sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

As magníficas previsões astrológicas do Professor Karambola

Quase com a mesma notoriedade das passas de uva, dos foguetes e restante fogo-de-artifício, do champanhe, da roupa interior de cor azul, dos programas do Herman José, do final de “A casa dos Segredos”, das mensagens que bloqueiam as redes telefónicas móveis, dos votos de felicidade e dos propósitos de deixar de fumar anunciados ao mundo no Facebook, dos pés direitos em cima de uma cadeira ou de um sofá… não há fim de ano que se preze que não beneficie das previsões astrológicas e afins, a antevisão do futuro feita por bruxos, adivinhos e pessoas com pactos mais ou menos formados com o além.
A malta lê e ouve estas criaturas com toda a atenção pois é demasiado apelativo este saber por antecipação todas as ocorrências de um ano que começa, sem se lembrar de no final do período de 365 dias confirmar da veracidade de tais prognósticos.
Já só se pensa no futuro.
Aposto também que muitos dos prognósticos baterão certos pois bruxo que é bruxo… e pretende continuar a ser bruxo de sucesso, defende-se e joga muito pelo seguro.
Por exemplo, se eu disser que em 2014…
O Passos Coelho perderá as Eleições Europeias, o custo de vida e os impostos irão aumentar em Portugal, o Paulo Portas vai fazer uma birra sobre qualquer coisa e anunciará três vezes a ruptura “irrevogável” com Passos Coelho, o verão terá dias muito quentes, os dias começarão a arrefecer lá para o mês de Outubro, irá ocorrer uma grande catástrofe algures no planeta que bem poderá ser um sismo, o Cristiano Ronaldo vai marcar um golo no Mundial de Futebol, o Futebol Clube do Porto será Campeão Nacional e o Jorge Jesus será despedido do Benfica até final da época, a Bárbara Guimarães vai reencontrar o amor, a Marta Leite de Castro vai mudar de namorado, a Lili Caneças irá submeter-se a uma nova cirurgia plástica, um autarca Português vai ser condenado por corrupção, uma figura pública vai ser apanhada a conduzir com excesso de álcool no sangue, o Presidente da República cometerá uma gafe em público e trocará os nomes de dois ministros e o Expresso fará mais dez manchetes em torno do caso BPN, o José Sócrates fará cinquenta intervenções públicas sobre o chumbo do PEC IV, haverá cinco remodelações ministeriais envolvendo ministros e secretários de estado, na “Casa dos Segredos” vai aparecer um homem com dois pénis e uma mulher sem vagina, a Alexandra Solnado e a filha do Eusébio vão montar juntas um negócio de consultoria espiritual na Amadora numa loja do Centro Comercial Babilónia, um segurança de uma discoteca da Póvoa de Varzim fará uma circuncisão em directo e sem anestesia no programa da Júlia Pinheiro ou do Manuel Luís Goucha…
… Tenho uma elevadíssima probabilidade de acertar na grande maioria das previsões e venha de lá a Maya para me fazer sombra numa carreira de vidente enriquecida por designações como Professor Katano, Professor Karambola ou Mestre Kizodu, com a vantagem acrescida de um ordenado “limpinho” e sem a intromissão da terrível mão do fisco.
Mas descansem que não o irei fazer.
E nem sequer vou perder tempo a ler as previsões dos bruxos e dos videntes para 2014.
É que viver bem já custa tanto e consome tanto tempo, que perder esse tempo com estas autênticas parvoíces, não faz mesmo qualquer sentido.
Sabemos que há factores externos que não controlamos mas eu acredito que em grande parte, a sorte beneficia mais quem a faz do que quem a espera passiva e calmamente por benefício dos astros.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

