quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Um encontro com a dor

Quando os meus olhos se fixaram na mãe que chorava a morte do filho, eu senti que tocava na própria dor.
E mais do que nas lágrimas e nos lamentos soluçados já com tão débeis forças, a dor estava expressa no vazio do seu próprio olhar.
Na dor maior do universo, a dor de Maria no Calvário de Jerusalém, Senhora das próprias Dores e Senhora da Piedade, uma mãe que perde um filho, perde tudo e até perde o próprio olhar.
Sentimos momentaneamente a fragilidade de Homens no porquê que faz abanar a fé…
Mas sabemos que o maior e melhor da vida não tem estatuto de palpável: o amor é divino.
E pelo amor e pela fé sentimos que o Céu existe e Deus recruta os seus anjos, às vezes até num estranho (e para nós revoltante) abraço do mar, dado algures numa noite escura de quase inverno.
Sentimos o conforto da fé mas não deixamos de ser Homens e isso nota-se nas lágrimas que se soltaram e nós nem sequer tentamos controlar.
O Tiago, filho do meu amigo e colega Vítor, é desde sábado e na companhia de mais cinco colegas de Universidade, um anjo e uma estrela que brilha no Céu. 
E pelas ruas de Lisboa, eu sou na tarde desta quarta-feira, um tonto emocionado e um crente que reza, envergonhado por chamar dor a tantas pequeníssimas coisas que afinal e pensando bem, não têm importância alguma.   

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O interminável desfile de um perpétuo Carnaval

O PSD concluiu que o governo PS de José Sócrates foi o responsável por uma gestão ruinosa do país numa perspectiva geral e muito em particular nos contratos SWAP.
O PS responde que não e que essa má gestão é da responsabilidade do PSD.
E assim, quais “Pombinhas da Catrina” de mão em mão, as culpas vão sobrevivendo com o alto patrocínio dos nossos ordenados e pensões, até ao momento em que sucumbirão pelo tempo ao ritmo das prescrições de uma sempre adiada justiça… e acabarão por morrer solteiras.
Somos nós que pagamos os adornos, as carroças, a banda de música, as atracções internacionais, os foguetes, as luzes… e o país é hoje um longo desfile de carnaval em que a mentira é aceite com toda a legitimidade como centro da festa, e os protagonistas são criaturas travestidas em que o melhor e o que recebe a coroa de Rei Mono é sempre aquele que maior eficácia consegue no disfarce.
Das bancadas onde pelo preço elevado do bilhete patrocinamos o show há quem inexplicavelmente ainda bata palmas e se alegre quando passa a “escola de samba” com os artistas da sua cor.
E enquanto tal acontecer o “carnaval” não vai acabar nunca.
Confesso que já não tenho força para bater palmas e tivesse à mão um cesto de ovos podres e por certo tentaria acertar na cabeça de todos, independentemente da cor.
Mas este exercício oficial da mentira não existe apenas a esta escala da “liderança” da nação, a um nível microscópico num universo mais em torno de nós, é ver como a hipocrisia e o vil cinismo são colocados ao serviço do mesmo de sempre, a vã cobiça do poder e do dinheiro.
Vale tudo e até tirar olhos pois a poeira atirada para os ditos no total desprezo pela inteligência dos outros, é uma inadmissível forma de cegueira.
A amizade e a facada nas costas convivem alegremente no baile da mentira e na dança pelos cadeirões do poder.
E enquanto for assim em ambas as escalas, pessoal e nacional, nem a comunidade nem a nação poderão alguma vez andar para a frente.
É que uma e outra existem apenas conceptualmente na república do faz de conta, a mesma do “cada um por si”. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As insuportáveis guerras do Soutien e das Truces

