domingo, 17 de novembro de 2013

A perseverança e a salvação do corpo

Não é que tenha de se ser pobre para ganhar legitimidade para abordar a pobreza, mas recomenda o bom senso e o pudor, que os bem instalados na vida se abstenham de sugerir conformação aos que vivem com pouco e em dificuldades.
Por muito pertinentes que sejam os argumentos, as palavras destes terão sempre o efeito de uma bem afiada lâmina de navalha.
João César das Neves, professor de Economia na Universidade Católica por profissão, católico por confissão e consultor para os Assuntos Económicos da Presidência da República por nomeação, afirmou hoje que aumentar o Salário Mínimo é uma agressão aos mais pobres porque os empresários se inibirão de dar emprego a pessoas mais pobres e desqualificadas. Acrescentou ainda que a maior parte dos pensionistas não são pobres, disfarçam-se de pobres, e que tem visto nesta crise situações muito positivas.
Se a moda pega, qualquer dia ainda alguém vem afirmar que a fome é uma excelente oportunidade para baixar os níveis de colesterol e melhorar a saúde cardiovascular das populações… e os cómicos perdem o emprego.
Registo em primeiro lugar nestas afirmações, a criatividade, algo que dá sempre jeito a um professor de economia, mas onde ficou a razoabilidade e sobretudo o decoro?
Eu bem sei que há um instinto de sobrevivência a justificar a defesa das elites dos banqueiros e dos empresários, que por certo lhe mandarão mais clientes para as suas aulas do que os “pobrezinhos”, mas onde fica o católico neste escavar da diferença entre os Homens e na definição clara entre uns e outros?
Ah claro, ficará para a esmola das instituições de caridade e para as ceias de Natal que o “tio” e os seus meninos alunos promoverão ao abrigo de uma responsabilidade social qualquer.
Também sei que se trata de uma pessoa de fé, mas será que ainda acredita que os empresários empregarão mais gente se o salário mínimo for reduzido?
Duvido que ele acredite mesmo naquilo que nos quer fazer acreditar e as pessoas que “vendem” aquilo em que eles próprios não acreditam, não beneficiam de uma definição muito simpática no que aos vernáculos populares diz respeito.
Defensor dos valores da família e homófobo confesso saberá Deus porquê, admire-se-lhe a perspicácia na identificação da pobreza travestida dos pensionistas. O homem é mesmo bom a desmascarar o falso.
Claro, também é evidente que um reformado que ganhe trezentos Euros por mês e que tenha de pagar com eles medicamentos, alimentos, casa, água, luz… nunca pode ser pobre.
Uma coisa temos de lhe agradecer no final desta entrevista, como consultor económico do Presidente da República, muita coisa estranha passou a ficar explicada.
Acredito que sendo Católico, o Professor César das Neves tenha ido hoje à missa dominical.
Eu fui.
Na primeira leitura, do antigo testamento, ouvi dizer que “para vós virá o Sol da Justiça”.
O salmo cantou que “o Senhor virá governar com justiça”.
No evangelho de São Lucas afirmou-se que “pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”.
Não sei o que o Senhor Professor opinará sobre a Justiça e a Perseverança, mas no meu caso confesso que tenho fé na chegada do dia em que os hipócritas e imbecis serão condenados ao inferno da fogueira da indiferença que eles próprios atearam para os outros.
E como a fé é inimiga da inacção, persevero eu nesta luta de não dar tréguas a estes falsos profetas que mais não são do que o demónio a pedir ser expulso por um belo par de bofetadas.
A perseverança para salvar a alma e o corpo porque a fome e a miséria jamais serão salmos no louvor à criação. 

sábado, 16 de novembro de 2013

Um dia de Outono

O relógio da torre do Paço pressente o dia, e desde as sete alinha o toque com os pavões que aos gritos saúdam o sol nos recantos mais secretos do Bosque e do Jardim da Duquesa, em badaladas arrastadas que assinalam os quartos de todas as horas.
