quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As “cataratas emocionais” numa tarde Alentejana

Ao regressar ontem a casa em Vila Viçosa após cirurgia às cataratas nos dois olhos, o meu pai admirou as paredes da nossa cozinha e resolveu elogiar o ar branco e imaculado das ditas que são caiadas religiosamente todos os anos pela minha mãe, reconhecendo que ao contrário do que julgou durante anos, as mesmas não apresentam quaisquer manchas escuras de aspecto desagradável.
Sem ser oficialmente nomeado tive de intervir automaticamente como juiz na gestão de um conflito doméstico desagradável e de alto risco pois a minha mãe não achou graça nenhuma ao comentário e ao facto do meu pai supor que lá por casa se vivia com as paredes manchadas e a clamar pela cal que nunca chegava.
E ele sempre a jurar que antes via as malditas manchas escuras em todas as paredes da cozinha.
Numa versão campestre e Alentejana, num fim de tarde de Janeiro do Século XXI, eu vi-me assim no interior de uma edição revista e aumentada da Alegoria da Caverna escrita na Grécia Antiga por Platão em “A República” algures no Século IV antes de Cristo.
Mas também numa terra de Calipolenses (aprendam por favor porque assim somos designados nós, os naturais de Vila Viçosa), Callipolis (Cali=bela + Polis=cidade), exactamente a designação utilizada para a cidade ideal sonhada pelo filósofo nessa mesma obra, não é de estranhar que estas afinidades se estabeleçam cruzando os séculos, que não só as intervenções do FMI nos aproximam dos Gregos.
Certo é de que antes como agora, aquilo que vemos e que convictamente acreditamos ver, pode não corresponder à exacta realidade de um objecto, de uma pessoa, de uma circunstância, etc.
As nossas “cataratas”, por vezes mais emocionais do que até propriamente físicas, oferecem-nos uma perspectiva, muito mais do que uma visão global exacta do que quer que seja.
E quantas vezes até conseguimos ver algo numa determinada perspectiva, apenas pelo impulso de muito a querermos ver dessa forma. Reencaminhamos a perspectiva no sentido preferido, tal qual fazem os políticos na avaliação dos números relativos por exemplo à performance da economia do país num determinado período.
Neste contexto, ao ridículo se expõem todas aquelas pessoas que jamais aceitam discutir as suas inquestionáveis verdades e rejeitam as achegas que as visões alheias podem trazer para o desbravar conjunto do caminho que mais no aproxima da verdadeira, objectiva e inacessível verdade do que quer que seja.
Do encontro com os outros e da discussão nasce verdadeiramente a luz e quanto erro pode encarnar uma pessoa orgulhosamente só e abraçada à sua umbilical auto-estima super desenvolvida.
E quanto erro e quanta violência podem surgir do confronto de duas ou mais “razões absolutas” sobre um determinado assunto.
Ao fim da tarde no meu regresso à cidade de Ulisses, com um luar de Janeiro a iluminar-me a planície Alentejana de uma forma soberba, e já com a paz familiar devidamente restabelecida à sombra de uma parede que os três já conseguimos ver sem quaisquer manchas, deu-me para filosofar.
Sem querer ser Platão (e muito menos Sócrates, por todas e mais essa política razão tão do Século XXI).
Um Calipolense apenas, em trânsito, que gosta muito de pensar e que em cada dia que passa tem menos certezas sobre o que quer que seja.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

MADALENA

Algures num dia de Dezembro de 1981, e é impossível recordar-me exactamente de qual, estávamos nós a passar uma tarde no Convento das Chagas no contexto do nosso grupo Sementes de Esperança com o saudoso Padre Armando Tavares, e o Senhor Arcebispo de Évora, D. Maurílio de Gouveia, que tinha chagado à diocese uns dias antes, precisamente a 8 de Dezembro, e estava de visita a Vila Viçosa, passou por lá para nos cumprimentar.
