terça-feira, 26 de novembro de 2013

O intenso e eterno sabor doce que têm os dias de todos os sonhos

Nas muitas vezes que as obrigações profissionais me levam ao Hospital de Santa Maria, não resisto nunca a olhar para a Faculdade onde entre 1984 e 1989 me fiz farmacêutico.
O “desenvolvimento” implantou betão no espaço que então era ocupado pelas árvores de generosas copas que foram nossas cúmplices nesse tempo em que o microondas do bar de Medicina Dentária, por ser o único na região, era uma atracção que motivava verdadeiras peregrinações em busca de um folhado aquecido; o Professor Nascimento lançou uma campanha para que cada um de nós adoptasse um buraco do asfalto e assim melhor pudéssemos circular entre o Anfiteatro, o “Supositório”, o “Galinheiro” e o “Castelinho”; as senhoras da biblioteca eram insuportáveis com o seu “meninas pouco barulho”; o Sr. Samju era o rei das fotocópias; fazíamos batons nas mesmas formas metálicas que serviam para fazer supositórios; ir ao ISCTE era o Top da Modernidade pela possibilidade de nos cruzarmos com o Miguel Esteves Cardoso; o almoço decidia-se entre a Cantina Nova e a Velha, com esta última a ser mais atractiva pela possibilidade de uma refeição macrobiótica; a Teresa Salgueiro já afinava a voz para cantar uma Lisboa moderna que nós encontrávamos à noite passeando nas vielas até aqui quase proibidas do Bairro Alto; o Metro só ia até Entrecampos e nós conversávamos muito enquanto descíamos ou subíamos a Avenida das Forças Armadas, ousando parar por vezes para um café com natas na geladaria Pindô…
E um tempo em que saboreámos desse prazer imenso e doce que tem sempre a partilha dos nossos maiores e melhores sonhos.
A liberdade não tinha chegado há muito, a “Europa” estava a chegar, e tudo parecia rimar com essa vontade férrea que não via limites no impulso de mudar o mundo e construir algo de magnífico sobre a herança brilhante que os nossos pais, os reais inventores da liberdade, nos passavam diariamente.
Sentíamos força para acreditar que por nós nada ficaria igual e tudo ficaria infinitamente melhor.
Até porque havia essa amizade grande que nos ligava, que a todos tornava mais fortes e que a todos acolhia num espaço de família porque feito de intensos afectos.
Passaram-se décadas sobre esses anos que a vida nos vai mostrando que foram dos melhores das nossas vidas, vamos aqui e ali encontrando esses colegas que as cumplicidades fizeram amigos e vamo-nos certificando nesses encontros do ponto em que vai a tarefa de “mudar o mundo”.
Reencontrei a Cristina há algum tempo quando as nossas duas empresas nos envolveram num projecto comum. Fizemos uma festa pela alegria de nos voltarmos a ver e sobretudo por nos certificarmos de que a “nossa energia genética” continuava activa neste cumprir dos dias e torná-los intensamente felizes.
Mostrou-me orgulhosa a foto dos seus quatro filhos rapazes e de como lhes estava a passar essa herança e esse gosto pelos sonhos que por certo perdurariam no tempo.
E passava-lhes também a garra e a força pela forma como lutava intensamente contra um problema de saúde que poderia ser grave e que já estava presente e algo visível, talvez em tudo, excepto nesse sorriso que se exprime pelo olhar muito mais do que pelos lábios.
Soube hoje de manhã que a Cristina partiu ontem exactamente no dia em que cumpria o seu 47º aniversário, a minha idade, a nossa idade.
O seu sorriso não morrerá jamais e brilhará para mim por entre as memórias dos nossos sonhos quando eu passar pela Cidade Universitária e continuar a ver as árvores das sombras cúmplices desses anos em que ousámos ser jovens diferentes.
Continuará viva sobretudo na vida dos seus quatro “rapazes” que ainda há pouco tempo no Facebook designou como os seus braços direitos e esquerdos, e, digo eu, quem diz braços diz um enorme coração.
E brilhará com a intensidade que no céu sempre têm as estrelas mais importantes.
