terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Existirão dias que sepultam as palavras de amor?

Há sempre um dia em que o poeta desce do onírico estado da sua paixão e, nem que por segundos apenas e devolvendo-se à sua banal condição de Homem, descobre por uma racional lucidez, que as palavras que teceu a partir da alma e às quais ofereceu um intenso aroma de flores, jazem no despejo, na sarjeta da indiferença do destinatário do seu amor.
Até pode chorar então o poeta, despudorada criatura que travões não sabe assumidamente colocar sobre todos os gritos e sobre a dor que o seu ser lhe impõe.
E no regresso inevitável à sua natureza de crónico sonhador, quantas vezes o poeta recicla o “lixo” que encontrou no hiato em que foi apenas Homem, e solta novas palavras, novos poemas, tão-só por acreditar que a dor de ontem jamais existiu e é assim uma banal mentira.
É a recaída crónica do poeta, patético e ridículo na inveterada miopia racional de vislumbrar que a sua fé assenta no delírio de confundir, ver e sentir incenso, naquilo que é afinal o pérfido e asqueroso aroma do real e efectivo esterco a que devota tanto amor.
Porque o poeta é aquele que ama, e quem ama vê tudo o que deseja e muito quer… até mesmo onde nada existe.
Ou então onde existe apenas tudo aquilo que a vida tem de pior.
Mas de dor em dor, e pela intensidade com que dói a indiferença, até o poeta consegue um dia calar e matar este seu amor.
Apaga as palavras?
Deixa secar-se por dentro?
Renega a fé e devolve-se à condição de apenas Homem?
Não.
Jamais.
Com a morte da sua natureza morreria o próprio poeta.
Por isso sobrevivem as palavras…
Continua a borbulhar por dentro a fonte incessante de todos os sentimentos…
Persiste a fé e sobrevive o poeta.
Apenas deixou que o sol levasse de vez num ocaso, todos os despojos de um velho amor, trazendo consigo reluzente no brilho de uma nova manhã que sorri a oriente, a perfeição de um novo, intenso e muito secreto amor.
Nessa manhã, e mais do que nunca, soltará o poeta ao sol todas as palavras, nem que para isso tenha de rasgar as nuvens.
E as palavras dos poetas cheiram sempre a rosas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Os divórcios inevitáveis

Há momentos na vida em que a existência de uma Maya cartomante dentro de nós, com ou sem lipo-aspiração e outros quaisquer tratamentos estéticos no sentido de aumentar e dar nova forma aos seios; mas com a garantia de uma eficácia de 100% nas previsões, nos daria um jeitão para nos poupar a alguns dissabores na hora de escolher um marido ou uma mulher, melões e melancias, mangas, Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Presidentes de Câmara, etc; e até poder dar-nos algum desafogo económico, por exemplo na hora de escolher uma raspadinha ou preencher o boletim do Euromilhões.
Às vezes aproximamo-nos dessa condição de prever o futuro.
Uma amiga confessou-me que ao chegar à igreja vestida de noiva e de braço dado com o pai, já com todos os convidados dentro da igreja para assistir ao seu casamento, no instante em que lhe escancaram as portas do guarda-vento e viu ao longe a talha do altar-mor pensou de si para si:
- Bolas, tens feito muitas asneiras mas hoje acho que exageraste. Isto não vai dar certo.
Esteve casada três meses, o que comprova que a previsão que fez do cataclismo foi certeira, muito possivelmente por ser demasiado óbvia e fácil à luz da mais pura racionalidade, mais até do que daquela intuição de que o género feminino costuma fazer bandeira.
Também há outras situações em que o próprio não consegue prever nada mas se acedesse à informação e à opinião dos que o rodeiam, por certo se pouparia a alguns dissabores.
Também pelo Alentejo e há alguns anos, a meio de um banquete de casamento, naquela fase em que já toda a gente almoçou e a “malta” aproveita para ir ao café tomar a bica, e as senhoras que sofrem dos joanetes vão a casa mudar de sapatos, fomos encontrar a nossa amiga, a noiva, sentada sozinha no meio do salão com um ar muito triste.
Quando lhe perguntámos pelo noivo, a resposta foi pronta e certeira:
- Foi visitar o Paço Ducal com uns amigos da terra dele que convidou para o casamento.
