segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As insuportáveis guerras do Soutien e das Truces

No sábado quando estava à mesa do jantar com duas amigas, uma delas conta uma façanha ao jeito de “MacGyver abre fechaduras do coração” e a outra desabafa:
- Isso é porque és mulher. Um homem não conseguia.
E por aí já iam tão lançadas que a determinada altura foi preciso interrompê-las e dizer:
- Meninas, eu não sabia que tinha vindo assistir a uma palestra do “Clube do Soutien”.
E lá se calaram.
Menos de 48 horas depois estou no Hospital de Santa Maria numa interminável fila para tirar uma senha para o café e não consigo evitar ouvir a conversa de duas senhoras atrás de mim:
- Ai filha lá me escapei agora 5 minutos da enfermaria… Aquele homem está insuportável.
- Oh filha são todos assim. Então quando estão doentes…
- É verdade. O que seria dos homens se não fossemos nós?
- Eu uma vez até disse à minha sogra: “morra descansada que eu tratarei bem da peste que você criou”.
Confesso que me fiquei por um olhar daqueles mortíferos que calam até os papagaios mais selvagens mas a minha vontade era gritar-lhes bem alto e aos ouvidos:
- É pssssté, acabou o Carnaval de Ovar.
E agora, eu que até estou nos antípodas da misoginia, que até sou um apreciador da auto-estima alheia e que não sou naturalmente machista sinto-me na obrigação de vir aqui apelar a que se dominem.
É que o feminismo é tão irritante e desprezível quanto o machismo.
Minhas amigas, é que o ovário pode estar em alta mas o testículo não morreu. Muito pelo contrário.
Lá por haver uma Merkel e um Pedro Passos Coelho, não generalizem por favor.
Nesta fase tão difícil para a humanidade, divisões sexistas, não obrigado.
Olha a malta agora entretida numa guerra de “Soutien e truces” e quando se desse conta nem subsidio de Natal nem de Férias…
E atentem que quando se sente muito esta necessidade do auto-elogio será porque há lá no fundo um “complexozinho” não muito bem resolvido. É que aquilo que é verdade não precisa de estar sempre a ser dito. Constata-se e já está.
Por isso, vamos unir-nos, pá…
Vocês são lindas, inteligentes e nós apreciamos imenso a vossa garra.
E quando pensarem que têm outros poderes extra e que com eles dominarão o mundo, pensem que esses super poderes só funcionam se os interlocutores forem sensíveis a eles.
E no meu caso não se safam mesmo.
You know what I mean.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma noite e quase Natal

O rádio do carro embala-me num prenúncio de Lisboa projectando em contínuo a voz de Amália.
“Não é desgraça ser pobre…”
E pobre não é por certo quem assim num fim de tarde de Dezembro tem o privilégio de “mergulhar” na cidade já envolta nas coloridas luzes semeadas pelo Natal.
Vai lento o carro até ao Camões atrasando-me esse decisivo encontro com o poeta mas oferecendo-me a possibilidade de desfrutar de cada detalhe do caminho, e como brilha ao longe o Castelo quando se espreita assim de São Pedro de Alcântara.
Chego finalmente.
E desço o Chiado…
Quando eu partir e os despojos do meu corpo cumprirem a minha suprema gratidão pelo campo alimentando as raízes de um sobreiro que tenha vista para Vila Viçosa, de poucas coisas sei que sentirei saudades, mas a descida do Chiado assim num fim de tarde de Natal, não tenho dúvidas, far-me-á muita falta.
Caminho por entre a gente, e num claro benefício dos anos que vão esticando a idade, raras vezes desço agora a Rua Garrett sem que os meus olhos se encontrem com outros reconhecidos pelos afectos, outros olhares entrelaçados na minha história.
Ricardo foi bom encontrar-te e trocar contigo aquelas palavras, embora breves.
Há imagens projectadas no Arco da Rua Augusta e nas paredes do Terreiro do Paço, e uma multidão aplaude o mais inédito “Circo de Natal” que se deixa embalar pela música bem lusitana dos Deolinda.
No escuro da praça de Lisboa que beija o Tejo, e onde o fumo do espectáculo casa com o dos carrinhos das castanhas, uma para mim anónima criança que até aí esteve de boca aberta a assistir ao espectáculo, pede aos pais para brincar com o corvo que apresenta o circo e saltita projectado entre as janelas dos ministérios.
Novos putos mas o mesmo sonho de sempre.