Nós continuaremos por cá e por sobre a saudade, a construir os dias dos sonhos e do querer, sabendo que um dia iremos todos brilhar juntos, nesse momento em que nos reencontrarmos para retomar a conversa e o riso que por agora só ficam momentaneamente suspensos porque Deus insiste sempre em chamar para junto de si os que são grandes, os que são verdadeiramente maiores.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Honestidade, coerência e democracia

Só com a ajuda do Google consigo identificar o dia em que durante a campanha para as primeiras Eleições Presidenciais pós revolução, vi o General Eanes num pequeno comício em Vila Viçosa. Foi ao inicio da tarde do dia 18 de Junho de 1976, horas antes do célebre comício na Praça de Touros de Évora e do seu muito célebre percurso em pé no tejadilho de um carro enquanto ecoavam balas na zona do Jardim Público.
O palco em Vila Viçosa estava montado junto à rotunda da Fonte da Praça e de costas para a Igreja de São Bartolomeu. Desde as janelas da casa do meu amigo Manuel tive uma visão privilegiada para o acontecimento e para os distúrbios que começaram antes mesmo da chegada do candidato com trocas de socos, e algum sangue à mistura, entre os seus apoiantes e os de Otelo Saraiva de Carvalho.
Do alto da janela e sobretudo do alto dos meus quase dez anos só me recordo de ter achado que para herói ele era demasiado franzino. E como ousava um homem com aquele aspecto frágil vir falar de forma tão convicta de democracia numa terra então demasiado aquecida por outros “valores”?
Ganhou as presidenciais e regressa a Vila Viçosa, e aí recordo-me perfeitamente da data, no dia 1 de Dezembro de 1980. Homenageou D. João IV na sua estátua no Terreiro do Paço, falou ali mesmo à população, e quase se cruzava com o General Soares Carneiro que exactamente á mesma hora fez um comício no Cine-Teatro que então ainda não se chamava Florbela Espanca.
Três dias antes da morte de Sá Carneiro, Vila Viçosa esteve no epicentro das presidenciais, e o General Eanes voltou a falar de democracia e da consolidação da mesma, politicamente no mesmo sítio onde sempre esteve, embora desta vez o perigo para a sua reeleição viesse da direita.
Então, do alto dos meus catorze anos, já consegui reter melhor as suas palavras, e entende-las.
Foi reeleito para o seu segundo mandato.
Fui hoje buscar estas minhas memórias do General Ramalho Eanes no dia em que lhe é prestada uma homenagem nacional e através delas encontrei desde logo uma das suas grandes virtudes: não importa a direita ou a esquerda, importam sempre as nossas convicções e a total coerência com os nossos valores.
Não importa contra quem lutamos, importa pelo que lutamos e a força com que o fazemos.
E os heróis até podem ser franzinos de corpo porque o que realmente importa é a grandeza que lhes vai na alma.
Fiz simultaneamente o exercício de tentar encontrar alguém que tendo ocupado um lugar de relevo na hierarquia do Estado, pudesse ser hoje uma referência clara e inequívoca para Portugal.
Por uma razão ou por outra, não arranjei ninguém que se lhe equipare nesse estatuto.
O General Eanes carrega a história da luta pela implantação real e efectiva de um regime democrático em Portugal, cultivou sempre a honestidade, nunca andou atrás de patrocínios para benefícios pessoais, familiares ou outros, e jamais mergulhou nessa sôfrega ambição cega por cargos, pelo poder e pelo engrossar das contas bancárias (directas ou indirectas como por exemplo, via fundações), tentações que tantos “santos” têm feito cair dos altares da pátria lusitana.
A homenagem é pois mais do que merecida, mas deveria ser muito mais do que isso, e ser uma inspiração para quem hoje assume o poder ou quem se prepara para o fazer pois vai demasiado escasso o exercício da honestidade e do real respeito pelo povo eleitor, essa raiz mais profunda da democracia. 

sábado, 23 de novembro de 2013

O inferno “d’antes” e de agora

Se este país já vai sendo ele próprio um inferno, porque o que resta de paraíso refere-se apenas à componente fiscal e destina-se a um grupo muito selecto e altamente elitista, não é difícil escolher a que será a imagem mais infernal da semana.