Numa doce ilusão, o céu de um intenso tom de azul parece querer desmentir o Outono pintado pelo tapete tecido pelo vento e que infinitas folhas amarelecidas dos plátanos semeou sobre a calçada e sobre a raiz das laranjeiras plantadas junto à Porta da Senhora da Graça, ao Convento dos Agostinhos, onde já reluzem frutos maduros. Mas o ar frio que se respira ao abrir da vidraça, e que o corpo empurra efusivamente para o quente da braseira acesa sob a camilha mata todas as dúvidas e confirma que é de Outono este meu dia em Vila Viçosa.
Enquanto caminho Corredora acima e entrego o olhar ao branco do casario que o brio da gente adornou com uma esquadria de barras azuis e amarelas que parecem querer elevar ao céu a cor do rodapé que nos acompanha os passos; sinto na memória o canto da gente a sair em ranchos para o campo, para sob as ordens do “manageiro”, apanhar a azeitona que é precursora do melhor azeite; sinto o cheiro dos madeiros a arder nas casas térreas habitadas por esta altura pelos “ratinhos” e pelos “sacaínhos” que desde as suas aldeias, e tantas vezes desde a Beira, se acercavam para ajudar nas lidas do campo; escuto o estalido das castanhas assadas pelo “Sr. Musgado” no seu carro de madeira junto ao mercado; provo o vinho novo que já escorre das pipas da taberna do “Belhuca” ou das tascas do Rossio; provo os dióspiros e as bolotas que nos divertimos a assar na beira da braseira de picão; cheiro os marmelos que cozem na preparação da marmelada que em breve será colocada ao sol protegida por um recorte de papel vegetal; escuto a voz da avó Natividade a sair para o campo de madrugada vestindo uma saia quente que com alfinetes e muita arte se transformava numas calças, gritando alegre para os vizinhos: “temos de lá ir”…
Sinto a minha gente e definitivamente sinto-me no conforto de estar na minha eterna casa quando finalmente chego à Praça e me faço à rotunda da Fonte conhecendo de cor essas brisas, que do lado de São Bartolomeu ou do Castelo, aqui se cruzam quando atravessamos em direcção ao Restauração para um café que nos aquece pelo efeito de uma boa conversa entre os melhores amigos.
Jamais saberei se venho aqui por ser quem sou, por ser eu, ou se venho aqui para me alimentar de Alentejo e continuar a ser aquilo que jamais quererei deixar de ser.
Ou serão talvez as duas coisas, a origem e o destino, e o Alentejo definitivamente eterno em mim.
Pela genética e sobretudo… pela força de um profundo e perpétuo amor.
No Outono ou em qualquer outro dia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Aquela força de muito querer viver

O semáforo obriga-me a parar na esquina da Politécnica com o Rato, instante aproveitado por uma Romena com mais ouro na dentição do que o Banco de Portugal nas suas reservas, para através de gestos, em vão me tentar vender o “Borda D’Água”.
Recuso a oferta até porque já sei à partida que o “clima” nas suas múltiplas vertentes não vai estar bom, e ao abrir do sinal verde, mergulho na rua de Lisboa que mais vezes calcorreei.
A viver no Príncipe Real, ia à missa a São Mamede, tomava a bica na pastelaria “Alsaciana”, comprava peúgas na “Poli”, frequentava a padaria com a mulher mais antipática do universo e que só vendendo carcaças me obrigava a comer três para compensar a minha fome de uma fatia do pão Alentejano a que eu estava acostumado, comprava bolachas na mercearia em frente à Casa das Cortiças e acabava sempre a partilhar memórias do Alentejo e da Beira Baixa com os seus proprietários, dava dois dedos de conversa com o meu conterrâneo Sr. Sousa Meneses à esquina da Imprensa Nacional onde também comprava morangos no verão em cartuxos de papel pardo e castanhas assadas no Outono embrulhadas em folhas da lista telefónica das Páginas Amarelas, ganhava o dia quando me cruzava com o Luís Miguel Cintra de quem nunca perdia uma peça no teatro ali tão perto, via as montras dos antiquários e, sobretudo, almoçava e jantava na Cantina da Faculdade de Ciências que estava instalada no privilégio do Jardim Botânico, tendo sido por ali, debaixo das copas de espécies vegetais raras, que, devido ao excesso de consumo, eu passei a “odiar” solha frita.
