terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013

Os últimos dias do ano são propícios a balanços, e aqui pelo Pomar das Laranjeiras é tempo de cumprir uma tradição avaliando as “laranjas” da colheita de 2013, classificando-as pelos seus justos atributos:

LARANJA DOCE – A Constituição da República Portuguesa
Um país está sempre acima de quem o lidera numa determinada altura ou circunstância e a essência, o código genético da nação, está inscrita na lei magna: a Constituição.
O assalto “pornográfico” feito ao país com o patrocínio da Troika e que fere demasiadas vezes a nossa autonomia tem em algumas situações esbarrado no juízo do Tribunal Constitucional, instituição que deve assegurar o respeito pela lei magna e que no presente tem cumprido a mesma função que antes tinham as muralhas quando os Filipes chegaram de Castela para nos “ferir” a liberdade.
Valha-nos a Constituição.
E os políticos que “cospem” na Constituição em miseráveis declarações comprovam não ter nível para estar à frente das instituições do Estado.

LARANJA AMARGA – A “irrevogável mediocridade do ser”
Um Ministro que sai porque entre outras coisas tem uma licenciatura pouco credível, uma demissão surpresa do intocável e todo-poderoso Ministro das Finanças e a sua sucessão assegurada por uma mestra em contratos SWOP que comprovam a má gestão das empresas públicas, uma “irrevogável” demissão de um Ministro que depois da “birra” é promovido a Vice-Primeiro-Ministro, a sempre presente sombra do BPN, Secretários de Estado que “duram” semanas...
Serão necessárias mais provas para atestar a incompetência que sendo herdeira de outra incompetência nos coloca num ciclo de desespero e miséria. Nada acontece por acaso.
Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, tudo demasiado amargo.
  
LARANJA SUMARENTA – O abraço dos Papas
Bento XVI apresenta uma inédita renúncia que o coloca na condição de Emérito e cede o trono a Francisco, o Papa que chegou de um lugar mais distante do que qualquer outro Papa.
Renova-se a esperança numa Igreja que terá de estar mais próxima das pessoas e ser mais interventiva em tudo o que às pessoas diz respeito.
Sem tabus, espera-se muito sumo doce para os tempos mais próximos.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Jorge Jesus
A super desenvolvida auto-estima do treinador do Benfica tem pouca tradução em vitórias para a sua que é também a minha equipa.
Pago a preço de sumo natural, é efectivamente uma imitação artificial e gasosa que há muito perdeu o gás.
Palavras e promessas à parte, “limpinho, limpinho” só mesmo os desaires… mesmo que no último minuto.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Os heróis do fogo
Ana Rita Pereira, António Nuno Ferreira, Bernardo Figueiredo, Bernardo Cardoso, Cátia Dias, Daniel Falcão, Fernando Reis, João Pedro Mendes, Joaquim Mendes, Nivalda Lemos e Pedro Rodrigues.
Ainda há heróis, Homens que oferecem a vida para defender vidas e haveres dos seus semelhantes.
Os burocratas de gabinete ainda discutem as “culpas” pelo impacto dos fogos do verão de 2013, mas os heróis têm nome.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
Já não tem sumo nem palavras, sendo actualmente uma patética figura completamente alheada da difícil situação em que o país se encontra.
Em plena crise política foi dormir às Selvagens.
Simbólico. Nunca está onde deveria estar.

LARANJA MECÂNICA – “Os Ex-qualquer coisa”
Em Portugal sempre se falou melhor do que alguma vez se agiu, e talvez por isso, qualquer indivíduo que tenha passado pelo poder habilita-se a ter lugar de comentador num televisão nacional com tempo de antena para com sapiência tratar de todos os assuntos do Estado.
Até José Sócrates tem assento na RTP e fala ligeiro sobre todos os problemas do país.
De vómito.

