terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Aquele fim de tarde ou um momento especial que me abraça

O resfriado e a chuva persistente convidam ao sofá e à escrita que afortunadamente se suspende para o aroma de um café também temperado por palavras… mas as da conversa do amigo que chegou para que por entre o cheiro a pão quente que a máquina já exala e a vista do Cabo Espichel que a janela ao longe oferece, pela amizade se possa partilhar a vida.
Não tarda que descongele a sopa de feijão que a mãe outro dia lá deixou por casa e eu, entretanto já novamente só, retomo a escrita.
De repente e em sentido inverso há uma mensagem que chega e congela o coração: a saúde de uma amiga poderá estar em risco.
Contactos, telefones, pesquisas…
A coisa afinal pode não ser tão grave quanto aparenta. Tempo de respirar fundo.
As últimas mensagens trocadas já reflectem uma maior tranquilidade e com muita mais paz me entrego à sopa de feijão que, confirmo, tem aquele toque único que é carícia da Mãe Inácia, a única pessoa do universo que me considera magro apesar dos meus 80kg.
Toca o telefone e falo com o grande actor, que privilégio ter aquela voz entregue às minhas palavras no dia do lançamento do livro em Lisboa. Fico feliz.
Quase que nem me dava tempo de desligar, e o telefone soa com as palavras do amigo artista, mas dos traços, que “estava morto” por partilhar o fim-de-semana de Madrid e as cumplicidades que tornam os dias afinal tão especiais.  
Nem tenho tempo de regressar à sopa…
Toca novamente o telefone e é o amigo que sempre me injecta paz e que sem saber é assim informalmente uma espécie de assistente espiritual. Não é usual falarmos a esta hora mas hoje por certo adivinhou que eu precisava de aliviar a tensão pelo susto da saúde da minha amiga, e acabamos os dois a rir.
Toca à campainha e a senhora da Ferro Expresso recolhe a roupa lavada que trará passada a ferro na próxima semana. Diz que guarda a minha casa para o fim porque eu tenho sempre uma palavra que a deixa bem-disposta. E lá levou a dita palavra acabando por beneficiar indirectamente da conversa com o meu amigo que ela nem faz ideia de que existe.
A sopa continua a arrefecer abandonada no tabuleiro que coloquei sobre a mesa da sala…
Toca outra vez o telefone, o pai está muito feliz porque foi homenageado nos seus quarenta anos ao serviço da Fundação. Alegro-me com ele e não consigo deixar de me comover por entre essa alegria, lembro-me perfeitamente do dia em que ele entrou ao serviço.
A sopa está completamente fria.
Volto a aquece-la e ingiro-a com o i-pad à frente e o youtube a “dar-me música”.
“Rosa branca desmaiada”. Hoje apetece-me ouvir música alentejana e melhor condimento não há para a sopa da mãe e a festa do orgulho do pai.
Já é tarde quando me devolvo ao sofá mas ainda tenho tempo para uma conversa no Facebook. E a determinada altura da conversa, o meu amigo envia-me as seguintes palavras: “A tua escrita por vezes está tão bem tecida que bom seria se fosse uma roupa de vestir, transmite conforto. É difícil de explicar, mas à medida que se vai lendo é como estar a vestir devagarinho uma peça de roupa macia”.
É das coisas mais bonitas que já ouvi, que grande abraço dado assim por palavras.
E que me melhor forma de terminar o serão e mergulhar nos sonhos.
É isso que faço, não sem antes espreitar à janela de onde agora não vejo o mar mas onde tenho a certeza de que ele existe e aguarda apenas o sol para se me revelar azul na madrugada.
Por essa esperança se embarca tantas vezes e em tantos dias.
Por vezes com muita vontade de sorrir e outras em que sorrir é definitivamente o que menos nos sai da alma e nos impõe vontade.
E os fins de tarde e os serões são como a vida, porque são especiais pela presença dos amigos e porque nem que só por um instante se consegue vislumbrar algum leve traço da solidão, essa demasiado silenciosa assassina que nos derruba a esperança.
