sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Estes dias perfeitos que alinham a vida com os sonhos

No velho Jardim Escola então à Rua dos Fidalgos, a Irmã Celeste ensinou-me as vogais ao mesmo tempo que me iniciou na arte e no prazer de tratar das flores e de muitas outras plantas, “colhendo” da terra os aromas através das diferentes ervas que plantávamos no pequeno canteiro.
No meu primeiro dia de aulas, 7 de Outubro de 1972, a Professora Eugénia Evaristo, minha professora apenas durante uma semana, ensinou-me que a letra “i” se assemelha a um foguete que sobe no ar, deixa um rasto de fumo no céu, e volta a descer novamente à terra.
O Professor Lima Martins, meu mestre durante todos os anos da Instrução Primária, tinha uma caixa grande de lata que continha dezenas de gravuras com paisagens, pessoas, animais, etc. De vez em quando retirava uma que pendurava no quadro convidando-nos a inventar e a escrever uma história com base naquilo que a gravura mostrava.
A D. Joana Ruivo tinha uma livraria que eu transformei na minha segunda casa. Das prateleiras que forravam as paredes eu ia retirando livros que lia sem escancarar e estragar as lombadas, sentado de forma muito solene num velho banco redondo de madeira pintado em tons de creme, a mesma cor dos balcões.
Durante anos dormi em casa da minha tia-avó Maria Teodora, irmão do meu avô materno, que era solteira e vivia sozinha depois da morte do seu irmão, o meu querido tio João. Não tínhamos televisão e os serões eram passados à conversa. E a tia, que de escrita só sabia assinar o seu nome, ensinou-me a contar histórias e ensinou-me a gostar de as contar.
Todos os meses em data devidamente assinalada num cartão, parava na placa central da Praça em Vila Viçosa, uma carrinha com a Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian. Levávamos três livros para casa que íamos lendo ao longo do mês.
Nas aulas de Português do Padre Mário Aparício, o melhor professor que tive em toda a minha vida, ao som de LP’s com óperas de Verdi ou Mozart, conheci e apaixonei-me pela escrita de Camões, Pessoa, Eça, Ferreira de Castro e tantos outros.
Quando estudante na Faculdade e nos sábados que passava em Lisboa, descia a Rua da Rosa, ao Bairro Alto, e, passando pelo Camões, vinha para o Chiado a fazer a ronda das livrarias. Numa dessas manhãs comprei o “Memorial do Convento”, de José Saramago, que li compulsivamente até à noite do domingo seguinte.
Também nesse tempo, não havia semana que não trocasse correspondência com o meu amigo Manuel que então estudava em Portalegre. Ainda guardo as cartas que recebia e que expressam pedaços de uma vida partilhada.
Vem desse tempo talvez, este gosto de juntar amigos e palavras, e jamais poderei agradecer a tantos que ao longo de toda a vida me foram dando as palavras para eu depois tecer por aqui em algumas linhas simples de memórias, de vida, de afectos, etc.
Hoje, dia 31 de Janeiro de 2014, recebi um e-mail que me comunicou ter sido aprovada a minha admissão na Associação Portuguesa de Escritores com o número de sócio 1338.
Há dias perfeitos, e eles são claramente aqueles que nos alinham com os sonhos e nos fazem mais próximos daquilo que gostamos de ser.
Partilho convosco esta alegria e esta honra, agradecendo todas as palavras que todos me vão dando através da vossa amizade.
E também partilho este dia com aqueles que por terem sido tão simples foram tão grandes mestres, e que hoje, estou certo, são comigo e por mim, anjos felizes que sorriem no Céu.
Ou não fossemos nós, afinal, o resultado de uma longa história tecida a momentos únicos de amor oferecidos por quem gosta de nós.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O verdadeiro artista

Na nossa festa de Natal de 1983, o Manuel vestiu-se de Filipa Vasconcelos, a Vacondeus ao estilo “O Tal Canal”, e apresentou a receita das panquecas que levavam Paprika e que eram feitas com uma massa que só estava em condições quando se colava à parede.
