quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O tempo todo

A cidade acordou não há muitas horas e sente-se o bulício da gente em passo acelerado, aqui e ali até com alguma corrida ao jeito de Obikwelo, não vá o autocarro fugir da paragem.
Os veículos motorizados, que são espelho da ansiedade de quem os conduz, aceleram desesperados na ânsia do semáforo passar a verde, instante em que automaticamente soam as buzinas dos que estão ligeiramente atrás.
A cidade mais parece o parque gigante de uns Jogos sem Fronteiras onde todos competem por um troféu que não se percebe muito bem qual é.
À porta do hospital, à beira do passeio e preparando-se para atravessar uma passadeira das que não têm semáforo e em que os peões ficam integralmente à mercê da generosidade (e do civismo) de quem conduz; um homem com uma velha saca de couro a tiracolo, e daqueles que já se perdeu na contagem dos anos, aguarda apoiado nas suas duas muletas, nada mais do que quinze segundos da “generosidade” de quem corre de carro para não sei onde.
Estou ao seu lado, sinto-lhe o desespero e faço uma pergunta que é quase inútil:
- Quer atravessar para o outro lado da estrada?
Responde-me quase sem me poder olhar de frente porque madrasta terá sido a idade para a sua coluna cervical.
- Hoje não está fácil.
Resolvo ajudar…
Dou um passo em frente em direcção à passadeira, um carro pára porque afinal a minha travessia representa apenas um atraso na marcha aí de uns cinco segundos; mas quando o condutor menos espera, eu do sítio onde estou, a um meio metro do passeio, mando avançar o homem e no seu passo acabo por partilhar com ele os quinze segundos da sua travessia.
Á diferença é de apenas mais dez segundos.
Na “corrida” de uma manhã em Lisboa, ninguém dá dez segundos do seu tempo a um pobre velho que vendo-se do outro lado do passeio me agradece e remata com um:
- Agora vou indo devagarinho.
Eu sigo o meu trajecto e lembro-me instintivamente da conversa de há dias com um amigo padre a quem os familiares dos defuntos pedem frequentemente para celebrar a missa de sétimo dia no dia imediatamente a seguir ao funeral.
É que é muito mais prático e já vão descansados para as suas casas encerrando de forma acelerada o fugaz ciclo do luto.
Estes são os dias do egoísmo de agarrar o tempo todo e nada de generosidade para com os vivos e até para com a memória dos mortos.
E correr para quê?
Às vezes por nada ou por muito pouco.
E porquê?
Tantas vezes porque sim e nem sabemos qual a verdadeira razão. Apenas porque nos habituámos a viver assim, à pressa.
Ou talvez o tempo seja apenas um detalhe do mundo todo que queremos agarrar nos nossos braços, tantas vezes também sem sabermos muito bem porquê.
O problema é que o tempo que hoje queremos todo para nós, não se deposita em bancos na forma de contas que nos salvaguardam o futuro.
E um destes dias…

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Palavras

A noite, que caiu há pouco de manso sobre a cidade, devolve-me sempre ao silêncio que pode calar tudo, mas jamais mata as palavras.
Nada no universo pode falar mais do que o silêncio.
Porque há palavras inquietas que são gritos de memórias eternas, palavras com nome de tanta gente e registo de tantos dias, palavras soltas no silêncio como erva a nascer num campo que a chuva beijou.
Há palavras abertas nos braços que acolhem, palavras quantas vezes desprovidas de quaisquer letras e nascidas de olhares que são janelas por onde espreitam sorrisos de alguém.
Os sorrisos doces dos amigos.
Há palavras de amor em beijos dados à sombra do luar com a cumplicidade do bater incessante das ondas do mar, palavras em rabiscados pedaços de papel que dizem dar verdade ao coração; há palavras de amor nas mãos que se entregam sem reservas nesse instante em que sentimos que há muito a alma se deu à magia de um sonho que não é só de hoje, é eterno em nós.
Há palavras de paixão que se soltam às vezes numa tão simples rosa de cor vermelha.
Mas também há palavras de dor nos instantes em que tudo fugiu e ficámos nós envoltos pela solidão.
Tudo, palavras que não são ditas mas que andam loucas e à solta pelo silêncio.
A noite caiu há pouco sobre a cidade…
Não importa.
Se as palavras que o dia não trouxe são agora minhas e abraçam-me pela força com que o sonho as molda no silêncio?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Desonestidade e Infidelidade nas Guerras do Coliseu

