sexta-feira, 14 de março de 2014

O país perfeito co-adoptado pelo FMI

Portugal é hoje um país socialmente perfeito.
Organizado com base em famílias em que coabitam modelos femininos e masculinos, os filhos são educados de forma exemplar num contexto de respeito; nunca há casos de pedofilia; há a prática de um puro equilíbrio económico; não há quaisquer sinais ou evidência de violência doméstica por entre a riquíssima partilha dos mais puros valores; e não há infidelidades por parte dos pais que apenas se relacionam fisicamente em pura e assumida monogamia em actos sexuais que têm em vista a divina reprodução da espécie humana.
A prostituição masculina e feminina morreu por culpa desta monogamia e da ausência de clientes, não há casas de alterne, motéis e outras pensões de curta permanência.
Nem pensar em haver divórcios, adultérios, traições, abortos, etc.
Por vezes até se torna monótona tão acérrima fidelidade aos mandamentos e a total ausência de depressões porque todos somos efectivamente muitíssimo felizes.
Os filhos perfeitos destes santos matrimónios, que nunca são homossexuais dado que beneficiam de ambos os modelos, masculino e feminino, são assim pessoas muito equilibradas, educadíssimas, indivíduos que nunca apresentam comportamentos violentos e que são incapazes de agredir professores ou colegas de escola, para além de que são alunos com um aproveitamento exemplar num filão inesgotável de “Einstein’s” que em poucos anos nos tornarão uma potência mundial.
São a base de novas células familiares perfeitas sem nunca cometer esse pecado de praticar qualquer acto sexual antes do matrimónio que une sempre e exclusivamente homens e mulheres virgens.
Se não há pais para cuidar dos filhos, as crianças são exemplarmente tratadas em instituições onde não existe violência de qualquer espécie, existindo a garantia de Homens totalmente equilibrados num país onde sobra tempo aos juízes por não haver corrupção e outros quaisquer desvios a uma lei amplamente seguida por todos.
A co-adopção é desnecessária, e por pessoas do mesmo sexo é que nem pensar.
Íamos lá agora estragar este pedaço de paraíso…
Neste contexto familiar exemplar fecharam-se todos os lares da terceira idade porque os idosos são tratados em casa num contexto de afectos proporcionado por filhos e netos. Nem pensar em existir qualquer sinal de abandono de idosos à sua sorte em urgências de hospitais ou paragens de autocarros em sítios isolados.
E ninguém morre sozinho neste perfeito ambiente de amor, respeito e valores tradicionais…
Quem conseguiu chegar até aqui na leitura deste texto por certo estará a chamar-me louco, e até acredito que os amigos mais íntimos estejam já a consultar as Páginas Amarelas no sentido de encontrar um psiquiatra que me possa dar assistência.
Indevidas pretensões de sanidade à parte, não, eu não enlouqueci.
O país que aqui descrevo pura e simplesmente não existe e defender esta descrição como a verdade da pátria é um exercício de loucura, cegueira e hipocrisia.
Mas há quem o faça beliscando os mais elementares direitos dos cidadãos em sede onde a salvaguarda desses direitos deveria ser garantida.
E aquilo que poderia ser um país melhor passa a ser um país mais hipócrita e de loucos com visões idílicas e românticas que não lhes moem as convicções mas matam a felicidade dos outros.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os dias tristes sem as flores