Estava na cara.
Só ela é que não conseguiu prever aquilo que todos antecipámos logo ali: o casamento durou dois ou três anos.
Fazendo uma extensão desta muito pessoal necessidade de uma Maya para podermos prever o futuro no contexto das nossas vidas privadas, para a gestão do país e para a previsão do défice das contas públicas, fico na dúvida se é genética esta lusa incapacidade para acertar.
Na maior parte das vezes o défice fica acima do acordado com os credores e no ano passado parece que ficou objectivamente abaixo porque nos “sacaram” mais dinheiro no pagamento do IRS.
Todos os “irrevogáveis” ministros se congratularam com a situação e puseram ar de festa, esquecendo-se que esta música foi tocada por cima da nossa pele em pose dolorosa de bombos… com pancadas extra que seriam perfeitamente evitáveis.
Haja decência.
Nas histórias, os heróis nunca são os vilões, os que erram por excesso ou por defeito, muito pelo contrário, são as vítimas que dão a sua vida no patrocínio a uma causa.
O seu a seu dono e curvem-se os políticos todos perante nós, os verdadeiros heróis anónimos assinalados não por medalhas ou condecorações, mas tão-só pelos recibos de ordenado.
As Mayas até podem ser necessárias para escolher melancias ou para a sorte do Euromilhões, mas para a gestão da vida privada ou para a gestão de um país, elas são perfeitamente dispensáveis à luz da racionalidade que no caso da vida privada fica às vezes beliscada pela dormência do amor e da paixão, e no caso da gestão de um país pela falta de competência.
Não tiveram nem um “feeling” na hora em que vos escancaram a porta com vista para o altar onde nos imolaram?
Agora não se admirem se isto resultar em divórcio… 

domingo, 26 de janeiro de 2014

O deserto e a tarde pela cidade

Que deserto maior poderá existir do que a errância de um homem solitário que descrente abandona os passos à mercê do desconhecido e dessa baixíssima probabilidade de acerto com o destino e a vontade impostas pela sua alma desassossegada.
E o oásis que nunca chega na sorte que alinha a vida com este sonho tão nosso que a alma sempre encerra, e é inerente à condição de estar vivo e ser pessoa…
Há pombos que esvoaçam em bando rasgando a maresia, essa fresca brisa que empurra a gente para o interior aquecido do café onde o tilintar das chávenas e o ruído das vozes patrocinam uma estranha e desacertada sinfonia.
O balcão corrido é a companhia disponível para os solitários, os que não irão jamais temperar de palavras o quente sabor da bica, os que ficam ainda mais tristes no instante em que se voltam para a parede, viram costas à algaraviada das mesas onde borbulha o calor dos afectos, e ficam expostos e à mercê da antipática mulher desprovida de sorrisos que mais parece uma impessoal máquina de transportar chávenas… e fazer trocos.
Restam os pensamentos para acompanhar a bica.
E resta o amor, que amor mais perfeito não pode existir do que o do homem solitário, aquele amor que existe pela força da vontade e do querer, o amor que até pode nascer da genética de uma pura ilusão, mas que por ser desprovido de nome, rosto ou outros mundanos detalhes… e quiçá defeitos, não vê beliscada a divina condição que o faz eternamente perfeito.
Por muito próxima que a concretização se aproxime da nossa vontade, a forma asfixia e reduz a dimensão enorme que um sonho sempre encerra em si mesmo.
Assentou bem o café ao homem que se devolve às calçadas da cidade e que agora quase inexplicavelmente consegue sorrir.
Os passos ainda seguem errantes…
Os pombos continuam a esvoaçar loucos por sobre a sua cabeça…
Persiste um certo sabor a deserto neste seu solitário passeio pelo domingo da cidade…
Mas faz-se oásis, a sorte que pelo amor mata a solidão e a substitui pela mais legítima esperança.
Afinal já é quase noite e o nascer do sol em breve trará um novo dia, e quiçá seja amanhã… o tal dia.
É sempre pela fé nos sonhos que seguimos, qual coração a bombear sangue pela vida que não pára.
E sorrimos.
Até mesmo quando não acontece nada e em verdadeiro estado de auto-suficiência deixamos que tudo aconteça na intimidade tão secreta de nós próprios.
