sábado, 30 de novembro de 2013

A lição de uma velha árvore já morta

Gosto destes dias em que a visão do sol nos alimenta uma secreta ilusão, mascarando o típico frio de um Outono que a copa amarelecida ou avermelhada das árvores denuncia a qualquer instante.
No campo dispensamos o calendário, e pelos aromas, pelas cores e por estas sensações, conseguimos sempre saber qual a estação do ano em que nos encontramos.
Na casa de Vila Viçosa, quando olhamos o Terreiro do Paço pela janela da cozinha ou pela varanda, uma velha árvore implantada no quintal da Vizinha Clotilde, sempre nos ajudou nesta tarefa de aferição do tempo, porque no Inverno tinha os troncos à mostra, na Primavera revestia-se de folhas verdes que cairiam depois já amarelecidas no Outono, e nos dava centenas de alperces doces durante o Verão.
No quintal todas as árvores tinham uma história: o pessegueiro rasgou-se ao meio por acção dos helicópteros que trouxeram o Papa em 1982, ano em que a nespereira deu fruto que parecia milagre, e esta árvore, contava a vizinha Clotilde, tinha sido trazida de uma outra existente num quintal de uma casa em Lisboa onde vivia uma sua prima, casa onde pelos vistos tinha nascido o Américo Tomás.
As histórias das árvores ou afinal, pedaços das nossas histórias criadas à sua sombra e na bênção dos seus frutos.
O ano passado só comemos meia dúzia de alperces e logo de seguida a árvore deixou-se morrer na sua pose imperial, em pé. Já não teve qualquer folha este ano e dela, mais do que dos frutos, sentimos uma enorme saudade da sombra que sempre nos proporcionava nos dias mais quentes de verão.
Continuou no entanto a oferecer-nos os troncos para eu poder colocar uma pequena roldana e brincar com os meus sobrinhos, e continuou a ser o trampolim para os gatos da vizinhança que gostam de nos visitar aqui no primeiro andar e com quem partilhamos alguns “petiscos”.
Esta semana teve de ser cortada por razões de segurança e já não se interpõe mais entre mim e a alva parede de cal da casa da frente que nunca tinha visto assim tão próxima. Senti saudades dela hoje de manhã ao acordar, e senti a sua falta entre mim e um dia solarengo de Outono.
A árvore cumpriu o seu ciclo de uma vida que se cruzou tantas vezes com a nossa própria vida, e hoje, mesmo já morta e apenas ressuscitada na minha memória por efeito da saudade, ensinou-me a pensar como a grandeza da criação está muito para lá do próprio Homem e como “todas as vidas” para lá do Homem nos devem merecer o maior respeito e cuidado.
E não é só pela utilidade que podem ter para o próprio Homem.
Só que andamos tantas vezes distraídos e demasiado focados em nós num estranho comodismo que tem efeitos devastadores.
Eis a lição de hoje, a lição de uma velha árvore já morta.
E eu?
Poeta? Romântico? Ambientalista?
Não.
Apenas crente na vida e em Deus, que é como quem diz uma e a mesma coisa.
E um Homem do campo, sempre.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O aroma intenso da mais perfeita flor do campo

Sei que nunca ninguém me olhará assim na bênção desse amor que me impele a abraçar-te em cada instante, quando sorrimos os dois, e o teu sorriso é cimento da minha fé e o meu sorriso me devolve ao conforto da criança que me recuso sempre a deixar de ser junto a ti.
Perfeitos são os dias em que a manhã me traz o teu olhar e ao redor do café e do pão, doces são as palavras que sempre falam de nós e soltam todos os afectos, as palavras que trazem para redor da nossa camilha que tem vista para o Terreiro do Paço, todos aqueles que ambos tanto amamos.
Depois gosto quando me vês e comprovas se o meu vestir está alinhado com o frio ou o calor da nossa Vila Viçosa, e mais uma vez me deixo ser menino quando me perguntas:
- Levas lenço de assoar?
Ou:
- Tens moedas para o ofertório da missa?
As duas perguntas que nunca falham, e que, peço a Deus, tarde ou nunca me faltem, mesmo sabendo que já só lhes consigo responder com um breve sorriso e sem palavras.