Está garantida a preservação da magia da cidade.
A noite assim pede amigos à mesa onde o tinto de Reguengos acende a partilha das histórias novas… ou as de sempre, mas sempre com esse objectivo nobre que é a libertação das gargalhadas que fazem a festa destes dias nascidos especiais, mais pela nossa vontade do que pela inevitabilidade oferecida pelo calendário.
E os afectos também se expõem na hora em que rasgamos os papéis de embrulho e os presentes se entregam à luz ténue do restaurante repleto de gente que se assemelha agora a uma Babel num rico e imenso cocktail de línguas, quando o ambiente já cheira a café e já se ensaia o regresso a casa por entre a a discussão de qual a rua melhor iluminada, se a da Prata, a Augusta ou a do Ouro.
Em breve será Natal, Lisboa, a perfeita Lisboa, está agora reflectida no retrovisor do meu carro enquanto a voz de Amália solta as inspiradas palavras de David Mourão Ferreira…
“Sempre e sempre amor…”
E eu sigo pelo sonho…


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Esse inquestionável valor que têm até as mais simples palavras

Há em Londres um nevoeiro mais cerrado do que o habitual e as regras de segurança e a prudência exigem que permaneçamos por mais três horas na Sala de Embarque do Aeroporto de Lisboa aguardando a devida autorização para voar.
Durante a espera, por ali fala-se Português mas com sotaque do Brasil, apercebendo-me que grande parte dos meus companheiros de viagem chegou das Terras de Vera Cruz e começou em Lisboa um longo percurso de férias pela Europa.
Mas ao meu lado está uma senhora Inglesa que por certo terá uma idade já algures na década dos setenta anos, a Julie, com quem acabo por encetar diálogo a partir da partilha de informações e da tradução daquilo que os funcionários da companhia aérea nos vão passando.
Diz-me que juntamente com o marido, tem uma casa na zona a que chama de “Silver Coast”, ali para os lados da Foz do Arelho, e que se divide entre Portugal e o Reino Unido. Aos poucos vai dando a sua interessante perspectiva de quem vê o país por dentro mas não deixando de ser um cidadão estrangeiro.
A Julie e o marido adoram Portugal e não só pelo clima, é sobretudo pelos Portugueses, que segundo ela são em geral simpáticos, afáveis, honestos e muito trabalhadores. Sentem-se bem por cá e confessa que a adaptação foi fácil exactamente pela simpatia e abertura dos “vizinhos”, uma gente que sabe receber.
Foi inevitável falarmos da crise financeira e confessei-lhe que passei de achar que o eurocepticismo dos Ingleses era irritante, para o considerar agora uma atitude muito sensata, tal o preço da factura que pagamos por esta “aventura” do Euro.
E achei interessante e lúcido o diagnóstico, quando ela me refere que Portugal tinha tudo para dar certo e ser um país de sucesso, mas que não o consegue pela orfandade política e pela ausência de verdadeiros líderes capazes de gerir os recursos e motivar as pessoas.
Entre os Brasileiros a discutirem trajectos no Metro de Londres e os poucos Portugueses entretidos com o programa da tarde da TVI, acabaram por passar três horas sem que nos déssemos conta disso.
O embarque está pronto a começar e uma funcionária aproxima-se da Julie e diz-lhe que pode avançar para o avião pois o marido acabou de embarcar. Ela explica-me então que durante aquele tempo em que estivemos à conversa, o marido esteve algures no aeroporto dentro de uma ambulância aguardando ordens para entrar no avião.
O inverno e a geada pregaram-lhes uma partida, e regressam agora a Londres para que o marido possa ter acesso às consultas de ortopedia e corrija uma fractura da perna cujo tratamento envolve algum risco pelo enquadramento cardiovascular algo complicado.
A Julie avança para o avião não sem antes me estender a mão para uma despedida, agradecendo-me a conversa que a distraiu e a fez sorrir num tempo complicado em que esteve forçosamente afastada do marido.
Uma conversa aparentemente banal e de circunstância.
Já em Londres, a chegada tardia impõe-me um passeio pelas redondezas do hotel em busca de algo quente que me mate a fome e me conforte no resfriado. Caminho por entre a gente que pára e admira as luzes que o Natal pendurou do céu da cidade.
Está um frio terrível mas já não há nevoeiro.
Penso na Julie e na nossa conversa, e penso como são valiosas todas as palavras que transmitimos aos outros num contexto de afecto, mesmo aquelas que têm a aparência da banalidade.