Ao fim da noite não tinham sido escritas muitas palavras no meu velho caderno preto e nem uma nova página do romance tinha sido sequer começada.
Mas o que faltou em palavras sobrou em razões para as fazer brotar agora.
Por mérito da amizade que é como quem diz, do amor. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Era uma vez…

Depois da revisão da ortografia que gerou mais desacordo do que acordo entre toda a gente que fala Português; depois da actualização do Código da Estrada e do estabelecimento de novas regras para a abordagem de rotundas; depois da avalanche “reformadora” imposta pela Troika que até levou à suspensão de feriados nacionais… Impõe-se que se proceda rapidamente a uma revisão das histórias infantis pois o conteúdo e a “moral” das ditas estão perfeitamente desajustados da realidade.
De facto, todos nós que somos pais, avós, tios, professores, etc; estamos a ser confrontados com um olhar de desdém por parte dos petizes que não conseguem entender em que raio de mundo é que nós fomos buscar semelhantes argumentos e a aprender a tirar tais conclusões. Não entendem porque ficamos felizes com desfechos impossíveis e sem qualquer aplicabilidade.
Por exemplo, na história do Capuchinho Vermelho as crianças têm dificuldade em entender a preocupação com a avó. Porquê vir o lenhador a retirar a idosa do ventre do “lobo”? Para quê? Para continuar a desorganizar o Orçamento do Estado beneficiando da sua reforma? Para sobrecarregar a família com a despesa do lar?
Morreu e acabou, o “Estado Social” até agradece. O Capuchinho tem é de se entender com o “lobo” e com a sua boca “tão grande” carregada de dentes letais (IRS, IVA, Portagens, Taxas Moderadoras…), para também não ser comido logo de uma vez.
Se passarmos para a Cigarra e a Formiga, outro claríssimo desajuste. Quando chega ao inverno quem se “amanha” é quem fala e canta bem. As “formigas” que trabalham arduamente já emigraram entretanto, ficaram sequinhas para alimentar as “cigarras” e muitas delas dormem ao relento.
A sorte premeia quem “dá música” e muito pouco quem trabalha bem. As cigarras até conseguem ser “formigas licenciadas” sem nunca se terem deslocado ao formigueiro.
E o Robin dos Bosques? Se tem alguma lógica roubar aos ricos para dar aos pobres? Os pobres sim, esses desgraçados que só estragam o ambiente e as estatísticas, esses é que têm de “aguentar” e pagar bem para sustentar a saúde financeira do capital, a face visível que cativa e atrai os “mercados”. Se fosse normal, a criatura que cirandava pelas florestas de Nottingham roubava os pobrezinhos para entregar tudo ao tesouro do reino.
Isso sim seria normal.
E a Gata Borralheira?
Alguém consegue entender a intervenção de uma fada que transforma uma criada em princesa? Por favor.
Agora substituam a fada pela Teresa Guilherme e vejam lá se através da “Casa dos Segredos” a história não passa a fazer muito mais sentido?
Essa sim é uma intervenção muito mais eficaz e que até garante capas em revistas de “princesas”.
E depois, com a profusão de plásticas que há hoje por aí, quem é que consegue identificar uma dama por um sapatinho de cristal. Agora cada “lady” tem o pé que quer. E quem diz os pés, diz as mamas, as nádegas, os olhos, os narizes, etc.
Depois, qual é a “Carochinha” que se põe à janela para encontrar marido? Abre uma página em algum site de engates ou publica um anúncio para encontro no Correio da Manhã.
E no mínimo o João Ratão tem de morrer triturado numa Bimby ou entalado na porta do microondas.
No Caldeirão? Isso é uma serra por onde passamos a caminho do Algarve.