VITAMINA C – Rui Costa
Com os pontapés de ouro do Cristiano Ronaldo vamos até ao Mundial de Futebol do Brasil, mas Campeões do Mundo só no Ciclismo pela arte e mérito do nosso compatriota e grande Rui Costa, Rei em Florença depois de ter passeado toda a sua classe pela Volta a França coleccionando vitórias em etapas.

LARANJA PÔDRE – A Agonia do Estado Social
Em dias alternados, a Troika diz que não pode aplicar mais austeridade e manda implementar novas medidas.
Por cá não há quem saiba dizer não e as ambulâncias de emergência falham nos lugares dos acidentes, os bombeiros morrem nos incêndios, as arcadas do Terreiro do Paço são camaratas…

LARANJA CALIPOLENSE – Marmoris Hotel
Podendo discutir-se alguns detalhes da decoração, o certo é que Vila viçosa tem a partir deste ano uma unidade hoteleira de cinco estrelas e com muita qualidade.
Aprecio que o hotel tenha ido buscar o Mármore, a maior riqueza da região depois das pessoas, para a sua identidade como marca.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2013 deixa para sempre a saudade de Nelson Mandela, James Gandolfini, Bigas Luna, Georges Moustaki, Lou Reed, Peter O’Toole, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso e António Ramos Rosa, o poeta que um dia escreveu:
“Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto”.

Da banda sonora de 2013 escolho o fado nas fantásticas vozes de Ana Moura e de Ricardo Ribeiro, este último com o seu álbum “Largo da Memória”.

domingo, 29 de dezembro de 2013

À mesa com a minha geração

O hotel Solar dos Mascarenhas abriu ontem o restaurante exclusivamente para nós, estendendo-nos uma mesa onde muito comodamente nos sentámos os dezanove.
Depois dos inevitáveis beijos e abraços iniciais, a conversa fluiu solta por muitos temas:
- “Quantos anos te faltam…” ou “Há quantos anos fizeste os cinquenta anos?”. Não há dúvidas, entre uns e outros e numa boa média, estava ali à mesa a face humana de meio século de história de Vila Viçosa. E quanto charme…
- “Vamos ver quem consegue rir mais”. E é sempre difícil eleger o vencedor. Conhecemos demasiado bem os pontos fracos uns dos outros e temos décadas de histórias e cumplicidades tantas vezes no território das asneiras. E então quando puxámos pelas fotos da juventude…
- “O rosário das memórias”. São tantas e tão boas que nunca nos esquecemos de as revisitar. E aqueles teatros que nós fazíamos na catequese por alturas do Natal?
- “Os nossos filhos”. Eu não os tenho, mas contas por alto e daquela mesa já nasceram dezoito rebentos, o que garante uma continuidade destes afectos e desta amizade. E os nossos sonhos projectam-se nessa geração que vem a seguir.
- “Por onde tens andado”. É que não somos de estar quietos e entre vida e profissão procuramos sempre ser melhores e ir mais longe. E o que todos gostamos de viajar…
- “Já compraste uma Bimby?”. E o impacto desta questão é quase uma guerra semelhante à dos adeptos da Madalena e da Simone na época do nacional cançonetismo. E os adeptos do “sim” fazem tudo na Bimby, até rissóis. E então e as sopas?
- “Boletim Clínico”. A dobragem dos quarenta é terrível e já conseguimos partilhar coisas como a Hipertensão Arterial, a Hipercolesterolemia, a Diabetes, o Reumatismo, etc. Mas até das doenças falamos a rir e até admitimos que de aqui a vinte anos, quando nos juntarmos, em vez de falar das vantagens da Bimby, por certo enalteceremos as vantagens do Lindor Ausonia ou do Corega para as dentaduras…
- “What happened to João Paulo Silva”. Era o vigésimo e faltou, daí esta menção ao estilo de vingança.
E falámos mais por entre o Creme de Abóbora, a Empada de Caça e o Sericá com ou sem ameixa…
Dos trabalhos, dos cortes no Orçamento de Estado, da política, das pinturas e das escritas, dos quadros da Tina, das rifas dos escuteiros que todos tivemos de comprar, de mortes e desgraças que ocorreram ao longo do ano, dos salmos que havia para cantar, dos bolos com ovos-moles feitos em Águeda, dos anti-oxidantes, dos cortes de cabelo, das gracinhas feitas pelos filhos e sobrinhos, das paixões e dos amores, das compras em Badajoz, dos que não estavam ali presentes e que gostássemos que estivessem, de petiscos, do vinho, da boa vida, dos passeios que temos de organizar para os próximos fins-de-semana…
E houve momentos em que falámos pouco e em que apenas saboreámos o prazer de estar juntos porque tudo o que se diz e o que se sente são tão-só detalhes da amizade eterna que nos une.
Elas, as “Flores da Callípole”, lindas de morrer e com cores de cabelo que nada têm que ver com o tom com que nasceram, e nós, os charmosos e bravos “Don Juan’s do Carrascal” (da senda dos heróis da quarta dinastia), saboreando um presente fantástico e não descurando nunca o futuro que sem qualquer um de nós não teria a mesma graça.
Para o ano cá estaremos!