Orgulho-me de nunca ter deixado de votar em eleições legislativas, europeias e autárquicas; votei em todos os referendos; não me inibo de expressar a minha opinião sobre os mais diversos assuntos, fazendo-o publicamente na grande maioria das situações; acredito em causas e em pessoas; porém, muito dificilmente conseguirei filiar-me num partido político.
E sei porquê...
Da esquerda à direita os partidos não se inibem de menosprezar as suas bases e raízes ideológicas, sempre que está em causa o poder e a defesa do clã de amigos reunidos em torno de um interesse algures na órbita desse mesmo poder.
O militante conta muito mais do que cidadão.
Há exemplos para todos: a perseguição aos críticos no PCP, a manipulação na sucessão de Louçã no BE, as guerras surdas entre os herdeiros de Sócrates, Costa e Seguro no PS, as irrevogáveis atitudes de Paulo Portas no CDS; e este fim-de-semana assistimos a mais um triste episódio em directo do Coliseu dos Recreios com a ressurreição de Relvas, que quase não arrefeceu no túmulo onde fugazmente se sepultam os desonestos da política.
O partido que expulsou António Capucho por infidelidade à direcção do partido, que não aos eleitores que nas urnas lhe deram razão; faz emergir Miguel Relvas, comprovadamente e por decreto passado pelo Ministro da Educação deste mesmo governo: um cidadão desonesto.
No PSD de Passos Coelho a desonestidade aceita-se mas a infidelidade à "pandilha" dá pena de morte.
Já aqui escrevi em múltiplas ocasiões que só tem legitimidade para exigir, quem é exigente consigo próprio; e o que tem sido exigido aos Portugueses nem de perto nem de longe tem tido correspondência na prática dos agentes políticos.
Também não me interessa nada se o Relvas é ou não licenciado, o que me interessa sim é que não sendo forjou um diploma para conseguir facilmente aquilo que nunca se esforçou por ser.
É isto que é prova de desonestidade e mau carácter.
Candidato número um à lista do Conselho Nacional do PSD?
O Dr. Passos Coelho demonstra bem o respeito que tem por todos nós e o que deseja para o país (como se fosse necessário mais esta prova), conseguindo no entanto provar que o Coliseu dos Recreios continua a ser uma sala onde ainda há espectáculos de circo, naquele que é o único aspecto positivo deste episódio.
E eu?
Eu vou continuar a não me abster mas confesso que às vezes se me esgota a paciência e se me mói o pensamento para decidir em quem e no quê votar.
Invariavelmente é no menos mau.
Mas... e achá-lo?
Oh triste orfandade do eleitor…

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O caminhar feliz de um homem abraçado a palavras de amor

A manhã está húmida e envolta numa espécie de chuva envergonhada que incomoda muito pouco, “borrifos” que parecem até ter trazido o benefício de alguma trégua ao frio que às primeiras horas do dia quase nos consegue enregelar todos os ossos.
Vou em passo seguro e sinto como as cidades se nos entregam e se fazem nossas quando as percorremos assim no pleno gozo da liberdade de uma manhã de sábado.
Caminho há cerca de um quarto de hora e sabe-me muito bem quando transponho as portas e me sento no velho café que tem montra para a azáfama do mercado das flores.
Quando preparava a minha primeira visita a Amesterdão, o meu amigo Pedro Marcelo passou-me uma lista de locais a visitar, e estava lá este café.
Penso no Pedro.
É interessante como as pedras, as cidades e os lugares, nos sobrevivem, não deixando porém de preservar de nós, infinitas memórias guardadas por vezes em mínimos detalhes, memórias que se soltam assim no meio de improváveis dias de passeio.
Acho que da sua nuvem, por certo bem animada, o Pedro também me quis acenar. Sinto-o ao sair e ao dar conta que a torre sineira junto ao mercado dá a hora certa com os sinos a tocarem o hino da Eurovisão, aquela música que antecede os festivais e que é o prelúdio do “Te Deum” de um compositor barroco do Século XVII, Marc-Antoine Charpentier.
Os sinos a tocarem a “Eurovisão” ao jeito de festival, só pode mesmo ser obra do Pedro.
Sigo anónimo em direcção ao Rijksmuseum por entre a multidão que fotografa muito mais do que compra tulipas e outras flores; mas até os anónimos têm direito a afectos quando “navegam” assim pela cidade: da janela de um café onde junto à montra toma o pequeno-almoço com os seus pais, um rapaz faz adeus a quem passa.
Trocamos sorrisos no instante em que lhe retribuo o gesto, algo que parece deixá-lo admirado. Os restantes adultos que passam serão todos demasiado carrancudos…
É cedo e consigo entrar no museu sem grandes problemas, percorrendo as principais galerias sem a multidão que mais para o final da manhã, bloqueia literalmente a visão dos quadros.
Vou no meu ritmo. Os meus amigos perdoam-me por certo este tique de egoísmo, mas visitar museus é das pouquíssimas coisas que prefiro fazer sozinho.
E neste “navegar” calmo pela arte, a determinada altura sou literalmente abalroado por uma senhora, que pelo sotaque deduzo ser dos Estados Unidos, e que anda ansiosa à procura da “Rapariga com Brinco de Pérola”, de Vermeer.
- Vejo “A leiteira” e esse não.
Digo-lhe calmamente que “esse” não mora aqui. A “Mona Lisa do Norte” vive em Haia.
E a Americana lá desaparece entre a multidão, triste por ter menos uma história para contar no regresso a casa.
Os diálogos dos anónimos à sombra da arte.
A loja do museu aguarda-me para os inevitáveis presentes que levo para os meus “mimis”, leia-se sobrinhos; e sabe bem quando me sento para tomar uma bica na cafetaria.
Guardadas no telemóvel, leio e releio as tuas mensagens.
Sou um homem feliz quando me devolvo à rua onde já não chove… e recomeço a caminhar.
Pode lá existir maior felicidade do que a de um homem que caminha livre carregando as suas memórias, a sua história; e que caminha abraçado a palavras de amor?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