Bastamos nós, pela força do pensamento e pela fé no amor, para que se prepare a alquimia doce de acreditar que um dia...
A bica às vezes dá uma ajuda.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A humildade segundo Francisco

Uma das pessoas mais conflituosas do meu círculo de relações pessoais afirma ser santa, dando como prova da sua santidade, a incompreensão de que é vítima por parte de todos os que a rodeamos, ela, o único e real epicentro da razão e da verdade.
Descolei hoje este “cromo” da minha caderneta de relíquias porque me parece não ser um caso isolado no contexto actual das “Olimpíadas da Humildade” que foram informalmente abertas na Igreja Católica depois do Papa Francisco se ter sentado na cadeira de São Pedro, estando continuamente a fazer-nos o apelo a nós católicos, para que pela humildade nos aproximemos Daquele que por ter sido O mais humilde, foi O maior de todos: Jesus Cristo.
E toda a gente de repente virou “supé humilde e amiga dos pobezinhos, tá a ver?” numa competição que promove desde logo o homicídio da humildade, pois se eu afirmo que sou mais humilde do que tu, já não estou a sê-lo.
A vaidade é o puro veneno da humildade.
Há alguns dias, um padre meu amigo de há muitos anos e pessoa que muito estimo, afirmou que lhe parece algo estranho, ouvir os ateus a citar tantas vezes o Papa Francisco. A mim também. Mas às vezes ainda me parece mais estranho ouvir alguns de nós católicos a citá-lo.
É que falamos da humildade com a mesma convicção e a mesma expressão de verdade com que um judeu fala dos benefícios da não circuncisão e da ingestão diária de carne de porco.
Soa a falso.
É um pouco como o banquete em casa de um novo-rico em que está tudo tão bonito e tão chique mas só até ao momento da refeição em que o dono da casa começa a limpar as unhas com uma das pontas do garfo de prata.
Ténue manto diáfano da hipocrisia por sobre uma vaidosa verdade que roça a sobranceria.
No fundo, e talvez esse seja o nosso grande problema, todos consideramos estar mais próximos da santidade do que os demais, um pouco ao melhor estilo do meu “cromo”, correndo até o risco de ao morrer podermos entrar em órbita se o São Pedro não nos deitar rapidamente a mão, tal a velocidade que levamos na elevação ao Céu.
Num outro dia durante o almoço de uma festa de amigos, estive uns minutos à conversa com uma conterrânea minha que professou nas Irmãs Hospitaleiras e vive aqui por Telheiras onde se encontra a estudar enfermagem não por qualquer projecto pessoal de desenvolvimento mas tão-só porque precisa dessa formação para ajudar quem precisa.
O “nós” a suplantar o “eu” na naturalidade e no exemplo, que não por palavras de auto-elogio e vitimização, na acção dos verdadeiros heróis da fé que apesar das “obras valorosas” jamais repousarão nos panteões das vaidades dos Homens.  
Eu quando um dia for grande gostava de ser só um pouquinho como ela, porque acho definitivamente que é dessa humildade que fala o Papa Francisco e é ela que verdadeiramente nos aproxima de Jesus Cristo.
É pois tempo de a calar como palavra escrita, dita e repetida a letras nos púlpitos e nas sacristias, colocando-a viva e por exemplos nas ruas, no trabalho e em todos os sítios por onde passamos.
Como dizem os Espanhóis: “todo lo demas son tonterias”.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Vodka, baldas e… praxes académicas

Jamais esquecerei os anos que entre 1984 e 1989 passei na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.
Para além de toda a formação de qualidade que aí recebi e que me “moldou” como profissional, tive o privilégio de conhecer colegas com quem partilhei muitíssimas horas de muito para lá do estudo, criar cumplicidades num tempo em que a liberdade em Portugal ainda era uma adolescente, e fazer com eles a descoberta de um mundo que se preparava para deixar cair muros e relançar a esperança.
Muitos de nós estávamos deslocados, a viver numa cidade muito maior do que as nossas terras do interior onde permaneciam os nossos pais, e fomos criando uma nova família à volta das mesas das cantinas universitárias onde sempre almoçávamos e jantávamos aquela bendita solha frita.