E aí, imaginar a Margarida Rebelo Pinto e o Prof. César das Neves a brindarem com Pepsi a uma mesa de um restaurante de bifes gerido pela Isabel Jonet, estabelecimento dedicado a uma clientela de âmbito muito familiar e tendo como relações públicas a Bárbara Guimarães, um espaço decorado ao jeito de marquise com fotos de Passos, Portas, Cavaco e Maria, Seguro, Sócrates… num revisitar da Família Adams, e onde os plasmas distribuídos pela sala vão transmitindo a Casa dos Segredos e os programas da Cristina Ferreira, da Júlia Pineiro, do Jorge Gabriel e do Nuno Eiró a apresentar o Leonel Nunes e o seu êxito “Porque não tem talo o nabo?”… ganha a qualquer outro inferno que possamos imaginar.
E o que restava de paraíso?
Os anjos da guarda (assim como os da polícia) fizeram greve, manifestaram-se e foram trepar a escadaria que dá acesso aos deuses instalados nos seus tronos, ameaçando-lhes o conforto. Comprovou-se mais uma vez que só Jesus os consegue pôr na ordem mas mesmo esse é só um, anda entretido com a “Champs” e até acabou em tribunal e condenado a um mês de ausência da “catedral”.
Os arcanjos celestiais, Miguel, Rafael e Gabriel, renderam-se e tomaram todos, o apelido “Carreira”, pelo que as aleluias e os glórias foram todos trocados por ritmadas baladas de fazer chorar as pedras da calçada e fazer enlouquecer as “Marias” todas da terra, virando as peregrinações mais para os Coliseus ou para o Pavilhão Atlântico do que para qualquer santuário nacional de maior ou menor relevo.
O purgatório, que ainda permitia alguma esperança de paraíso após alguns anos de subsídios de Natal e Férias, foi desmantelado por recomendação do Memorandum de Entendimento com a Troika e substituído directamente pelo inferno, com o objectivo de equilibrar as contas públicas.
Em auto de fé onde se esturricaram os professores em processos sem culpa formada, os “doutores da lei” aproveitam o fogo e “mataram” juízes na praça pública, e o juízo final (do orçamento e não só) é agora assegurado pelos financeiros que a todos aplicam a pena máxima do sofrimento e da escassez, condenando-nos ao “aguenta, aguenta”.
Milagres? Já não há, à excepção da raspadinha, do Euromilhões ou das chamadas de valor acrescentado que as televisões convidam a fazer directamente para os seus cofres.
Santos? Continuam por cá mas agora sobretudo os membros do ramo Angolano da família e muito mais entretidos a comprar empresas e lojas de luxo na Avenida da Liberdade, do que a fazer qualquer outra coisa em prol do desenvolvimento do povo.
Velas? Continuamos a usá-las mas cada vez menos nos altares pois acabam por nos fazer muito mais falta em casa para nos oferecer alguma claridade quando os Chineses da EDP nos mandam cortar a electricidade por falta de pagamento.
E neste deserto (de ideias e de esperança), com o povo em fuga e sem que qualquer “mar” (vermelho ou de qualquer outra cor) se abra para nos deixar passar, não admira que um homem de trinta anos que marque três golos num jogo de futebol seja convertido numa estátua dourada, o “bezerro de ouro” do século XXI.
No fundo, aquilo que nos faz falta, mesmo, e aquilo que realmente pode fazer a diferença a nosso favor, é um Moisés que desça do monte com as tábuas da lei (não confundir com os decretos assinados por mentecaptos) e nos conduza até à terra prometida fazendo-nos esquecer os tempos de escravidão da Alemanha, perdão, do Egipto.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Zé Maria

Já que gozo da fama de ter boa memória (de elefante, segundo o nosso amigo Manuel), com toda a legitimidade tiro dela o proveito, e desde muito cedo me recordo de te ver pela nossa Vila Viçosa.
E talvez a memória mais longínqua me venha da missa das dezoito horas de domingo na Igreja de São Bartolomeu que ambos frequentávamos com as nossas mães. Já nem sei há quantos anos e acho até que só eu é que me recordo dessa missa.