Na “Branca de Neve” para além das suposições de âmbito afectivo-social e da perversão que se antecipa na presença na mesma casa de uma rapariga com sete anões, também não parece verosímil que a invejosa tenha de se vestir de velhinha para oferecer maçãs; disfarça-se de “Brasileira” e ataca o príncipe através do Facebook. A outra fica tão “apardalada” que acabará por morrer na casa das criaturas de baixa estatura.
Para além de que não necessita de um espelho mágico, liga para a SIC pela manhã e a “bruxa” que substituiu a Maya até lhe dá as coordenadas GPS da casa onde ela vive.
Depois há ainda uma questão que é transversal a algumas histórias e que está relacionada com o célebre “viveram felizes para sempre”.
Pode continuar a manter-se esta frase mas convém fazer uma adaptação: “viveram felizes para sempre, mas juntos só durante uma ano e meio, porque depois disso divorciaram-se e encontraram a felicidades junto de novos parceiros”.
É importante também não fazer apelo ao “tempo em que os animais falavam”, a criança pode ter inadvertidamente estacionado no Canal Parlamento, pode estar familiarizada com o “conseguimento” e sabe hoje perfeitamente que os “burros” falam.
Revejam-se pois as histórias…
Ou quiçá a História que talvez valha mais a pena.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amo-te

Amo-te.
Tu sabes.
Repito-o todos os dias sem data ou hora marcadas, mas quase sempre quando o sol já vai alto na manhã.
E também à noite…
Quando se solta a poesia que só fala de ti e não se cansa de cantar uns olhos que me trazem o céu.
Tu sabes, são os teus olhos.
Amo-te.
Às vezes “falamos” pelo silêncio…
E para o amor, o silêncio é sempre mais verdadeiro do que as palavras, aproximações tão redutoras que adjectivam e dão dimensão àquilo que carrega em si a perfeição absoluta e é infinito.
Mais verdadeiros são os beijos e os abraços. Por eles, fizeste do antes de ti, pedaços simples e sem história no contexto da minha própria história.
Amo-te.
Mas nunca trocamos flores.
Mantemo-las vivas por entre as árvores do campo que nos dão sombra e fazem caminho ao sonho de pisar todos os trilhos mão na mão.
Amo-te.
E a mais ninguém poderei um dia voltar a dize-lo, depois de ser teu como sou, e depois de te amar tanto como amo.
Porque, de que vale o depois, como também o antes, se perfeito é o presente e amar-te assim?
Amo-te.
E assim será nos catorzes de todos os Fevereiros, nos catorzes de todos os meses e nos dias todos que a vida ainda tiver para me oferecer.
Amo-te.
Tu sabes, porque te repito isto durante o ano inteiro.
Mas há ainda uma coisa que eu nunca te disse e que hoje te quero dizer:
- Só contigo, mas mesmo só contigo, admito partilhar os cabides que estão pendurados no meu roupeiro.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A minha luta com o anti-ciclone

Escrevo de frente para um mar demasiado inquieto, o Atlântico à mercê de um vento fortíssimo que também parece querer entrar à força pela janela do meu quarto, uma brisa tão violenta, que entre gritos e sussurros, me faz acreditar que o Adamastor deixou o seu “Cabo” e veio para aqui espalhar as suas tão temidas “Tormentas”.
Aqui ao leme da nau deparo-me com uma série de consequências práticas: voo cancelado, mais uma noite em São Miguel, uma ida forçada à Loja Chinesa aqui do lado para comprar cuecas e meias (e a minha mãe que sempre me repete que não devemos trazer a roupa à conta dos dias porque pode acontecer algo…) e lá vou ter de fazer esse tão grande “sacrifício” de comer mais um Bife à Regional carregadinho de “Pimenta da Terra” e uma Morcela com Ananás, quando chegar a hora de ir jantar.
Fosse eu dado a superstições e facilmente diria que num dia treze e à beira de uma Sexta-feira, isto seria mais do que expectável.
Sofresse eu da mania da perseguição ou carregasse em mim uma tendência depressiva para achar que exerço uma atracção pela desgraça, e a coisa seria ainda mais complicada.