Eu, o Zé Maria e o Paulo Quinteiro fizemos de “Jaquina, Jaquina, Jaquina”, sendo eu a Jaquina Assalariada Rural, o Zé Maria, a Jaquina Doméstica, e o Paulo a Jaquiná loura que apresentava modelos numa passerelle improvisada no Salão do Lar Juvenil e onde o tema era as árvores de Natal.
Há uns três anos tínhamos descoberto o Tony Silva e a sua “Música Ró” enquanto assistíamos nas tardes de domingo ao “Passeio dos Alegres”, o programa que nos trazia as bandas do Rock Português com as cantigas que depois faziam sucesso durante a semana: Chiclete, Portugal na CEE, Rua do Carmo, Patchouli, Cavalos de Corrida…
Em 1990, trabalhava eu na Farmácia Universal em Lisboa, e tínhamos de estar de bata vestida e prontos pelas 8.50 horas, dez minutos antes da abertura oficial, tão só porque nesses dez minutos não teríamos condições para fazer algo mais para lá da audição das crónicas do Herman José na TSF.
E abríamos sempre a porta a rir, o que até era bom para os clientes que sempre nos sentiam muito mais simpáticos do que já éramos e somos. O pior era por vezes conter as gargalhadas quando algum cliente se assemelhava aos personagens da manhã.
Na passagem de ano para 1991, estando no Funchal com a família e uns amigos, dei juntamente com o meu irmão das melhores gargalhadas da nossa existência ao reencontrar muitos dos personagens da TSF num programa especial chamado “Crime da Pensão Estrelinha”.
Estas histórias expressam momentos muito especiais em que através dos seus “bonecos”, o Herman José me ensinou a mim e à minha geração, a rir, concretizando a liberdade de abril com um género de humor que estava muito para lá da brejeira e fácil piada revisteira e marialva, que era mais comum nos programas e espectáculos de então.
Nesta ruptura com o óbvio e o fácil, quantas vezes os mais velhos nos olhavam como tolinhos por nos estarmos a rir de coisas que até aí não entravam nestes territórios do humor.
O Herman José ensinou-nos a rir de nós próprios porque entre aquilo que somos e as pessoas que conhecemos e connosco se cruzam na rua há por certo uma Marilú, um Bernardo Teixeira da Cunha, uma Yvette Marize, uma Maximiana, um Menino Nélinho, um Nelo casado com uma Idália, um José Estebes, um Serafim Saudade, um Sr. Feliz, um Sr. Perdição, um Diácono Remédios, um Sr. Royal, uma Queca Gandarinha, um Felisberto Desgraçado, um Oliveira Casca, uma Ruth Remédios, uma Super Tia, um Melga e Mike, um Lauro Dérmio, um David Vaitembora, uma Mary Carmen, um Herman José Saraiva …
E quantos de nós passámos por estas décadas sem que nem que só por uma vez usássemos expressões como: “Eu é mais bolos”, “Cafézinho Cooooooooom Leite”, “E no repêto à correspondência…”, “Imeeeeensa paprika”, “Posso dizer uma quadra do António Aleixo?”, “Vamos lá cambada todos à molhada”, “Ora dá cá um e a seguir dá outro…”, “Paletes de gajas…”, “Não me chame condensa que me põe tensa”, “Adérito, filho, volta que estás perdoado”, “Verdadeiro artista”, “Saca o saca-rolhas e abre o garrafão”, “O que é isto? Estamos a brincar”, Sô Dona Pómira”, “Este homem num é do norte, carago”, “Verdadeiro artista”, “Não havia nexexidade”, “As opiniões são como as vaginas”…
Ontem fui assistir no Teatro Tivoli a uma gala de homenagem ao Herman José pelos quarenta anos de carreira.
Ri-me muito e tive a sensação de estar em família.
Afinal, conheço tão bem e sou tão íntimo de toda esta “gente” e de todos estes tiques e frases.
E depois, o homem que me ensinou a rir e que semeou este sentido de humor que dizem que eu tenho, e que é reconhecido como terapêutico pelos meus amigos (desculpem-me a imodéstia mas são eles que dizem), estava mesmo ali e quase cara a cara comigo.