Sabe bem regressar a casa quando já fumegam sobre a mesa as Sopas da Panela ou as Sopas de Tomate, as minhas preferidas, as que têm o teu toque, e que por terem o gosto do teu amor por mim, nunca ninguém as saberá preparar assim tão perfeitas.
E a tarde é melhor quando a passamos juntos e à conversa, quer aguardemos o momento do chá ao redor da braseira acesa, ou então nos demos o braço na alegria de algum passeio que sempre começa com Ave-Marias na Senhora da Conceição.  
Quando cai a noite e já depois do relógio da torre do Paço calar as horas e todos os quartos, contigo o serão tem o sentido perfeito de estar em casa… e tudo faz mais sentido.
E eu sou mais uma vez, sempre, e como o Zé Artur, um dos teus eternos meninos.
Hoje, quando o sino chamar para a primeira novena da Senhora da Conceição, o momento em que nasceste há setenta e um anos, quero estar contigo e dar-te um beijo.
Um beijo de amor e de uma eterna gratidão por seres tão só a melhor mãe de todo o universo.
Amo-te muito.
Parabéns mãe.  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Os anjos que ainda respiram

Há uma velha lareira que o tempo e o fumo pintaram de negro, e há um madeiro gigante que se deixa consumir lentamente por um fogo sem chama e perfuma a casa de um conforto alinhado com o sol que brilha intenso para lá das vidraças.
O brilho intenso do astro-rei por sobre o Atlântico aqui tão perto e que resplandece de azul na ilusão de um dia que é afinal de frio e de um Outono quase Inverno.
As paredes têm a cor de um papel já gasto, e gastas estão as gravuras espalhadas pela sala, mais pelos olhares que dias inteiros repousam e se abandonam sobre si, do que pela acção do sol nos dias em que brilha assim como hoje o faz.
Na velha mesa quadrada e com brilho de verniz que está colocada no canto junto à janela, repousa um velho baralho de cartas que tem ar de tudo menos de sorte, e um jornal que ali abandonado já perdeu a altivez da sua melhor cor, e carrega as palavras de tantas histórias de muito antes de hoje. Há muito se perdeu a conta ao número de vezes que as suas páginas foram revisitadas naquele lento passar de quem não lê e não quer ler nada, porque só quer mesmo passar o tempo.
E o tempo passa por ali ao ritmo lento dos Homens que repousam o olhar num sono tranquilo e que sorriem no seu dormitar, por certo embalados pelos sonhos que sempre se recusam a morrer; porque acelerado, só o tricotar da Senhora D. Aurora que sofregamente se atira a um novelo de lã de cor azul, da cor do mar, que cedo será Natal, e a camisola para o bisneto que imagina ter, rapidamente terá de estar pronta.
O velho soalho dispõe-se a fazer ressoar os passos naquele templo de silêncio que reduziu as palavras a um monte de letras alinhadas num jornal amarelecido e abandonado junto à janela. Talvez em breve, e quando chegar o chá que antecede o pôr-do-sol, regressem as palavras que carregam memórias de tanta vida e tanta gente, palavras soltas e quantas vezes sem sentido, palavras ditas com gosto a saudade, que não há maior saudade do que aquela que nasce da solidão de estar aqui.
Não fosse o bolo que chega em cada aniversário, e os dias seriam iguais, como iguais seriam as idades de toda a gente, que pouco a idade importa por aqui nesta confortável mas triste sala de uma tão solitária espera, o local onde a morte sempre passa para recolher passageiros de entre os homens e mulheres que apenas carregam memórias, porque de afectos, há muito lhes esvaziaram tudo e também a bagagem.
A morte tratada por tu na proximidade de um estranho estatuto de família.