Cada local, cada esquina, cada porta, e até cada rosto daqueles que ainda reconheço, encerra hoje memórias dos meus anos oitenta, memórias que vou desfiando ao ritmo deste pára e arranca definido pelos peões no cruzar das passadeiras.
Do meio deste meu viajar como antes entre o Rato e o Príncipe Real, fácil é recordar-me também das preocupações de então e que invariavelmente comportavam a Química Orgânica, a Farmácia Galénica, a Botânica Farmacêutica, a Análise Química ou a Farmacognosia, porque qualquer descuido nos meses de Fevereiro e Julho, os tais que sendo de exames, obrigavam a uma vida monástica e de escravatura às mãos da “solha frita”, poderia “matar” a bolsa da Gulbenkian e complicar um pouco as contas familiares. Para além de naturalmente ser um beliscão na auto-estima que sempre se deseja em alta.
Vistas agora, assim de longe e passados quase trinta anos, estas preocupações que antes me tiravam o sono, fazem-me sorrir quando chego à esquina do jardim e dou de caras com o quiosque onde comprava “A Bola” às quintas-feiras depois de uma vitória do meu Benfica nos jogos europeus da véspera, e onde nos dias em que regressava de um exame sempre comprava o vespertino “A Capital” para me entreter à noite a fazer as palavras cruzadas temáticas ao som do “Oceano Pacífico” que chegou à antena quase ao mesmo tempo em que eu cheguei a Lisboa.
O tempo tem quase sempre esse condão de rotular de patéticas as preocupações que um dia achámos que seriam capazes de nos derrotar, ou pelo menos beliscar a nossa paz, num processo em que as memórias menos positivas vão vendo emergir todas as claramente positivas, que são sempre as que importam.
À excepção da solha frita, claro.
Mas o tempo não é algo abstracto e é tão só o que fizermos dele, colhendo o maior benefício quando perante uma adversidade a enfrentamos de um jeito que por palavras pode ser algo como:
- Anda cá “filha” que tu vais ver com quem te meteste. O último a rir serei eu.
E um dia rimo-nos da desforra.
E uma rua de Lisboa carregada de memórias é um filme de décadas das nossas vidas que tem sempre a festa de um final… de uma chegada feliz.
Abordo então a D. Pedro V, São Pedro de Alcântara e depois a Rua da Misericórdia, alimentando-me dessa esperança e aplicando-a hoje às preocupações de alguns amigos que por ora enfrentam alguns “desafios”, daqueles muito aborrecidos porque mexem com a saúde.
À esquina da Misericórdia com o Camões quando me preparo para estacionar e espreito ao longe o Tejo e o pórtico da Lisnave, há uma Romena sem ouro no sorriso que tenta vender-me o “Borda D’Água”.
Recuso mais uma vez mas por uma razão nos antípodas da esquina do Rato.
O clima vai afinal estar bom.
Impõe-nos a vontade e a força de muito, e muito bem, querer viver.
E sorrio para o Camões piscando o olho ao Chiado… que o contrário poderia ser interpretado como gozo pelo poeta de “Os Lusíadas”.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os roubos “à LAGARDEre”

Há cerca de um ano, em Outubro de 2012, o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição presidida pela francesa Christine Lagarde que beneficiou dos efeitos secundários dos impulsos sexuais do seu antecessor, assumiu num relatório, o erro na avaliação prévia do impacto da austeridade nos países do Euro sob assistência financeira. Os modelos de projecção estimavam que por cada euro de austeridade se perdia 0,5 Euros no PIB e os dados reais revelaram que por cada Euro de corte na despesa pública ou agravamento de impostos, o PIB perdeu entre 0,9 e 1,7 Euros.