Tu envergavas uma camisola vermelha com a estampa de um burro e a frase “Olá mano!”, e tentaste esconder-te atrás de nós para evitar que Sua Excelência Reverendíssima pudesse ler e ofender-se com semelhante “cumprimento”.
E o que nos rimos todos, e tu própria, à conta desta aflição…
Fui buscar este episódio passado num espaço que foi nosso por eleição, e quem hoje frequenta a selecta Pousada de D. João IV desconhece que um dia existiu um grupo de amigos que por ali foi tão feliz; porque ele ilustra exactamente tudo o que sempre soubeste criar à tua volta e que tanto o nosso grupo de amigos tem beneficiado ao longo destes anos: a fé vivida de uma forma séria e responsável com tudo o que ela acarreta de honestidade, simplicidade, amizade, desprendimento, atenção aos outros, etc; e o sentido de humor e a alegria com que tudo isso é vivido.
Quem tem o prazer de conhecer toda a tua família sabe que tu não és assim por um qualquer acaso, é um enorme benefício genético que tu enobreceste muito com o teu grandíssimo carácter muito particular.
As tuas gargalhadas são inigualáveis, e quando nos rimos, rimo-nos sempre de nós próprios. Tu contrarias claramente Jean Paul Sartre quando disse que os Cristãos não têm cara de ressuscitados: tu tens!
Quem fala das tardes das “Chagas” pode falar de Barcelona e da missa em Catalão em que não “pescámos” nem uma palavra mas rezámos todos juntos no nosso Português com sotaque assumidamente Alentejano, um pouco antes de termos acabado o serão a cantar na Plaza Real à sombra das enormes palmeiras (a letra da cantiga fica para sempre reservada à intimidade do grupo de amigos), ali paredes meias com as Ramblas por onde passeámos um dia todos juntos na companhia de uma melancia que não perdemos oportunidade de comprar numa promoção de supermercado, na mesma altura em que te perdemos no El Corte Ingles da Plaza da Catalunha e te fizemos anunciar nos megafones e em ar de uma verdadeira e dolorosa tragédia como “Madalena de Portugal”.
Com a discrição natural das pessoas que são grandes, às vezes nem damos por ti e pela tua presença, mas todos temos a enorme certeza de que se tu não existisses e não estivesses connosco, era impossível que fossemos todos tão unidos e tão felizes.
E a vida é tantas vezes como aquele passeio a pé que demos pelos Alpes, em Gavarnie na companhia do Manuel e da Ana Cristina, caminhando de encontro à montanha e por entre montanhas, provando da água gélida mas tão límpida do regato, rindo desalmadamente pelas anedotas contadas por entre o pó que os nossos passos levantavam no caminho…
Louvando a Deus pelas montanhas, pela água, pela amizade, pelo riso e pela vida.
Obrigado por existires nas nossas vidas e se puderes perdoa-me esta partida de escrever sobre ti, mas decretei 2014 como o “Ano da Amizade” e ninguém dos “nossos” irá escapar.
Parabéns, grande Madalena.

domingo, 12 de janeiro de 2014

De farmacêutico e de louco…

Não haja dúvidas da legitimidade com que me afirmo farmacêutico, situação comprovada aliás pela inscrição há vinte e três anos na respectiva Ordem, antiga Sociedade Farmacêutica Lusitana.
Das cinquenta cadeiras que no pré-Bolonha compunham o meu curso, não fiz nenhum exame a um domingo, não mandei aos professores exames por fax, não tive passagens administrativas dadas com base na minha experiência associativa, juro-vos que aulas aos sábados só tive até às 13 horas e nunca para lá de 30 de Junho, que em pequeno muito me ralava nunca ter a oportunidade de convidar os meus amigos e colegas para o meu aniversário a 5 de Julho.
Mesmo assim e com todo este percurso, muito pouca importância terei como mensageiro no que à melhoria da saúde dos Portugueses possa dizer respeito.