No sábado quando estava à mesa do jantar com duas amigas, uma delas conta uma façanha ao jeito de “MacGyver abre fechaduras do coração” e a outra desabafa:
- Isso é porque és mulher. Um homem não conseguia.
E por aí já iam tão lançadas que a determinada altura foi preciso interrompê-las e dizer:
- Meninas, eu não sabia que tinha vindo assistir a uma palestra do “Clube do Soutien”.
E lá se calaram.
Menos de 48 horas depois estou no Hospital de Santa Maria numa interminável fila para tirar uma senha para o café e não consigo evitar ouvir a conversa de duas senhoras atrás de mim:
- Ai filha lá me escapei agora 5 minutos da enfermaria… Aquele homem está insuportável.
- Oh filha são todos assim. Então quando estão doentes…
- É verdade. O que seria dos homens se não fossemos nós?
- Eu uma vez até disse à minha sogra: “morra descansada que eu tratarei bem da peste que você criou”.
Confesso que me fiquei por um olhar daqueles mortíferos que calam até os papagaios mais selvagens mas a minha vontade era gritar-lhes bem alto e aos ouvidos:
- É pssssté, acabou o Carnaval de Ovar.
E agora, eu que até estou nos antípodas da misoginia, que até sou um apreciador da auto-estima alheia e que não sou naturalmente machista sinto-me na obrigação de vir aqui apelar a que se dominem.
É que o feminismo é tão irritante e desprezível quanto o machismo.
Minhas amigas, é que o ovário pode estar em alta mas o testículo não morreu. Muito pelo contrário.
Lá por haver uma Merkel e um Pedro Passos Coelho, não generalizem por favor.
Nesta fase tão difícil para a humanidade, divisões sexistas, não obrigado.
Olha a malta agora entretida numa guerra de “Soutien e truces” e quando se desse conta nem subsidio de Natal nem de Férias…
E atentem que quando se sente muito esta necessidade do auto-elogio será porque há lá no fundo um “complexozinho” não muito bem resolvido. É que aquilo que é verdade não precisa de estar sempre a ser dito. Constata-se e já está.
Por isso, vamos unir-nos, pá…
Vocês são lindas, inteligentes e nós apreciamos imenso a vossa garra.
E quando pensarem que têm outros poderes extra e que com eles dominarão o mundo, pensem que esses super poderes só funcionam se os interlocutores forem sensíveis a eles.
E no meu caso não se safam mesmo.
You know what I mean.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma noite e quase Natal

O rádio do carro embala-me num prenúncio de Lisboa projectando em contínuo a voz de Amália.
“Não é desgraça ser pobre…”
E pobre não é por certo quem assim num fim de tarde de Dezembro tem o privilégio de “mergulhar” na cidade já envolta nas coloridas luzes semeadas pelo Natal.
Vai lento o carro até ao Camões atrasando-me esse decisivo encontro com o poeta mas oferecendo-me a possibilidade de desfrutar de cada detalhe do caminho, e como brilha ao longe o Castelo quando se espreita assim de São Pedro de Alcântara.
Chego finalmente.
E desço o Chiado…
Quando eu partir e os despojos do meu corpo cumprirem a minha suprema gratidão pelo campo alimentando as raízes de um sobreiro que tenha vista para Vila Viçosa, de poucas coisas sei que sentirei saudades, mas a descida do Chiado assim num fim de tarde de Natal, não tenho dúvidas, far-me-á muita falta.
Caminho por entre a gente, e num claro benefício dos anos que vão esticando a idade, raras vezes desço agora a Rua Garrett sem que os meus olhos se encontrem com outros reconhecidos pelos afectos, outros olhares entrelaçados na minha história.
Ricardo foi bom encontrar-te e trocar contigo aquelas palavras, embora breves.
Há imagens projectadas no Arco da Rua Augusta e nas paredes do Terreiro do Paço, e uma multidão aplaude o mais inédito “Circo de Natal” que se deixa embalar pela música bem lusitana dos Deolinda.
No escuro da praça de Lisboa que beija o Tejo, e onde o fumo do espectáculo casa com o dos carrinhos das castanhas, uma para mim anónima criança que até aí esteve de boca aberta a assistir ao espectáculo, pede aos pais para brincar com o corvo que apresenta o circo e saltita projectado entre as janelas dos ministérios.
Novos putos mas o mesmo sonho de sempre.
Está garantida a preservação da magia da cidade.
A noite assim pede amigos à mesa onde o tinto de Reguengos acende a partilha das histórias novas… ou as de sempre, mas sempre com esse objectivo nobre que é a libertação das gargalhadas que fazem a festa destes dias nascidos especiais, mais pela nossa vontade do que pela inevitabilidade oferecida pelo calendário.
E os afectos também se expõem na hora em que rasgamos os papéis de embrulho e os presentes se entregam à luz ténue do restaurante repleto de gente que se assemelha agora a uma Babel num rico e imenso cocktail de línguas, quando o ambiente já cheira a café e já se ensaia o regresso a casa por entre a a discussão de qual a rua melhor iluminada, se a da Prata, a Augusta ou a do Ouro.
Em breve será Natal, Lisboa, a perfeita Lisboa, está agora reflectida no retrovisor do meu carro enquanto a voz de Amália solta as inspiradas palavras de David Mourão Ferreira…
“Sempre e sempre amor…”
E eu sigo pelo sonho…


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Esse inquestionável valor que têm até as mais simples palavras