Quando o sol partir e para lá da vidraça o mar não passar de uma memória, o velho rádio ganhará voz e soltará a oração de um terço vivido por aqui apenas no acariciar das contas já muito gastas, que poucas forças carregam os lábios para acompanhar o ritmo de tamanha fé, a fé da gente que de Deus se sente apenas a um passo tão curto e tão breve…
A fé da sabedoria dos velhos… os anjos que ainda respiram.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os abutres na vil caçada ao subsídio

Ao melhor jeito de Lucky Luke, o cowboy que é mais rápido a disparar do que a sua própria sombra, antes da chegada do recibo de vencimento ou de qualquer ida ao multibanco com acesso ao meu extracto bancário, fiquei a saber por uma funcionária do meu banco que na passada sexta-feira me tinha sido pago o subsídio de Natal que eu optei por não receber em duodécimos, um verdadeiro luxo num país com elevados índices de desemprego e onde as claras dificuldades financeiras da maioria da população perspectiva um Natal mais carregado de dificuldades do que de bacalhau ou bolo-rei.
Actualmente em Portugal uma das situações mais pornográficas com que somos confrontados (e a “Casa dos Segredos” quando comparada com isto até parece o “Clube das Virgens Inocentes”) é o despudorado ataque aos subsídios de Natal e de Férias, em grande parte pelo Estado que se inspira na Troika e não consegue controlar a sua própria despesa, mas também pela banca e afins.
Como se entre Estado e banca existisse assim uma fronteira muito marcada e não fossem hoje uma e a mesma coisa na vil e explosiva cumplicidade que há muito casou o poder com o dinheiro?
Mas voltando ao meu subsidio, depois de morto 49% do seu valor às mãos de IRS, taxas e sobretaxas, o “meu banco”, o tal do “aguenta, aguenta”, resolveu como abutre voar por sobre o “resto”, atacar em força e apoderar-se rapidamente dele.
Mandou então a dita funcionária convidar-me para fazer aplicações financeiras que me foram apresentadas na forma de um menu, do qual eu simpaticamente recusei todas as ofertas até porque o dinheiro em causa já tem destino no contexto da apertada e correcta gestão de meios da minha economia doméstica.
O tal planeamento e a gestão correcta de recursos que o Estado não consegue copiar.
Mas o abutre não desistiu…
Segunda-feira recebo uma nova mensagem a convidar-me à compra de acções dos CTT com a garantia de que tirarei do investimento uma rentabilidade extraordinária.
Recuso novamente e volto a dar a mesma justificação durante a resposta em que ainda consigo manter algum tom de simpatia.
Mas quem é que diz que o abutre desiste facilmente quando voa sobre uma presa?
Terça-feira é dia da chegada de novo e-mail e desta vez acompanhado de um folheto em que me é proposta a compra de garrafas de vinho da Quinta do Crasto a uma média de 33 Euros por garrafa. Não se desse o caso de eu querer adquirir uma maior quantidade de vinho, mandam-me também em anexo todos os mecanismos de acesso ao crédito a que eu posso recorrer salientando os juros fantásticos.
Continuam os estímulos ao crédito bancário para coisas tão essenciais à vida como… o vinho.
Já não respondi para não ter de ser inconveniente na forma e no conteúdo da mensagem para a funcionária que faz o que lhe mandam fazer e que também é por certo uma das vítimas do “aguenta, aguenta”.
E o silêncio já é por si, e neste caso, uma forma de desprezo.
Está a passar a Quarta-feira e ainda não recebi novo e-mail, mas temo que da perseverança dos meus interlocutores ainda possa vir a caminho qualquer proposta para a compra directamente ao banco, de alheiras, polvo, peru, aletria, arroz doce, bacalhau, fofos, broas castelares, filhós, sonhos de abóbora, bolo-rei ou até couves.
Mantenho-me na expectativa e sobretudo vigilante para defender esta porção de dinheiro que restou depois do ataque legalizado da pirataria do Estado que me tira cada vez mais para me dar cada vez menos, com uma nova temporada da saga “Os dias do desespero” já aprovada para 2014 por via do Orçamento de Estado, essa “novela” que mata definitivamente o espírito de Robin Hood e coloca o roubo aos pobres no suporte à loucura dos “ricos” e dos bancos com dimensão de tasca (com todo o devido respeito que reconheço dever ter para com as tascas).
Hoje ao chegar a casa deparei-me com um panfleto por debaixo da porta que tem como destaque: “Será que os mortos podem voltar a viver”? Eu não iria tão longe pois bastar-me-ia saber se os vivos o poderão um dia voltar a fazer.
