sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A estirpe e as virtudes

Quase sempre sentado no Estádio da Luz, não tenho a percepção de como Lisboa fica tão vazia à hora em que joga o Benfica. Do Conde Redondo e até Alcântara, é meu e só meu, o asfalto que cruza o Rato, a Estrela e a Infante Santo, como se a cidade tivesse sido desenhada só para mim e como se as luzes que “incendeiam” a Basílica estivessem ali apenas para me sorrir no instante em que eu passar.
Não é fácil levar-me a “trair” o Benfica, ainda por cima com um cartão no bolso que me daria livre acesso ao meu confortável lugar e daí aos golos do Gaitan e companhia.
Levo comigo no carro o “móbil do crime”: eu e mais quatro amigos que entre o Castelhano, o Português e o inevitável “Portulhol” ou “Espanholês”, damos integralmente corpo à ideia de uma identidade ibérica que vagueia pelo mundo como hoje pelo asfalto só nosso de Lisboa, qual “Jangada de Pedra” de José Saramago.
O silêncio morreu no instante em que nos abraçámos na recepção do hotel e ficou definitivamente enterrado no momento em que os copos foram preenchidos com o néctar vindo da Amareleja, terra do Alentejo mas sem fronteiras e com tanto… e com o sol da Extremadura e da Andaluzia.
A Maria del Mar está viciada em Eça de Queirós e em “Os Maias” que leu há pouco em Sevilha no clube de leitura em língua Portuguesa. Tem um bloco e vai apontando todos os detalhes dos espaços da obra que insiste em visitar e fica desiludida quando lhe explico que já quase não há quintas em Benfica e nos Olivais.
Mas vai levantar-se cedo para ir sentir o ambiente da Rua das Janelas Verdes onde se situava o Ramalhete, a residência lisboeta dos protagonistas e cujo nome derivava de um painel de azulejos com desenho de um ramo de flores.
O que ainda tornava a vida tolerável era de vez em quando uma boa risada. Ora na Europa o homem requintado já não ri, – sorri regeladamente, lividamente.   Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora – a barrigada do riso!
Assim falava Eça.
E por sobre o asfalto ou à mesa com o “calor tinto” da Amareleja e o entretanto chegado, Bacalhau à Brás, que um bom Espanhol nunca dispensa em terras lusitanas; as “barrigadas de riso” acesas por tantas memórias de quase dezasseis anos de amizade soltam-se e invadem sem controlo todo o espaço, provando que se existe uma identidade ibérica, a “barrigada de riso” faz inevitavelmente parte do seu “código genético”.
Rimo-nos de nós; dos amores e dos desamores que vamos coleccionando; da generosidade expressa no aumento da área de nós próprios com que brindamos o universo mesmo pagando mais por um tamanho de roupa XXL; da hipertensão, da diabetes e das maleitas de coluna que nos dificultam o simples levantar da cadeira para ir à casa de banho…
Nem a crise e nem as histórias e aventuras de “Rajoy e Passos na Terra dos Banqueiros” nos conseguem azedar o vinho e calar o riso que continuou à solta na livraria “Ler Devagar” mesmo quando o “devagar” se aplicou mais à ingestão do “Gin Tónico” do que a qualquer outra leitura para lá do que está expresso nas cumplicidades, nos gestos e nas palavras ditas.
Lisboa continua deserta e só nossa quando voltamos ao Conde Redondo pelo mesmo caminho de antes.
Agora, a cidade repousa sobre a vitória por três golos do Benfica e nós continuamos a rir.
Eu, Soraya, Chelo, Luís e a Maria del Mar que na rota de “Os Maias” apanha outra desilusão quando lhe explico que “O Tavares” não é restaurante para gente tão demasiado normal como nós.
O silêncio regressa depois dos beijos e dos abraços à porta do hotel, e Lisboa é agora sim verdadeiramente só minha quando subo às Amoreiras para sair pela A5.
Ouço António Zambujo…
E numa noite ibérica com Eça, assaltam-me as palavras de Miguel de Cervantes:
"A estirpe herda-se e a virtude conquista-se; e a virtude vale por si só o que a estirpe não vale."
O que são as fronteiras e a estirpe perante as virtudes da amizade?
Muito pouco.
Quase nada.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