Na mesma linha, num relatório da mesma instituição apresentado no passado mês de Setembro, uma equipa liderada por Olivier Blanchard (Economista Chefe) defendeu que as políticas defendidas pela instituição ao nível orçamental mostraram, desde o início da crise financeira em 2008, estar erradas em muitos pontos essenciais, defendendo que ao contrário do até aí praticado, a austeridade deve ser aplicada de forma progressiva, com cuidado, para não provocar um efeito contraproducente na economia.
Ontem, numa teleconferência desde Washington, o chefe da missão do FMI para Portugal, Subir Lall, afirmou ser necessária mais austeridade em Portugal reduzindo salários e pensões, mas assegurando que a economia cresça de uma forma sustentada.
Perante esta sucessão de afirmações fico sem saber como classificar esta relação do FMI com Portugal. Será doença bipolar, esquizofrenia, sadismo ou tão só incompetência?
Esta hesitação assiste-nos apenas quando abordamos a questão de uma forma clínica, porque se o fizermos de uma forma popular e algo brejeira, não teremos dúvidas de que se trata de uma real e verdadeira palhaçada pois não é necessário ser um grande economista para entender que não se estimula o engordar de uma porca cortando-lhe na ração.
E certo, certo… é que a incompetência de quem nos governou e de quem nos governa, nos colocou inteiramente à mercê de loucos, tendo com isso comprometido decisivamente a nossa independência como nação soberana.
Na conferência de ontem, para além de considerações sobre a crise política em Portugal que ocorreu no último verão, inadmissíveis se pensarmos que um técnico de uma instituição internacional não deve julgar assuntos que são do foro exclusivamente interno de uma nação fundadora e contribuinte dessa instituição, é feita um pressão asquerosa sobre o Tribunal Constitucional num claro desrespeito pela instituição que salvaguarda o cumprimento da carta magna da nossa república, a “lei suprema” que até o Presidente da República jura cumprir e fazer cumprir, mas que nos últimos tempos tem sido sujeita a estes ataques sem que ele recrimine os autores de tal atentado à dignidade e à essência da nação.
O Sr. Lall apontou novamente para o papão dos “Mercados” e para os riscos de tudo aquilo que os põe de mau humor e a castigar-nos, muito ao jeito do inferno que está sempre preparado para receber os meninos maus e que roubem rebuçados.
Acredito que pelo ritmo que levamos, chegaremos de facto aos “Mercados” em 2014 mas como mendigos esfarrapados à porta dos ditos e de mão estendida a pedir esmola, tal o roubo “à LAGARDEre” de que os nossos bolsos têm sido vítimas.
E quem diz “à LAGARDEre” pode dizer à grande e “à Francesa” pois sendo Madame Lagarde do país que invadia os outros para roubar e violar, sempre podemos dizer que uma coisa lhe assiste: a coerência de sair aos seus.
Com tudo isto acho que nós também devemos actuar como os nossos antepassados e aplicar-lhes o tratamento que sempre ouvi dizer lhes foi aplicado em Alcains, morder-lhe como cães.
Mas com os nossos melhores dentes.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

As lições improváveis

Há muito confirmei que a vida é um processo contínuo de aprendizagem, sendo a própria idade a desmontar aquela falsa ideia que nos acode em jovens, de que chegará o dia em que seremos essencialmente emissores de informação, “mestres” do alto de uma cátedra legitimada em grande parte pelo muito que já vivemos.
O tempo vai de facto ensinando muita coisa, sobretudo através das experiências que vivenciamos e das pessoas que connosco se cruzam e partilham os dias, mas estar vivo é sinónimo de abordar cada amanhecer com a sofreguidão de aprender, muito mais do que com a certeza do muito que vamos ensinar ao mundo.