Emocionei-me como sempre acontece quando somos confrontados com pedaços inesquecíveis da nossa história.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ANA CRISTINA

Sempre que saiamos do nosso velho liceu à Porta dos Nós, traçávamos uma diagonal no Terreiro do Paço em direcção à Rua dos Fidalgos e parávamos algures nesta linha traçada pelos nossos passos, para contemplar uma senhora nogueira, árvore sem idade, que com altivez suplantava o muro branco caiado que unia o Paço Ducal ao Convento da Chagas, marcando a diferença numa praça onde impera a altivez algo mórbida dos ciprestes.
Era a nossa árvore, e por ela e pelas suas folhas presentes ou ausentes, saboreávamos todas as estações do ano, colhendo tantas vezes desse benefício único do pôr-do-sol, com os últimos raios a despedirem-se de nós por entre os seus ramos.
Quem nos visse um dia a falar para a nogueira seria até capaz de nos chamar loucos, desconhecendo que quem como nós cresce assim na companhia e na cumplicidade das árvores, aprende a não cair nunca, nem sequer quando morre.
E se cair significa negarmo-nos a nós próprios e matarmos os impulsos que são impostos pela vontade mais enraizada na alma, então não cairemos nunca.
Mesmo que nos chamem loucos, diferentes e excêntricos, nós estaremos sempre de braços abertos para viver cada pôr-do-sol no privilégio de saborear a mais doce liberdade.
Sempre com as contas em dia com o destino que nunca aceitamos imposto por nada nem ninguém.
Acontece ainda hoje tal como então, nesses anos em que crescíamos e em que por termos escolhido Inglês no Ciclo Preparatório, percorremos juntos toda a escolaridade com o Zé Joaquim, a Zé Ramalho, a Zé Bexiga, o Paulo Ratado e a Nônô.
Quantas histórias e quantos professores aterrados por tudo aquilo que de explosivo poderia sair das nossas cabeças inquietas que nunca deixavam de nos impor à boca: porquê?
Tivemos um professor de Português no oitavo ano que nos matava com o seu odor pois todos os dias despejava em cima dele um frasco do perfume “Amuleto”, do qual nunca mais pude nem sequer ouvir o nome, que conseguiu ter um sumário perpétuo ao longo de todo o ano: “Morgadinha dos Canaviais: leitura e interpretação”.
Íamos lendo o livro nas aulas e a diminuta formação dele em Língua Portuguesa apenas permitia que a interpretação fosse feita através do conteúdo, muito mais do que na forma, pelo que acabámos a discutir as vantagens dos colchões de penas, a sepultura fora das igrejas, etc.
Tu comias folhas de papel nas aulas dele e com uma convicção inabalável conseguiste convencer a criatura das vantagens de tal “manjar” sobretudo tendo em conta o necessário aporte de fibra que o organismo agradece para funcionar melhor.
Com a mesma convicção conseguiste convencer alguns amigos das vantagens de ingerir pétalas de rosa que colhíamos de uma roseira em tom grená que existia no pátio da casa da família Portas.
Fizemos teatros malucos como “O Discurso do Tonecas” em que tu eras par do João Paulo no casal Santos e Sousa, levando tu a estola de raposa da tua avó e ele, o fraque azul-escuro do casamento do teu pai; apresentámos trabalhos em folhas pretas escritas com lápis de cor branco, e ficámos por isso com calos nas mãos; fazíamos torradas colocando as fatias de pão ao lume numa frigideira; partimos uma chávena no celeiro do Sr. Domingos numa altura em que arrumávamos as caixas para montar a sede de um clube de amigos ao estilo da Enid Blyton; revirávamos as pálpebras só para amedrontar uma professora que tivemos no Ciclo Preparatório; recorríamos ao “The wall” dos Pink Floyd para “chatear” os professores mais aborrecidos; procurávamos subterrâneos e tesouros escondidos em todos os recantos do Convento das Chagas; inventávamos histórias de arrepiar que quase convenciam toda a gente nessas tardes quentes de Vila Viçosa em que bebíamos refresco de café e comíamos uma fatia dos bolos que mais ninguém faz como a tua mãe…
Ríamo-nos muito na maior cumplicidade e, com a companhia das árvores e do campo por onde passeávamos, nunca virando as costas à ousadia dos sonhos, que ainda hoje, eu por palavras e tu por traços e cor, soltamos sem medo porque são parte integrante de nós.