“Para trás, ancião” e... viva o Ano Novo

Se eu entrei com garra no novo ano de 2014, ao meu lado em plena Plaza Mayor de Salamanca, uma Senhora Castelhana entrou com muito mais vontade do que eu, porque se é suposto ter na mão doze bagos de uva para pedir a concretização de um desejo por cada uma das badaladas da meia-noite, ela com um cartuxo que teria cerca de um quilo de uvas manifestava uma fé inabalável, muito maior do que a minha que verdadeiramente não acredito nesses processos de sorte e azar, e entreguei ambas as mãos ao calor dos bolsos do sobretudo, o que foi uma real e objectiva sorte, tal o frio que então fazia por ali.
Mas a fé expressa-se mais pela atitude com que se enfrenta o primeiro amanhecer do ano do que no excessivamente passivo peso de uvas com que se passa a meia-noite…
E debaixo de nevoeiro e chuva, cedo e com muita energia regressei a casa com ganas de pôr tudo em ordem para um efectivo e activo regresso ao trabalho depois de uma semana de férias em que ofereci a mim próprio um regime de “Dormir, Comer, Mimos da Mamã… e não querer saber de mais nada”.
Entre papéis, roupas, vincar das calças, engraxar dos sapatos, acerto do relógio despertador, re-decoração da casa para inclusão dos presentes recebidos, nem sequer faltou a preparação de um macro jantar de ano novo com umas almôndegas recheadas que estavam um “estalo” e que acabaram por funcionar como um verdadeiro anti-depressivo na hora em que Sua Excelência me entrou pelo televisor à hora em que me refastelava para as ingerir por entre os goles de um bom tinto.
Que sina desgraçada esta, a de ter semelhante gente à hora de jantar em Dia de Natal ou de Ano Novo…
Saúdo no entanto a RTP pela oportunidade na venda dos espaços publicitários pois o anúncio que mais vezes passou antes e depois da comunicação do Presidente da República foi o do “Memofante”, um produto anunciado como sendo detentor de propriedades que melhoram as capacidades cognitivas e de memória.
Produto oportuno sobretudo pelo conteúdo de esperança da mensagem do senhor com quem eu de bom grado partilharia a informação constante no meu recibo de ordenado, eu que até sou um privilegiado pelo facto de ainda ter recibo de ordenado.
Esperança?
Apenas me ocorre utilizar as palavras da enormíssima actriz Maria Matos quando no filme “O Costa do Castelo” que revi este Natal, afirma com um ar altivo:
- Para trás, ancião!
E sigo eu a minha preparação de ano novo pegando na nova agenda que este ano escolhi com o tema “Almada Negreiros”, e que tem as semanas “temperadas” com as imagens e as palavras deste inesquecível homem de cultura.
Antes de chegar à Semana Um, a capa do “Manifesto Anti-Dantas” pelo “Poeta D’Orpheu, futurista e tudo”, e a capa de “K4 – O Quadrado Azul”, um folheto com apenas um parágrafo de vinte páginas que é uma sátira social que gira em torno de dois personagens em decadência: o Marquês e a Marquesa.
O texto tem quase um século pois é de 1917!
E por falar em decadência talvez como nunca se sinta a necessidade expressa na afirmação de K4: “Invente-se a máquina de reproduzir o cérebro! industrialize-se o génio!".
Daria jeito…
Mas enquanto isso não acontece, e porque definitivamente as uvas não dão sorte mesmo que tomadas aos quilos, não deixemos os créditos por mãos alheias e venham de lá os 364 dias que faltam de 2014 para que de garra e pela poesia das palavras, das cores e de tudo… possamos criar momentos únicos no contexto da nossa história.
Sem adiar nada e muito menos os sonhos.
É que o tempo não perdoa e voa demasiado veloz.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014 – Com a força de um recomeço

