domingo, 12 de janeiro de 2014

De farmacêutico e de louco…

Não haja dúvidas da legitimidade com que me afirmo farmacêutico, situação comprovada aliás pela inscrição há vinte e três anos na respectiva Ordem, antiga Sociedade Farmacêutica Lusitana.
Das cinquenta cadeiras que no pré-Bolonha compunham o meu curso, não fiz nenhum exame a um domingo, não mandei aos professores exames por fax, não tive passagens administrativas dadas com base na minha experiência associativa, juro-vos que aulas aos sábados só tive até às 13 horas e nunca para lá de 30 de Junho, que em pequeno muito me ralava nunca ter a oportunidade de convidar os meus amigos e colegas para o meu aniversário a 5 de Julho.
Mesmo assim e com todo este percurso, muito pouca importância terei como mensageiro no que à melhoria da saúde dos Portugueses possa dizer respeito.
Passo a explicar:
A Catarina Furtado apresenta actualmente na televisão e em espaços publicitários, uma fórmula mágica que permite a regulação do peso cuidando em cada uma das semanas dos elementos que derivam dos reinos todos classificados por Lineu. Na semana da terra e se abusam da couve, eu imagino o resultado.
O João Baião, o José Carlos Malato e o Manuel Luís Gouxa, nos seus respectivos programas, apresentam suplementos vitaminicos que resolvem todos os problemas dos Portugueses, produtos invariavelmente caros e que só podem ser adquiridos via telefone.
Como se não bastasse termos as telenovelas, os futebolistas e as “senhoras” que vieram perturbar a paz das mães de Bragança e de outras capiais de distritito, temos agora uns “Comprimidos Brasileiros” que prometem pôr as silhuetas de qualquer Portuguesa alinhadas com as que desfilam no sambódromo em ritmo epiléptico nos dias do Carnaval Carioca.
Nada se sabe da composição destas fórmulas milagrosas que a notoriedade dos apresentadores e da marca “Brasil” ajuda a vender, muito mais do que o benefício de qualquer profissional de saúde.
E depois…
Eu não tenho a silhueta da Catarina Furtado (e nem ambiciono ter), não tenho a graça do Baião e do Malato (que até sofreu recentemente um Enfarte do Miocárdio apesar de tanto produto natural), e tenho óculos e uso casacos muito mais discretos do que os do Gouxa, então, que vantagem comercial poderia eu acrescentar a semelhantes “milagres em pastilhas” com os meus atributos exclusivamente cientificos?
Nenhuma.
Também é estranho que na perspectiva da saúde pública, seja proibido publicitar produtos credíveis e classificados como tal pelo próprio Estado, e depois andem à solta estas “mistelas” que podem ter um impacto bem negativo na vida das pessoas.
Mas isso parece que não interessa nada.
E tudo poderia estar bem e restrito apenas a este universo mediático, até ao dia em que o meu próprio pai me diz que já dispensou o anti-fúngico que eu lhe arranjei para tratar uma micose numa unha do pé, pois a Calista, mulher encartada numa salão de beleza para tratar dos “calcantes” dos seus semelhantes, lhe vendeu a bom preço um produto natural muito melhor porque muito mais eficaz.
Mesmo sabendo que ninguém é profeta na sua terra… e na sua casa, não fosse o apoio que recebi da minha mãe, que reclama porque o tal produto lhe arrasta para dentro da cama o aroma de dez cadáveres fechados durante três meses numa mesma casa; e eu nesta altura, por via da televisão e por via familiar, estaria a contas com uma depressão.
De que me serve ser farmacêutico…
Eu sei, resta-me essa de ser louco, e eu sou e serei sempre.
Mas bolas… para quem fez o percurso académico todo como já não se usa, isto custa!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Esse tempo magnífico escondido por detrás das Azedas

O sábado não falhou e revelou-me ao longe o Atlântico no seu infinito tom de azul numa alinhada rima com um céu sem quaisquer nuvens, logo que pela manhã espreitei à janela.
Depois de tantos dias a chorar, este Janeiro afinal também sabe sorrir, não colocando entraves ao brilho intenso do sol e revelando no imenso campo verde à frente de casa, milhões de pontos amarelos, que nem necessito aproximar-me muito para concluir que de um enormíssimo tapete de Azedas afinal se trata.
Não fosse cá por coisas e atravessaria de bom grado a estrada para colher uma ou duas e me regalar com o sabor avinagrado que elas nos oferecem sempre que por esta altura caminhamos pelo campo.
Um dia destes, nos tempos mais próximos, não resistirei e irei até lá provar as Azedas.
Mas hoje tenho almoço em família e há que fazer as últimas compras.