As lusas dores no “país das maravilhas”

Um colega Indiano que nasceu e vive no Reino Unido com a sua família, pediu-me hoje informações sobre as celebrações do treze de Outubro em Fátima, local onde pretende estar juntamente com os seus pais na concretização de uma vontade de há muito.
As suas raízes Católicas, que cruzam o Hinduísmo e a Igreja Anglicana de Sua Majestade, derivam de uma avó nascida em Malaca e que tal como nós falava a língua de Camões.
Numa breve conversa trivial de não mais de cinco minutos, o gosto intenso e único da diversidade e da liberdade, detalhes de um sonho chamado Europa e que tantas vezes parece destinado à marcha atrás.
Uma nação, da mesma forma que um espaço de nações, é definida pelas pessoas, muito mais do que qualquer particularidade geográfica, índice económico ou outro. E são as pessoas e a fidelidade à sua essência num espaço conjunto de desenvolvimento e de respeito, o expoente máximo da liberdade.
Não tardou o gosto amargo da mais triste realidade…
Há pouco li num jornal as declarações de um líder parlamentar da maioria: “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.
Pergunto-lhe eu:
- O que há de Portugal para lá dos Portugueses?
Sinceramente acho que não há nada.
Somos nós a essência do país, é por nós que zela a Constituição da República e é pela “vida das pessoas” que qualquer deputado eleito deveria zelar; muito mais do que qualquer outro interesse.
A afirmação é pois imbecil e encerra em si mesma um “atestado de incompetência”. Se o homem pensa assim, não tem condições para representar o “povo”.  
Um dia, quando Camões quis elevar ao Olimpo a glória da nação lusa, cantou “Os Lusíadas” e fez a obra maior da nossa História.
Fernando Pessoa na “Mensagem” fala das “lágrimas de Portugal” e de “um povo que quer o mar que é teu”.
Sempre, os Portugueses.
Mas destas coisas, esta gente sabe mesmo muito pouco. Uma tão triste gente que até será capaz de confundir a Estrada da Beira com qualquer beira da estrada.
O pior é que indiferentes às nossas dores, pela sua mediocridade nos vão matando o pão e esmagando a liberdade, que nos vão matando aos poucos, desprezando e matando Portugal.
E a Europa que cada vez se parece mais a uma ilusão.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O sonho por entre as sombras