É ano novo…
Breve detalhe do calendário, que o tempo novo fazemo-lo sempre nós olhando os dias com energia, força, querer e fé.
Mas aproveitemos a inspiração do calendário e temperemos esta manhã com a convicção de um recomeço no propósito de um tempo novo e muito melhor.
Assim…
Não travemos jamais os abraços, não matemos o impulso de um beijo, não calemos as palavras todas que a alma nos imponha aos lábios e aos olhares, não esmaguemos os sorrisos… ou as revoltas, não privemos os outros do calor das nossas mãos, não deixemos órfão um pôr-do-sol, não deixemos vazio o areal que nos peça a marca dos passos lado a lado, não façamos rimar os sonhos com “impossível”, não deixemos que uma lareira arda sozinha sem que sobre o crepitar da lenha pronunciemos “amor” olhando nos olhos a quem amamos…
E vivamos cada segundo com a intensidade que ele merece.
Afinal, no detalhe de um segundo se ganha ou se perde toda uma vida.
Às vezes é numa conversa tonta sobre a neve que se descobre o amor e é num fim de tarde igual a tantos outros que se vive o melhor e mais mágico momento de amor de toda uma vida.
Por isso vivamos 2014 e cada um dos seus irrepetíveis segundos com a força inabalável de um recomeço, com a garra de ser feliz.
Votos de um inesquecível e fantástico Ano Novo.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013

Os últimos dias do ano são propícios a balanços, e aqui pelo Pomar das Laranjeiras é tempo de cumprir uma tradição avaliando as “laranjas” da colheita de 2013, classificando-as pelos seus justos atributos:

LARANJA DOCE – A Constituição da República Portuguesa
Um país está sempre acima de quem o lidera numa determinada altura ou circunstância e a essência, o código genético da nação, está inscrita na lei magna: a Constituição.
O assalto “pornográfico” feito ao país com o patrocínio da Troika e que fere demasiadas vezes a nossa autonomia tem em algumas situações esbarrado no juízo do Tribunal Constitucional, instituição que deve assegurar o respeito pela lei magna e que no presente tem cumprido a mesma função que antes tinham as muralhas quando os Filipes chegaram de Castela para nos “ferir” a liberdade.
Valha-nos a Constituição.
E os políticos que “cospem” na Constituição em miseráveis declarações comprovam não ter nível para estar à frente das instituições do Estado.

LARANJA AMARGA – A “irrevogável mediocridade do ser”
Um Ministro que sai porque entre outras coisas tem uma licenciatura pouco credível, uma demissão surpresa do intocável e todo-poderoso Ministro das Finanças e a sua sucessão assegurada por uma mestra em contratos SWOP que comprovam a má gestão das empresas públicas, uma “irrevogável” demissão de um Ministro que depois da “birra” é promovido a Vice-Primeiro-Ministro, a sempre presente sombra do BPN, Secretários de Estado que “duram” semanas...
Serão necessárias mais provas para atestar a incompetência que sendo herdeira de outra incompetência nos coloca num ciclo de desespero e miséria. Nada acontece por acaso.
Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, tudo demasiado amargo.
  
LARANJA SUMARENTA – O abraço dos Papas
Bento XVI apresenta uma inédita renúncia que o coloca na condição de Emérito e cede o trono a Francisco, o Papa que chegou de um lugar mais distante do que qualquer outro Papa.
Renova-se a esperança numa Igreja que terá de estar mais próxima das pessoas e ser mais interventiva em tudo o que às pessoas diz respeito.
Sem tabus, espera-se muito sumo doce para os tempos mais próximos.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Jorge Jesus
A super desenvolvida auto-estima do treinador do Benfica tem pouca tradução em vitórias para a sua que é também a minha equipa.
Pago a preço de sumo natural, é efectivamente uma imitação artificial e gasosa que há muito perdeu o gás.
Palavras e promessas à parte, “limpinho, limpinho” só mesmo os desaires… mesmo que no último minuto.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Os heróis do fogo
Ana Rita Pereira, António Nuno Ferreira, Bernardo Figueiredo, Bernardo Cardoso, Cátia Dias, Daniel Falcão, Fernando Reis, João Pedro Mendes, Joaquim Mendes, Nivalda Lemos e Pedro Rodrigues.
Ainda há heróis, Homens que oferecem a vida para defender vidas e haveres dos seus semelhantes.
Os burocratas de gabinete ainda discutem as “culpas” pelo impacto dos fogos do verão de 2013, mas os heróis têm nome.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
Já não tem sumo nem palavras, sendo actualmente uma patética figura completamente alheada da difícil situação em que o país se encontra.
Em plena crise política foi dormir às Selvagens.
Simbólico. Nunca está onde deveria estar.