Brincávamos muito, tivemos direito a uma aula falsa no primeiro dia na faculdade, queimámos o “grelo” e benzemos as fitas, mas sempre a cantar e a fazer festa.
E foi suficiente.
Chamo hoje até aqui estas memórias para vos dizer de caminho que detesto as praxes académicas e que acho inacreditável como as “academias” toleram este tipo de actividades que beliscam a dignidade dos alunos.
Não tolero cortejos académicos patrocinados por marcas de cerveja e outras bebidas, as “latadas” e as infinitas semanas de festa que se destinam apenas a camuflar o desejado consumo excessivo de álcool, de sexo e de todas as outras coisas ao melhor estilo da “Casa dos Segredos”.
Acho ridículas as tunas, agremiações universitárias semelhantes a “Ranchos Folclóricos das Universidades” onde a brejeirice se confunde com a ousadia e a liberdade com o exercício de uma intolerável falta de educação e de respeito por tudo e por todos.
E esta minha avaliação não a faço por estar velho, faço-a na posse de todas as minhas condições físicas e mentais, apelando à sensatez, que é algo que muito prezo.
Em Portugal e em pleno Século XXI, o retrato robot de um estudante universitário é um “gajo” vestido de preto que consome álcool em excesso, que faz noitadas, canta e baila em infinitas festas e que conhece melhor as marcas de Vodka ou de gin do que qualquer matéria que conste nas sebentas, nos livros ou nos jornais.
De passagem faz uns exames para conseguir um diploma, que isso sim interessa muito mais do que aprender seja o que for.
Afirma que livros ou jornais são objectivamente uma “seca”.
Experimentem a perguntar-lhe se conhecem a “Absolut” ou o Saramago e vão ver que a primeira todos conhecem, mas o segundo…
Sei do que falo, tenho provas muito concretas entre amigos, mas também conheço gente, filhos de amigos e meus amigos que estão nos antípodas destes comportamentos, sendo a óbvia excepção que sempre confirma a regra.
A regra da imbecilidade que ao longo dos anos tem ferido a dignidade de jovens e famílias com real impacto psicológico e físico em pessoas que deveriam estar tão-só a viver os melhores anos da sua vida.
Ninguém sabe o que verdadeiramente se passou na Praia do Meco na noite em que morreram seis jovens levados por uma onda.
Talvez nunca se venha a saber.
Mas basta a suspeita para que se tome uma atitude e as universidades públicas e privadas têm a obrigação de a assumir condenado e matando este tipo de praxes inadmissíveis.
Uma universidade educa e educar é cultivar valores e ensinar a distinguir o certo do errado à luz do respeito que todos os Homens nos merecem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

CONCEIÇÃO

Modernos e sempre muito à frente do nosso tempo, passámos grande parte das férias do Natal de 1981 a ensaiar uma dramatização do poema de Jorge de Sena “Natal de 1971” (“Natal de quê? De quem?”).
Com os timings definidos para a música e para o texto de cujos versos distribuímos por todos, definitivamente a parte pior foi a gravação das nossas vozes. Foram tardes inteiras passadas ao redor das aparelhagens existentes nas salas de toda a gente, e havia sempre alguém que não dava a entoação certa, que tossia, que dava uma entoação apatetada que nos fazia rir, alguém que se esquecia de entrar no tempo exacto…
E acabávamos sempre a rir, a fazer grandes lanches e a programar nova sessão para o dia seguinte.
Mas um dia conseguimos terminar a “banda sonora” e a encenação que fizemos para os nossos pais e amigos na Igreja das Chagas resultou num rotundo sucesso.
Tu entravas ao som de uma música muito alegre, vestida de palhaço e a brincar com uma caixa enorme que simulava um presente. Ao abrires a caixa, a música “entristecia” e surgiam então quatro amigas vestidas de negro que ofereciam gestos e poses às palavras do poema que nós, verdadeiros “Mários Viegas” da Planície, dizíamos afinal tão bem.
Até conseguimos desgrenhar e vestir de preto a nossa querida Irmã Irene.
Fui buscar esta história e pu-la aqui no dia do teu aniversário porque esta encenação “encarna” exactamente o inverso do que é a tua vida… e afinal um pouco a vida de todos nós, os amigos que um dia ousámos sonhar juntos num grupo a que chamámos Sementes de Esperança e do qual tu foste a primeira presidente eleita.