Passo a explicar:
A Catarina Furtado apresenta actualmente na televisão e em espaços publicitários, uma fórmula mágica que permite a regulação do peso cuidando em cada uma das semanas dos elementos que derivam dos reinos todos classificados por Lineu. Na semana da terra e se abusam da couve, eu imagino o resultado.
O João Baião, o José Carlos Malato e o Manuel Luís Gouxa, nos seus respectivos programas, apresentam suplementos vitaminicos que resolvem todos os problemas dos Portugueses, produtos invariavelmente caros e que só podem ser adquiridos via telefone.
Como se não bastasse termos as telenovelas, os futebolistas e as “senhoras” que vieram perturbar a paz das mães de Bragança e de outras capiais de distritito, temos agora uns “Comprimidos Brasileiros” que prometem pôr as silhuetas de qualquer Portuguesa alinhadas com as que desfilam no sambódromo em ritmo epiléptico nos dias do Carnaval Carioca.
Nada se sabe da composição destas fórmulas milagrosas que a notoriedade dos apresentadores e da marca “Brasil” ajuda a vender, muito mais do que o benefício de qualquer profissional de saúde.
E depois…
Eu não tenho a silhueta da Catarina Furtado (e nem ambiciono ter), não tenho a graça do Baião e do Malato (que até sofreu recentemente um Enfarte do Miocárdio apesar de tanto produto natural), e tenho óculos e uso casacos muito mais discretos do que os do Gouxa, então, que vantagem comercial poderia eu acrescentar a semelhantes “milagres em pastilhas” com os meus atributos exclusivamente cientificos?
Nenhuma.
Também é estranho que na perspectiva da saúde pública, seja proibido publicitar produtos credíveis e classificados como tal pelo próprio Estado, e depois andem à solta estas “mistelas” que podem ter um impacto bem negativo na vida das pessoas.
Mas isso parece que não interessa nada.
E tudo poderia estar bem e restrito apenas a este universo mediático, até ao dia em que o meu próprio pai me diz que já dispensou o anti-fúngico que eu lhe arranjei para tratar uma micose numa unha do pé, pois a Calista, mulher encartada numa salão de beleza para tratar dos “calcantes” dos seus semelhantes, lhe vendeu a bom preço um produto natural muito melhor porque muito mais eficaz.
Mesmo sabendo que ninguém é profeta na sua terra… e na sua casa, não fosse o apoio que recebi da minha mãe, que reclama porque o tal produto lhe arrasta para dentro da cama o aroma de dez cadáveres fechados durante três meses numa mesma casa; e eu nesta altura, por via da televisão e por via familiar, estaria a contas com uma depressão.
De que me serve ser farmacêutico…
Eu sei, resta-me essa de ser louco, e eu sou e serei sempre.
Mas bolas… para quem fez o percurso académico todo como já não se usa, isto custa!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Esse tempo magnífico escondido por detrás das Azedas

O sábado não falhou e revelou-me ao longe o Atlântico no seu infinito tom de azul numa alinhada rima com um céu sem quaisquer nuvens, logo que pela manhã espreitei à janela.
Depois de tantos dias a chorar, este Janeiro afinal também sabe sorrir, não colocando entraves ao brilho intenso do sol e revelando no imenso campo verde à frente de casa, milhões de pontos amarelos, que nem necessito aproximar-me muito para concluir que de um enormíssimo tapete de Azedas afinal se trata.
Não fosse cá por coisas e atravessaria de bom grado a estrada para colher uma ou duas e me regalar com o sabor avinagrado que elas nos oferecem sempre que por esta altura caminhamos pelo campo.
Um dia destes, nos tempos mais próximos, não resistirei e irei até lá provar as Azedas.
Mas hoje tenho almoço em família e há que fazer as últimas compras.