LARANJA MECÂNICA – “Os Ex-qualquer coisa”
Em Portugal sempre se falou melhor do que alguma vez se agiu, e talvez por isso, qualquer indivíduo que tenha passado pelo poder habilita-se a ter lugar de comentador num televisão nacional com tempo de antena para com sapiência tratar de todos os assuntos do Estado.
Até José Sócrates tem assento na RTP e fala ligeiro sobre todos os problemas do país.
De vómito.

VITAMINA C – Rui Costa
Com os pontapés de ouro do Cristiano Ronaldo vamos até ao Mundial de Futebol do Brasil, mas Campeões do Mundo só no Ciclismo pela arte e mérito do nosso compatriota e grande Rui Costa, Rei em Florença depois de ter passeado toda a sua classe pela Volta a França coleccionando vitórias em etapas.

LARANJA PÔDRE – A Agonia do Estado Social
Em dias alternados, a Troika diz que não pode aplicar mais austeridade e manda implementar novas medidas.
Por cá não há quem saiba dizer não e as ambulâncias de emergência falham nos lugares dos acidentes, os bombeiros morrem nos incêndios, as arcadas do Terreiro do Paço são camaratas…

LARANJA CALIPOLENSE – Marmoris Hotel
Podendo discutir-se alguns detalhes da decoração, o certo é que Vila viçosa tem a partir deste ano uma unidade hoteleira de cinco estrelas e com muita qualidade.
Aprecio que o hotel tenha ido buscar o Mármore, a maior riqueza da região depois das pessoas, para a sua identidade como marca.

COMPOTA DE LARANJA – O ano de 2013 deixa para sempre a saudade de Nelson Mandela, James Gandolfini, Bigas Luna, Georges Moustaki, Lou Reed, Peter O’Toole, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso e António Ramos Rosa, o poeta que um dia escreveu:
“Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto”.

Da banda sonora de 2013 escolho o fado nas fantásticas vozes de Ana Moura e de Ricardo Ribeiro, este último com o seu álbum “Largo da Memória”.

