segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Olá, muito bom dia!

Sou definitivamente um “rapaz” do campo.
Não levo a afirmação ao extremo do Herman José há alguns anos na versão Yvete Marize quando afirmava ser uma rapariga campestre porque no campo se tinha feito moça e porque tinha perdido a sua inocência num monte de feno após uma intervenção do primo Adérito entretanto emigrado para a Alemanha…
Mas sim, sou do campo, sobretudo no que diz respeito a não me negar a saudar qualquer outra criatura que num determinado momento se cruze comigo num espaço muito específico, por exemplo no elevador do prédio onde todos somos vizinhos.
Sei que exagero pois este não é definitivamente um comportamento exclusivo do “campo”, embora nós no espaço rural nunca nos neguemos a cumprimentar mesmo um desconhecido que seja; esta é acima de tudo uma questão básica de educação, e obviamente que nos meios urbanos há infinitas pessoas educadas que aplicam com esmero todas as regras de uma refinada e boa educação.
O que é certo é que ultimamente, e sem que eu tenha perdido qualquer volume que me possa ajudar a camuflar entre o vapor de água existente na atmosfera, ou mesmo sem que tenha ocorrido o milagre de me transformar em transparente ao estilo do Homem Invisível, em múltiplas ocasiões fui confrontado com pessoas que nas circunstâncias acima se comportam como se eu e as outras criaturas que possam estar presentes, pura e simplesmente não existíssemos.
É que nem olham para nós.
Eu já não digo que estabeleçam connosco aqueles diálogos destinados a preencher o silêncio sem o interesse de dizer algo de útil à humanidade. Os diálogos do tipo:
- Bom dia. Então como vai?
- Bom dia. Ora cá vamos indo com o que vamos engolindo.
Ou então do tipo:
- Bom dia. Então como vai?
- Bom dia. Vamos indo menos mal. Vamos lá ver se o dia se aguenta sem chover…
Também não é necessário exagerar, mas um “bom dia” ou uma “boa tarde” mesmo sem mais conversa não custam nada e são super agradáveis no fomentar da boa vizinhança e do bom convívio entre vizinhos, conhecidos, colegas, etc.
Ainda por cima estes cumprimentos e estes pequenos acenos de simpatia são uma das pouquíssimas coisas que não foram alvo do memorando estabelecido com os nossos credores da celebérrima Troika, e não são por isso taxados com IVA.
Não sei se este é o principal motivo para semelhantes comportamentos e para este “downgrade” no nível médio de educação, admito que haja muitas razões para tal, mas por vezes dá-me a sensação de que as pessoas quando saem das suas casas pela manhã fazem-no com um espírito tão acérrimo de guerrilha que a vida mais parece uma eterna competição onde estamos todos, uns contra os outros a competir para um troféu.
E nesta guerra, sorrir ou dedicar algumas palavras ao “adversário” podem ser sinais de fraqueza que jamais poderemos dar pelo risco de haver forte penalização no final do “jogo”.
Se é este o motivo, então eu estou completamente perdido pois digo sempre “bom dia” mesmo quando sei que provavelmente não terei resposta e quando suponho que os meus “interlocutores” me chamarão mentalmente “campónio”, antiquado e, possivelmente, excêntrico.
Mas talvez esta gente viva e morra sem saber que na vida os melhores troféus são os sorrisos que trocamos mesmo com alguém de quem não conhecemos o nome ou a história.
Temos pena.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Domingo

Gosto destas manhãs que dispensam o relógio e que nos deixam o despertar apenas à mercê do sol que de uma forma mais despudorada, ou então tímida, quando se esconde por detrás das nuvens, sempre nos dispensa uns raios de luz que penetram pelas frestas maiores ou menores das nossas janelas…
Tenho dificuldade em resistir ao “chamamento” do sol pela manhã.
Hoje, não tenho quaisquer outros compromissos, senão apenas este saborear de todos os minutos de um domingo, talvez em toda a semana, o dia por excelência e o maior fornecedor de “momentos gourmet”.
E por mais domingos que passem e mais locais que visite, o meu domingo terá sempre aquele cheiro de Alentejo quando ao chegar à cozinha para o pequeno-almoço com o “brinhol” que a mãe comprou cedo no mercado à nossa prima Hermenegilda, quando regressava da missa da Misericórdia, as carnes já cozem ao lume para que mais tarde ao almoço e com a bênção de um ramo de hortelã junto aos pedaços de pão se possam fazer umas apetitosas “Sopas da Panela”, antecâmara da canja que nos fará companhia mais tarde quando chegar a hora do jantar.