Desde aí fomos crescendo e foi mais tarde no grupo Sementes de Esperança e nos Convívios Fraternos que acabámos por nos cruzar de uma forma mais intensa e demos lugar à amizade…
Tu tocavas viola e quase nos davas com ela na cabeça quando as nossas vozes (de cana rachada) frequentemente saiam do tom; fazíamos teatros e tu até apresentaste uma réplica do “1,2,3” que foi ganha pelo meu pai em parceria com a mãe dos manos Fradique; imitámos o Herman na "Jaquina, Jaquina, Jaquina", em que eu fazia a Assalariada Rural e tu a Doméstica; fazíamos letras alinhadas com o Rock lusitano da altura e acabávamos a cantar coisas do género: “E não me irrites oh oh, e não me irrites oh oh, se não… eu mordo-te uma orelha”; dançávamos nas festas de garagem por entre os desgostos de amor das nossas amigas; nas camaratas dos convívios e após a ingestão de feijoadas, atribuíamos ao Almeida Garret obras que ele definitivamente não tinha escrito…
Depois fomos estudar para Estremoz. Íamos de automotora com assentos de madeira e disputávamos o lugar perto do motor por ser o mais quente, passávamos as madrugadas à conversa no “Águias d’Ouro”, jogávamos matraquilhos no “Convívio”, e não havia vez nenhuma que passássemos pelo túnel antes da estação, sem que um de nós roubasse o chapéu que a Guida Paulino usava para ser moderna…
Casaste com a Manuela e foste viver para a casa onde tive as melhores sessões de “Trivial Pursuit” (e tu sempre te recusaste a aceitar que o que dá a mostarda é a mostardeira), e recordo-me de estarmos na esplanada da “Cambaya” aí pelo verão de 1991, a ver a pequena Marta, em fase pré-parto, a dar pontapés que sobressaiam no vestido da mãe, uns anitos antes de eu inventar títulos de “Barbies” que a deixavam louca ou de lhe chamar “Marta Gouveia – Miss Portugal 1979” e ela me responder: “eu não sou Golveia”…
Foste estudar para Faro e vieste de lá engenheiro, partilhámos viagens e muitos fins-de-semana, comemos e bebemos como ninguém consegue fazer uma ideia, cimentámos todas as nossas cumplicidades de vida, de fé…e sobretudo, e isso ninguém nos tira, demos das melhores gargalhadas que é possível dar.
Cumpres hoje cinquenta anos.
Sei que o melhor que te posso oferecer para além da minha amizade que é imensa, que me enche de orgulho e que será eterna, são estas memórias que nos fazem sorrir e, quiçá aqui e ali, fazem aflorar ao rosto algum vestígio húmido de saudade.
És um dos melhores exemplos de perseverança que carrego na minha existência e admiro-te por essa abolição da palavra “desistir” que fizeste na tua vida, ao mesmo tempo que “lutar” se tornou o teu verbo favorito e mais frequente.
Sei que carregas os genes da tua mãe, por certo a pessoa que conheço que mais se aproxima da heroína a que um dia Bertolt Brecht designou por “Mãe coragem”, tens o privilégio de partilhar a vida com uma grande mulher e tens uma filha fantástica que vai dar continuidade a esse ramo dos “Coragem” que tu próprio encarnas.
Sei que o próximo meio século vai ser para ti um sucesso porque se és bom a pintar com carvão e aguarela, és muito melhor a fazer da tua vida aquilo que ela é: uma obra-prima.
E despeço-me com aquele abraço de parabéns, informando-te que estás dispensado de imediatamente a seguir à leitura deste texto, cantares a tua costumeira:
“É boa, é boa, é boa sim senhor, se não sabes outra melhor canta essa que essa é boa, é boa…”
Até domingo para a festa do cozido.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pedro Álvares “Ronaldo” e a (re) descoberta do Brasil

Já está. O Ronaldo demonstrou ser melhor a tratar as bolas do que os Suecos produtores de almôndegas e o Paulo Bento provou que monta estratégias de vitória de uma forma muito mais eficaz do que os senhores do IKEA na hora de montar psichés de pinho, e por isso… vamos ao Mundial de Futebol que no próximo ano se realizará no Brasil.