Um dia, na altura em que transformaram o Convento das Chagas em Pousada de Portugal, abriram um portão junto à nogueira e deixaram ver que junto a ela passa uma ribeira que corre todo o ano para alimentar o “viço” que dá nome à nossa terra.
Passei então a conviver de perto com o tronco da nossa árvore e a alimentar-me da paz que o som da ribeira me transmite.
A ribeira que nunca pára, que vive uma crónica inquietação, é afinal fonte de paz.
É como nós.
Estamos em paz quando estamos inquietos, algo que só soa estranho a quem não nos conhece.
E siga a nossa amizade.
Parabéns Tina. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Existirão dias que sepultam as palavras de amor?

Há sempre um dia em que o poeta desce do onírico estado da sua paixão e, nem que por segundos apenas e devolvendo-se à sua banal condição de Homem, descobre por uma racional lucidez, que as palavras que teceu a partir da alma e às quais ofereceu um intenso aroma de flores, jazem no despejo, na sarjeta da indiferença do destinatário do seu amor.
Até pode chorar então o poeta, despudorada criatura que travões não sabe assumidamente colocar sobre todos os gritos e sobre a dor que o seu ser lhe impõe.
E no regresso inevitável à sua natureza de crónico sonhador, quantas vezes o poeta recicla o “lixo” que encontrou no hiato em que foi apenas Homem, e solta novas palavras, novos poemas, tão-só por acreditar que a dor de ontem jamais existiu e é assim uma banal mentira.
É a recaída crónica do poeta, patético e ridículo na inveterada miopia racional de vislumbrar que a sua fé assenta no delírio de confundir, ver e sentir incenso, naquilo que é afinal o pérfido e asqueroso aroma do real e efectivo esterco a que devota tanto amor.
Porque o poeta é aquele que ama, e quem ama vê tudo o que deseja e muito quer… até mesmo onde nada existe.
Ou então onde existe apenas tudo aquilo que a vida tem de pior.
Mas de dor em dor, e pela intensidade com que dói a indiferença, até o poeta consegue um dia calar e matar este seu amor.
Apaga as palavras?
Deixa secar-se por dentro?
Renega a fé e devolve-se à condição de apenas Homem?
Não.
Jamais.
Com a morte da sua natureza morreria o próprio poeta.
Por isso sobrevivem as palavras…
Continua a borbulhar por dentro a fonte incessante de todos os sentimentos…
Persiste a fé e sobrevive o poeta.
Apenas deixou que o sol levasse de vez num ocaso, todos os despojos de um velho amor, trazendo consigo reluzente no brilho de uma nova manhã que sorri a oriente, a perfeição de um novo, intenso e muito secreto amor.
Nessa manhã, e mais do que nunca, soltará o poeta ao sol todas as palavras, nem que para isso tenha de rasgar as nuvens.
E as palavras dos poetas cheiram sempre a rosas.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Os divórcios inevitáveis

Há momentos na vida em que a existência de uma Maya cartomante dentro de nós, com ou sem lipo-aspiração e outros quaisquer tratamentos estéticos no sentido de aumentar e dar nova forma aos seios; mas com a garantia de uma eficácia de 100% nas previsões, nos daria um jeitão para nos poupar a alguns dissabores na hora de escolher um marido ou uma mulher, melões e melancias, mangas, Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Presidentes de Câmara, etc; e até poder dar-nos algum desafogo económico, por exemplo na hora de escolher uma raspadinha ou preencher o boletim do Euromilhões.
Às vezes aproximamo-nos dessa condição de prever o futuro.
Uma amiga confessou-me que ao chegar à igreja vestida de noiva e de braço dado com o pai, já com todos os convidados dentro da igreja para assistir ao seu casamento, no instante em que lhe escancaram as portas do guarda-vento e viu ao longe a talha do altar-mor pensou de si para si:
- Bolas, tens feito muitas asneiras mas hoje acho que exageraste. Isto não vai dar certo.
Esteve casada três meses, o que comprova que a previsão que fez do cataclismo foi certeira, muito possivelmente por ser demasiado óbvia e fácil à luz da mais pura racionalidade, mais até do que daquela intuição de que o género feminino costuma fazer bandeira.