Hoje, estes cheiros, só na memória que nunca se apaga.
Sou dono do meu tempo e dispenso o GPS quando agarro o volante e me faço a sul pela auto-estrada quase deserta e, rio a rio: Douro, Vouga, Mondego… quase como se de uma corrida de barreiras se tratasse, acabarei por chegar e ver Lisboa.
O som do rádio não me interessa, nem quando repete as notícias que para mim já o não são pois ouvi-as logo pela manhã; nenhum CD dos que tenho no carro me agrada, e escolho por isso o silêncio que me põe os pensamentos à mercê do que a berma do caminho me reserva.
Às vezes o pensamento impõe-me que cante:
“Minha raiz de pinho verde, meu céu azul tocando a serra…”
E na “desfolhada” deste caminho beneficiando do impulso das letras de Ary, em breve chegarei à Serra de Aire, imponente no verde da urze, e entretenho-me contando histórias que dão forma e nome às sombras que as nuvens impõem sobre ela: um pastor, um lobo…
Um pouco antes, em Fátima, também veio do Céu a inspiração, mas por via da fé e rezo uma Ave-Maria.
Mais tarde, já pela noite, nos Jerónimos continuarei a rezar.
Paro para tomar um café na Área de Serviço quase vazia de gente. Estou eu e um grupo de quatro pessoas muito mais novas e que por certo vão atrasadas para algo, são a personificação do stress, verdadeira contra-natura num dia assim.
Não vejo Lisboa mas vejo o Atlântico na zona de Oeiras quando já me preparo para chegar a casa.
As nuvens oferecem ao mar uma raríssima e fantástica palete de tons cinza e prata.
Azul, só na memória de um olhar.
A casa espera-me mas eu atraiçoo-a rapidamente pegando no meu cachecol sempre guardado no Altar Benfica aqui do escritório e rumando ao Estádio da Luz.
Preciso gritar golo… ou se não houver golos, pelo menos praguejar contra o árbitro.
Vou pelo IC19…
Que bom haver domingos, para tudo e para que a semana nos possa devolver a nós próprios.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A imbecilidade das “Jotas” no país que pede pão

Foi num dos dias desta semana e aconteceu quando fui fazer umas compras ao supermercado onde vou habitualmente. Um homem alto e magro aproximou-se de uma senhora que arrumava as suas compras no porta-bagagem a pedir-lhe algo.
À distância de uma dezena de metros, só depois de ela lhe ter dado um pão que ele começou imediatamente a comer de uma forma sôfrega, me pude aperceber da natureza do pedido.
Este é apenas um episódio mas quem circula pela cidade e não se olha apenas ao espelho usando os vidros das montras mais caras de uma face que é apenas da riqueza de muito poucos, tem a possibilidade de ir coleccionando momentos destes que lhe comprovam a agonia real do país.
E a agonia do país é tanto maior quanto quem o lidera está mais preocupado, imagine-se, em acertar as contas com o proprietário de um restaurante que serve repastos de leitão, ou então a gastar milhões de Euros para fazer um referendo onde se questionam os óbvios direitos de igualdade que segundo a Constituição da República Portuguesa assistem a todos os cidadãos.
Eu sei que nas Juventudes Partidárias, incubadoras artificiais de líderes que asseguram a continuidade desta reinante mediocridade política, financeira e social, não há tempo nem para estudar segundo os curricula normais, quanto mais haver tempo para ler e conhecer a Constituição.
É que entre festas, copos e comícios a agitar bandeiras, escoa-se o tempo e vão-se os dias não restando mais nada do que aquelas convicções bacocas e tolas que foram recebendo ao longo dos anos em que fizeram o secundário frequentando os caríssimos colégios da Opus Dei metidos pelos seus “paizinhos” numa máquina de fabricar elites.
Crianças? Adopção?
“Bendita seja a família tradicional, independentemente do pai bater na mãe ou ser alcoólico e até violar uma das filhas que recorre ao aborto clandestino”.
Adopção por casais homossexuais?
“Credo. Que desvio. Antes um reformatório só com freiras no caso das raparigas e com frades no caso dos rapazes para que assim possam beneficiar do crescimento num contexto em que os géneros femininos e masculinos estão ambos presentes.”
Por favor…
A agonia real do país é uma consequência dolorosa deste desprezo atribuído aos cidadãos no contexto de uma agenda política orientada pelo folclore das bandeiras ideológicas dos partidos, e no caso concreto da co-adopção, dói esta incapacidade de perceber que o contexto afectivo ideal ao crescimento de uma criança não está vinculado a uma forma familiar padrão.