A nação vibrou com o feito, embora talvez com menos entusiasmo do que é normal nas vitórias dos clubes, porque isto de eu ganhar e o meu vizinho também, não tem lá muita graça. Vamos fazer pirraça a quem? E vamos assobiar para onde? Para a porta da Volvo? Da Atlas Copco? Do próprio IKEA?
Perante os festejos logo se levantou também um coro de críticas ao jeito de tragédia e com acusações de alienação.
Com a crise que vivemos como é possível que alguém possa festejar e gritar golo? Como se o momento exigisse que nos fechássemos todos numas caves e envoltos em panos negros a escutar em perfusão sonora os discursos do Jerónimo de Sousa, da Heloísa Apolónia ou da Catarina Martins.
Por favor, a forma como o Ronaldo dá pontapés na bola pode ser muito mais inspiradora na hora de dar pontapés nas ditas dos patrocinadores da nossa crise, mas claro, se lhe encontrarmos as bolas, pois é coisa que neles raramente se encontra no sítio.
Como se o facto de festejarmos a vitória num jogo de futebol nos fizesse esquecer que há o Passos, o Portas, o Orçamento de Estado e os cortes que nos deixam mais pobres?
Estão todos infelizmente tão presentes que uns golos e uns goles de cerveja até servem para nos aliviar a dor.
Não deixa também de ser irónico, ver os pretensos defensores do povo a passar-lhe um atestado de estupidez assumindo que o futebol poderá fazer esquecer tudo o resto. O povo é inteligente e sabe distinguir os territórios onde se movimenta. Que o digam alguns políticos após as últimas autárquicas?
Do outro lado da “barricada” e perante os festejos do Ronaldo, outro coro se levantou desde logo: é tão vaidoso!
Na Antena Aberta que há pouco escutei na Antena 1, um ouvinte Português afirmou desejar o pior para Portugal no Mundial do Brasil e odiar o Ronaldo porque ele nunca fazia adeus ao povo quando ia com os colegas no autocarro da selecção.
Por favor, por mim ele até pode ir a jogar às cartas com a Irina no banco de trás.
Num país de baixa auto-estima, o mínimo de amor-próprio é facilmente e desde logo confundido com vaidade. O Ronaldo é mesmo bom, tem consciência disso e desfruta naturalmente desse benefício de ser o melhor do mundo. É normal.
Patético seria o homem dizer que era bom e depois ser realmente péssimo, por exemplo, a figurinha que o Sócrates faz semanalmente na RTP.
Mas, Portugal é o único país do mundo que é auto-suficiente na crítica de má índole. Ao contrário de outras matérias, nesta não precisamos mesmo de importar nada porque somos muito mais eficazes a criticar-nos do que qualquer estrangeiro que possa referir-se a nós.
E então quando falamos de êxitos…
Homem bonito ou mulher bonita que tenha êxito foi porque se “deitou” com alguém, se são feios é porque devem ter bons padrinhos e, em algumas situações, ainda se arrastam os feios para os territórios da cama colocando aquela terrífica hipótese de os seus genitais terem encantos que o rosto desconhece.
Porque Portugal convive bem melhor com a desgraça e com a derrota, tendo sido por aqui que se inventou aquele conceito do “sair de cabeça erguida” que é uma posição anatómica que eu não entendo: a cabeça erguida é para não perdermos pitada do ar de gozo dos nossos adversários?
Se um dia tiverem tempo vão ao youtube e procurem o festival da Eurovisão de 1974 em Brighton, Reino Unido, e vejam as actuações de Portugal e da Suécia. Um senhor chamado Paulo de Carvalho, sozinho em palco, arrasa toda a delegação Sueca na sua actuação. No final, ele sai do concurso em último lugar e os Suecos saem como vencedores no momento que revelou ao mundo um grupo chamado Abba.
Ontem foi ao contrário e mudou-se o paradigma da desgraça e da bendita “cabeça erguida” e até fomos nós que “esmagámos” a Pepsi.