Os “anos do palhaço” e da música alegre, inevitavelmente com muito Disco sound e Rock n’ roll nas inesquecíveis festas de aniversário (e as da vossa casa eram sempre as melhores) vivemo-los na expectativa de um enorme presente que surgiria algures no tempo quando crescêssemos.
As voltas que então demos à “caixa”, prefácio do que seriam as nossas vidas, foram em conjunto e no meio da maior amizade do planeta, nos nossos encontros nas quartas-feiras à noite na garagem do Padre Reia; nos encontros na Senhora do Monte da Virgem, na Serra d’Ossa; nos piqueniques na Fonte dos Castanheiros, na Tapada; dos passeios ao Bosque de Borba; na espera ao Papa João Paulo II agarrados às grades metálicas que nos puseram na Avenida; em Fátima nos Encontros Animação Nacional onde um dia subiste ao altar com o João Canha para de camisola amarela cantarem os versos da Diocese de Évora; na confecção de um bolo de aniversário com dezenas de quilos para comemorar os 2000 anos de Nossa Senhora, liderados então pela nossa querida D. Mananinha; nos Convívios Fraternos em Évora ou em Proença-a-Nova; nas Férias Missionárias…
Sempre e em tudo com a seriedade que nos ensinavam em casa e que era reforçada por esse inigualável beneficio do convívio com tantos mestres extra que a vida nos facultou: o Padre Zé Luís, o Padre Armando, a D. Bárbara Elisa, o Padre Simões…
E um dia crescemos mesmo e a caixa dos “anos do palhaço” abriu-se definitivamente sem que daí surgissem figuras negras, muito pelo contrário, surgiu a festa.
Espreito para a festa que brotou dessa “primavera” que partilhaste connosco, quando nos encontramos todos, e muitas vezes à mesa do Restauração para um café depois da missa das onze e meia em S. Bartolomeu.
A festa tem o teu sorriso, o do Luís, do Pedro, do Francisco e da fantástica Isabel, que apesar de não querer, para mim será sempre a “Mafalda Veiga do Carrascal”.
Quais gestos ou figuras negras?
Exactamente o contrário.
Porque, se é verdade que quem semeia ventos colhe tempestades, também sabemos que quem vive intensamente a primavera, jamais perde o benefício do “vício” de ter flores… até quando os dias são mais tristes e é inverno, ou quando a saudade se impõe e ganha o salgado gosto que lhe oferecem lágrimas.
Foi esse o nosso segredo: fomos imbatíveis na forma tão intensa com que enfrentámos a primavera.
São, muitos parabéns pelo teu aniversário e por estes afinal tão poucos anos relativamente ao muito que mereces viver.
E desculpa o título de “Conceição”, mas nesta ronda pela amizade em 2014 não vai haver diminutivos ou alcunhas, só nomes de baptismo, que eu bem quero fugir do meu Quim… Barreiros.
Para terminar não resisto a chamar novamente à liça o grande Jorge de Sena, mas desta vez com um poema (Ode ao futuro) que definitivamente tem muito mais a ver contigo e que por isso te dedico a ti, ao Luís e ao trio fantástico das vossas “flores”:
“Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.”
Algures em Vila Viçosa e ali para os lados do Carrascal.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Essa tão “descartável” leveza do ter… e do ser

Uma amiga que se apercebe pela manhã que uma malha das meias fugiu para lá de Marte, vai de seguida à loja dos Chineses, e há sempre uma loja Chinesa em qualquer esquina; comprar outras semelhantes e, de imediato, deita estas para o balde do lixo.
Há alguns anos até poderia ir comprar outras para usar no momento (dificilmente a uma loja Chinesa) mas guardaria estas para levar mais tarde a uma daquelas senhoras que com muita paciência e um pequeníssimo aparelho iluminado por um candeeiro, se dedicavam a apanhar malhas de meias.
O conceito de descartável talvez seja um dos ícones do nosso tempo, umas vezes com mais justificação pela necessidade do que outras, e daí que uma semana sem recolha de lixo ponha os passeios intransitáveis, tal a quantidade de desperdícios que cada ser “cospe” para o planeta no seu dia-a-dia.