Com a mesma forma de alumínio eu posso fazer um bolo doce ou uma salgada bola de carnes, como em tudo na vida interessa sempre mais o conteúdo do que a forma.
E o Estado deve ter meios para assegurar que há ou não um contexto ideal para que uma criança possa crescer e desenvolver-se de forma saudável.
Isto tudo para lá da questão dos direitos iguais que nos assistem…
Mais uma vez se comprova que o país só tem condições de avançar quando cortarmos este ciclo da imbecilidade e colocarmos a decidir e a legislar, gente que não precisa saber muito mais para além do que é a vida real num dia-a-dia que não está fácil.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O faz de conta e a extorsão dos méritos alheios

Conta-se que há alguns anos, e tantos que eu nunca presenciei tal situação; sempre que um toureiro muito famoso nascido na minha terra actuava na “nossa” Praça de Touros e era alvo de grandes ovações por parte do público pelo seu triunfo, o pai deste se levantava ao mesmo tempo nas bancadas e gritava em alto e bom som para os conterrâneos e forasteiros então ali presentes:
- Eu é que sou o pai do artista!
Por favor não se riam da criatura pois comportamentos iguais andam por aí aos bandos.
Pela segunda vez, e para meu contentamento muito particular pela justiça do reconhecimento, o Cristiano Ronaldo foi considerado o melhor jogador de futebol do mundo no ano de 2013, e não há quem nesta terra não se levante e não se ponha aos gritos a colar-se ao sucesso da criatura aproveitando para alimentar as suas “vaidadezinhas” muito particulares.
Ainda não perdi a esperança de espreitar na televisão a entrevista a uma empregada de padaria no Funchal que afirme que o sucesso do Ronaldo se deve à qualidade do Bolo do Caco que ela desde sempre forneceu à família Aveiro, amiga que é da D. Dolores.
Por favor, o Ronaldo é o melhor jogador do mundo porque é bom de bola e porque possivelmente treina e trabalha mais do que qualquer outro jogador do mundo.
Mérito dele, portanto.
E sorte a nossa porque ele joga pela Selecção Nacional e nos dá alegrias quando marca golos.
Nas honras a Eusébio por ocasião da sua morte, a mesma colagem inoportuna numa espécie de coabitação forçada por debaixo da coroa de louros dada por mérito à criatura, todos caindo na tentação de se afirmarem como essenciais ao pagamento prévio do “condomínio” no Panteão de Santa Engrácia.
Toda a gente conhecia o Eusébio, todos viveram com ele situações muito particulares e o admiravam muito…
Pedro Santana Lopes ajoelhado aos pés da urna de Eusébio esteve ao seu melhor nível, colocando-se numa situação que compete em ridículo com a “confissão” de ter ido assistir aos concertos para violino de Chopin, na altura em que era Secretário de Estado da Cultura.
Em 1991 na altura da reeleição de Mário Soares também ficou célebre o “acotovelamento” provocado por Jorge Sampaio que semeou nódoas negras nos membros do MASP para aparecer a uma janela do Saldanha ao lado do candidato vencedor com um número record de votos, e fazer assim uma boa acção de campanha para as legislativas do mesmo ano, as quais viria a perder.
E a propósito de Soares, desconhecemos ainda o que ele acha de Ronaldo relativamente à cultura e aos hábitos etílicos, mas a avaliar pelos discos lançados pela Cátia Aveiro, está bem de ver o que Sua Excelência dirá do “petiz”.
O que é demasiado triste em tudo isto, é que enquanto nos envolvemos neste “foguetório” todo e gastamos as energias apenas para trepar para os altares onde colocamos os nossos egos balofos, ficamos demasiado “encandeados” e perdemos a lucidez para tomar as opções correctas e fazer o país avançar um pouco mais.
Hoje na Assembleia da Republica durante uma votação cretina que desrespeita a própria Assembleia pois “cospe” sobre uma legítima votação anterior, uma senhora e muito mediática deputada afirmou que não votava segundo a sua consciência mas apenas por respeito à “disciplina” que o partido lhe merece.
É o assumir do faz de conta.
Nas vitórias e nas honrarias estamos lá, e nos assuntos difíceis… teve que ser assim.
Eu nem queria, mas… 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Há noites que deveriam ser eternas

Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Sentimo-la cair e palpamos o seu desespero pela inevitável derrota, constatando o ritmo irregular com que bate na vidraça: lento e a parecer algo hesitante, depois rápido e muito intenso… e por momentos desaparecendo como que rendida e a pretender desistir desta tão inglória luta.