Para o ano, lá para o mês de Junho, entre o fim ou não da Troika e os programas cautelares da União Europeia e dos leilões da dívida, se pudermos aliviar a pressão nuns pulos patrocinados pelos golos do Ronaldo seremos por certo bem mais felizes.
E viva PORTUGAL.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A essência doce do medronho

Procuro num envelope branco da Livraria Escolar que o tempo já fez mudar de cor, e que conservo na gaveta das minhas “relíquias” muito pessoais, esses pedaços demasiado simples do passado, que só eu sou capaz de descodificar e que me avivam a memória de todas as vezes que os procuro.
Encontro um velho cartão-de-visita devidamente rubricado, muitos cartões de boas festas, uma edição de “A bruxa do Castelo de Vila Viçosa”…
Sei de cor a história de cada um destes objectos e todos eles me transportam para os dias em que eu não dispensava a companhia da D. Joana Ruivo e fazia da sua Livraria Escolar, a minha segunda casa.
Antes ou depois das aulas, nas férias de Natal, da Páscoa ou nas férias grandes, em todos os minutos livres da minha infância e juventude, foi ali e por esta amiga que me afeiçoei às palavras escritas, tantas e em tantas estantes espalhadas por toda a casa, em dias passados à conversa, a ler ou então em jogos e brincadeiras com o grupo de amigos que por ali se foi formando: o João Paulo, o Pedro, a Antónia, a Lena, a São…
Sem qualquer vínculo de família, mas por uma amizade como nunca outra, ela foi por certo um dos complementos mais importantes de toda a herança que os meus pais me iam passando em casa, e foi um privilégio tê-la como “mestra” em lições que me ensinaram de tudo, mas sobretudo o inquestionável valor da liberdade, da justiça, do respeito e da simplicidade.
Sobretudo pelo exemplo, mas também pelas conversas alimentadas por algum livro retirado da prateleira e onde o mote poderia ser dado por Florbela no apreciar da ousadia da diferença e do amor que não se verga a convenções imbecis; por Torga, com o enorme amor à terra e às gentes; por Eça, no humor requintado de saber rir de nós próprios; por Pessoa, no gigantesco valor de saber e ousar sonhar seguindo todos os instintos da alma, até os que parecem mais desprezíveis.
Por tantas conversas que tínhamos quando ambos nos encostávamos ao balcão e esquecíamos as horas, sei que lhe devo esta ousadia de nunca temer os fantasmas das diferenças, fazendo do usufruto da verdade de nós mesmos e da simplicidade do que somos, mais do que qualquer coisa que possamos aparentar, as raízes para uma felicidade completa.
Comunista e ateia, é eternamente para mim a maior prova de que as pessoas quando são grandes de valores podem estar nos antípodas das nossas crenças e das nossas ideologias, mas nunca deixam de ser grandes.
Hoje, dia 19 de Novembro, fui à gaveta das minhas relíquias à procura do número exacto de anos que cumpriria a D. Joana Ruivo, que com uma enorme saudade nos deixou em 1991. Não encontrei mas estou seguro que será algures entre os noventa e os cem, a idade da mulher mais moderna que alguma vez eu conheci.
Mas a data não esqueço jamais e relembro-a ao ritmo da saudade desses fins de tarde em que comemorávamos o seu aniversário assando bolotas num aquecedor e bebendo licor um licor de medronho que ela mesmo preparava com os frutos que apanhava no castelo.
Ríamo-nos sempre quando referia estar mais velha e nos recomendava que na sua morte dispensássemos o caixão e a enrolássemos apenas em qualquer cartão que tinha acumulado no armazém, daquele cartão que formava as caixas que traziam os livros até Vila Viçosa em encomendas que nós íamos buscar à estação do Caminho de Ferro no seu elegante e sempre bem tratado automóvel NSU em tons de cinza.
Nesses dias do seu aniversário nunca queria que eu lhe comprasse nada, queria antes que eu lhe fizesse o presente. E eu fazia tudo o que ia aprendendo nos Trabalhos Manuais do ciclo e do liceu, quer fosse em ráfia, lã, corda… e um ano até lhe ofereci uma boneca que desenhei numa folha branca de tamanho A4 usando a letra “x” da velha máquina de escrever.