Nunca saberemos se um simples “olá” tem o valor do ouro, por ser a primeira palavra que alguém ouviu nesse dia.
E sigo então já na companhia de um chocolate quente, o que de mais quente descobri para me aquecer na noite fria de Londres.
As luzes estão bonitas e eu sorrio.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Reajustes à moda do Natal

Quando nós queremos muito até o que há de mais negativo pode ganhar um sentido positivo e útil à nossa existência.
É a doce perspectiva do optimista que não é forçosamente um louco e irresponsável por assumir esta atitude.
E o contrário também se verifica, com o maior prazer a poder virar um grande problema na antecâmara da mais profunda depressão.
Assim, eu cidadão optimista me confesso, já não tenho a mínima paciência para as pessoas que se referem ao Natal como sendo o maior problema do século: ele é porque têm de comprar presentes e as lojas estão cheias de gente e está tudo demasiado caro, porque há intermináveis filas na compra do bolo-rei, das broas castelares e das filhós nas pastelarias da moda, é a logística desse improvável “casamento” de pais com sogros, são os litígios familiares que se foram acumulando ao longo do ano e que poderão ser explosivos quando todos se sentarem para a consoada, é a indecisão sobre a missa a que vão por causa das comidas e das bebidas, é a hora a que os cabeleireiros fecham na véspera de Natal, são os lutos sobrepostos às árvores de Natal e aos presépios, é a batata palha para acompanhar o peru, é o preço do bacalhau e do polvo que estão pela hora da morte, é o homem das couves que este ano já disse que a geada lhe comeu as folhas, são os dias de férias e essa incerteza de ir ou ficar…
Por favor, relaxem, façam o que vos der na real gana e o que o corpo e a alma vos pedirem, e vão ver se o Natal não vira uma época especial.
E já agora… reajustem o Natal.
Explico.
A minha mãe resolveu preparar o macro presépio de Vila Viçosa antes do dia de Nossa Senhora da Conceição, como sempre no canto mais nobre da sala e por debaixo do pinheiro artificial devidamente enfeitado de fitas coloridas e luzes.
Do alto dos seus super puros 6 anos, o meu sobrinho Luís adorou o presépio e a melhor forma de o demonstrar foi a interacção que estabeleceu com o mesmo.
Retirou a casinha de madeira e modernizou-a fazendo com que o burro e a vaca passassem a partilhar o espaço com o Faísca McQueen, utilizou a ponte de barro como elemento para completar a sua pista da Hot Wheels, trouxe o lago artificial de papel, com a respectiva lavadeira, para o centro da casa como elemento que humanizou a dita pista, colocou o Menino Jesus em interacção com o i-Pad que aqui o tio sempre lhe empresta, e remexeu todas as figuras fazendo-as interagir umas com as outras, de tal forma que até um dos magos parecia estar à conversa com o pastor.
Mas antes de tudo, o primeiro comentário que fez foi de que faltava a estrela do cimo da árvore, e lá lhe tivemos de explicar que a avó é baixinha e que está “proibida” de se andar a empoleirar em escadotes para não se pôr demasiado à mercê da osteoporose.
E fomos nós colocar a dita estrela.
Ah grande Luís.
É assim mesmo.
Experimentem vocês a colocar a estrela no vosso Natal, “enfiem-se” pelo presépio dentro e puxem o Menino Jesus cá para fora para o centro das vossas vidas.
Vão ver se tudo o resto não ganha o definitivo estatuto de ridículo e desprezível, e o Natal volta a ser aquilo que é e que deve continuar a ser: um tempo para sermos felizes.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estas poderosas vozes dos simples

A procissão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição iria passar daí a pouco na celebração do dia 8 de Dezembro. Já tínhamos pendurado a nossa melhor colcha na janela de ferro forjado e sentíamos a azáfama das pessoas que se dispunham de um lado e outro da estrada.
De repente e quando já não circulavam carros, pára uma carrinha de transporte de peixe e dois homens saltam dela munidos de flores para num tempo recorde desenharem e construírem um tapete sobre a estrada.
Um deles vai tirando as flores da carrinha e o outro vai dispondo cada uma delas como traço da sua obra de arte.
Alguém ousa fazer a pergunta que a todos acudia:
- O que é que o senhor está a preparar? E porquê?
A resposta do homem não se fez esperar mesmo sem interromper por segundos que fosse, o seu trabalho:
- Louvo a Deus e agradeço-Lhe pelas maravilhas que tem oferecido à minha vida.