sábado, 28 de dezembro de 2013

E ainda Natal…

Conheço de cor todos os caminhos, os recantos, as curvas da estrada, as pedras que aqui e ali convidam a repousar um pouco e a acariciar a terra entregando-lhe directamente as mãos. A intimidade e a sensualidade da pele e da terra ou o privilégio de um amor único para quem como eu é assim do campo.
As paredes das velhas casas caiadas de branco preservam todas as memórias e reflectem os rostos de tantos, e sobretudo dos mestres dos meus afectos, fazendo ressoar o riso, as palavras, e até o eco dos beijos, das carícias e dos abraços.
E tantas vezes se torna inevitável a saudade.
Cada esquina encerra uma história boa ou má, mas todas boas e indutoras de vida assim à distância de décadas. É impossível conter os sorrisos quando o pensamento se entrega sem pudor a todas as lembranças e quando às vezes sem destino, deixo que os meus passos me levem embalado pela mais doce liberdade.
Que aqui, minha alva terra beijada pelo sol, apenas importa serem estas pedras o meu caminho, ser este o ar que eu respiro, e muito pouco ou quase nada importa para onde eu vou.
As árvores, em especial essas doces mães das laranjas, são nossas irmãs e velhas cúmplices de todas as palavras, oferecendo a sua copa como um eterno abrigo, guardiãs fiéis de tantas conversas temperadas ao ritmo da vida, com o riso ou com as lágrimas… que muitas vezes também são elas próprias de alegria, ou não fossem as lágrimas a mais fiel expressão da mais profunda alma da gente.
Os amigos nunca morrem…
São eternos, crescem e envelhecem connosco ao sabor dos momentos que vamos partilhando no gozo dos benefícios que sabemos colher dos dias na festa despudorada de estar olhos nos olhos.
Os amigos, hoje ao redor de uma bica como antes à volta de uma qualquer brincadeira simples ensinada pelos nossos avós.
Estes são os dias tranquilos que nos fazem sentir senhores e donos do tempo, aqui onde nada mais corre para lá das fontes, onde os sinos repicam a fé a cada quarto das horas, no encontro das memórias que são raízes profundas do melhor de nós, no presente de tudo e de todos os amores… e no futuro que nos fará sempre saber e querer voltar.
Vila Viçosa.
E ainda Natal…