Relativamente ao banco, e se for caso disso lá terei de mandar dizer ao senhor Ulrich que “aguente os cavalos” e me deixe em paz até porque será só uma questão de tempo: entre IVA, portagens, imposto sobre combustíveis, taxas moderadoras, etc; todo o dinheiro acabará por chegar às suas mãos e às dos seus amigos.
Mas deixe-me pelo menos ter a ilusão de que serei eu a “cozinhar” o meu Natal, já que infelizmente e à partida, muitos há que não o poderão fazer.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O intenso e eterno sabor doce que têm os dias de todos os sonhos

Nas muitas vezes que as obrigações profissionais me levam ao Hospital de Santa Maria, não resisto nunca a olhar para a Faculdade onde entre 1984 e 1989 me fiz farmacêutico.
O “desenvolvimento” implantou betão no espaço que então era ocupado pelas árvores de generosas copas que foram nossas cúmplices nesse tempo em que o microondas do bar de Medicina Dentária, por ser o único na região, era uma atracção que motivava verdadeiras peregrinações em busca de um folhado aquecido; o Professor Nascimento lançou uma campanha para que cada um de nós adoptasse um buraco do asfalto e assim melhor pudéssemos circular entre o Anfiteatro, o “Supositório”, o “Galinheiro” e o “Castelinho”; as senhoras da biblioteca eram insuportáveis com o seu “meninas pouco barulho”; o Sr. Samju era o rei das fotocópias; fazíamos batons nas mesmas formas metálicas que serviam para fazer supositórios; ir ao ISCTE era o Top da Modernidade pela possibilidade de nos cruzarmos com o Miguel Esteves Cardoso; o almoço decidia-se entre a Cantina Nova e a Velha, com esta última a ser mais atractiva pela possibilidade de uma refeição macrobiótica; a Teresa Salgueiro já afinava a voz para cantar uma Lisboa moderna que nós encontrávamos à noite passeando nas vielas até aqui quase proibidas do Bairro Alto; o Metro só ia até Entrecampos e nós conversávamos muito enquanto descíamos ou subíamos a Avenida das Forças Armadas, ousando parar por vezes para um café com natas na geladaria Pindô…
E um tempo em que saboreámos desse prazer imenso e doce que tem sempre a partilha dos nossos maiores e melhores sonhos.
A liberdade não tinha chegado há muito, a “Europa” estava a chegar, e tudo parecia rimar com essa vontade férrea que não via limites no impulso de mudar o mundo e construir algo de magnífico sobre a herança brilhante que os nossos pais, os reais inventores da liberdade, nos passavam diariamente.
Sentíamos força para acreditar que por nós nada ficaria igual e tudo ficaria infinitamente melhor.
Até porque havia essa amizade grande que nos ligava, que a todos tornava mais fortes e que a todos acolhia num espaço de família porque feito de intensos afectos.
Passaram-se décadas sobre esses anos que a vida nos vai mostrando que foram dos melhores das nossas vidas, vamos aqui e ali encontrando esses colegas que as cumplicidades fizeram amigos e vamo-nos certificando nesses encontros do ponto em que vai a tarefa de “mudar o mundo”.
Reencontrei a Cristina há algum tempo quando as nossas duas empresas nos envolveram num projecto comum. Fizemos uma festa pela alegria de nos voltarmos a ver e sobretudo por nos certificarmos de que a “nossa energia genética” continuava activa neste cumprir dos dias e torná-los intensamente felizes.
Mostrou-me orgulhosa a foto dos seus quatro filhos rapazes e de como lhes estava a passar essa herança e esse gosto pelos sonhos que por certo perdurariam no tempo.
E passava-lhes também a garra e a força pela forma como lutava intensamente contra um problema de saúde que poderia ser grave e que já estava presente e algo visível, talvez em tudo, excepto nesse sorriso que se exprime pelo olhar muito mais do que pelos lábios.
Soube hoje de manhã que a Cristina partiu ontem exactamente no dia em que cumpria o seu 47º aniversário, a minha idade, a nossa idade.