Vou até ao Centro Comercial, e de repente vejo-me numa fila virada para um cubo gigante de acrílico que oculta um robot super inteligente que vende cápsulas de café e onde falamos para uma máquina que eu não desdenharia ter em Vila Viçosa quando brincava com os meus amigos ao Espaço 1999 e quando tínhamos apenas uma velha máquina de escrever e uma calculadora da Texas Instruments que fazia as operações básicas e que nos surpreendia por não se enganar a somar.
À minha frente há um homem em fato de treino que discute a vez e a prioridade com uma mulher, perdendo os dois mais tempo na troca de argumentos do que aquele que seria necessário para os dois fazerem as suas respectivas compras.
Nisto de filas e de compras nem vale a pena discutir com elas e este homem já deveria saber isso.
A mulher comprou primeiro.
Atrás de mim tenho outra mulher, uma daquelas que tentam sempre ultrapassar-nos começando por se pôr ao nosso lado para ver se nos apanham distraídos e ganham vantagem na fila.
Começa a enervar-me e… 2 – 0 para as mulheres naquela fila é coisa que não me agrada.
Contra-ataco então: dou um passo ligeiramente à frente e qual Rambo abro as minhas pernas e fico em pose de porteiro de discoteca de pernas abertas e braços cruzados à frente da minha “adversária” de quem sinto a respiração aqui pelas orelhas quando em bicos de pés tenta ver o que estará a acontecer para lá das minhas costas.
Nem imagino os nomes feios que me terá chamado mas o resultado foi mesmo de 1 – 1 pois eu comprei as minhas cápsulas antes dela que por lá ficou com um perfume tão activo que quase me ia derrotando em acção de ataque químico.
E depois desta “guerra” e deste cansaço, tive de me sentar eu num café e oferecer-me a tal meia hora de descontracção de sábado que é a primeira revisão do caderno 1 do Expresso.
Nas páginas 2 e 3 uma entrevista brilhante a um dos pensadores do nosso tempo que eu mais admiro, o Padre José Tolentino Mendonça.
Leio:
“Os anos da juventude, da vida mais activa, são vividos na euforia da conquista do definitivo, e depois percebe-se numa idade mais avançada que a vida está inacabada. Porque a vida é um projecto que não se realiza só por fora. Também precisa de se encontrar por dentro”.
Estou muito mais calmo e descontraído quando me devolvo ao carro e por ele ao caminho que me trará de volta a casa.
Do lado direito da minha estrada, lá estão elas, lindas e mais do que nunca apelativas… as Azedas.
Um dia não vou mesmo resistir e vou colher umas quantas…
Não só por saudade.
É que por detrás das Azedas há afinal essa doce essência de ser do campo, e não importa se estou numa perspectiva de dentro ou de fora, mas a plena realização só a conseguirei no momento em que me devolver aos dias que não tenham mais nada entre mim e o tempo, todo o tempo.
Os meus dias simples, os dias do campo.
Tudo o mais importa muito pouco e tem a ridícula importância de discussões estéreis e tolas em frente de um cubo de acrílico no corredor de um Centro Comercial.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Uma noite para guardar “cá dentro”

A fresca brisa que corre do rio chega até mim e beija-me incessante enquanto os passos vagueiam errantes pelo jardim no impulso que o olhar lhes impõe a cada instante.
Cheguei mais cedo à Praça do Império e deixo-me ir ao ritmo das cores que a fonte faz pela água erguer ao céu estrelado da noite de Lisboa, num desafio com a luz de recortes manuelinos que emerge dos Jerónimos, duelo único que me põe num estranho slalom entre tripés de turistas numa vasta babel de muitas e diferentes línguas.
Caminho como tanto gosto, na aparência de não ter ninguém, mas na efectiva companhia e de “braço dado” com uma intensa profusão de memórias… de muita gente.
Sozinhos, ganhamos sempre o extraordinário privilégio de caminhar com quem mais queremos.