MARIA JOSÉ

Conhecemo-nos há tanto tempo quanto os anos que chegam até hoje desde os dias quentes em que a sede te impunha que gentilmente pedisses um “copo de aba”.
Andávamos então no Jardim-Escola da Irmã Celeste, comíamos as aparas das hóstias que as Irmãs preparavam para a missa, cantávamos “as mulheres do monte quando vão à vila…” fazendo todos os gestos da “quebra dos ovos e da fuga das galinhas”; e acabávamos sempre a tarde a escorregar de forma radical nos papelões guardados numa velha arrecadação que existia no lado direito do teu quintal, esse espaço mágico que tinha também uns muros que anos mais tarde foram adaptados às paralelas assimétricas da Nadia Comaneci, sempre que a imitávamos no brilho do seu “10” nos Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal.
Desde então fomos crescendo, mas sempre uns mais do que outros, que a ti sempre te valeu a grande generosidade da tua fantástica e saudosa mãe que nunca deixava de repetir:
- A Zinha agora deu um pulinho.
Alturas e centímetros à parte, crescíamos mesmo muito e todos juntos, sempre ao ritmo das cumplicidades em tudo e até nas loucuras e no non-sense de adolescentes, dos sonhos sem travões que são típicos de quem é novo, das conversas que falavam de tantas descobertas, da partilha profunda de nós e das nossas vidas, da fé e da força única que ela nos dá, das tuas inesquecíveis gargalhadas que atingiam o auge quando alguém te fazia cócegas, e até dos tons roubados ao arco-íris do teu mais famoso casaco comprado um dia na loja dos Porfírios em Lisboa e que faziam de ti a mais moderna de todas quando atravessávamos o Terreiro do Paço a caminho das aulas no velho liceu à Porta dos Nós.
Com a Tina Cravo, o Paulo Ratado, a Zé Ramalho, a Céu Martins, a Guida Paulino… enquanto comíamos cachorros “fabricados” numa torradeira do bar que tinha para nós uma indisfarçável marca de modernidade porque fazia mover as metades dos papo-secos, ou então enquanto passeávamos em grupo pela Tapada Real sentindo o cheiro e o privilégio de todas as estações; escrevemos juntos e informalmente um firme compromisso de futuro: iríamos ser felizes.
E somos felizes, não traindo nunca e nem apenas sequer por um segundo, esse destino especial temperado de amor que, destemidos, quisemos oferecer a nós próprios.
Eu sei, têm existido muitos dias em que nada parece fácil e em que os ombros parecem levar com o peso incalculável de muita dor. Mas, as vidas previsíveis, simples e banais são apenas para as pessoas que não são tão especiais assim como tu és.
Só as pessoas especiais conseguem ter vidas um pouco mais difíceis e também especiais.
E também sei, seremos sempre felizes, mesmo não dando pelo tempo que passou e nem nos parecendo razoável que estejas hoje a cumprir o 48º aniversário, quatro meses antes de eu cumprir o meu; tal a força com que as cumplicidades, os sonhos, a fé e até as tuas gargalhadas, estão coladas a nós, vivas e presentes em tantos momentos e tantas conversas com que ainda hoje celebramos uma eterna e profunda amizade.
Os momentos em que pela amizade atestamos de coragem essa garra de nunca deixar de ser feliz.
E tu, por teu mérito exclusivo, insistes em tornar proféticas as palavras da tua mãe, pulando por sobre toda a dor para seres grande como és, uma das minhas maiores amigas; maior em carácter e na força da própria amizade.
Os amigos são sempre uma parte muito bonita dos nossos dias e tu és uma das mais fantásticas componentes das vidas dos que não sabemos viver sem ti.
Eu sou apenas um deles.
Agora já entendes porque és insubstituível na Sessão de Lançamento em Vila Viçosa?
É que mesmo que se te seque a boca e fiques sem voz, eu preciso de ti para que as minhas palavras, mesmo que soem roucas, fiquem muito maiores.
Zinha, parabéns!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O tempo todo