Também há outras situações em que o próprio não consegue prever nada mas se acedesse à informação e à opinião dos que o rodeiam, por certo se pouparia a alguns dissabores.
Também pelo Alentejo e há alguns anos, a meio de um banquete de casamento, naquela fase em que já toda a gente almoçou e a “malta” aproveita para ir ao café tomar a bica, e as senhoras que sofrem dos joanetes vão a casa mudar de sapatos, fomos encontrar a nossa amiga, a noiva, sentada sozinha no meio do salão com um ar muito triste.
Quando lhe perguntámos pelo noivo, a resposta foi pronta e certeira:
- Foi visitar o Paço Ducal com uns amigos da terra dele que convidou para o casamento.
Estava na cara.
Só ela é que não conseguiu prever aquilo que todos antecipámos logo ali: o casamento durou dois ou três anos.
Fazendo uma extensão desta muito pessoal necessidade de uma Maya para podermos prever o futuro no contexto das nossas vidas privadas, para a gestão do país e para a previsão do défice das contas públicas, fico na dúvida se é genética esta lusa incapacidade para acertar.
Na maior parte das vezes o défice fica acima do acordado com os credores e no ano passado parece que ficou objectivamente abaixo porque nos “sacaram” mais dinheiro no pagamento do IRS.
Todos os “irrevogáveis” ministros se congratularam com a situação e puseram ar de festa, esquecendo-se que esta música foi tocada por cima da nossa pele em pose dolorosa de bombos… com pancadas extra que seriam perfeitamente evitáveis.
Haja decência.
Nas histórias, os heróis nunca são os vilões, os que erram por excesso ou por defeito, muito pelo contrário, são as vítimas que dão a sua vida no patrocínio a uma causa.
O seu a seu dono e curvem-se os políticos todos perante nós, os verdadeiros heróis anónimos assinalados não por medalhas ou condecorações, mas tão-só pelos recibos de ordenado.
As Mayas até podem ser necessárias para escolher melancias ou para a sorte do Euromilhões, mas para a gestão da vida privada ou para a gestão de um país, elas são perfeitamente dispensáveis à luz da racionalidade que no caso da vida privada fica às vezes beliscada pela dormência do amor e da paixão, e no caso da gestão de um país pela falta de competência.
Não tiveram nem um “feeling” na hora em que vos escancaram a porta com vista para o altar onde nos imolaram?
Agora não se admirem se isto resultar em divórcio… 

domingo, 26 de janeiro de 2014

O deserto e a tarde pela cidade

Que deserto maior poderá existir do que a errância de um homem solitário que descrente abandona os passos à mercê do desconhecido e dessa baixíssima probabilidade de acerto com o destino e a vontade impostas pela sua alma desassossegada.
E o oásis que nunca chega na sorte que alinha a vida com este sonho tão nosso que a alma sempre encerra, e é inerente à condição de estar vivo e ser pessoa…
Há pombos que esvoaçam em bando rasgando a maresia, essa fresca brisa que empurra a gente para o interior aquecido do café onde o tilintar das chávenas e o ruído das vozes patrocinam uma estranha e desacertada sinfonia.
O balcão corrido é a companhia disponível para os solitários, os que não irão jamais temperar de palavras o quente sabor da bica, os que ficam ainda mais tristes no instante em que se voltam para a parede, viram costas à algaraviada das mesas onde borbulha o calor dos afectos, e ficam expostos e à mercê da antipática mulher desprovida de sorrisos que mais parece uma impessoal máquina de transportar chávenas… e fazer trocos.
Restam os pensamentos para acompanhar a bica.
E resta o amor, que amor mais perfeito não pode existir do que o do homem solitário, aquele amor que existe pela força da vontade e do querer, o amor que até pode nascer da genética de uma pura ilusão, mas que por ser desprovido de nome, rosto ou outros mundanos detalhes… e quiçá defeitos, não vê beliscada a divina condição que o faz eternamente perfeito.
Por muito próxima que a concretização se aproxime da nossa vontade, a forma asfixia e reduz a dimensão enorme que um sonho sempre encerra em si mesmo.