O meu amigo António disse-me hoje pela manhã que em Trás-os-Montes e por estes dias de um sol de quase primavera, as flores das amendoeiras já estão de partida.
O esplendor branco e rosa que enfeitou as árvores, despede-se agora beijando despudoradamente a terra e oferecendo aos nossos pés um alvo e inédito tapete, o manto que por terras do sul bem se ajusta às lendas e às saudades da neve de uma Princesa Moura.
Mesmo racionalmente sabendo que num destes dias chegará o fruto e que esta despedida cumpre o inevitável ciclo da vida, jamais deixaremos de sentir saudades dos dias mágicos das flores.
É normal.
De forma mais ou menos marcada, todos nós carregamos na alma as virtudes e a sensibilidade de um poeta.
E um poeta sempre se condói na hora de dizer adeus às flores, mesmo quando elas são assim brevíssimos detalhes do tempo e carregam em si mesmas, um intenso sabor a lendas e gosto de ilusão.
Mesmo sabendo que as flores acabam sempre por voltar.
Também por estes dias têm estado bem presentes em mim aquela amiga que se fortalece na cama do hospital para lutar contra um estúpido tumor, e também aquela outra muito mais nova que aguarda ansiosa a hora de um transplante que lhe devolva os dias com melhor respirar…
“Impõe-me” a fé e a amizade que as lembre todos os dias naquele Padre-nosso e nas Ave-Marias que quase sempre o cansaço já não me deixa terminar na hora em que adormeço.
As duas, lindas como as pétalas das amendoeiras, seguiram a rota das flores e saíram por momentos das janelas desses olhares de onde sempre me sorriem, tão-só para que pela sua dor me ofereçam o fruto benefício de um exemplo e uma lição de coragem e infinita bravura.
“Impõe-me” também a fé acreditar que passados estes dias, ambas em breve voltarão a abrir sorrisos nos olhares depois de as suas dores me terem ensinado a ser um pouco melhor... e maior.
Deus ou ciclo do tempo jamais nos levam os dias das flores.
Mesmo que a espera por vezes aparente ser o infinito e mesmo que haja sobre a dor, lágrimas impostas pela nossa assumida alma de poetas; esses dias acabam sempre por voltar.
A saúde voltará em breve minhas queridas, doces e inesquecíveis amigas.
É que se o Céu precisa de anjos, o que seria de nós se eles não continuassem também por aqui a alegrar-nos os dias, a sorrir-nos generosos desde as varandas lindas de uns tão perfeitos olhares. 

terça-feira, 11 de março de 2014

“Barriga cheia não acredita em fome alheia”

No dia em que recebi pelo correio um sobrescrito com alguns cupões de desconto em cartão para compras nos Hipermercados Continente, o patrão da SONAE, grupo detentor dessa cadeia de lojas, e personalidade com direito a nome na FORBES na lista das pessoas mais ricas do mundo, defendeu a legitimidade para os baixos salários em Portugal, tão-só porque eu e os meus e seus concidadãos, somos afinal “malandros” e não produzimos tanto quanto os Alemães, uma atitude supra-patriótica capaz de fazer muito pela economia nacional e atrair investidores, uma atitude “generosa” a justificar no fundo aquela ideia de que “com amigos assim, para quê ter inimigos”?
Mas de repente, e perante esta inevitabilidade da minha pobreza, os cupões fizeram lembrar-me as senhas das Conferências Vicentinas que permitiam receber o pão dos pobres; e o cartão de fidelidade à marca Continente que tenho na carteira passou simplesmente a ser um adereço de acesso à caridade do seu iluminado e endeusado patrão através de um processo certificado e com recurso a banda magnética.
E confesso que já não suporto ouvir os ricos a opinar e a falar da legitimidade da pobreza dos outros…
A senhora do Banco Alimentar que pode comer bifes todos os dias e que é heroína da generosidade por mérito dos sacos cheios de comida e da solidariedade que eu lhe despejo nos carrinhos de supermercado, fala de cátedra sobre a impossibilidade dos outros poderem ambicionar a comer o que quiserem.
O banqueiro presidente da instituição onde tenho as minhas contas e que alimenta as suas através das infinitas taxas bancárias que me “sorve”, vem dizer que o povo ainda aguenta mais austeridade, mesmo havendo gente que se depara já com gravíssimas dificuldades para sobreviver.
O empresário que detém a rede telefónica do meu telemóvel e que é dono destes supermercados onde faço grande parte das minhas compras, e onde deixo grande parte do meu ordenado ao pagar a comida para a satisfação das minhas necessidades mais básicas, chama-me “malandro” e diz que não posso ambicionar a mais ordenado.
Tudo se assemelha ao sádico prazer do conforto de estar com os pés bem firmes na terra, e não dispensar o atar de uma pedra aos pés dos que se afogam, quiçá para que desapareçam mais depressa.
E Portugal é hoje assim definitivamente uma terra onde impera o pecado da soberba lado a lado com o da hipocrisia, esta última expressa pela imbecil dicotomia e bipolaridade entre o parecer e o ser: políticos incompetentes a apontar a incompetência e a irresponsabilidade dos outros; descarados e perversos travestidos de moralistas e a vender avulso e barato, a moralidade aos outros; pretensos defensores dos pobrezinhos a banquetearem-se descaradamente com os prazeres do fausto e da riqueza, etc.
Sem pudor e sobretudo sem a manifesta vontade de alterar este ciclo e o seu ritmo que tanto convêm a quem está bem e confortavelmente sentado no paraíso.
A crise de muitos é a passadeira vermelha para o sucesso e conforto de poucos, sendo que o poder desses poucos é infinitamente maior que o dos muitos que agonizam “surfando” pela crise.
O poder dos Euros é muito superior ao poder da dor de qualquer Homem.
E se o povo diz que “barriga cheia não acredita em fome alheia”, acrescento eu que também não as respeita nunca.
Voltando à SONAE e relativamente aos cupões e ao cartão, talvez os utilize quando tiver mesmo que ser, até porque o respeito pelos patrões das outras lojas também não é lá grande coisa, mas descanse o senhor em causa porque nunca farei qualquer escândalo nos seus hipermercados. Afinal, os meus interlocutores por lá, seus funcionários e nossos concidadãos, merecem a minha total solidariedade pois para além de terem um ordenado baixo e de serem alcunhados de malandros pelo seu chefe mor, têm uma enormíssima desvantagem em relação a mim: têm um patrão sem vergonha. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