Vou até ao Centro Comercial, e de repente vejo-me numa fila virada para um cubo gigante de acrílico que oculta um robot super inteligente que vende cápsulas de café e onde falamos para uma máquina que eu não desdenharia ter em Vila Viçosa quando brincava com os meus amigos ao Espaço 1999 e quando tínhamos apenas uma velha máquina de escrever e uma calculadora da Texas Instruments que fazia as operações básicas e que nos surpreendia por não se enganar a somar.
À minha frente há um homem em fato de treino que discute a vez e a prioridade com uma mulher, perdendo os dois mais tempo na troca de argumentos do que aquele que seria necessário para os dois fazerem as suas respectivas compras.
Nisto de filas e de compras nem vale a pena discutir com elas e este homem já deveria saber isso.
A mulher comprou primeiro.
Atrás de mim tenho outra mulher, uma daquelas que tentam sempre ultrapassar-nos começando por se pôr ao nosso lado para ver se nos apanham distraídos e ganham vantagem na fila.
Começa a enervar-me e… 2 – 0 para as mulheres naquela fila é coisa que não me agrada.
Contra-ataco então: dou um passo ligeiramente à frente e qual Rambo abro as minhas pernas e fico em pose de porteiro de discoteca de pernas abertas e braços cruzados à frente da minha “adversária” de quem sinto a respiração aqui pelas orelhas quando em bicos de pés tenta ver o que estará a acontecer para lá das minhas costas.
Nem imagino os nomes feios que me terá chamado mas o resultado foi mesmo de 1 – 1 pois eu comprei as minhas cápsulas antes dela que por lá ficou com um perfume tão activo que quase me ia derrotando em acção de ataque químico.
E depois desta “guerra” e deste cansaço, tive de me sentar eu num café e oferecer-me a tal meia hora de descontracção de sábado que é a primeira revisão do caderno 1 do Expresso.
Nas páginas 2 e 3 uma entrevista brilhante a um dos pensadores do nosso tempo que eu mais admiro, o Padre José Tolentino Mendonça.
Leio:
“Os anos da juventude, da vida mais activa, são vividos na euforia da conquista do definitivo, e depois percebe-se numa idade mais avançada que a vida está inacabada. Porque a vida é um projecto que não se realiza só por fora. Também precisa de se encontrar por dentro”.
Estou muito mais calmo e descontraído quando me devolvo ao carro e por ele ao caminho que me trará de volta a casa.
Do lado direito da minha estrada, lá estão elas, lindas e mais do que nunca apelativas… as Azedas.
Um dia não vou mesmo resistir e vou colher umas quantas…
Não só por saudade.
É que por detrás das Azedas há afinal essa doce essência de ser do campo, e não importa se estou numa perspectiva de dentro ou de fora, mas a plena realização só a conseguirei no momento em que me devolver aos dias que não tenham mais nada entre mim e o tempo, todo o tempo.
Os meus dias simples, os dias do campo.
Tudo o mais importa muito pouco e tem a ridícula importância de discussões estéreis e tolas em frente de um cubo de acrílico no corredor de um Centro Comercial.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Uma noite para guardar “cá dentro”

A fresca brisa que corre do rio chega até mim e beija-me incessante enquanto os passos vagueiam errantes pelo jardim no impulso que o olhar lhes impõe a cada instante.
Cheguei mais cedo à Praça do Império e deixo-me ir ao ritmo das cores que a fonte faz pela água erguer ao céu estrelado da noite de Lisboa, num desafio com a luz de recortes manuelinos que emerge dos Jerónimos, duelo único que me põe num estranho slalom entre tripés de turistas numa vasta babel de muitas e diferentes línguas.
Caminho como tanto gosto, na aparência de não ter ninguém, mas na efectiva companhia e de “braço dado” com uma intensa profusão de memórias… de muita gente.
Sozinhos, ganhamos sempre o extraordinário privilégio de caminhar com quem mais queremos.
A Margarida chegará depois para o jantar, que entre Benfica, muitas gargalhadas e umas estranhas bifanas industrializadas, nos alimentará.
E que estranho pecado esse o da indiferença e de nem nos termos sequer lembrado de ir comer um Pastel de Belém.
Não tarda muito até que, sentados de costas para o rio, nos deixamos embalar pelas palavras soltas pela voz da Mafalda Veiga no exacto tom que lhe dá o piano ou então as suas múltiplas guitarras.
O palco não tem imagens, somos nós que as construímos por sugestão das palavras e dos sentires; momentos, pedaços e detalhes de vida aqui cantados nas duas horas entre “colado a mim” e “para receber de aquilo que aumenta o coração”, respectivamente a primeira e a última frase do concerto, parágrafos de cantigas ou pedaços de vida que são legitimamente de todos nós pela insistência com que nos aparecem na nossa história de todos os dias.