A Margarida chegará depois para o jantar, que entre Benfica, muitas gargalhadas e umas estranhas bifanas industrializadas, nos alimentará.
E que estranho pecado esse o da indiferença e de nem nos termos sequer lembrado de ir comer um Pastel de Belém.
Não tarda muito até que, sentados de costas para o rio, nos deixamos embalar pelas palavras soltas pela voz da Mafalda Veiga no exacto tom que lhe dá o piano ou então as suas múltiplas guitarras.
O palco não tem imagens, somos nós que as construímos por sugestão das palavras e dos sentires; momentos, pedaços e detalhes de vida aqui cantados nas duas horas entre “colado a mim” e “para receber de aquilo que aumenta o coração”, respectivamente a primeira e a última frase do concerto, parágrafos de cantigas ou pedaços de vida que são legitimamente de todos nós pela insistência com que nos aparecem na nossa história de todos os dias.
E a menina que um dia se cruzou comigo na Quinta de Santo António em Évora num Convívio Fraterno, paredes meias com a Cartuxa e num recanto muito verde da Planície Alentejana, olha agora o Tejo de frente e canta Ary no “Cavalo à solta”, canta Luis Eduardo Aute “Al alba”, Mercedes Sosa “Solo le pido a Dios”, esquece os eternos “Pássaros do sul” mas canta a GNR “Pronúncia do norte” e cola a voz à de Sara Tavares para cantar os “Vestígios de ti”…
Quando não nos negamos a viver, os dias têm este condão de nos encher a alma e de nos tornar diferentes e maiores.
Sei do que cantas, Mafalda.
Segue fria a brisa do Tejo no seu contínuo beijo à gente que sai do Centro Cultural de Belém e que num irregular rendilhado humano tecido a passos pelo espaço iluminado da Praça do Império, busca a forma mais rápida de se devolver a casa.
Contrariando a rigidez dos músculos faciais, eu ensaio um tímido assobio, agora que sigo novamente só, mais uma vez apenas pela aparência de não ter ninguém a caminhar a meu lado.
Então, sinto a noite bonita, penso em ti e provo a saudade na falta que me fazem os teus beijos.
Ainda a assobiar, pisco o olho à lua… e sigo rumo a casa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os despertares violentos

Se o meu despertar se inicia diariamente às sete em ponto com um toque de telemóvel que me consegue irritar a qualquer hora do dia quando o escuto nos aparelhos alheios...
Se prossegue com um duche de água morna que nos “dias sim” consegue arrancar-me algumas notas musicais de “O anzol” dos Rádio Macau e nos “dias não” das “Sete letras” da Simone com poema do Ary dos Santos (“Esta palavra Saudade…”) …
Se tem um impulso muito positivo durante a degustação do pequeno-almoço, onde por entre a torrada e o copo de leite invariavelmente frio vou por vezes conversando com um amigo também “madrugador”, trocando mensagens com recurso ao i-pad que coloco religiosamente à minha frente…
Verdadeiramente o processo de acordar só se conclui quando me coloco perante o café ao mesmo tempo que vou folheando o jornal que a senhora da pastelaria cedo trouxe do quiosque.
E há notícias que conseguem levar-me a um estado adiantado de vigília de uma forma mais rápida do que a trimetilxantina, a conhecida Cafeína, veiculada pelo meu café.
Às vezes pelo espanto e pela dimensão extrema e inusitada do surreal por detrás da própria notícia.
Hoje fiquei a saber que a Angela Merkel utilizava um equipamento de esqui oriundo da “sua” Ex - República Democrática Alemã (RDA), com vinte e cinco anos, na altura em que sofreu o acidente que lhe provocou a fractura recente da bacia.
Esta descoberta faz acordar qualquer um…
Afinal é fácil de entender que a Europa esteja toda “fracturada” porque esta Excelência não dispensa os métodos da RDA, e se o betão do Eric Honecker um dia veio abaixo, vamos lá construir um muro imbatível para uma separação permanente e muito mais eficaz entre os ricos e os pobrezinhos, essa gentalha de cabelo castanho ou preto.