A cidade acordou não há muitas horas e sente-se o bulício da gente em passo acelerado, aqui e ali até com alguma corrida ao jeito de Obikwelo, não vá o autocarro fugir da paragem.
Os veículos motorizados, que são espelho da ansiedade de quem os conduz, aceleram desesperados na ânsia do semáforo passar a verde, instante em que automaticamente soam as buzinas dos que estão ligeiramente atrás.
A cidade mais parece o parque gigante de uns Jogos sem Fronteiras onde todos competem por um troféu que não se percebe muito bem qual é.
À porta do hospital, à beira do passeio e preparando-se para atravessar uma passadeira das que não têm semáforo e em que os peões ficam integralmente à mercê da generosidade (e do civismo) de quem conduz; um homem com uma velha saca de couro a tiracolo, e daqueles que já se perdeu na contagem dos anos, aguarda apoiado nas suas duas muletas, nada mais do que quinze segundos da “generosidade” de quem corre de carro para não sei onde.
Estou ao seu lado, sinto-lhe o desespero e faço uma pergunta que é quase inútil:
- Quer atravessar para o outro lado da estrada?
Responde-me quase sem me poder olhar de frente porque madrasta terá sido a idade para a sua coluna cervical.
- Hoje não está fácil.
Resolvo ajudar…
Dou um passo em frente em direcção à passadeira, um carro pára porque afinal a minha travessia representa apenas um atraso na marcha aí de uns cinco segundos; mas quando o condutor menos espera, eu do sítio onde estou, a um meio metro do passeio, mando avançar o homem e no seu passo acabo por partilhar com ele os quinze segundos da sua travessia.
Á diferença é de apenas mais dez segundos.
Na “corrida” de uma manhã em Lisboa, ninguém dá dez segundos do seu tempo a um pobre velho que vendo-se do outro lado do passeio me agradece e remata com um:
- Agora vou indo devagarinho.
Eu sigo o meu trajecto e lembro-me instintivamente da conversa de há dias com um amigo padre a quem os familiares dos defuntos pedem frequentemente para celebrar a missa de sétimo dia no dia imediatamente a seguir ao funeral.
É que é muito mais prático e já vão descansados para as suas casas encerrando de forma acelerada o fugaz ciclo do luto.
Estes são os dias do egoísmo de agarrar o tempo todo e nada de generosidade para com os vivos e até para com a memória dos mortos.
E correr para quê?
Às vezes por nada ou por muito pouco.
E porquê?
Tantas vezes porque sim e nem sabemos qual a verdadeira razão. Apenas porque nos habituámos a viver assim, à pressa.
Ou talvez o tempo seja apenas um detalhe do mundo todo que queremos agarrar nos nossos braços, tantas vezes também sem sabermos muito bem porquê.
O problema é que o tempo que hoje queremos todo para nós, não se deposita em bancos na forma de contas que nos salvaguardam o futuro.
E um destes dias…

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Palavras

A noite, que caiu há pouco de manso sobre a cidade, devolve-me sempre ao silêncio que pode calar tudo, mas jamais mata as palavras.
Nada no universo pode falar mais do que o silêncio.
Porque há palavras inquietas que são gritos de memórias eternas, palavras com nome de tanta gente e registo de tantos dias, palavras soltas no silêncio como erva a nascer num campo que a chuva beijou.
Há palavras abertas nos braços que acolhem, palavras quantas vezes desprovidas de quaisquer letras e nascidas de olhares que são janelas por onde espreitam sorrisos de alguém.
Os sorrisos doces dos amigos.
Há palavras de amor em beijos dados à sombra do luar com a cumplicidade do bater incessante das ondas do mar, palavras em rabiscados pedaços de papel que dizem dar verdade ao coração; há palavras de amor nas mãos que se entregam sem reservas nesse instante em que sentimos que há muito a alma se deu à magia de um sonho que não é só de hoje, é eterno em nós.
Há palavras de paixão que se soltam às vezes numa tão simples rosa de cor vermelha.
Mas também há palavras de dor nos instantes em que tudo fugiu e ficámos nós envoltos pela solidão.
Tudo, palavras que não são ditas mas que andam loucas e à solta pelo silêncio.
A noite caiu há pouco sobre a cidade…
Não importa.
Se as palavras que o dia não trouxe são agora minhas e abraçam-me pela força com que o sonho as molda no silêncio?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Desonestidade e Infidelidade nas Guerras do Coliseu