“Estas palavras nascidas dos dias”

Há tardes que nos abraçam pela força do afecto que transparece do olhar dos amigos, são as tardes que valem a pena e que passam directamente para o sector “inesquecível” da memória dos momentos mais especiais.
Eu confesso-vos comovido que jamais poderei esquecer a tarde de ontem, dia 9 de Março de 2014, e o calor desse vosso tão grande abraço.
Há trinta anos, quando cheguei a Lisboa e descia o Chiado a sentir ao redor de mim os passos do Carlos da Maia e do João da Ega na descrição única de Eça em “Os Maias”, ou quando entrava na Bertrand para matar a saudade e o vício do aroma do “pó dos livros”; estava muito longe de sonhar que algures numa tarde de Março de um ano qualquer, eu iria estar por ali envolto na atenção e no carinho de centenas de amigos, todos ao redor das palavras simples que os dias me vão ditando.
“Estas palavras nascidas dos dias” é um despretensioso livro de afectos escrito por inspiração das coisas mais pequenas de todos os meus dias, quando os sonhos oferecem a convicção de que a fé é muito maior do que qualquer religião, que o amor é o sentimento maior de todos; e a liberdade é o condimento perfeito para um tempo vivido com o máximo do sabor de nós próprios.
Com fé, amor e liberdade… e quando os sonhos nos conduzem à esperança de que um pequeníssimo detalhe de um dia banal poderá tornar-se no “Minuto Zero” de uma história inesquecível ou do mais perfeito amor.
Na minha tarde maior, estas palavras simples ganharam uma dimensão fantástica na voz inconfundível do actor Victor de Sousa e no embalo perfeito dos andamentos de Bach “arrancados” ao violoncelo pela arte da Rita Ramos.
O Filipe Valentim traduziu os dias pelos traços e cores que me ofereceram pela amizade, a capa do livro; o fotógrafo Miguel Quesada captou-me o olhar ao sol de uma tarde de Outono; e a Ana Torres falou da amizade de uma forma fantástica e superior. O Dr. Ângelo Rodrigues e a equipa da Minerva foram companheiros fundamentais no percurso até à concretização deste sonho tecido a palavras.
E de todos vós… a amizade expressa por esses olhares que sempre me abraçam.

sábado, 8 de março de 2014

Mulheres de A a Z

AMIGAS – São muito amigas e generosas, e por isso, estou certo que não levarão a mal esta brincadeira.
BALANÇA – A evitar. É o objecto mais odiado.
CALÇADO – Nunca é demais.
DIETA – O destino eternamente adiado.
ENXAQUECA – A maior cúmplice.
FOFOCA – “Eu odeio… Olha, não digas a ninguém mas parece que…”
GORDA – Lê-se FORTE.
HIDROGINÁSTICA – A esperança para a tão aguardada reconciliação com o bikini.
INTEGRAL – O pão da fé em deixar de pedir o XL na Zara.
JÓIAS – Pequeníssimos detalhes capazes de comprar boas vontades.
KGs – Aquilo que sobra sempre do peso das outras.
LÁGRIMAS – Tão fáceis e um trunfo tão grande.
MALAS – Labirintos para telemóveis ou “o insustentável peso do ter”.
NUANCES – É inútil tentar distinguir de Madeixas.
OPINIÃO – “Cada um tem direito à sua desde que no final a minha prevaleça”.
PLÁSTICAS – O segredo para o desenhar de bocas geneticamente impossíveis.
QUÍMICA – A sua ausência é a melhor desculpa para não passar à componente FÍSICA.
ROSAS VERMELHAS – O passaporte dos maridos.
SOGRA – Será que os maridos não poderiam ser todos órfãos de mãe?
TONY CARREIRA – “Faz-me um filho”.
UNHAS – “United colors” ou o único assumir de “mão estendida” num Centro Comercial à mercê de uns secadores existentes no “corner”.
VESTIDOS – “Tenho os roupeiros completamente cheios e não sei o que vestir”.
WC – Atelier de pintura e zona própria para socialização.
XL – O tamanho odiado (em roupa, claro!).
YES – A resposta ideal dos maridos após uma reivindicação feita muitas vezes sob a forma de simples sugestão.
ZARA – “Porque qualquer trapinho me assenta bem”.
Em conclusão, vocês são realmente únicas e fantásticas.
Um beijo imenso para todas com esta esperança de que um dia terminará a comemoração do Dia Internacional da Mulher, por já não ser necessário e todos os dias serem nossos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Senhora D. Liberdade