É que vou com os meus pais no último sábado ao Politeama para assistir à Revista à Portuguesa do La Feria e sou confrontado com a substituição de uma das actrizes principais por não se encontrar bem de saúde; vou no domingo até ao Estádio da Luz para ver o Benfica – Sporting e começa a cair lã de vidro sobre o relvado, caiem placas da cobertura e adiam o jogo; venho para os Açores e até anulo os efeitos do anti-ciclone com a meteorologia a desencadear um temporal medonho que adia todos os voos…
O Instituto Berlinense que baptiza e dá nome às tempestades ainda se pode lembrar de chamar “Joaquim” a alguma delas; identificado como uma espécie de “Midas das Desgraças” podem começar a impedir a minha entrada em qualquer recinto desportivo ou a bloquear o meu passaporte para alguns destinos mais pacíficos; quem sabe até, com tal anti-clímax à minha volta, se não boicotam a minha entrada no Santuário de Fátima em dia de Procissão das Velas, pelo risco elevado de as ditas se apagarem todas como reacção à minha presença?
Pois…
Mas não estou nada preocupado.
As senhoras da SATA já me deram um Cartão de Embarque para amanhã à tarde, apesar de eu lhes ter dito irritado que sou um bombista perigoso e suicida com a mania de pôr bombas em frascos de doce, quando me avisaram que não há problema com tudo o que comprei há pouco no Free Shop, excepção feita a dois frascos de compota de ananás que são potencialmente perigosos.
Por favor!
São bombas, mas calóricas, claro.
Mas, como sou mesmo um optimista e vejo sempre o lado positivo de todas as coisas: olha que grande oportunidade me deu este mau tempo para sentir as vossas preocupações e a vossa amizade em tantas chamadas e mensagens…
Tudo é sempre bem mais fácil na presença dos amigos e eu estou destinado a gostar muito de todos vós. Mesmo!
E depois, e como dizia o simpático taxista que me trouxe de volta ao hotel ainda há pouco:
- Bem-vindo aos Açores porque isto sim é viver nos Açores.
Pois que seja. Não será por isso que os Açores deixam de ser um dos sítios mais fantásticos de Portugal.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Uma noite e o próprio fado

À frente da minha janela vejo o Atlântico que me enche o olhar de azul até ao horizonte, a linha onde não sabemos se o azul é céu ou mar, mágica ilusão de um beijo na eterna paixão que une a Terra ao infinito celestial.
Atrás de mim os vulcões de São Miguel vestidos de verde e bordados de hortênsias, as histórias e os mistérios guardados em lagoas que num despudor saudável bebem do céu e da Terra, as cores... e às vezes o azul.
Aqui, Português no cais onde as gaivotas matam saudades da terra, o difícil é não ter alma de marinheiro, raro é ter no peito outro suspiro que não o fado.
E do fado carrego a memória de uma noite de há uns dez anos, à conversa nos claustros do Convento de São Francisco, a Pousada de Beja, com José Luís Nobre Costa e o Professor Joel Pina, respectivamente, guitarrista e viola de tantos fados e tantos fadistas do meu tempo e de todos os tempos.
Num dos acasos, num desses momentos inesperados que são bombons que a vida carrega nos bolsos da nossa história, vejo-me a mim em amena cavaqueira com eles e com uma amiga comum, iluminados pelo copo de um bom tinto alentejano e tendo por mote uma paixão que nos une a todos: o fado.
E de repente e ali tão perto: Amália a cantar em Atenas mas a sonhar com o seu restaurante preferido de Paris, a mestria de Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, João Ferreira Rosa, Carlos Zel...
Todos eles protagonistas das histórias que nos vão perdendo nas horas e nos levam bem para lá do tempo de um serão.
Sem o canto dos fadistas, sem as palavras dos poetas, sem os acordes da guitarra e da viola que repousam a um “canto” do sofá da Pousada, esta foi a melhor noite de fado que eu já tive, e duvido que venha a ter outra igual.