E ainda sorria amarelo pela descoberta quando me deparo com a notícia de que na Arábia Saudita, uma organização chamada pomposamente de “Centro para o Diálogo Nacional” que foi criada para auxiliar o Rei Abdulaziz, concluiu que o excesso de maquilhagem das mulheres é responsável em 86,5% pelo aumento dos casos de assédio cometidos pelos homens.
O rímel, esse terrível assassino… e os Sauditas que até são tão amorosos e não gostam nada de mandar piropos às mulheres!
Esta dá para rir.
Já terminei o café mas ainda tenho tempo para ler a notícia de que o cinema Londres vai dar lugar a uma loja chinesa, e não sei como é possível que a transformação do que quer que seja numa loja chinesa ainda possa ser notícia de jornal.
Afinal, é algo tão banal como ter sede no deserto.
Mas aqui não sorrio.
O primeiro filme que me ocorre quando penso no Londres, essa sala de cinema em que as cadeias nos faziam dar um estranho e lento mergulho de costas alguns segundos depois de nos termos sentado, é o “Amadeus”, de Milos Forman,
E nunca imaginei quando ali vi este filme algures no inverno de 1985, ainda no tempo da RDA, que ele se instituísse como uma profecia concretizada quase trinta anos depois num requiem composto por cima dos nossos despojos para a festa do nosso lindo enterro.
Já chega.
Fecho o jornal, despeço-me da senhora da pastelaria e saio para a rua sentindo o ainda gratuito, mas não sei se ainda não chinês, ar que tenho para respirar.
Já vou despertíssimo…
E no meio de tudo isto, o irritante toque do despertador, afinal, não doeu nem dói mesmo nada.
“Esta palavra saudade…”.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Por ti… colher a sorte numa triste manhã de inverno

A negra cortina das nuvens, mais até do que o voo alucinado e o choro das gaivotas por sobre nós e por sobre a terra, indicia que lá não muito longe, ali na zona do Bugio onde o farol testemunha a entrega do Tejo ao Atlântico, segue de tormenta a manhã no mar, insaciável sofreguidão no abraço das ondas, muito para lá da sua costumeira fidelidade à areia da praia.
Por aqui, na muito rara pausa de chuva num dia tão cinzento de Janeiro, há um homem com uma voz demasiado rouca, indício marcado de uma intensa e longa história, que insiste em apregoar a “sorte” no refúgio dos anónimos convocados pelo aroma e pela promessa de uma bica quente que nos possa confortar o ser.
A “sorte”…
Saberá cada um qual é a sua nesta roda que é a própria vida no inevitável percurso pelo calendário.
E a minha sorte, eu sei, transpiro de certeza… és tu!
E não te trocaria jamais por nenhuns quaisquer muitos milhões de nada e do que quer que fosse, se de amor infinito se me enche a alma quando tão-só e desde aqui de longe eu penso em ti.
Tão vulgar se torna o ouro nesse tão breve instante em que o dia me oferece a bênção de apenas um beijo ou de um abraço teu.
O desenho do teu rosto perfeito sobrepõe-se a todas as imagens que me envolvem, e projecta-se nítido e sempre no sorrir tímido dos teus olhos céu, nessa cortina tecida pelas nuvens e permanentemente rasgada pela inquieta dança das imperiais aves que dominam o “tecto” de todos os mares.
Há tempestade no mar…
E eu, que bebo das palavras e dessa mágica e única paz que a intensa memória me solta de ti, sou sobre a terra o mais feliz de entre todos os homens.
Que não importa a distância, o silêncio e o não ter-te aqui, quando apenas saber que existes e amar-te assim, é alinhar o destino com o maior dos sonhos…
É colher da vida a maior sorte.