Até porque o que de melhor temos para ensinar aos outros, passamo-lo de forma natural e espontânea na virtude de sermos nós próprios e sendo grandes no que somos e fazemos, com o exemplo a ser muito mais eficaz do que a conversa na concretização desse desiderato.
E dos dias vamos colhendo lições que nos surgem quando menos esperamos e inspirações que podem chegar dos “professores” mais improváveis e das circunstâncias aparentemente mais banais.
Do alto dos meus quarenta e sete anos tenho recebido lições extraordinárias dos meus sobrinhos que têm oito e seis anos.
Basta estar atento e disponível para aprender…
O Luís, com seis anos, não gosta de se deitar e adormecer sem espreitar a lua. Se for caso disso até pode solicitar a reabertura das persianas para concretizar o seu objectivo, ensinando-me dessa forma que “adormecer” sobre o que quer que seja sem antes saborear o seu lado mais luminoso, quer seja da noite ou da própria vida, é um verdadeiro desperdício.
Até parece irrelevante pois a lua, mais ou menos cheia consoante a fase do seu ciclo, todas as noites brilha por entre as estrelas, mas é um facto que adormecer depois da poesia de a “saborear” é mesmo outra coisa e quantas vezes, um bom substituto para os indutores do sono.
O João, com oito anos, desenvolveu uma técnica que combina no mesmo espaço de tempo, a higiene oral e as orações da noite, e é vê-lo a esfregar os dentes ao mesmo tempo que reza, acelerando dessa forma a ida para a cama e a possibilidade de adormecer de mão dada com o irmão, o Luís, que já viu a lua e está deitado na cama de baixo do beliche que partilham.
Mais do que uma lição de optimização do tempo ou então uma demonstração da complementaridade no que ao tratamento do corpo e da alma diz respeito, chamou-me a atenção, esta possibilidade que tantas vezes desprezamos de transformar as pequenas coisas em acções de louvor a Deus ou tão-só à própria vida, o que no caso de um crente será uma e a mesma coisa. 
Porque mais do que debitar palavras decoradas há mais ou menos tempo na catequese (e rezar uma Ave Maria ou um Padre Nosso enquanto esfregamos os dentes com Colgate é algo que só o João consegue com os seus super-poderes), louva a Deus e à vida quem vive intensamente, quem vive com brilho, com prazer, quem se cuida e cuida dos outros, e sobretudo, quem em cada instante corre para o momento de dar a mão ao seu “irmão” para juntos poderem mergulhar nos sonhos mais profundos e saborosos.
Com a bênção da lua ou do então do sol, que muito bons são os sonhos que nos apanham acordados e em pleno dia.
É tudo afinal, demasiado simples, e como vêem as lições estão aí à mão de semear.
As lições… e a poesia que tem sempre lugar assegurado nas coisas mais simples da vida.
E poeta, eu?
Não.
Definitivamente, gosto apenas de saborear os detalhes, que nenhum é desprezível quando se gosta de viver.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Acelerar para o futuro

No dia em que recebi o convite para a festa das Bodas de Prata que assinalam os vinte e cinco anos de casamento de uns amigos de infância, fiquei também a saber que o meu irmão, cinco anos mais novo, vai ter no sábado um jantar para comemorar os vinte anos de curso, fui confrontado com o facto de uma colega cuja idade anda pela casa dos trinta desconhecer em absoluto o filme com a Julie Andrews, “Millie, uma rapariga moderna” que eu sei de cor e salteado, e acabei sentado na cadeira do barbeiro a ouvir no melhor sotaque da Baía:
- O siô todos os méis tem maisss cabelos brancos na cabeça e na barrrba.
E tivesse eu tendência para a depressão e sairia a correr directamente para o sofá de um psicólogo ou quiçá a afogar-me em alguns químicos do arsenal terapêutico que a minha condição de farmacêutico me permite conhecer perfeitamente.