E depois de terem desenhado um crucifixo, os homens montaram-se na carrinha e desapareceram.
A procissão começou a passar daí a pouco e os Homens dispostos nessa estranha hierarquia de condes, duques e duquesas que a Igreja estranhamente reconhece numa escala de importância que viola na essência a grandeza da criação que nos faz iguais aos olhos de Deus; pisam a cruz do louvor simples do homem do peixe.
Também eu não pretendo ser juiz do alto da minha janela e da minha pequenez, sei que não posso faze-lo, mas acredito que na tarde fria mas solarenga de um Dezembro que breve se converterá em inverno, as pétalas daquelas flores foram Ave-Marias mais velozes a chegar ao Céu do que aquelas outras que foram desfiadas em contas de finas pérolas pelas mãos adornadas de jóias dos que são Senhores pela hierarquia dos Homens e do poder.
O maior de todos é sempre o mais simples.
Já tinha caído a noite e os carros tinham voltado a passar na estrada frente à nossa casa, a temperatura tinha descido aos seis graus nesse instante em que me montei no carro para viajar para Lisboa.
Deitei um último olhar ao já quase desfeito crucifixo de flores. Mantinha intactas algumas das orquídeas.
As preces e os louvores dos simples “gritam” e sobrevivem por sobre todo o canto sofisticado da vaidade dos Homens.
E assim, um peixeiro de quem nem sequer sei o nome se fez o meu mestre no dia maior e de mais festa na minha terra.
Lições improváveis numa tarde fria ou apenas Deus a falar pelas mãos dos que mais ama.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A esperança dos dias de Mandela

Se um dia a vida me fizer tio-avô e me oferecer a possibilidade de partilhar as histórias da minha vida em algum serão mais frio passado à lareira, guardo já religiosamente no cofre mais seguro da memória, algumas “relíquias” que valorizam a minha história e muito me enchem de orgulho.
Assisti ao 25 de Abril de 1974 e tive o privilégio de crescer e fazer a minha formação num contexto de liberdade e com um regime democrático implantado em Portugal, vi o Beato João Paulo II passar à minha porta em Vila Viçosa e juro que cruzei o meu com o seu olhar na esquina dos cantoneiros na Avenida dos Duques de Bragança, acompanhei pela televisão a queda do muro de Berlim com a consequente destruição da cortina de ferro que dividia a Europa vergonhosamente em duas, vi o top da dignidade em Madre Teresa de Calcutá quando chegou a Oslo para receber o Prémio Nobel da Paz com os seus parcos haveres colocados numa caixa de cartão, fiz uma viagem de Vila Viçosa para Proença-a-Nova na companhia de D. Basílio do Nascimento, então padre, que partilhou comigo na primeira pessoa e com emoção, as dores, as lutas e as ambições do povo de Timor Leste…
E guardo também a memória de uma tarde quente de Julho quando pela televisão assisti à libertação de Nelson Mandela e se deu inicio ao processo que à beira do Século XXI pôs fim ao Apartheid na África do Sul, uma das maiores vergonhas da humanidade, um dos maiores atentados à dignidade do Homem que encerra em si mesmo e na sua essência, a extraordinária riqueza da diversidade cultural, étnica ou outra.
Juro que acreditei por Mandela e com Mandela que o mundo iria ser diferente, e agora concluo, tão-só talvez pelo romantismo da minha alma de poeta, porque cedo a esperança morreu e se converteu numa triste e breve ilusão.
Numa reunião de trabalho em Berlim, ainda cheguei ao hall do hotel a tempo de ver cair em directo a segunda torre do World Trade Center de Nova Iorque, e assisti pela televisão aos gritos da gente desesperada a correr em Madrid na Estação de Atocha após os atentados, afinal aqui tão próximos de nós.
A morte do sonho.
O mundo continua igual e não era este o mundo que Mandela e o seu exemplo e a sua abnegação mereciam que existisse no dia da sua partida para a eternidade dos maiores.
Um mundo onde se paga para destruir alimentos enquanto há gente que morre à fome, um mundo onde há exploração de Homens feita por outros Homens e uma mais ou menos encapuçada escravatura, um mundo onde se mata por diferença de estatuto social, credo ou etnia.
Um mundo pobre pela desigualdade e pela ausência de indivíduos como Mandela que sejam líderes inspiradores por tudo mas sobretudo pelo exemplo.