A nossa mesa é junto à janela acossada pela água, a janela que permanecerá imperturbável durante toda a noite e através da qual o luar nos revela o descanso de todos os barcos, grandes e pequenos, os heróis que unem as margens do rio, os “passos” seguros do Homem no milagre de caminhar sobre todas as águas, que não só as do rio, já que o mar está logo ali um pouco mais à frente.
Em cima da mesa onde uma vela arde na vulnerabilidade da chama abandonada e totalmente à mercê do vento soprado pelas nossas vozes à conversa, há palavras: as ditas, as dos gestos e as dos incansáveis olhares; muito mais do que comida ou o vinho tinto devidamente “aceso”, se é pelas palavras que os afectos se desprendem de nós e se constroem as pontes que tal como os barcos, ligam margens e unem vidas...
Quando um Homem quer muito, assim, não há qualquer ponte que persista por fazer.
Basta tão-só dar… e dar-se.
Do lado de cá do luar, aqui onde a janela rasga a parede forrada por tantas memórias, fragmentos fotografados do passado de muita gente, brilham então as pontes… brilha a amizade sempre muito mais do que a pobre vela acesa, enquanto sentimos que é por ser simples que este momento é afinal tão grande.
O conforto quente da amizade na noite de uma chuva que persiste.
Ouço a chuva, e não a vejo, porque quando por instantes deixo o olhar voar pela janela, ele vai para bem mais longe no impulso do pensamento que te resgata de todas as distâncias e te faz presente.
E tenho a noção de que na face me assenta um tonto sorriso sempre que estas vias da memória te trazem até mim.
Por mais que se esforce, jamais a chuva conseguirá apagar o brilho incomparável que Janeiro sempre oferece ao luar.
Mas nós conseguimos…
Acontece assim, às vezes, à volta de uma simples mesa, construindo pela amizade as pontes que unem as verdades das nossas vidas, por palavras… e quando o coração repleto de amor, nunca está só e faz sentir que tudo vale mesmo a pena.
Há noites que deveriam ser eternas… como o meu amor por ti.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As “cataratas emocionais” numa tarde Alentejana

Ao regressar ontem a casa em Vila Viçosa após cirurgia às cataratas nos dois olhos, o meu pai admirou as paredes da nossa cozinha e resolveu elogiar o ar branco e imaculado das ditas que são caiadas religiosamente todos os anos pela minha mãe, reconhecendo que ao contrário do que julgou durante anos, as mesmas não apresentam quaisquer manchas escuras de aspecto desagradável.
Sem ser oficialmente nomeado tive de intervir automaticamente como juiz na gestão de um conflito doméstico desagradável e de alto risco pois a minha mãe não achou graça nenhuma ao comentário e ao facto do meu pai supor que lá por casa se vivia com as paredes manchadas e a clamar pela cal que nunca chegava.
E ele sempre a jurar que antes via as malditas manchas escuras em todas as paredes da cozinha.
Numa versão campestre e Alentejana, num fim de tarde de Janeiro do Século XXI, eu vi-me assim no interior de uma edição revista e aumentada da Alegoria da Caverna escrita na Grécia Antiga por Platão em “A República” algures no Século IV antes de Cristo.
Mas também numa terra de Calipolenses (aprendam por favor porque assim somos designados nós, os naturais de Vila Viçosa), Callipolis (Cali=bela + Polis=cidade), exactamente a designação utilizada para a cidade ideal sonhada pelo filósofo nessa mesma obra, não é de estranhar que estas afinidades se estabeleçam cruzando os séculos, que não só as intervenções do FMI nos aproximam dos Gregos.
Certo é de que antes como agora, aquilo que vemos e que convictamente acreditamos ver, pode não corresponder à exacta realidade de um objecto, de uma pessoa, de uma circunstância, etc.
As nossas “cataratas”, por vezes mais emocionais do que até propriamente físicas, oferecem-nos uma perspectiva, muito mais do que uma visão global exacta do que quer que seja.
E quantas vezes até conseguimos ver algo numa determinada perspectiva, apenas pelo impulso de muito a querermos ver dessa forma. Reencaminhamos a perspectiva no sentido preferido, tal qual fazem os políticos na avaliação dos números relativos por exemplo à performance da economia do país num determinado período.
Neste contexto, ao ridículo se expõem todas aquelas pessoas que jamais aceitam discutir as suas inquestionáveis verdades e rejeitam as achegas que as visões alheias podem trazer para o desbravar conjunto do caminho que mais no aproxima da verdadeira, objectiva e inacessível verdade do que quer que seja.