Mas não.
Acabei a responder ao barbeiro que por este ritmo talvez em Dezembro já esteja apto a ser um “Pai Natal” muito credível sem necessidade de recorrer a pastas de algodão; e quando foi colocado por detrás de mim aquele espelho que me permite ver se o altinho da nuca ficou bem disfarçado no corte com o pente três, até consegui olhar para o espelho à minha frente e pensar de mim para mim:
- Até nem estás nada mal.
E desculpem-me a presunção mas como cada um pode tomar a que quer… auto-estima para cima.
Já no regresso a casa, não pude no entanto deixar de pensar como o tempo passou demasiado depressa. Parece ter sido ontem que andávamos atarefadíssimos a ajudar os nossos amigos a ultimar os preparativos para a festa da boda ou a montar as patifarias costumeiras na ocasião, que por certo serão objecto de um post num futuro próximo.
Mas, tempo por tempo, sempre é melhor olhar para o futuro, por muito boas que sejam as memórias ou as histórias que coleccionámos num percurso mais ou menos longo, onde a maior dificuldade esteve sempre associada aos momentos da despedida de gente tão grata para nós num processo indutor daquela saudade que dói.
E olhando para o futuro, activo se torna em nós nestes momentos em que o espelho nos reflecte uma cara muito próxima daquela que nos habituámos a ver nos nossos pais, um elevado sentido de urgência, para que não haja nenhum sonho ou vontade que deixemos ficar órfão.
Que não fique nenhum beijo por dar, nenhum momento de amor assassinado às mãos da vil solidão, nenhum olhar castrado na sua vontade de gritar e cantar o amor, nenhuma palavra por dizer ou escrever, nenhum livro por ler ou poema por dizer, nenhum quadro por pintar, nenhuma canção por trautear, nenhum filme ou peça de teatro por ver, nenhuma música por escutar, nenhum pôr-do-sol deixado ao abandono, nenhum horizonte por espreitar, nenhuma praia sem os nossos passos marcados na areia num caminhar conjunto e de mão dada, nenhuma árvore por plantar e nenhum fruto por colher, nenhum perfume por roubar na carícia de uma rosa ou de um manjerico, nenhuma montanha por subir, nenhum pão por amassar, nenhuma dança ou ritmo por bailar, nenhum amanhecer sem o conforto de um abraço e de um espreguiçar conjunto, nenhum sorriso por libertar, nenhum petisco por saborear, nenhum copo de bom vinho por beber depois de um brinde com quem o coração nos pede que o façamos, nenhuma viagem por fazer, nenhum gesto por cumprir, nenhuma conversa abafada, nenhuma anedota ou piada sem o epílogo da melhor gargalhada…
E adiar será talvez a morte da oportunidade de cumprir estas por vezes tão pequenas coisas, privando-nos assim definitivamente de ser um pouco mais feliz.
Eu sei que a vida nos é por vezes madrasta, obrigando-nos a adiar e a suspender estes sonhos e vontades. Mas se isso acontecer que seja sempre por factores exteriores a nós e que jamais carreguemos aquele duro fardo que se chama arrependimento.
Vou então despachar-me…
Não é por mais nada, é que quando os meus amigos Manuela e Zé Maria fizerem as Bodas de Ouro eu terei setenta e dois anos, e se agora já tenho hipertensão, diabetes, estigmatismo e miopia, dores nas costas… para além de mau feitio, nessa altura já devo ter doenças de todas as letras do glossário, devo ser um “velho” podre de aborrecido, para além de que não terei quaisquer dúvidas das minhas apetências para fazer de Pai Natal.
Tenho no entanto quase a certeza de que continuarei a gostar de me ver ao espelho… e juro-vos que tal não será por culpa do agravamento da miopia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Os vampiros pimba do “Show Biz”

Depois de um agradável passeio por Lisboa num domingo de Outono e quando a brisa fresca que se intensificou com o pôr-do-sol, nos convida a um par de horas de sofá antes de chegar o momento do jantar, começa o baile em ritmo de vira ou baile mandado com o comando da televisão a fazer-nos passar pelas dezenas de canais sem que algum deles nos prenda a atenção.