Há em Londres um nevoeiro mais cerrado do que o habitual e as regras de segurança e a prudência exigem que permaneçamos por mais três horas na Sala de Embarque do Aeroporto de Lisboa aguardando a devida autorização para voar.
Durante a espera, por ali fala-se Português mas com sotaque do Brasil, apercebendo-me que grande parte dos meus companheiros de viagem chegou das Terras de Vera Cruz e começou em Lisboa um longo percurso de férias pela Europa.
Mas ao meu lado está uma senhora Inglesa que por certo terá uma idade já algures na década dos setenta anos, a Julie, com quem acabo por encetar diálogo a partir da partilha de informações e da tradução daquilo que os funcionários da companhia aérea nos vão passando.
Diz-me que juntamente com o marido, tem uma casa na zona a que chama de “Silver Coast”, ali para os lados da Foz do Arelho, e que se divide entre Portugal e o Reino Unido. Aos poucos vai dando a sua interessante perspectiva de quem vê o país por dentro mas não deixando de ser um cidadão estrangeiro.
A Julie e o marido adoram Portugal e não só pelo clima, é sobretudo pelos Portugueses, que segundo ela são em geral simpáticos, afáveis, honestos e muito trabalhadores. Sentem-se bem por cá e confessa que a adaptação foi fácil exactamente pela simpatia e abertura dos “vizinhos”, uma gente que sabe receber.
Foi inevitável falarmos da crise financeira e confessei-lhe que passei de achar que o eurocepticismo dos Ingleses era irritante, para o considerar agora uma atitude muito sensata, tal o preço da factura que pagamos por esta “aventura” do Euro.
E achei interessante e lúcido o diagnóstico, quando ela me refere que Portugal tinha tudo para dar certo e ser um país de sucesso, mas que não o consegue pela orfandade política e pela ausência de verdadeiros líderes capazes de gerir os recursos e motivar as pessoas.
Entre os Brasileiros a discutirem trajectos no Metro de Londres e os poucos Portugueses entretidos com o programa da tarde da TVI, acabaram por passar três horas sem que nos déssemos conta disso.
O embarque está pronto a começar e uma funcionária aproxima-se da Julie e diz-lhe que pode avançar para o avião pois o marido acabou de embarcar. Ela explica-me então que durante aquele tempo em que estivemos à conversa, o marido esteve algures no aeroporto dentro de uma ambulância aguardando ordens para entrar no avião.
O inverno e a geada pregaram-lhes uma partida, e regressam agora a Londres para que o marido possa ter acesso às consultas de ortopedia e corrija uma fractura da perna cujo tratamento envolve algum risco pelo enquadramento cardiovascular algo complicado.
A Julie avança para o avião não sem antes me estender a mão para uma despedida, agradecendo-me a conversa que a distraiu e a fez sorrir num tempo complicado em que esteve forçosamente afastada do marido.
Uma conversa aparentemente banal e de circunstância.
Já em Londres, a chegada tardia impõe-me um passeio pelas redondezas do hotel em busca de algo quente que me mate a fome e me conforte no resfriado. Caminho por entre a gente que pára e admira as luzes que o Natal pendurou do céu da cidade.
Está um frio terrível mas já não há nevoeiro.
Penso na Julie e na nossa conversa, e penso como são valiosas todas as palavras que transmitimos aos outros num contexto de afecto, mesmo aquelas que têm a aparência da banalidade.
Nunca saberemos se um simples “olá” tem o valor do ouro, por ser a primeira palavra que alguém ouviu nesse dia.
E sigo então já na companhia de um chocolate quente, o que de mais quente descobri para me aquecer na noite fria de Londres.
As luzes estão bonitas e eu sorrio.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Reajustes à moda do Natal