Tem um intenso tom cinza de inverno, o momento em que o avião se faz à pista sobrevoando a costa que denuncia um mar revolto.
O Norte tal qual o Atlântico.
Andam demasiado agitados os mares da Europa, e o tecto de nuvens que persiste sobre Lisboa, estende-se até aqui aos arredores de Amesterdão.
Confirmo-o desde o confortável e inspirador “Fernando Pessoa” da frota da TAP.
Hoje vim a bordo da poesia.
Passo acelerado entre a multidão de gente que parece andar louca e acelerada, mas que afinal segue segura do seu destino entregando-se sem reserva às inúmeras placas que “adornam” todo o espaço.
Não tarda e estou sentado numa carruagem do comboio que tem essa estranha sinalética que impõe o silêncio. Nem conversas, nem telemóveis e nem sequer o ruído das malas de viagem a rolar sobre a alcatifa. No mundo do ruído, o silêncio só acontece se for assim imposto como regra.
E há uma passageira, guardiã do espaço, que faz “xiu” quando o lusitano já não consegue mais e rebenta numa só palavra que até é dita num tom muito baixo.
Mas o silêncio só existe se for absoluto…
O tecto de nuvens é o mesmo de Lisboa, mas a aragem é incomparavelmente mais fria quando paralelo ou cruzando canais, busco já noite o caminho para o hotel.
Passo por entre a multidão que ri alto e sem reservas, como que parecendo vingar-se do silêncio que é imposto por algumas carruagens do comboio.
E porque há destinos assim, onde se vai para estar feliz…
O hotel, a perspectiva de uma reunião que começa muito cedo, a procura de um restaurante próximo e rápido…e a comida indonésia que, com a fome de um almoço a bordo, me sabe pela vida.
Faz menos frio quando regresso ao hotel (ou será da pimenta da iguaria ingerida?); há muito menos gente na rua, e eu mergulho entre as sombras que ladeiam os canais que por ora têm um intenso tom negro, sentindo-se a água apenas em algum rebelde soluço que motiva o roçar de um barco contra as margens.
O ar tem um doce odor a liberdade.
As nuvens, a aragem fria, a água…podem até fazer lembrar Lisboa.
Mas não fosse o sonho e as lembranças de ti que emergem quando caminho por entre as sombras, por entre toda a gente, por entre o riso e o silêncio…e digo-te, morreria de saudades tuas. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O triste destino do fiambre numa sandes à mercê do fogo

É Terça-feira, 18 de Fevereiro do ano de 2014.
O dia revela o sol, e ao fim de muitas semanas, consigo fazer-me à estrada sem ser "fustigado" pela chuva ao jeito de um banho em cascata de generoso caudal.
De Lisboa a Coimbra, pela hora do almoço, a rádio conta-me a história de um país de sucesso onde a miséria morreu e é intensa a esperança nos melhores e mais fantásticos dias.
A fonte: Pedro Passos Coelho numa conferência internacional algures na zona de Lisboa.
O dia continua sem chuva e que bom passar as 18 horas ainda com sol, prova de que o tempo está a acelerar de encontro à primavera.
De Coimbra a Lisboa e ao cair da tarde, a rádio conta-me a história de um país triste, falido e a morrer afogado na miséria. Um país de mão estendida a pedir esmola e à mercê da generosidade do mundo.
A fonte: António José Seguro na mesma conferência internacional algures na zona da grande Lisboa.
Duas viagens, duas perspectivas e uma realidade, eu literalmente "entalado" entre as duas faces da mediocridade.
O português é hoje uma pobre fatia de fiambre esmagada entre a esquizofrénica e bipolar perspectiva de governo e oposição, ambos materializados por dois seres criados no laboratório da política, pecadores que em vão evocam o povo não fazendo a mínima ideia do que há de povo para lá dos votos que lhe permitirão concretizar ou não o seu único objectivo: o poder e a consequente sobrevivência.
O optimismo de Passos ofende o povo que sofre, e muito; e a catastrofista perspectiva de Seguro utilizada como jangada para passar incólume por entre o mar da co-responsabilidade, faz exactamente a mesma coisa, desvalorizando a inteligência e a memória do país; quando afinal, o povo, o chamado país real, está algures entre um e outro, a sofrer, a agonizar numa zona em que por ausência do mínimo de bom senso, de inteligência e de boa vontade; eles nunca conseguirão descortinar.
Uma zona triste da qual nenhum deles por incompetência nos poderá resgatar.
Uma zona de muita dor que não aparece nas colunas e nas linhas das folhas de Excel usadas para justificar despudoradamente aquilo que vai de encontro aos seus interesses.
Para acontecer algo...
Seria preciso que os papagaios pudessem um dia ocupar o trono da selva, e não me parece provável.
Ou então que alguém apareça e mande tocar a campainha para o fim do recreio dos "meninos" e os faça desaparecer daqui a "Passos Seguros".
E não é só pelas guerras de meninos armados com a “fisga do discurso”...
Entre Lisboa e Coimbra, e depois no regresso, vou contabilizando hora a hora o número de mortos numa praça de Kiev.
A Ucrânia é já ali, não tão geograficamente próxima quanto a Suíça que hostiliza imigrantes ou a França de Le Pen, mas mesmo assim demasiado próxima, porque por detrás das explosões se ressuscitam velhas guerras económicas e políticas entre leste e o oeste de que, para o bem e para o mal, fazemos parte.
E nós por cá a brincarmos às “fisgas” e vulneráveis ao fogo que não é coisa definitivamente recomendável para “miúdos”.
Nós por cá, “esmagados” como o fiambre entre a mediocridade e à mercê de um fogo que bem nos poderá esturricar.
Quem é que disse que as guerras mundiais são ocorrências arquivadas na história do Século XX?