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Foi Natal…

E pronto… foi Natal.
Se é que para tal existem dias específicos.
O certo é que a pretexto de celebrar o nascimento de Cristo, nos reunimos em família à volta da mesa aquecida pela braseira para aí comermos o bacalhau com couves, o peru assado, a carne do alguidar temperada com pimentão vermelho, as filhós, as azevias, os nógados, o chocolate quente (infelizmente tivemos de inventar pois já não encontrámos a habitual mistura da Pérola Calipolense) e um bom tinto da nossa vizinha Adega de Borba; conversámos muito e voltámos a lembrar as histórias de outros Natais com a minha mãe a recordar aquele de há muitos anos em que recebeu uma boneca de cartão demasiado estática porque tinha as pernas coladas, e de como ficou triste com o facto; abrimos os presentes junto ao presépio mas só depois de o meu sobrinho João me ter perguntado se nas minhas conversas muito próximas com o Pai Natal eu tinha conseguido saber se todos os desejos da sua carta tinham sido satisfeitos, e que alegria quando descobriu que o microscópio até trazia em anexo um mostruário com pêlos de vários animais para ele lhe conhecer e diferenciar a textura…
Eu juntei mais quatro presépios para a minha colecção.
Voltei a Vila Viçosa, a minha eterna “casa”, beneficiando do conforto dos amigos que por aqui estão sempre à distância de poucos passos para uma boa conversa de um par de horas daquelas que permitem a actualização do “ficheiro dos amigos”…ou então apenas para um café…
Apesar da chuva e do frio, ou não fosse assim o Dezembro no Alentejo, não nos quedámos em casa e fomos até ao Castelo para a missa de Natal na Igreja da Senhora da Conceição. O dia pedia o capote e com ele fomos beijar o menino Jesus. O padre disse na homilia que o Verbo deveria ter encarnado em Extraterrestres, tal a ingratidão dos Homens para com Jesus de Nazaré, mas nós desculpamo-lo pois com este frio qualquer um perde a inspiração. No entanto, depois de termos apanhado tanto frio para chegar à missa, esta conversa…
Fiz embrulhos, quebrei a dieta que a minha Diabetes impõe, vi a “Música no Coração”, recebi e enviei dezenas de mensagens escritas, visitei tias, tios, primos e amigos, coloquei no carro o meu CD favorito com músicas de Natal (Do they know it’s Christmas, Last Christmas, etc), escrevi um conto e um poema de Natal…
E ofereci agora a mim próprio este prolongar da estadia no Alentejo para que desde aqui e até 2014 possa consumir todas as iguarias que entre o frigorífico e a mesa nos enchem a casa, numa directa “trasfega” para o peso que a balança não nega.
Foi, definitivamente, Natal.
Não é que não seja Natal todos os dias, poderá sê-lo, mas na azáfama em que andamos é mesmo necessário que o calendário (da fé ou tão-só o calendário civil) nos empurre para estes dias em que os afectos andam à solta nas mensagens, nas conversas, em tudo e até nas azevias… e o amor celebra-se sem o pudor que muitas vezes o coloca nos territórios da pieguice.
Por mim continua a ser a época do ano que eu mais gosto de viver…
E duvido que qualquer extraterrestre pudesse celebrar o Natal melhor do que eu.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Um conto de Natal