Quando cheguei a Lisboa em 1984 vindo de Vila Viçosa, a Liberdade tinha dez anos e veio comigo.
Com os meus dezoito anos de então, esta espécie de irmã mais nova tornou-se muito próxima de mim, de tal forma que fomos os dois crescendo e fortalecendo simultaneamente a nossa relação de família por via da tolerância, do respeito pelo Homem e pelas diferenças que lhes são inerentes, por via do livre pensamento, pela força e união no derrubar das desigualdades, das injustiças, etc.
Passeávamos juntos no Bairro Alto e de vez em quando tomávamos um copo de tolerância em algum dos muitos bares que iam abrindo por ali; íamos juntos ao Quarteto ver os filmes na ausência total de censura política ou de mercado; apanhávamos o mesmo autocarro para ir comprar livros do Saramago, do Cardoso Pires, do Garcia Marquez, do Vargas Llosa… à Barata, à Buchholz e a tantas outras livrarias da cidade; fomos ouvir a mesma música ao coliseu, ao Pavilhão dos Desportos, à Reitoria da Universidade de Lisboa ou à Fundação Gulbenkian; frequentávamos os debates na Aula Magna do ISCTE em vésperas de eleições e transportávamos as discussões para a mesa das cantinas universitárias onde não existiam praxes e o menu tinha sempre a conversa e a Liberdade…
E fomos crescendo juntos.
Um certo dia e ainda nova qual Lolita, a Liberdade resolveu tornar-se amante da Europa. Ao invés de um matrimónio de papel passado e igualdade garantida, esta situação que nem União de Facto conseguiu ser, traduziu-se por casa montada, cartão de crédito, luxo, auto-estradas, rotundas, muito dinheiro e facilidades.
Ao sol do Algarve e da Caparica, a Liberdade vendeu a sua alma ao mais vil diabo e passou a ser uma “Teúda e Manteúda” ao dispor dos senhores do dinheiro, uma nova-rica de vida demasiado fácil para tão nobre berço e herança genética.
Foram passando os anos e a Liberdade foi envelhecendo e deixando de ser tão apelativa para a amante Europa, muito mais virada agora para a “carne fresca” que foi surgindo a leste.
Eu fui acompanhando sempre esta minha irmã, mas a partir de certa altura com um afastamento que me doeu muito mais a mim do que a ela, estou certo disso.
Hoje eu tenho quase 48 anos e ela está prestes a cumprir os 40. Temo-nos visto pouco mas sempre que a encontro vou notando a sua transformação e registando que não está a amadurecer bem. São demasiado evidentes os sinais de um envelhecimento doloroso.
A pouco e pouco foi transformando a sua beleza natural: colocou madeixas e nuances de corrupção ao estilo BPN; pôs na boca a mordaça do aparelho metálico dos Mercados que lhe alinha os dentes (e as contas) mas “dói para caraças”; quis tornar-se importante pela via mais fácil e conseguiu uma licenciatura sem aprender nada por via das “Novas Oportunidades”; trocou as ideias por uma fácil e muito desinteressante conversa cheia de calão ao estilo do “porreiro pá”; interesseira, perversa e madrasta, abandonou todos os “filhos” que a vida lhe foi dando e fê-los partir seguindo as mesmas vias dolorosas que os seus próprios pais já tinham utilizado nos anos sessenta muito antes de ela ter visto a luz do dia…
Esquecida pela Europa, abre agora as portas da sua casa a Chineses, Angolanos e outros, sobrevivendo à custa da venda dos seus bens mais preciosos, aquela nobre herança que a faz aquilo que realmente é, a Liberdade.
Por estes dias, até a avenida que tem o seu nome, já carrega em si tão pouco de Liberdade.
Está irreconhecível a minha irmã.
Mas, na expressão de um claro apego de alma e de sangue, juro-vos que jamais desistirei dela, e levem para onde levem a “minha” Liberdade, e pode ser até para os antípodas da sua essência; eu irei sempre lá para a resgatar e a devolver a si mesma.
Porque eu sei que vou morrer cumprindo a minha condição humana, mas ela é eterna.
A nossa eterna Liberdade.
Lisboa, 6 de Março de 2014. Não consigo jantar e escrevo enquanto assisto a uma manifestação de polícias em frente ao parlamento.