E a menina que um dia se cruzou comigo na Quinta de Santo António em Évora num Convívio Fraterno, paredes meias com a Cartuxa e num recanto muito verde da Planície Alentejana, olha agora o Tejo de frente e canta Ary no “Cavalo à solta”, canta Luis Eduardo Aute “Al alba”, Mercedes Sosa “Solo le pido a Dios”, esquece os eternos “Pássaros do sul” mas canta a GNR “Pronúncia do norte” e cola a voz à de Sara Tavares para cantar os “Vestígios de ti”…
Quando não nos negamos a viver, os dias têm este condão de nos encher a alma e de nos tornar diferentes e maiores.
Sei do que cantas, Mafalda.
Segue fria a brisa do Tejo no seu contínuo beijo à gente que sai do Centro Cultural de Belém e que num irregular rendilhado humano tecido a passos pelo espaço iluminado da Praça do Império, busca a forma mais rápida de se devolver a casa.
Contrariando a rigidez dos músculos faciais, eu ensaio um tímido assobio, agora que sigo novamente só, mais uma vez apenas pela aparência de não ter ninguém a caminhar a meu lado.
Então, sinto a noite bonita, penso em ti e provo a saudade na falta que me fazem os teus beijos.
Ainda a assobiar, pisco o olho à lua… e sigo rumo a casa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os despertares violentos

Se o meu despertar se inicia diariamente às sete em ponto com um toque de telemóvel que me consegue irritar a qualquer hora do dia quando o escuto nos aparelhos alheios...
Se prossegue com um duche de água morna que nos “dias sim” consegue arrancar-me algumas notas musicais de “O anzol” dos Rádio Macau e nos “dias não” das “Sete letras” da Simone com poema do Ary dos Santos (“Esta palavra Saudade…”) …
Se tem um impulso muito positivo durante a degustação do pequeno-almoço, onde por entre a torrada e o copo de leite invariavelmente frio vou por vezes conversando com um amigo também “madrugador”, trocando mensagens com recurso ao i-pad que coloco religiosamente à minha frente…
Verdadeiramente o processo de acordar só se conclui quando me coloco perante o café ao mesmo tempo que vou folheando o jornal que a senhora da pastelaria cedo trouxe do quiosque.
E há notícias que conseguem levar-me a um estado adiantado de vigília de uma forma mais rápida do que a trimetilxantina, a conhecida Cafeína, veiculada pelo meu café.
Às vezes pelo espanto e pela dimensão extrema e inusitada do surreal por detrás da própria notícia.
Hoje fiquei a saber que a Angela Merkel utilizava um equipamento de esqui oriundo da “sua” Ex - República Democrática Alemã (RDA), com vinte e cinco anos, na altura em que sofreu o acidente que lhe provocou a fractura recente da bacia.
Esta descoberta faz acordar qualquer um…
Afinal é fácil de entender que a Europa esteja toda “fracturada” porque esta Excelência não dispensa os métodos da RDA, e se o betão do Eric Honecker um dia veio abaixo, vamos lá construir um muro imbatível para uma separação permanente e muito mais eficaz entre os ricos e os pobrezinhos, essa gentalha de cabelo castanho ou preto.
E ainda sorria amarelo pela descoberta quando me deparo com a notícia de que na Arábia Saudita, uma organização chamada pomposamente de “Centro para o Diálogo Nacional” que foi criada para auxiliar o Rei Abdulaziz, concluiu que o excesso de maquilhagem das mulheres é responsável em 86,5% pelo aumento dos casos de assédio cometidos pelos homens.
O rímel, esse terrível assassino… e os Sauditas que até são tão amorosos e não gostam nada de mandar piropos às mulheres!
Esta dá para rir.
Já terminei o café mas ainda tenho tempo para ler a notícia de que o cinema Londres vai dar lugar a uma loja chinesa, e não sei como é possível que a transformação do que quer que seja numa loja chinesa ainda possa ser notícia de jornal.
Afinal, é algo tão banal como ter sede no deserto.
Mas aqui não sorrio.
O primeiro filme que me ocorre quando penso no Londres, essa sala de cinema em que as cadeias nos faziam dar um estranho e lento mergulho de costas alguns segundos depois de nos termos sentado, é o “Amadeus”, de Milos Forman,
E nunca imaginei quando ali vi este filme algures no inverno de 1985, ainda no tempo da RDA, que ele se instituísse como uma profecia concretizada quase trinta anos depois num requiem composto por cima dos nossos despojos para a festa do nosso lindo enterro.