E em pleno Alentejo.
Porque entre a Terra e o Céu só há a distância de um passo para quem vive com o olhar no horizonte, o guitarrista José Luís Nobre Costa partiu ontem para lá da Terra.
Como é costume, a imprensa não deu grande destaque ao facto, talvez porque ele permaneça eterno no dedilhar que dá o tom a milhares de fados que vamos continuar a ouvir por aí.
Na minha memória também permanecerá eterno nesta gratidão de uma noite que jamais conseguirei esquecer.
Que descanse em paz no verdadeiro panteão, o dos Deuses, ali onde o escrutínio do Homem é dispensado e onde têm assento todos os artistas, aqueles que ousam entregar-se para que da Terra possa emergir a sua suprema beleza, e aconteça a arte.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A voar ao sol para lá das nuvens

Eu sei que é difícil acreditar, mas garanto-vos que o sol ainda brilha radioso por cima destas nuvens que literalmente nos querem afogam.
Vejo-o e desfruto dele enquanto vos escrevo cá de cima cruzando os céus em direcção a Ponta Delgada depois de ter atravessado as ditas nuvens e me ter sentido como o sumo no interior de uma garrafa de Compal agitada pelas mãos de um empregado de café com muita pressa.
E que saudades eu já tinha deste sol cuja ausência me levou inclusive a agendar uma sessão terapêutica anti-depressiva de Bolas de Berlim na companhia da minha amiga Vanda... Antes tomarei o anti-diabético, não se preocupem.
Ainda há pouco a caminho do aeroporto fiz a segunda circular debaixo de uma chuva dissolvente (do que resta da minha paciência) que depois de todos os procedimentos de check-in, bagagem e segurança, me colocou no impulso de um café.
Até chegar a esse "sorvo negro e quente indutor de energia" tive ainda de percorrer toda a zona de lojas, e foi interessante perceber quais os condimentos que na opinião dos comerciantes poderão cimentar relações, casamentos, uniões de facto e afins; na comemoração do dia de São Valentim, na próxima Sexta-feira. Destaco as cuecas e os soutiens em tons de vermelho, ambos com incrustações de penas da mesma cor.
Uma mulher que vista semelhante lingerie até poderá ter sucesso, mas arrisca-se a uma decisiva e indesejada aproximação às galinhas; e apimentar algo com semelhantes artefactos, parece-me a mim que só pelo efeito de indução dos espirros que as ditas penas podem ter no nariz do(a) parceiro(a).
Finalmente chego ao balcão do Harrods e peço um café que me é servido por uma empregada Brasileira com nome inscrito na chapa que traz ao peito: "Greice Kelly" (e não me enganei a escrever o nome próprio).
Os deuses devem estar loucos ou então eu entrei numa Twilight Zone onde tudo tem nome de Grimaldi. A Stephanie quase me afoga na segunda-circular e agora a mãe serve-me a bica...
Nem o café me sabe bem servido assim ao jeito de bebida do Panteão dos Príncipes do Mónaco.
Fujo dali e vou para a FNAC.
Logo à entrada e em destaque o novo livro que coloca em papel uma conversa da Maria João Avillez com o Vítor Gaspar.
Mais panteão...
Detesto este interesse pela fase post mortem dos ministros e dos primeiros-ministros. Para além de que sou incapaz de pagar um cêntimo que seja para ler qualquer palavra que venha da boca do Vitor Gaspar.
Reconheço no entanto o mérito da autora por conseguir fazer um livro com tantas páginas depois de uma conversa com a criatura, o que por certo só terá alcançado depois de um treino intensivo de paciência a contar os grãos de areia num metro cúbico do areal de Carcavelos; e, estou certo, com a ajuda de um consumo exagerado de Red Bull.
Resolvo comprar uma revista, saio da FNAC e fico a aguardar o voo.