Do encontro com os outros e da discussão nasce verdadeiramente a luz e quanto erro pode encarnar uma pessoa orgulhosamente só e abraçada à sua umbilical auto-estima super desenvolvida.
E quanto erro e quanta violência podem surgir do confronto de duas ou mais “razões absolutas” sobre um determinado assunto.
Ao fim da tarde no meu regresso à cidade de Ulisses, com um luar de Janeiro a iluminar-me a planície Alentejana de uma forma soberba, e já com a paz familiar devidamente restabelecida à sombra de uma parede que os três já conseguimos ver sem quaisquer manchas, deu-me para filosofar.
Sem querer ser Platão (e muito menos Sócrates, por todas e mais essa política razão tão do Século XXI).
Um Calipolense apenas, em trânsito, que gosta muito de pensar e que em cada dia que passa tem menos certezas sobre o que quer que seja.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

MADALENA

Algures num dia de Dezembro de 1981, e é impossível recordar-me exactamente de qual, estávamos nós a passar uma tarde no Convento das Chagas no contexto do nosso grupo Sementes de Esperança com o saudoso Padre Armando Tavares, e o Senhor Arcebispo de Évora, D. Maurílio de Gouveia, que tinha chagado à diocese uns dias antes, precisamente a 8 de Dezembro, e estava de visita a Vila Viçosa, passou por lá para nos cumprimentar.
Tu envergavas uma camisola vermelha com a estampa de um burro e a frase “Olá mano!”, e tentaste esconder-te atrás de nós para evitar que Sua Excelência Reverendíssima pudesse ler e ofender-se com semelhante “cumprimento”.
E o que nos rimos todos, e tu própria, à conta desta aflição…
Fui buscar este episódio passado num espaço que foi nosso por eleição, e quem hoje frequenta a selecta Pousada de D. João IV desconhece que um dia existiu um grupo de amigos que por ali foi tão feliz; porque ele ilustra exactamente tudo o que sempre soubeste criar à tua volta e que tanto o nosso grupo de amigos tem beneficiado ao longo destes anos: a fé vivida de uma forma séria e responsável com tudo o que ela acarreta de honestidade, simplicidade, amizade, desprendimento, atenção aos outros, etc; e o sentido de humor e a alegria com que tudo isso é vivido.
Quem tem o prazer de conhecer toda a tua família sabe que tu não és assim por um qualquer acaso, é um enorme benefício genético que tu enobreceste muito com o teu grandíssimo carácter muito particular.
As tuas gargalhadas são inigualáveis, e quando nos rimos, rimo-nos sempre de nós próprios. Tu contrarias claramente Jean Paul Sartre quando disse que os Cristãos não têm cara de ressuscitados: tu tens!
Quem fala das tardes das “Chagas” pode falar de Barcelona e da missa em Catalão em que não “pescámos” nem uma palavra mas rezámos todos juntos no nosso Português com sotaque assumidamente Alentejano, um pouco antes de termos acabado o serão a cantar na Plaza Real à sombra das enormes palmeiras (a letra da cantiga fica para sempre reservada à intimidade do grupo de amigos), ali paredes meias com as Ramblas por onde passeámos um dia todos juntos na companhia de uma melancia que não perdemos oportunidade de comprar numa promoção de supermercado, na mesma altura em que te perdemos no El Corte Ingles da Plaza da Catalunha e te fizemos anunciar nos megafones e em ar de uma verdadeira e dolorosa tragédia como “Madalena de Portugal”.
Com a discrição natural das pessoas que são grandes, às vezes nem damos por ti e pela tua presença, mas todos temos a enorme certeza de que se tu não existisses e não estivesses connosco, era impossível que fossemos todos tão unidos e tão felizes.
E a vida é tantas vezes como aquele passeio a pé que demos pelos Alpes, em Gavarnie na companhia do Manuel e da Ana Cristina, caminhando de encontro à montanha e por entre montanhas, provando da água gélida mas tão límpida do regato, rindo desalmadamente pelas anedotas contadas por entre o pó que os nossos passos levantavam no caminho…
Louvando a Deus pelas montanhas, pela água, pela amizade, pelo riso e pela vida.
Obrigado por existires nas nossas vidas e se puderes perdoa-me esta partida de escrever sobre ti, mas decretei 2014 como o “Ano da Amizade” e ninguém dos “nossos” irá escapar.
Parabéns, grande Madalena.