E quem fala de meias de senhora pode falar de uma infinidade de outras coisas…
Antes íamos ao pão com uma bolsa de pano que era lavada periodicamente e poupávamos assim na quantidade de sacos de plástico.
O mesmo acontecia com as outras compras de mercearia ou supermercado transportadas em alcofas e outros apetrechos resistentes e duradouros.
As fraldas para os bebés eram de pano e lavavam-se com sabão para nova utilização. Os mais supersticiosos não as punham a secar à lua porque se dizia que elas transportariam a lua para dentro das crianças, fosse lá isso o que fosse.
Não havia pensos higiénicos e as senhoras tratavam dos “incómodos” do ciclo menstrual com panos laváveis e reutilizáveis. Desconheço se os punham à lua e se o satélite natural da terra poderia de alguma forma incomodar as senhoras…
Os guardanapos também eram de pano assim como as toalhas de mesa dos restaurantes.
As garrafas de vinho, de refrigerantes, do leite e até os garrafões de água, eram todos de vidro e entregavam-se nas lojas e nos cafés para ser reutilizados. O vasilhame tinha um valor definido que era pago como caução.
Bebia-se sempre a água por copos que até poderiam ser de plástico mas que tinham sempre uma resistência que possibilitava a sua lavagem e reutilização. O café era sempre bebido em chávenas de porcelana que depois eram devidamente lavadas. E mexíamos o açúcar com colheres de metal também reutilizáveis.
Nos hospitais, os materiais cirúrgicos e de penso eram tratados em auto claves e reutilizados sempre que possível. Sempre que ia ao Centro de Saúde lá via a Irmã Madalena com uma pinça a tirar as agulhas de um grande caldeirão de material esterilizado.
Em casa, qualquer avaria num electrodoméstico ou até numa qualquer peça de mobília implicava o recrutamento de um técnico especializado e só perante o diagnóstico irreversível de morte se passava à fase de compra de novo material.
Não existia o IKEA e esse conceito de mobília para uma temporada.
A roupa também transitava entre gerações e a ideia da ZARA e da roupa que não aguenta mais do que uma estação, não passava sequer pela cabeça dos futuristas que viviam vidrados no 2001 – Uma odisseia no espaço.
Ganhava-se um relógio quando se concluía com êxito o exame da 4ª classe, instrumento que mantínhamos no pulso durante décadas não tendo essa pretensão tão Swatch de combinar relógios com roupa e com moda.
Lentes de contacto, óculos, unhas, babetes, cuecas, lenços de assoar, máquinas fotográficas, isqueiros, talheres, formas para bolos, chinelos, cartões de crédito… Tudo isto já existe em versão descartável.
E não só aos objectos e aos alimentos e acessórios se aplicava um outro conceito…
Não se abandonavam pais e avós nas urgências dos hospitais para se poder ir de férias para algures no planeta, tratar dos familiares doentes fazia parte das prioridades das nossas vidas, fazia-se um esforço por conciliar os nossos tempos livres com os tempos livres dos nossos filhos, não se abandonavam animais na berma da estrada.  
Os afectos eram definitivamente mais estáveis no tempo em que a Fidelidade não era só uma companhia de seguros, e talvez não se trocasse tão facilmente de companheiro ou companheira só porque a determinada altura aparecia alguém do outro lado da linha a dizer:
- Oi cara, vamos “transar”?
E isto, quer estivéssemos a falar de reis, princesas ou plebeus, incluindo nestes últimos alguns Presidentes da República dados a fazer passeios de scooter pela manhã (por volta das onze).
Até os políticos se mantinham mais fiéis às ideologias e conseguiam dar a cara por algumas misérias que faziam. Eram bastante mais raras as transições entre partidos que hoje são feitas ao ritmo das transições de jogadores entre clubes… e sempre pelo inevitável dinheiro.
Dir-me-ão que depois do “bom dia” de ontem eu levo Janeiro numa onda demasiado saudosista.
Garanto-vos que não, até porque já fui muito mais velho do que sou hoje. Não é verdade Helena?
Apenas me deixei ir com os amigos ao ritmo da malha da meia da minha amiga que fugiu durante o momento do café.
Mas que há coisas que deveriam continuar a não ser descartáveis, lá isso há.