Assentou bem o café ao homem que se devolve às calçadas da cidade e que agora quase inexplicavelmente consegue sorrir.
Os passos ainda seguem errantes…
Os pombos continuam a esvoaçar loucos por sobre a sua cabeça…
Persiste um certo sabor a deserto neste seu solitário passeio pelo domingo da cidade…
Mas faz-se oásis, a sorte que pelo amor mata a solidão e a substitui pela mais legítima esperança.
Afinal já é quase noite e o nascer do sol em breve trará um novo dia, e quiçá seja amanhã… o tal dia.
É sempre pela fé nos sonhos que seguimos, qual coração a bombear sangue pela vida que não pára.
E sorrimos.
Até mesmo quando não acontece nada e em verdadeiro estado de auto-suficiência deixamos que tudo aconteça na intimidade tão secreta de nós próprios.
Bastamos nós, pela força do pensamento e pela fé no amor, para que se prepare a alquimia doce de acreditar que um dia...
A bica às vezes dá uma ajuda.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A humildade segundo Francisco

Uma das pessoas mais conflituosas do meu círculo de relações pessoais afirma ser santa, dando como prova da sua santidade, a incompreensão de que é vítima por parte de todos os que a rodeamos, ela, o único e real epicentro da razão e da verdade.
Descolei hoje este “cromo” da minha caderneta de relíquias porque me parece não ser um caso isolado no contexto actual das “Olimpíadas da Humildade” que foram informalmente abertas na Igreja Católica depois do Papa Francisco se ter sentado na cadeira de São Pedro, estando continuamente a fazer-nos o apelo a nós católicos, para que pela humildade nos aproximemos Daquele que por ter sido O mais humilde, foi O maior de todos: Jesus Cristo.
E toda a gente de repente virou “supé humilde e amiga dos pobezinhos, tá a ver?” numa competição que promove desde logo o homicídio da humildade, pois se eu afirmo que sou mais humilde do que tu, já não estou a sê-lo.
A vaidade é o puro veneno da humildade.
Há alguns dias, um padre meu amigo de há muitos anos e pessoa que muito estimo, afirmou que lhe parece algo estranho, ouvir os ateus a citar tantas vezes o Papa Francisco. A mim também. Mas às vezes ainda me parece mais estranho ouvir alguns de nós católicos a citá-lo.
É que falamos da humildade com a mesma convicção e a mesma expressão de verdade com que um judeu fala dos benefícios da não circuncisão e da ingestão diária de carne de porco.
Soa a falso.
É um pouco como o banquete em casa de um novo-rico em que está tudo tão bonito e tão chique mas só até ao momento da refeição em que o dono da casa começa a limpar as unhas com uma das pontas do garfo de prata.
Ténue manto diáfano da hipocrisia por sobre uma vaidosa verdade que roça a sobranceria.
No fundo, e talvez esse seja o nosso grande problema, todos consideramos estar mais próximos da santidade do que os demais, um pouco ao melhor estilo do meu “cromo”, correndo até o risco de ao morrer podermos entrar em órbita se o São Pedro não nos deitar rapidamente a mão, tal a velocidade que levamos na elevação ao Céu.
Num outro dia durante o almoço de uma festa de amigos, estive uns minutos à conversa com uma conterrânea minha que professou nas Irmãs Hospitaleiras e vive aqui por Telheiras onde se encontra a estudar enfermagem não por qualquer projecto pessoal de desenvolvimento mas tão-só porque precisa dessa formação para ajudar quem precisa.
O “nós” a suplantar o “eu” na naturalidade e no exemplo, que não por palavras de auto-elogio e vitimização, na acção dos verdadeiros heróis da fé que apesar das “obras valorosas” jamais repousarão nos panteões das vaidades dos Homens.  
Eu quando um dia for grande gostava de ser só um pouquinho como ela, porque acho definitivamente que é dessa humildade que fala o Papa Francisco e é ela que verdadeiramente nos aproxima de Jesus Cristo.
É pois tempo de a calar como palavra escrita, dita e repetida a letras nos púlpitos e nas sacristias, colocando-a viva e por exemplos nas ruas, no trabalho e em todos os sítios por onde passamos.
Como dizem os Espanhóis: “todo lo demas son tonterias”.