Quando nós queremos muito até o que há de mais negativo pode ganhar um sentido positivo e útil à nossa existência.
É a doce perspectiva do optimista que não é forçosamente um louco e irresponsável por assumir esta atitude.
E o contrário também se verifica, com o maior prazer a poder virar um grande problema na antecâmara da mais profunda depressão.
Assim, eu cidadão optimista me confesso, já não tenho a mínima paciência para as pessoas que se referem ao Natal como sendo o maior problema do século: ele é porque têm de comprar presentes e as lojas estão cheias de gente e está tudo demasiado caro, porque há intermináveis filas na compra do bolo-rei, das broas castelares e das filhós nas pastelarias da moda, é a logística desse improvável “casamento” de pais com sogros, são os litígios familiares que se foram acumulando ao longo do ano e que poderão ser explosivos quando todos se sentarem para a consoada, é a indecisão sobre a missa a que vão por causa das comidas e das bebidas, é a hora a que os cabeleireiros fecham na véspera de Natal, são os lutos sobrepostos às árvores de Natal e aos presépios, é a batata palha para acompanhar o peru, é o preço do bacalhau e do polvo que estão pela hora da morte, é o homem das couves que este ano já disse que a geada lhe comeu as folhas, são os dias de férias e essa incerteza de ir ou ficar…
Por favor, relaxem, façam o que vos der na real gana e o que o corpo e a alma vos pedirem, e vão ver se o Natal não vira uma época especial.
E já agora… reajustem o Natal.
Explico.
A minha mãe resolveu preparar o macro presépio de Vila Viçosa antes do dia de Nossa Senhora da Conceição, como sempre no canto mais nobre da sala e por debaixo do pinheiro artificial devidamente enfeitado de fitas coloridas e luzes.
Do alto dos seus super puros 6 anos, o meu sobrinho Luís adorou o presépio e a melhor forma de o demonstrar foi a interacção que estabeleceu com o mesmo.
Retirou a casinha de madeira e modernizou-a fazendo com que o burro e a vaca passassem a partilhar o espaço com o Faísca McQueen, utilizou a ponte de barro como elemento para completar a sua pista da Hot Wheels, trouxe o lago artificial de papel, com a respectiva lavadeira, para o centro da casa como elemento que humanizou a dita pista, colocou o Menino Jesus em interacção com o i-Pad que aqui o tio sempre lhe empresta, e remexeu todas as figuras fazendo-as interagir umas com as outras, de tal forma que até um dos magos parecia estar à conversa com o pastor.
Mas antes de tudo, o primeiro comentário que fez foi de que faltava a estrela do cimo da árvore, e lá lhe tivemos de explicar que a avó é baixinha e que está “proibida” de se andar a empoleirar em escadotes para não se pôr demasiado à mercê da osteoporose.
E fomos nós colocar a dita estrela.
Ah grande Luís.
É assim mesmo.
Experimentem vocês a colocar a estrela no vosso Natal, “enfiem-se” pelo presépio dentro e puxem o Menino Jesus cá para fora para o centro das vossas vidas.
Vão ver se tudo o resto não ganha o definitivo estatuto de ridículo e desprezível, e o Natal volta a ser aquilo que é e que deve continuar a ser: um tempo para sermos felizes.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estas poderosas vozes dos simples

A procissão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição iria passar daí a pouco na celebração do dia 8 de Dezembro. Já tínhamos pendurado a nossa melhor colcha na janela de ferro forjado e sentíamos a azáfama das pessoas que se dispunham de um lado e outro da estrada.
De repente e quando já não circulavam carros, pára uma carrinha de transporte de peixe e dois homens saltam dela munidos de flores para num tempo recorde desenharem e construírem um tapete sobre a estrada.
Um deles vai tirando as flores da carrinha e o outro vai dispondo cada uma delas como traço da sua obra de arte.
Alguém ousa fazer a pergunta que a todos acudia:
- O que é que o senhor está a preparar? E porquê?
A resposta do homem não se fez esperar mesmo sem interromper por segundos que fosse, o seu trabalho:
- Louvo a Deus e agradeço-Lhe pelas maravilhas que tem oferecido à minha vida.
E depois de terem desenhado um crucifixo, os homens montaram-se na carrinha e desapareceram.
A procissão começou a passar daí a pouco e os Homens dispostos nessa estranha hierarquia de condes, duques e duquesas que a Igreja estranhamente reconhece numa escala de importância que viola na essência a grandeza da criação que nos faz iguais aos olhos de Deus; pisam a cruz do louvor simples do homem do peixe.
Também eu não pretendo ser juiz do alto da minha janela e da minha pequenez, sei que não posso faze-lo, mas acredito que na tarde fria mas solarenga de um Dezembro que breve se converterá em inverno, as pétalas daquelas flores foram Ave-Marias mais velozes a chegar ao Céu do que aquelas outras que foram desfiadas em contas de finas pérolas pelas mãos adornadas de jóias dos que são Senhores pela hierarquia dos Homens e do poder.
O maior de todos é sempre o mais simples.
Já tinha caído a noite e os carros tinham voltado a passar na estrada frente à nossa casa, a temperatura tinha descido aos seis graus nesse instante em que me montei no carro para viajar para Lisboa.
Deitei um último olhar ao já quase desfeito crucifixo de flores. Mantinha intactas algumas das orquídeas.
As preces e os louvores dos simples “gritam” e sobrevivem por sobre todo o canto sofisticado da vaidade dos Homens.
E assim, um peixeiro de quem nem sequer sei o nome se fez o meu mestre no dia maior e de mais festa na minha terra.
Lições improváveis numa tarde fria ou apenas Deus a falar pelas mãos dos que mais ama.