Era uma vez um homem que não sabia o que era o Natal.
A sorte não tinha sido definitivamente sua mãe, e madrasta, há muito o deixara sozinho num monte de onde avistava a planície e a vila mas onde nunca ninguém chegava para conversar com ele.
Triste, habituara-se a viver assim no convívio com os seus próprios pensamentos, muito mais do que com as palavras, nada fazendo para mudar esta situação
E mais triste se sentia por alturas de Dezembro quando as luzes da vila duplicavam o seu brilho na noite. Afinal, ele não sabia o que era o Natal.
Enquanto dormia a sono solto numa noite de quase Natal, apareceu-lhe em sonhos um anjo que lhe disse:
- Vou ensinar-te o que é o Natal mas para isso tens de cumprir três missões. Aceitas?
E o homem triste conseguiu sorrir quando sem qualquer receio disse logo que sim.
Disse-lhe então o anjo:
- A primeira missão é muito simples. Amanhã é véspera de Natal e quando fores à vila para comprar o pão e os restantes alimentos, vais ter de fazer o caminho a assobiar e vais ter de responder com um sorriso e cumprimentar com um “bom dia” a todos os que te saudarem.
Pareceu-lhe fácil.
- Na segunda missão vais ter de apertar a mão no cumprimento e na despedida ao homem da mercearia.
Pareceu-lhe ainda mais fácil.
- E na terceira vais comprar uma caixa de chocolates que entregarás mais tarde ao vizinho do monte ao lado do teu dizendo-lhe que são para os seus filhos pequenos.
Também não lhe pareceu difícil.
- Aceitas?
E o homem disse logo que sim, e o anjo prometeu voltar no dia seguinte para lhe dizer finalmente o que era o Natal.
Quando se despertou no dia a seguir, o homem começou logo a ensaiar o assobio e foi vê-lo com afinco a cumprir todas as missões que o anjo lhe tinha pedido e ele de forma tão entusiasmada tinha aceitado.
Sentiu-se surpreendentemente bem nas suas tarefas e nesta onda de simpatia, sorrisos e música de assobio, até conseguiu fazer uma festa ao cão do vizinho que sempre tratava com antipatia sempre que ele se aproximava para o saudar algures no seu percurso de e para a vila.
Depois de ter chegado a casa, desejou ansiosamente que fosse noite para se deitar e para que o anjo pudesse finalmente voltar e dizer-lhe o que era o Natal.
Foi a correr para a cama e deixou-se adormecer embalado por essa esperança.
Mas nada.
Ao acordar pelo canto do galo que morava no galinheiro mais próximo, ficou triste quando se apercebeu que o anjo faltara ao prometido e não tinha vindo ter com ele.
E ele que tinha cumprido as suas missões com tanto afinco continuava sem saber o que era o Natal.
Nesta tristeza estava quando já pelo meio da manhã lhe bateram à porta do monte.
Foi abrir e reparou com os dois filhos do vizinho do monte ao lado que lhe sorriam e lhe ofereceram um prato enorme cheio de filhós das melhores e mais vistosas que ele alguma vez tinha visto.
Em nome dos pais convidaram-no para almoçar nesse dia em casa deles.
E o homem foi. E lá, ao redor da lareira onde as palavras substituíram e dominaram os seus pensamentos, aprendeu finalmente o que era o Natal.
Afinal de contas, os anjos nunca faltam ao prometido e chegam mais vezes batendo à porta do que pelos sonhos.
E o Natal…
É receber de volta o afecto que sabemos dar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Dia dos Maridos ou o Dia do Regresso a Casa

Há uma última compra a fazer no Oeiras Parque. Simpática, a funcionária ajuda-me nessa sempre difícil escolha dos modelos e dos tamanhos de roupa.
A loja está demasiado calma em oposição ao caos instalado no hipermercado e eu comento isso com a funcionária.
Responde-me ela:
- Claro, hoje e amanhã, véspera de Natal, são os “Dias dos Maridos”.
E explica:
- Todas as restantes compras estão feitas e só os maridos têm pendente o presente para as respectivas mulheres. Nunca sabem o que lhes oferecer mas também não podem deixar a árvore sem um embrulho com o nome delas.
Meu Deus, ao que chegou o romantismo neste país.
Não estranho pois os lamentos do George Michael que escuto no carro quando no seu “Last Christmas” lamenta os desamores do último Natal e diz que este ano e para evitar as lágrimas vai dar o amor a alguém muito especial.
Condiz.
E de infinitas lágrimas de chuva e nevoeiro está cheia Lisboa quando passo a ponte em direcção a Almada, parecendo inacreditável que poucos quilómetros à frente, o sol brilhe quando passo pela Marateca e entro no Alentejo.
No Alentejo, nunca nos falha o sol.
Após atravessar infinitas pedreiras de mármore, em breve chego a casa nesse instante em que os muros caiados de branco por onde espreitam oliveiras centenárias me conduzem até à curva da Porta da Vila por onde vislumbro o Castelo e onde a Igreja da Senhora da Conceição sempre me “impõe” o sinal da cruz e uma Ave-Maria.
O momento alto vem a seguir nesse beijo e nesse abraço à mãe e ao pai que me esperam ao redor de uma fumegante e inesquecível Sopa de Tomate com todos os aromas do Alentejo, servida na mesa onde a braseira dá um fantástico toque de aconchego.
É Natal.
Está montado o presépio e na imediação já há filhós enroladas, azevias de grão e de chila, os rolos da massa dos nógados que estão fritos e aguardam o mel…
Dia dos maridos?
Talvez, mas nunca serão as compras a definir o Natal e o amor inerente à época do ano que mais gosto me dá viver.
Para mim, o melhor Natal e o melhor do Natal será sempre este regresso a casa.
E que muito tarde me falhem estes beijos.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A mulher que perfuma o Natal com incenso e a poetisa que vende versos avulso