Já chega.
Fecho o jornal, despeço-me da senhora da pastelaria e saio para a rua sentindo o ainda gratuito, mas não sei se ainda não chinês, ar que tenho para respirar.
Já vou despertíssimo…
E no meio de tudo isto, o irritante toque do despertador, afinal, não doeu nem dói mesmo nada.
“Esta palavra saudade…”.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Por ti… colher a sorte numa triste manhã de inverno

A negra cortina das nuvens, mais até do que o voo alucinado e o choro das gaivotas por sobre nós e por sobre a terra, indicia que lá não muito longe, ali na zona do Bugio onde o farol testemunha a entrega do Tejo ao Atlântico, segue de tormenta a manhã no mar, insaciável sofreguidão no abraço das ondas, muito para lá da sua costumeira fidelidade à areia da praia.
Por aqui, na muito rara pausa de chuva num dia tão cinzento de Janeiro, há um homem com uma voz demasiado rouca, indício marcado de uma intensa e longa história, que insiste em apregoar a “sorte” no refúgio dos anónimos convocados pelo aroma e pela promessa de uma bica quente que nos possa confortar o ser.
A “sorte”…
Saberá cada um qual é a sua nesta roda que é a própria vida no inevitável percurso pelo calendário.
E a minha sorte, eu sei, transpiro de certeza… és tu!
E não te trocaria jamais por nenhuns quaisquer muitos milhões de nada e do que quer que fosse, se de amor infinito se me enche a alma quando tão-só e desde aqui de longe eu penso em ti.
Tão vulgar se torna o ouro nesse tão breve instante em que o dia me oferece a bênção de apenas um beijo ou de um abraço teu.
O desenho do teu rosto perfeito sobrepõe-se a todas as imagens que me envolvem, e projecta-se nítido e sempre no sorrir tímido dos teus olhos céu, nessa cortina tecida pelas nuvens e permanentemente rasgada pela inquieta dança das imperiais aves que dominam o “tecto” de todos os mares.
Há tempestade no mar…
E eu, que bebo das palavras e dessa mágica e única paz que a intensa memória me solta de ti, sou sobre a terra o mais feliz de entre todos os homens.
Que não importa a distância, o silêncio e o não ter-te aqui, quando apenas saber que existes e amar-te assim, é alinhar o destino com o maior dos sonhos…
É colher da vida a maior sorte.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A vitória do dinheiro na goleada sobre a dignidade

Há muito sabíamos que os zeros à direita no saldo bancário, e o poder que indirectamente lhe está subjacente são mais eficazes do que a honestidade na definição da importância de uma qualquer pessoa.
Na morte da poesia, já não são os sonhos que comandam a vida, como dizia António Gedeão na sua “Pedra Filosofal”, mas é o dinheiro que define todas as prioridades.
A essência de Portugal que está expressa na sua Constituição, é ferida de morte para que os números do Orçamento Geral de um Estado que não sabe cortar a despesa onde deveria cortar, se mantenham dentro de determinados valores, criando desde aí um conjunto de propriedades sedativas que mantenham adormecidos os “Mercados”, esses Adamastores do Século XXI que nos perseguem nas Tormentas deste tempo.
E o grilhão, o medo dos “Mercados” congela a liberdade e o respeito pelo designado Estado Social, esses mais básicos e justamente expectáveis direitos dos cidadãos que nunca se negaram ao cumprimento dos seus deveres para com o Estado e os seus semelhantes.
Até o Presidente da República olha antes de mais para o “dinheiro” do orçamento e para o desejado sossego dos “Mercados” sem jamais olhar para a pobreza que é por esta via um inevitável destino dos concidadãos que o elegeram e que ele prometeu defender no exercício do seu cargo.
Pelo poder do dinheiro se faz revogável a irrevogável honra que deveria nortear qualquer “estadista”.
Pelo dinheiro, e às vezes até por muito pouco dinheiro, se mata a vida e se fere decisivamente a honradez do próximo.
O dinheiro e o controlo orçamental condicionam ainda e decisivamente o julgamento e a posterior condenação de classes profissionais inteiras que deveriam merecer de todos muito mais respeito.
A “cunha” pelo poder e a “gorjeta” ou as “luvas” que suplantam os méritos naturais são patrocínios aceites quase como universais e legítimos neste “Monopólio” em que o dinheiro compra “bairros inteiros” e onde quem paga pode sempre “sair da prisão”… ou então nem ir para lá.