Orgulho-me de nunca ter deixado de votar em eleições legislativas, europeias e autárquicas; votei em todos os referendos; não me inibo de expressar a minha opinião sobre os mais diversos assuntos, fazendo-o publicamente na grande maioria das situações; acredito em causas e em pessoas; porém, muito dificilmente conseguirei filiar-me num partido político.
E sei porquê...
Da esquerda à direita os partidos não se inibem de menosprezar as suas bases e raízes ideológicas, sempre que está em causa o poder e a defesa do clã de amigos reunidos em torno de um interesse algures na órbita desse mesmo poder.
O militante conta muito mais do que cidadão.
Há exemplos para todos: a perseguição aos críticos no PCP, a manipulação na sucessão de Louçã no BE, as guerras surdas entre os herdeiros de Sócrates, Costa e Seguro no PS, as irrevogáveis atitudes de Paulo Portas no CDS; e este fim-de-semana assistimos a mais um triste episódio em directo do Coliseu dos Recreios com a ressurreição de Relvas, que quase não arrefeceu no túmulo onde fugazmente se sepultam os desonestos da política.
O partido que expulsou António Capucho por infidelidade à direcção do partido, que não aos eleitores que nas urnas lhe deram razão; faz emergir Miguel Relvas, comprovadamente e por decreto passado pelo Ministro da Educação deste mesmo governo: um cidadão desonesto.
No PSD de Passos Coelho a desonestidade aceita-se mas a infidelidade à "pandilha" dá pena de morte.
Já aqui escrevi em múltiplas ocasiões que só tem legitimidade para exigir, quem é exigente consigo próprio; e o que tem sido exigido aos Portugueses nem de perto nem de longe tem tido correspondência na prática dos agentes políticos.
Também não me interessa nada se o Relvas é ou não licenciado, o que me interessa sim é que não sendo forjou um diploma para conseguir facilmente aquilo que nunca se esforçou por ser.
É isto que é prova de desonestidade e mau carácter.
Candidato número um à lista do Conselho Nacional do PSD?
O Dr. Passos Coelho demonstra bem o respeito que tem por todos nós e o que deseja para o país (como se fosse necessário mais esta prova), conseguindo no entanto provar que o Coliseu dos Recreios continua a ser uma sala onde ainda há espectáculos de circo, naquele que é o único aspecto positivo deste episódio.
E eu?
Eu vou continuar a não me abster mas confesso que às vezes se me esgota a paciência e se me mói o pensamento para decidir em quem e no quê votar.
Invariavelmente é no menos mau.
Mas... e achá-lo?
Oh triste orfandade do eleitor…

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O caminhar feliz de um homem abraçado a palavras de amor