Hoje, mando-lhe desde aqui este presente alinhado em palavras muito simples garantindo-lhe a eternidade no universo dos meus maiores afectos, e na presença dos amigos de sempre, faço-lhe um brinde com o inevitável licor de medronho, agradecendo-lhe por nos ter ensinado a todos que a vida toma sempre o gosto da essência que nós lhe dermos, tal qual a aguardente onde “afogamos” os medronhos.
Ah, é verdade… quase me esquecia de vos dizer que o cartão-de-visita rubricado que ainda hoje guardo na gaveta, entregou-mo no dia em que eu fui estudar para Estremoz. Fez-me a recomendação de o usar sempre na carteira para que quando um dia necessitasse de algo fosse com ele ao pronto-a-vestir do seu irmão e conseguisse assim resolver o meu problema.
Nunca é por acaso que há pessoas eternas em nós e que amaremos até ao fim dos nossos dias. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um curto e simples passeio pelo Outono

O frio de Outono que chegou durante o fim-de-semana, convidava a permanecer tranquilamente junto à braseira com o alto patrocínio de uma boa leitura, aguardando o momento quente em que o chá fumegaria na chaminé e o apito da chaleira desse o pontapé de saída para a merenda.
Foi Novembro que nos fez sair.
Pelas placas de mármore que perpetuam nomes e rostos, deixámo-nos guiar por um roteiro de afectos, percurso de encontros facultados pelas memórias e celebrados a Padres-nosso e Ave-Marias.
Eu e a minha mãe, os dois sós, deixámo-nos ir de braço dado rebobinando vida, soltando palavras nesse panteão do meu povo que na tarde fria estava deserto e à mercê de tantas histórias com que fizemos presentes todos os nossos.
É entre muralhas e em chão nobre, a terra que eterniza a minha gente, à sombra da fé na Senhora da Conceição, a rainha e a proa de uma nau de heróis entregues ao sono perpétuo no Olimpo dos simples.
Já de saída lanço um olhar a Florbela e é com ela que subo as escadas para o adro da igreja lamentando que a muralha não me permita espreitar o pôr-do-sol que aquela hora, mágico se anuncia por detrás do Paço:
“Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o amor
Onde tenho o meu pão e a minha casa…”
E não tarda muito até ao momento em que subindo pela lateral do lado do Santíssimo, eu estarei com a minha mãe aos pés da Senhora da Conceição.
Jamais saberei o dia em que pela primeira vez ali estivemos os dois, mas foi por certo algures em Julho de 1966, que a Maria Inácia nunca foi de deixar de cumprir esse mandamento que em Vila Viçosa faz as mães oferecerem o seu filho à Senhora na primeira vez que saiam juntos de casa.
Passaram quarenta e sete anos e estamos os dois ali na meta de um roteiro de memórias numa tarde fria, na festa de um amor eterno de mãe e filho, a traçar planos de futuro que vamos partilhando quando descemos pelo lado de São Pedro, e depois quando avistando os medronheiros pela encosta acima, dirigimos os nossos passos para o carro que deixámos debaixo de uma oliveira.
Havia azeitonas maduras sobre o carro quando arranquei em direcção às Portas de Évora onde acabei por parar, não resistindo a saborear por segundos a beleza do Outono no Pomar das Laranjeiras.
No espaço de uma hora: memórias, afectos, amor, fé e poesia.
Um tão curto pedaço de tempo e afinal, tudo o que mais importa numa vida inteira.
O passado que nos fez grandes, o presente que saboreamos intensamente e o futuro, de cujos planos são a prova de estarmos vivos.
Tudo numa tarde fria de Outono e no privilégio de um passeio com a minha mãe, de braço dado e na ilusão de que sou eu quem agora a ampara… como se pudesse existir melhor amparo do que o do seu olhar que eternamente me grita: amor?
Há momentos perfeitos porque tecidos pela maior felicidade do universo.
E o tear?
Está sempre à mão. É a simplicidade.