A manhã de um intenso sol convida-me de forma irresistível a ir até ao Chiado para as derradeiras compras de Natal.
Deixo o carro no Camões, bebo um café na Brasileira e chego aos Mártires a tempo da missa com horário mais estranho da cidade, treze horas e vinte minutos.
“Vai nascer um Salvador”.
Fala-se explicitamente de Natal e pelo Natal me deixo embalar até Centro Comercial do Chiado. Uma última incursão na FNAC seguida de uma entrada Natura onde selecciono os artigos que quero comprar e me dirijo à caixa.
Reparo que imediatamente atrás de mim na fila para pagamento está uma senhora cuja idade por certo já ultrapassou ou setenta anos, e chegada a minha vez, e porque na mão tem apenas dois pequenos objectos, sugiro-lhe que me ultrapasse pois vou supostamente demorar mais tempo com os pagamentos e os embrulhos.
A senhora agradece, sorri e deixa-se ficar no mesmo sítio respondendo-me:
- Excesso de tempo é o meu problema.
É a minha vez de lhe sorrir e enquanto a funcionária toma os meus artigos e inicia o processo de pagamento, a minha vizinha de fila esclarece:
- O que tenho mais próximo da vivência do Natal é circular por aqui nestes dias em que as pessoas compram os presentes que eu não tenho de comprar por carência de destinatários.
E continua:
- Vim comprar duas caixas com incensos para aromatizar a casa.
Pago, pego nos meus sacos e ouso estender-lhe a mão desejando-lhe um resto de dia feliz, já que o Natal…
Saio do Centro Comercial e dirijo-me ao Camões quando por volta da Brasileira e enquanto os turistas se sentam e tiram fotos na estátua de Pessoa, se dirige a mim uma senhora com um monte de folhas e me diz:
- O senhor não me quer comprar um poema?
Respondo-lhe com uma pergunta pensando que estará por ali a vender poemas impressos do Fernando Pessoa:
- Que poemas?
- Poemas que eu faço e vendo para sobreviver.
- E quanto custam os seus poemas?
- O que o senhor quiser dar.
- Mas quem sou eu para atribuir valor monetário à sua poesia?
A minha pergunta surpreende-a e eu acabo por lhe comprar um poema que não faço a mínima ideia se é da autoria dela ou não, e se esta será mais uma maneira airosa de conseguir uma moeda aos transeuntes aqui nos vértices deste triangulo de poetas: Camões, Pessoa e Chiado.
Entro no carro, desço a Rua do Alecrim e sigo pela Avenida 24 de Julho e depois pela Avenida da Índia, não resistindo a saborear o sol de um quase fim de tarde em claro namoro com o Tejo, um sol cujos raios me impedem de ver os detalhes da gente que corre e brinca, e das árvores, que são assim apenas sombras que ladeiam o meu caminho.
Mas há algures nesta cidade uma mulher que por cima da maior solidão aromatiza o seu Natal com incensos exóticos, talvez porque a poesia do Natal, e em geral da vida, anda a ser vendida a preço de “esmola” nas esquinas da própria cidade.
Nasceu um Salvador.
Mas parece que os Homens não souberam mesmo aproveitar esse facto.