A manhã está húmida e envolta numa espécie de chuva envergonhada que incomoda muito pouco, “borrifos” que parecem até ter trazido o benefício de alguma trégua ao frio que às primeiras horas do dia quase nos consegue enregelar todos os ossos.
Vou em passo seguro e sinto como as cidades se nos entregam e se fazem nossas quando as percorremos assim no pleno gozo da liberdade de uma manhã de sábado.
Caminho há cerca de um quarto de hora e sabe-me muito bem quando transponho as portas e me sento no velho café que tem montra para a azáfama do mercado das flores.
Quando preparava a minha primeira visita a Amesterdão, o meu amigo Pedro Marcelo passou-me uma lista de locais a visitar, e estava lá este café.
Penso no Pedro.
É interessante como as pedras, as cidades e os lugares, nos sobrevivem, não deixando porém de preservar de nós, infinitas memórias guardadas por vezes em mínimos detalhes, memórias que se soltam assim no meio de improváveis dias de passeio.
Acho que da sua nuvem, por certo bem animada, o Pedro também me quis acenar. Sinto-o ao sair e ao dar conta que a torre sineira junto ao mercado dá a hora certa com os sinos a tocarem o hino da Eurovisão, aquela música que antecede os festivais e que é o prelúdio do “Te Deum” de um compositor barroco do Século XVII, Marc-Antoine Charpentier.
Os sinos a tocarem a “Eurovisão” ao jeito de festival, só pode mesmo ser obra do Pedro.
Sigo anónimo em direcção ao Rijksmuseum por entre a multidão que fotografa muito mais do que compra tulipas e outras flores; mas até os anónimos têm direito a afectos quando “navegam” assim pela cidade: da janela de um café onde junto à montra toma o pequeno-almoço com os seus pais, um rapaz faz adeus a quem passa.
Trocamos sorrisos no instante em que lhe retribuo o gesto, algo que parece deixá-lo admirado. Os restantes adultos que passam serão todos demasiado carrancudos…
É cedo e consigo entrar no museu sem grandes problemas, percorrendo as principais galerias sem a multidão que mais para o final da manhã, bloqueia literalmente a visão dos quadros.
Vou no meu ritmo. Os meus amigos perdoam-me por certo este tique de egoísmo, mas visitar museus é das pouquíssimas coisas que prefiro fazer sozinho.
E neste “navegar” calmo pela arte, a determinada altura sou literalmente abalroado por uma senhora, que pelo sotaque deduzo ser dos Estados Unidos, e que anda ansiosa à procura da “Rapariga com Brinco de Pérola”, de Vermeer.
- Vejo “A leiteira” e esse não.
Digo-lhe calmamente que “esse” não mora aqui. A “Mona Lisa do Norte” vive em Haia.
E a Americana lá desaparece entre a multidão, triste por ter menos uma história para contar no regresso a casa.
Os diálogos dos anónimos à sombra da arte.
A loja do museu aguarda-me para os inevitáveis presentes que levo para os meus “mimis”, leia-se sobrinhos; e sabe bem quando me sento para tomar uma bica na cafetaria.
Guardadas no telemóvel, leio e releio as tuas mensagens.
Sou um homem feliz quando me devolvo à rua onde já não chove… e recomeço a caminhar.
Pode lá existir maior felicidade do que a de um homem que caminha livre carregando as suas memórias, a sua história; e que caminha abraçado a palavras de amor?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

As lusas dores no “país das maravilhas”

Um colega Indiano que nasceu e vive no Reino Unido com a sua família, pediu-me hoje informações sobre as celebrações do treze de Outubro em Fátima, local onde pretende estar juntamente com os seus pais na concretização de uma vontade de há muito.
As suas raízes Católicas, que cruzam o Hinduísmo e a Igreja Anglicana de Sua Majestade, derivam de uma avó nascida em Malaca e que tal como nós falava a língua de Camões.
Numa breve conversa trivial de não mais de cinco minutos, o gosto intenso e único da diversidade e da liberdade, detalhes de um sonho chamado Europa e que tantas vezes parece destinado à marcha atrás.
Uma nação, da mesma forma que um espaço de nações, é definida pelas pessoas, muito mais do que qualquer particularidade geográfica, índice económico ou outro. E são as pessoas e a fidelidade à sua essência num espaço conjunto de desenvolvimento e de respeito, o expoente máximo da liberdade.
Não tardou o gosto amargo da mais triste realidade…
Há pouco li num jornal as declarações de um líder parlamentar da maioria: “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.
Pergunto-lhe eu:
- O que há de Portugal para lá dos Portugueses?
Sinceramente acho que não há nada.
Somos nós a essência do país, é por nós que zela a Constituição da República e é pela “vida das pessoas” que qualquer deputado eleito deveria zelar; muito mais do que qualquer outro interesse.
A afirmação é pois imbecil e encerra em si mesma um “atestado de incompetência”. Se o homem pensa assim, não tem condições para representar o “povo”.  
Um dia, quando Camões quis elevar ao Olimpo a glória da nação lusa, cantou “Os Lusíadas” e fez a obra maior da nossa História.
Fernando Pessoa na “Mensagem” fala das “lágrimas de Portugal” e de “um povo que quer o mar que é teu”.
Sempre, os Portugueses.
Mas destas coisas, esta gente sabe mesmo muito pouco. Uma tão triste gente que até será capaz de confundir a Estrada da Beira com qualquer beira da estrada.
O pior é que indiferentes às nossas dores, pela sua mediocridade nos vão matando o pão e esmagando a liberdade, que nos vão matando aos poucos, desprezando e matando Portugal.
E a Europa que cada vez se parece mais a uma ilusão.