O seu sorriso não morrerá jamais e brilhará para mim por entre as memórias dos nossos sonhos quando eu passar pela Cidade Universitária e continuar a ver as árvores das sombras cúmplices desses anos em que ousámos ser jovens diferentes.
Continuará viva sobretudo na vida dos seus quatro “rapazes” que ainda há pouco tempo no Facebook designou como os seus braços direitos e esquerdos, e, digo eu, quem diz braços diz um enorme coração.
E brilhará com a intensidade que no céu sempre têm as estrelas mais importantes.
Nós continuaremos por cá e por sobre a saudade, a construir os dias dos sonhos e do querer, sabendo que um dia iremos todos brilhar juntos, nesse momento em que nos reencontrarmos para retomar a conversa e o riso que por agora só ficam momentaneamente suspensos porque Deus insiste sempre em chamar para junto de si os que são grandes, os que são verdadeiramente maiores.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Honestidade, coerência e democracia

Só com a ajuda do Google consigo identificar o dia em que durante a campanha para as primeiras Eleições Presidenciais pós revolução, vi o General Eanes num pequeno comício em Vila Viçosa. Foi ao inicio da tarde do dia 18 de Junho de 1976, horas antes do célebre comício na Praça de Touros de Évora e do seu muito célebre percurso em pé no tejadilho de um carro enquanto ecoavam balas na zona do Jardim Público.
O palco em Vila Viçosa estava montado junto à rotunda da Fonte da Praça e de costas para a Igreja de São Bartolomeu. Desde as janelas da casa do meu amigo Manuel tive uma visão privilegiada para o acontecimento e para os distúrbios que começaram antes mesmo da chegada do candidato com trocas de socos, e algum sangue à mistura, entre os seus apoiantes e os de Otelo Saraiva de Carvalho.
Do alto da janela e sobretudo do alto dos meus quase dez anos só me recordo de ter achado que para herói ele era demasiado franzino. E como ousava um homem com aquele aspecto frágil vir falar de forma tão convicta de democracia numa terra então demasiado aquecida por outros “valores”?
Ganhou as presidenciais e regressa a Vila Viçosa, e aí recordo-me perfeitamente da data, no dia 1 de Dezembro de 1980. Homenageou D. João IV na sua estátua no Terreiro do Paço, falou ali mesmo à população, e quase se cruzava com o General Soares Carneiro que exactamente á mesma hora fez um comício no Cine-Teatro que então ainda não se chamava Florbela Espanca.
Três dias antes da morte de Sá Carneiro, Vila Viçosa esteve no epicentro das presidenciais, e o General Eanes voltou a falar de democracia e da consolidação da mesma, politicamente no mesmo sítio onde sempre esteve, embora desta vez o perigo para a sua reeleição viesse da direita.
Então, do alto dos meus catorze anos, já consegui reter melhor as suas palavras, e entende-las.
Foi reeleito para o seu segundo mandato.
Fui hoje buscar estas minhas memórias do General Ramalho Eanes no dia em que lhe é prestada uma homenagem nacional e através delas encontrei desde logo uma das suas grandes virtudes: não importa a direita ou a esquerda, importam sempre as nossas convicções e a total coerência com os nossos valores.
Não importa contra quem lutamos, importa pelo que lutamos e a força com que o fazemos.
E os heróis até podem ser franzinos de corpo porque o que realmente importa é a grandeza que lhes vai na alma.
Fiz simultaneamente o exercício de tentar encontrar alguém que tendo ocupado um lugar de relevo na hierarquia do Estado, pudesse ser hoje uma referência clara e inequívoca para Portugal.
Por uma razão ou por outra, não arranjei ninguém que se lhe equipare nesse estatuto.
O General Eanes carrega a história da luta pela implantação real e efectiva de um regime democrático em Portugal, cultivou sempre a honestidade, nunca andou atrás de patrocínios para benefícios pessoais, familiares ou outros, e jamais mergulhou nessa sôfrega ambição cega por cargos, pelo poder e pelo engrossar das contas bancárias (directas ou indirectas como por exemplo, via fundações), tentações que tantos “santos” têm feito cair dos altares da pátria lusitana.