A conta bancária, os carros, as jóias, as roupas e outros luxos, são a “água benta” para o baptismo de Senhoras e Senhores que recebem a submissa “genuflexão” de nações inteiras, com independência de quaisquer outras virtudes de carácter, essas sim que seriam merecedoras de tal tratamento e distinção.
Pelo dinheiro e pelo poder se compram títulos que o pouco saber e a pouca aplicação ao estudo jamais poriam atrás de qualquer nome de gente assim de tão pequeno porte e tão poucas virtudes.
E agora…
Mesmo os comprovadamente grandes, para que possam ter a honra de repousar no Panteão Nacional, é necessário que a Assembleia da República que no Orçamento de 2014 aumentou em 4% a despesa com salários e em 90% a despesa relativa a subsídios de férias e Natal, encontre uma folga orçamental para o fazer.
A menção às despesas de uma trasladação para o Panteão Nacional feita ontem por Assunção Esteves a propósito de Eusébio e tendo como exemplo Aquilino Ribeiro, são indignas de uma segunda figura do Estado Português.
Quando falamos da honra dos heróis, e tal como os nossos pais nos ensinam de pequenos que não deve fazer-se à mesa, manda o bom senso que não se fale de dinheiro.
É uma questão básica de educação e tudo isto começa a ser de facto uma grande “fantochada” de miúdos.
O grande Aquilino de quem eu leio e releio “A casa grande de Romarigães” e “Quando os lobos uivam” afirmou que “alcança quem não cansa”.
Inspiremo-nos e ganhemos força para que não nos cansemos nunca.
Uivemos com a bravura e a altivez dos lobos porque esta casa é demasiado grande para gente tão pequena de carácter e que só fala a linguagem vil dos orçamentos.
A gente pequena de “tostões” a gerir indignamente impérios de milhões… de alma e de grandeza.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A simplicidade do presépio e o aplauso do povo

A cirurgia às cataratas a que o meu pai foi hoje submetido no Hospital da Luz deixou-me com uma vista privilegiada para o Estádio e para a multidão que se despedia de Eusébio.
A cultura dos heróis não se aprende nas universidades, pelo contrário, vive-se na simplicidade que cria a proximidade com todos e que jamais é capaz de dividir algo e/ou alguém.
E os heróis até podem beber whisky ao pequeno-almoço, que bem pior são as bebedeiras da vã e balofa vaidade.
Não sei se o Senhor Dr. Mário Soares se lembrará da tarde do dia 9 de Março de 1986?
Tomou posse para o primeiro mandato como Presidente da República e apesar de ter chamado a Lisboa as estrelas da política internacional, incluindo George Bush pai, na altura Vice-Presidente de Reagan; teve a acenar-lhe a GNR e a PSP que faziam a segurança.
A inveja, a sobranceria e a vaidade levam sempre a estas tristes figuras.
A multidão continua a mover-se lá fora.
O dia ameaça chuva.
Estou sentado na Sala de Espera ao lado da Árvore de Natal e começo a notar a inquietação de duas freiras já muito idosas que estão à minha frente.
Não conseguem encontrar o menino Jesus no pequeno presépio de figuras de pano à sombra da árvore, e de repente, em dia da Epifânia, eu e elas estamos como Baltasar, Belchior e Gaspar, todos à procura do Menino Jesus, mas neste caso sem a ajuda de uma estrela.
Acabam por me ajudar a maior proximidade e também as lentes progressivas que trago sempre comigo: o Menino Jesus estava bordado numa posição que o coloca ao colo de Maria.
As minhas companheiras de presépio riem e agradecem-me muito, afinal eu quando me ponho assim de cócoras já tenho alguma dificuldade em levantar-me.
Não tardam a chamar-me do corredor porque o pai tinha chegado ao quarto e a cirurgia tinha sido um êxito.
Mais uma hora e estamos os dois no carro a caminho de casa. Chove copiosamente.
O Céu quis beijar a terra da simplicidade da campa rasa de Eusébio…
Eu sigo com o meu pai e, chegados a casa, deparamos com a minha mãe a preparar sete frutas para a nossa sobremesa em Dia de Reis: Romã, Noz, Maçã, Banana, Laranja, Morangos e Meloa.
A mesa de Natal vai hoje ser finalmente “levantada”, esta mesa que tem presente a simplicidade do presépio na bênção desta família de sete que é sem dúvida a minha maior riqueza.
Às vezes não vemos Jesus porque O andamos a procurar entre os grandes.
Errado.
Está na grandeza das coisas simples e hoje por aqui em sete frutas e nos nossos sorrisos.
A simplicidade do presépio que é também a simplicidade dos heróis que o povo aplaude espontaneamente no usufruto da sua suprema inteligência que não vai atrás de vaidades.