domingo, 29 de dezembro de 2013

À mesa com a minha geração

O hotel Solar dos Mascarenhas abriu ontem o restaurante exclusivamente para nós, estendendo-nos uma mesa onde muito comodamente nos sentámos os dezanove.
Depois dos inevitáveis beijos e abraços iniciais, a conversa fluiu solta por muitos temas:
- “Quantos anos te faltam…” ou “Há quantos anos fizeste os cinquenta anos?”. Não há dúvidas, entre uns e outros e numa boa média, estava ali à mesa a face humana de meio século de história de Vila Viçosa. E quanto charme…
- “Vamos ver quem consegue rir mais”. E é sempre difícil eleger o vencedor. Conhecemos demasiado bem os pontos fracos uns dos outros e temos décadas de histórias e cumplicidades tantas vezes no território das asneiras. E então quando puxámos pelas fotos da juventude…
- “O rosário das memórias”. São tantas e tão boas que nunca nos esquecemos de as revisitar. E aqueles teatros que nós fazíamos na catequese por alturas do Natal?
- “Os nossos filhos”. Eu não os tenho, mas contas por alto e daquela mesa já nasceram dezoito rebentos, o que garante uma continuidade destes afectos e desta amizade. E os nossos sonhos projectam-se nessa geração que vem a seguir.
- “Por onde tens andado”. É que não somos de estar quietos e entre vida e profissão procuramos sempre ser melhores e ir mais longe. E o que todos gostamos de viajar…
- “Já compraste uma Bimby?”. E o impacto desta questão é quase uma guerra semelhante à dos adeptos da Madalena e da Simone na época do nacional cançonetismo. E os adeptos do “sim” fazem tudo na Bimby, até rissóis. E então e as sopas?
- “Boletim Clínico”. A dobragem dos quarenta é terrível e já conseguimos partilhar coisas como a Hipertensão Arterial, a Hipercolesterolemia, a Diabetes, o Reumatismo, etc. Mas até das doenças falamos a rir e até admitimos que de aqui a vinte anos, quando nos juntarmos, em vez de falar das vantagens da Bimby, por certo enalteceremos as vantagens do Lindor Ausonia ou do Corega para as dentaduras…
- “What happened to João Paulo Silva”. Era o vigésimo e faltou, daí esta menção ao estilo de vingança.
E falámos mais por entre o Creme de Abóbora, a Empada de Caça e o Sericá com ou sem ameixa…
Dos trabalhos, dos cortes no Orçamento de Estado, da política, das pinturas e das escritas, dos quadros da Tina, das rifas dos escuteiros que todos tivemos de comprar, de mortes e desgraças que ocorreram ao longo do ano, dos salmos que havia para cantar, dos bolos com ovos-moles feitos em Águeda, dos anti-oxidantes, dos cortes de cabelo, das gracinhas feitas pelos filhos e sobrinhos, das paixões e dos amores, das compras em Badajoz, dos que não estavam ali presentes e que gostássemos que estivessem, de petiscos, do vinho, da boa vida, dos passeios que temos de organizar para os próximos fins-de-semana…
E houve momentos em que falámos pouco e em que apenas saboreámos o prazer de estar juntos porque tudo o que se diz e o que se sente são tão-só detalhes da amizade eterna que nos une.
Elas, as “Flores da Callípole”, lindas de morrer e com cores de cabelo que nada têm que ver com o tom com que nasceram, e nós, os charmosos e bravos “Don Juan’s do Carrascal” (da senda dos heróis da quarta dinastia), saboreando um presente fantástico e não descurando nunca o futuro que sem qualquer um de nós não teria a mesma graça.
Para o ano cá estaremos!

sábado, 28 de dezembro de 2013

E ainda Natal…

Conheço de cor todos os caminhos, os recantos, as curvas da estrada, as pedras que aqui e ali convidam a repousar um pouco e a acariciar a terra entregando-lhe directamente as mãos. A intimidade e a sensualidade da pele e da terra ou o privilégio de um amor único para quem como eu é assim do campo.
As paredes das velhas casas caiadas de branco preservam todas as memórias e reflectem os rostos de tantos, e sobretudo dos mestres dos meus afectos, fazendo ressoar o riso, as palavras, e até o eco dos beijos, das carícias e dos abraços.
E tantas vezes se torna inevitável a saudade.
Cada esquina encerra uma história boa ou má, mas todas boas e indutoras de vida assim à distância de décadas. É impossível conter os sorrisos quando o pensamento se entrega sem pudor a todas as lembranças e quando às vezes sem destino, deixo que os meus passos me levem embalado pela mais doce liberdade.
Que aqui, minha alva terra beijada pelo sol, apenas importa serem estas pedras o meu caminho, ser este o ar que eu respiro, e muito pouco ou quase nada importa para onde eu vou.
As árvores, em especial essas doces mães das laranjas, são nossas irmãs e velhas cúmplices de todas as palavras, oferecendo a sua copa como um eterno abrigo, guardiãs fiéis de tantas conversas temperadas ao ritmo da vida, com o riso ou com as lágrimas… que muitas vezes também são elas próprias de alegria, ou não fossem as lágrimas a mais fiel expressão da mais profunda alma da gente.
Os amigos nunca morrem…
São eternos, crescem e envelhecem connosco ao sabor dos momentos que vamos partilhando no gozo dos benefícios que sabemos colher dos dias na festa despudorada de estar olhos nos olhos.
Os amigos, hoje ao redor de uma bica como antes à volta de uma qualquer brincadeira simples ensinada pelos nossos avós.
Estes são os dias tranquilos que nos fazem sentir senhores e donos do tempo, aqui onde nada mais corre para lá das fontes, onde os sinos repicam a fé a cada quarto das horas, no encontro das memórias que são raízes profundas do melhor de nós, no presente de tudo e de todos os amores… e no futuro que nos fará sempre saber e querer voltar.
Vila Viçosa.
E ainda Natal…