O resto já vocês sabem, estou por aqui ao sol a aguardar que me venham servir uma "refeição ligeira".
Garanto-vos no entanto que se a pessoa que me entregar o tabuleiro se chamar Alberto, Rainier ou Carolina, eu irei directamente consultar um padre ou um psicólogo, porque das duas uma: ou me portei muito mal ou tenho "penas de galinha" incrustadas na moleirinha.
É que não há quem aguente...
Bolas!
(Sim, é um facto, também poderei convocar a Vanda para uma sessão extra de Bolas de Berlim... com creme, claro).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quando uma criança pede “cocó”

A manhã de Segunda-feira revela finalmente o sol e confirma que a “Stephanie” já “voou” para outras bandas.
Depois da tempestade, a bonança também se manifesta pela ausência de trânsito no IC19, e ao redor do Estádio da Luz parece que já nada de estranho anda pelos ares.
Com o meu pai, chego cedo à Sala de Espera do Hospital da Luz onde aguardamos a vez para uma consulta de oftalmologia.
A sala está repleta.
No silêncio que é quebrado apenas pelo constante e irritante ruído que anuncia a chamada até ao balcão de atendimento do detentor da senha com um determinado número, segundo indicações de um ecrã muito colorido; uma criança com não mais de três anos faz ouvir a sua voz:
- Oh mãe leva-me a fazer cocó.
E a mãe cumpre as “ordens” e atravessa a sala de mão dada com o miúdo por entre os sorrisos das dezenas de pessoas, porque ninguém pode ter deixado de escutar o pedido feito num tom de voz que só tem desculpa pelo facto de se ser criança.
À minha frente e a assistir a esta cena, está sentada uma senhora com mais de oitenta anos. Chegou há pouco e sentou-se com a ajuda de uma filha que a acompanhava pela mão.
As semelhanças do rosto não desmentem o parentesco e mãe e filha persistem de mão dada enquanto assim sentadas em cadeiras lado a lado.
E eu que também estou sentado por ali com o meu pai e com tantos Pedros, Paulos, Marias… tenho de repente a sensação de ver cruzar-se num mesmo espaço, o inicio e o quase fim desse percurso a que chamamos vida.
Eu, os Pedros, os Paulos, as Marias e todos os outros estamos algures por esse caminho que nos vai parecendo tão mais curto à medida que ficamos mais próximos da senhora sentada do que do miúdo que correu com a mãe para a casa de banho que está ao fundo da sala.
E vagabundo como é o pensamento, deixo-me ir pela urgência de viver, pelo amor, pelo prazer das coisas grandes, pela intensidade de preencher os dias com tudo o que conduz efectivamente aos desejos e aos sonhos, pelo conforto dos afectos essenciais a todas as idades, e pela família, essa gente que nos dá a mão quer seja por impulso genético ou não, mas sempre por um impulso de amor.
Já não assisto ao regresso do menino que foi fazer “cocó” pois chamam “Artur” e nós avançámos para a consulta.
Mas continuamos pelos sorrisos com o médico no seu consultório quando ele pergunta:
- O Sr. Artur estava a fazer uma “Prostaglandina” para o tratamento do glaucoma, certo?
Para o meu pai como para a maioria da humanidade, “Prostaglandina” soa a nome de filho da Luciana Abreu e do Djaló.
É sempre bom começar e continuar as segundas-feiras com sorrisos.
A vista do pai está óptima e em breve nos devolvemos à rua constatando que o IC19 continua sem trânsito.
A vida seguirá o seu rumo normal que tantas vezes nos “exige” a mão de alguém, e outras, quando estamos aí algures bem no meio do entre o nascer e o morrer, apenas uma palavra ou o olhar de quem gosta de nós.
Se todos formos generosos a dar as mãos, as palavras, os sorrisos e os olhares, a ninguém nunca faltará a satisfação de tão básica necessidade: o amor.
E assim se comprova tudo o que se pode aprender numa sala de espera quando de forma tão natural, uma criança pede cocó.