A homenagem é pois mais do que merecida, mas deveria ser muito mais do que isso, e ser uma inspiração para quem hoje assume o poder ou quem se prepara para o fazer pois vai demasiado escasso o exercício da honestidade e do real respeito pelo povo eleitor, essa raiz mais profunda da democracia. 

sábado, 23 de novembro de 2013

O inferno “d’antes” e de agora

Se este país já vai sendo ele próprio um inferno, porque o que resta de paraíso refere-se apenas à componente fiscal e destina-se a um grupo muito selecto e altamente elitista, não é difícil escolher a que será a imagem mais infernal da semana.
E aí, imaginar a Margarida Rebelo Pinto e o Prof. César das Neves a brindarem com Pepsi a uma mesa de um restaurante de bifes gerido pela Isabel Jonet, estabelecimento dedicado a uma clientela de âmbito muito familiar e tendo como relações públicas a Bárbara Guimarães, um espaço decorado ao jeito de marquise com fotos de Passos, Portas, Cavaco e Maria, Seguro, Sócrates… num revisitar da Família Adams, e onde os plasmas distribuídos pela sala vão transmitindo a Casa dos Segredos e os programas da Cristina Ferreira, da Júlia Pineiro, do Jorge Gabriel e do Nuno Eiró a apresentar o Leonel Nunes e o seu êxito “Porque não tem talo o nabo?”… ganha a qualquer outro inferno que possamos imaginar.
E o que restava de paraíso?
Os anjos da guarda (assim como os da polícia) fizeram greve, manifestaram-se e foram trepar a escadaria que dá acesso aos deuses instalados nos seus tronos, ameaçando-lhes o conforto. Comprovou-se mais uma vez que só Jesus os consegue pôr na ordem mas mesmo esse é só um, anda entretido com a “Champs” e até acabou em tribunal e condenado a um mês de ausência da “catedral”.
Os arcanjos celestiais, Miguel, Rafael e Gabriel, renderam-se e tomaram todos, o apelido “Carreira”, pelo que as aleluias e os glórias foram todos trocados por ritmadas baladas de fazer chorar as pedras da calçada e fazer enlouquecer as “Marias” todas da terra, virando as peregrinações mais para os Coliseus ou para o Pavilhão Atlântico do que para qualquer santuário nacional de maior ou menor relevo.
O purgatório, que ainda permitia alguma esperança de paraíso após alguns anos de subsídios de Natal e Férias, foi desmantelado por recomendação do Memorandum de Entendimento com a Troika e substituído directamente pelo inferno, com o objectivo de equilibrar as contas públicas.
Em auto de fé onde se esturricaram os professores em processos sem culpa formada, os “doutores da lei” aproveitam o fogo e “mataram” juízes na praça pública, e o juízo final (do orçamento e não só) é agora assegurado pelos financeiros que a todos aplicam a pena máxima do sofrimento e da escassez, condenando-nos ao “aguenta, aguenta”.
Milagres? Já não há, à excepção da raspadinha, do Euromilhões ou das chamadas de valor acrescentado que as televisões convidam a fazer directamente para os seus cofres.
Santos? Continuam por cá mas agora sobretudo os membros do ramo Angolano da família e muito mais entretidos a comprar empresas e lojas de luxo na Avenida da Liberdade, do que a fazer qualquer outra coisa em prol do desenvolvimento do povo.
Velas? Continuamos a usá-las mas cada vez menos nos altares pois acabam por nos fazer muito mais falta em casa para nos oferecer alguma claridade quando os Chineses da EDP nos mandam cortar a electricidade por falta de pagamento.
E neste deserto (de ideias e de esperança), com o povo em fuga e sem que qualquer “mar” (vermelho ou de qualquer outra cor) se abra para nos deixar passar, não admira que um homem de trinta anos que marque três golos num jogo de futebol seja convertido numa estátua dourada, o “bezerro de ouro” do século XXI.
No fundo, aquilo que nos faz falta, mesmo, e aquilo que realmente pode fazer a diferença a nosso favor, é um Moisés que desça do monte com as tábuas da lei (não confundir com os decretos assinados por mentecaptos) e nos conduza até à terra prometida fazendo-nos esquecer os tempos de escravidão da Alemanha, perdão, do Egipto.