Os três canais generalistas transmitem sessões de variedades de música pimba directamente de um recanto algures em Portugal, com um casal de apresentadores a utilizar o espaço entre as cantigas que falam dos desgostos de amor, do bacalhau ou dos talos do nabo, para permitir ao público o envio de beijinhos para a família, repetindo também até à exaustão, um número de valor acrescentado que habilita o telespectador para o sorteio de uma agradável quantia de dinheiro.
E todos os argumentos servem para convencer o público a pagar os sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para o tal número mágico.
Numa destas passagens assisto a um apresentador na TVI a utilizar o argumento mais cretino da tarde, referindo o grande número de desempregados neste momento em Portugal e como qualquer deles se sentiria feliz se antes do telejornal lhe caíssem quarenta mil euros na conta bancária. Convida então os desempregados a pagarem sessenta cêntimos mais IVA por cada chamada para um número que, afinal de contas, vai tão-só engrossar as contas da produção do programa.
A crise existe e já provocou um elevado número de vítimas, indivíduos em verdadeiro desespero, mas é indigna esta utilização da miséria dos outros como degrau a pisar na subida para uma descarada promoção dos interesses pessoais e comerciais de pessoas e de entidades sem quaisquer escrúpulos, este puxar do desespero de outrem para um programa de variedades e “roubar” descaradamente a quem já tem muito pouco acenando com uma doce mas apenas ilusão.
Demasiadas vezes se abusa da dor e da miséria dos outros numa atitude desprovida de quaisquer escrúpulos.
Objectivamente, à hora do jantar haverá a mesma (pouca) comida na mesa e a carteira estará mais vazia porque se gastou dinheiro nas chamadas telefónicas… e não ligou ninguém da TVI.
E num programa em que supostamente se estaria a comemorar o S. Martinho, em directo e ao vivo a partir de Penafiel, o apresentador faz o contrário do Santo que um dia rasgou a sua capa ao meio para dar a um mendigo fazendo com que o sol brilhasse no primeiro verão com o seu nome, São Martinho, no momento em que por causa do seu sagrado pedaço de capa que restou e que passou a ser objecto de devoção num espaço de reduzidas dimensões, todas as pequenas igrejas se passassem a chamar “Capelas”: rouba o pouco que o mendigo ainda tem e segue feliz embrulhado na sua capa, passando o microfone a alguma Ruth Marlene ou Bruno Vanderley para que actuem na companhia dos seus animados grupos de bailarinos que se mexem todos, e também os lábios, como se de cor soubessem as letras picantes das cantigas.
Revoltado avanço mais um pouco nos números do meu comando da Zon e apercebo-me que os canais de notícias estão a transmitir em directo o comício que comemora os cem anos de Álvaro Cunhal.
Como declaração prévia de interesses devo dizer que politicamente me considero nos antípodas de Cunhal, mas não posso deixar de lhe reconhecer um enorme mérito pela luta de uma vida, pela sua enorme coerência e pela convicção com que buscou a liberdade no país do Estado Novo, pagando um elevadíssimo preço a nível pessoal e familiar.
Adepto ou não dos seus ideais, é impossível não lhe reconhecer esse mérito e não posso eu deixar de lamentar que os líderes de hoje não o acompanhem no valor e sobretudo na força de buscar aquilo em que se acredita, numa perspectiva de comunidade e não apenas do desafogo económico e comodismo de âmbito pessoal.
Afinal de contas, é por isso que estamos na situação difícil de “mendigos” e à mercê dos vampiros que já não atacam só pela “noite calada” como os que cantava Zeca Afonso, atacam ao final da tarde e enquanto nos distraem e nos dão música.