar desta forma, não me surpreende pois é o tipo de afirmações que costumam fazer os acéfalos.
Se as fez por Marketing, ganhe vergonha e abra realmente os olhos, pegue nela e vá até um supermercado pois talvez se aperceba que muitas das pessoas que lhe compravam os livros, não o fazem agora para irem comprar os da concorrência, fazem-no tão só porque necessitam do dinheiro para ir comprar papo-secos para os filhos.
As minhas companheiras de pequeno-almoço saíram da sala aos risinhos e de braço dado…
Amigas.
São assim os dias da hipocrisia e “não há coincidências”.
“Sei lá…”.