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Foi Natal…

E pronto… foi Natal.
Se é que para tal existem dias específicos.
O certo é que a pretexto de celebrar o nascimento de Cristo, nos reunimos em família à volta da mesa aquecida pela braseira para aí comermos o bacalhau com couves, o peru assado, a carne do alguidar temperada com pimentão vermelho, as filhós, as azevias, os nógados, o chocolate quente (infelizmente tivemos de inventar pois já não encontrámos a habitual mistura da Pérola Calipolense) e um bom tinto da nossa vizinha Adega de Borba; conversámos muito e voltámos a lembrar as histórias de outros Natais com a minha mãe a recordar aquele de há muitos anos em que recebeu uma boneca de cartão demasiado estática porque tinha as pernas coladas, e de como ficou triste com o facto; abrimos os presentes junto ao presépio mas só depois de o meu sobrinho João me ter perguntado se nas minhas conversas muito próximas com o Pai Natal eu tinha conseguido saber se todos os desejos da sua carta tinham sido satisfeitos, e que alegria quando descobriu que o microscópio até trazia em anexo um mostruário com pêlos de vários animais para ele lhe conhecer e diferenciar a textura…
Eu juntei mais quatro presépios para a minha colecção.
Voltei a Vila Viçosa, a minha eterna “casa”, beneficiando do conforto dos amigos que por aqui estão sempre à distância de poucos passos para uma boa conversa de um par de horas daquelas que permitem a actualização do “ficheiro dos amigos”…ou então apenas para um café…
Apesar da chuva e do frio, ou não fosse assim o Dezembro no Alentejo, não nos quedámos em casa e fomos até ao Castelo para a missa de Natal na Igreja da Senhora da Conceição. O dia pedia o capote e com ele fomos beijar o menino Jesus. O padre disse na homilia que o Verbo deveria ter encarnado em Extraterrestres, tal a ingratidão dos Homens para com Jesus de Nazaré, mas nós desculpamo-lo pois com este frio qualquer um perde a inspiração. No entanto, depois de termos apanhado tanto frio para chegar à missa, esta conversa…
Fiz embrulhos, quebrei a dieta que a minha Diabetes impõe, vi a “Música no Coração”, recebi e enviei dezenas de mensagens escritas, visitei tias, tios, primos e amigos, coloquei no carro o meu CD favorito com músicas de Natal (Do they know it’s Christmas, Last Christmas, etc), escrevi um conto e um poema de Natal…
E ofereci agora a mim próprio este prolongar da estadia no Alentejo para que desde aqui e até 2014 possa consumir todas as iguarias que entre o frigorífico e a mesa nos enchem a casa, numa directa “trasfega” para o peso que a balança não nega.
Foi, definitivamente, Natal.
Não é que não seja Natal todos os dias, poderá sê-lo, mas na azáfama em que andamos é mesmo necessário que o calendário (da fé ou tão-só o calendário civil) nos empurre para estes dias em que os afectos andam à solta nas mensagens, nas conversas, em tudo e até nas azevias… e o amor celebra-se sem o pudor que muitas vezes o coloca nos territórios da pieguice.
Por mim continua a ser a época do ano que eu mais gosto de viver…
E duvido que qualquer extraterrestre pudesse celebrar o Natal melhor do que eu.