Matámos a sua semente inspiradora de liberdade e justiça muito antes de que surgissem os frutos.
E lá terei eu de contar a história aos meus sobrinhos-netos com esse tão irreal começo de “Era uma vez”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Dieta Mediterrânica

Um pequeno-almoço composto por uma torrada de pão de trigo temperada com azeite, alho e tomate triturado, degustado na companhia de um excelente queijo fresco e na bênção de uma vista para o Tejo a usufruir da luz clara de Lisboa que sempre salienta os tons entre o ocre e o rosa do casario disposto em cascata pelas colinas, tendo na aparelhagem um CD que nos enche a casa com a voz inconfundível de Amália Rodrigues em rima com a Guitarra Portuguesa que geme os acordes de um fado que tem poema de Alexandre O´Neill e música de Alain Oulman; é um momento inconfundível, um património que entre o material e o imaterial é definitivamente rico e dos maiores da humanidade, para além de que faz muito bem ao coração, também, e mais uma vez, nessa dupla perspectiva do material e do… imaterial, que não há paixão ou grande amor que não se afague na presença de semelhante enquadramento.
Nós há muito que o sabemos, e a UNESCO acabou agora por reconhecê-lo em dois tempos diferentes, depois do fado, a dieta Mediterrânica e toda a simplicidade de recursos do campo que a sustentam e que são engrandecidos pela criatividade do Homem no uso dos cheiros e dos aromas que também vai buscar a esse mesmo campo.
O reconhecimento que expressa assim o elogio da simplicidade.
Mais do que mar, o Mediterrâneo é uma cultura que extravasa a geografia da costa do próprio mar e se expressa das mais variadas formas, de entre as quais, esta forma diferente de escolher e confeccionar alimentos, juntando o útil ao agradável num casamento perfeito entre o saudável e os prazeres da degustação.
Mas há também a música, que nos põe a nós Alentejanos a cantar da mesma forma que na Sardenha, e os Gregos de Thessalónica a tomarem ares de fadistas quando cantam a Rembetika.
É a cultura que definitivamente une as nações, muito mais e com muito mais força do que os arranjos artificiais “cozinhados” no lume dos interesses económicos, financeiros e políticos do momento, interesses frágeis de valores que depois rapidamente sucumbem e morrem esmagados pelas mãos de qualquer Merkel ou quaisquer Troikas.
E acho muito interessante que a minha Sopa de Tomate confeccionada à moda do Alentejo com pedaços do melhor pão de trigo, e indiscutivelmente a minha preferida ganhando por goleada à famosa Açorda ou à Sopa de Cação, seja na sua simplicidade um reconhecido património imaterial da humanidade, que há muito já é património dos meus afectos mais profundos.
Brincando um pouco, sempre posso dizer que me enche de orgulho que a minha Tia Maria Teodora, a mulher que confeccionava a melhor Sopa de Tomate que alguma vez comi, seja agora por reconhecimento da UNESCO uma espécie de Amália da dita sopa.
Muito a sério, ensina-me a vida todos os dias que a maior riqueza vem  das coisas mais simples, as quais insistimos por vezes em “sofisticar” apenas por ser diferente. E às vezes sai asneira.
Acontece com tudo na vida e também com o que comemos.
Quando criança em Vila Viçosa gostávamos de comer pão barrado com banha de porco e polvilhado com açúcar. Não me perguntem como era possível que o comêssemos, mas sim, comíamos, por certo com o colesterol a bater palmas enquanto trepava por nós acima. Até aí podia ir a nossa “sofisticação” com a almotolia do azeite ali tão perto e mesmo à mão.
E na semana do reconhecimento da Dieta Mediterrânica como Património Imaterial da Humanidade abriu aqui pelos meus lados um restaurante da MacDonalds que pôs às moscas a loja que vende sopas “saudáveis”. Eu também lá fui comer um hambúrguer.
Sempre a trair a herança da Tia Maria Teodora.
Não há direito.
Mas não perderei com a demora…
Sei que um dia voltarei ao Alentejo, e aí, do alto de um monte com aroma e cor de estevas, perderei o olhar no mais longe da planície onde os sobreiros recortam o horizonte, onde as ondas são espigas e pão entregues ao vento e onde as oliveiras têm tatuadas as mãos ásperas e heróicas dos meus avós, e sentirei o Mediterrâneo no mais Atlântico dos países e sentirei que cheguei a mim e reencontrei a minha verdadeira essência.