quinta-feira, 6 de março de 2014

No tempo da “Cassete - Pirata”

Quando terminei a 4ª classe em Junho de 1976 depois de uma prova final imaculada, um daqueles exames à antiga em que íamos todos aprumados e com a roupa “de ir ver a Deus” porque havia uma componente oral e uma escrita em que, com a ajuda de umas fantásticas Canetas de Tinta Permanente provávamos as virtudes da nossa excelente caligrafia em folhas de papel almaço dobradas na margem para as correcções e as classificações; nesse tempo em que este “Ensino” não era “Básico” mas “Primário” e os “Auxiliares de Acção Educativa” ainda se chamavam “Contínuos”… o meu avô Chico ofereceu-me como recompensa um leitor / gravador de cassetes da marca Philips.
Com a dupla opção de poder funcionar ligado à corrente eléctrica ou a pilhas, a sua portabilidade era também garantida pelo tamanho relativamente pequeno e por uma asa metálica colocada junto aos botões devidamente alinhados e de cor branca e vermelha que permitiam concretizar todas as funções do aparelho: tocar, transportar a fita para a frente, fazer recuar a fita, gravar e controlar o volume.
A gravação das cassetes “virgens”, ou então de algumas previamente utilizadas mas que tinham música que já não nos interessava para nada, era assegurada com a ajuda de um pequeno microfone que estava ligado a um fio que por sua vez se conectava a um orifício próprio que existia na parte lateral do aparelho.
Desde o dia em que essa oferta se concretizou jamais alguém em minha casa conseguiu ver um Festival RTP da Canção ou um Festival da Eurovisão, de uma qualquer outra forma que não fosse em silêncio, pois o pequeno microfone era colocado estrategicamente junto à saída de som do televisor e as canções ficavam desde logo registadas na fita da cassete, postas então à mercê das apreciações que eu e os meus amigos faríamos no dia seguinte, à mistura por certo com algum som extra de “bateria” derivado do ruído dos tachos ou da louça, uma vez que a minha mãe não se podia privar de concretizar as lides domésticas do nosso serão familiar.
Estas gravações eram também o suporte para interpretações que nós próprios fazíamos nas tardes passadas a brincar entre caixas de cartão no Celeiro do Sr. Domingos, o espaço contíguo à sua loja de tecidos e de capotes Alentejanos que tinha na Corredora; em Festivais made in Vila Viçosa que tinham até chamadas de votação aos diferentes distritos: nunca mais me esquecerei que em Viana do castelo há um jornal chamado “Aurora do Lima” e em Castelo Branco, “A Reconquista”.
Em época de Festivais, uma colega questionou-me sobre o segredo de saber tanto sobre o tema e me recordar de muitas canções e intérpretes de quem mais ninguém se lembra.
Obviamente que a memória ajuda e também o gosto de ser “Eurofã”, que assim se chama pela Europa fora a quem nutre simpatia sobre o assunto; mas o maior segredo reside nestes auxiliares de memória gravados ao serão, ao vivo e… a preto e branco, que cor na televisão em Portugal é coisa só de 7 de Março de 1980, noite de Festival apresentado pelo Eládio Clímaco e pela Ana Zanatti directamente do Teatro S. Luís, em Lisboa; depois de nas eliminatórias, uma cantora de nome Zélia Lopes ter cantado “Nada a perder” (“Vou viver a minha vida / tal e qual eu entender / sou maior e vacinada / não tenho nada a perder”) naquilo que poderemos chamar a “Pré-história da Música Pimba”.
Faz amanhã precisamente 34 anos e… ganhou o José Cid com “Um grande, grande amor”, canção que depois alcançou um sétimo lugar em Haia no Concurso da Eurovisão ganho por Johnny Logan, da Irlanda, festival em que o Luxemburgo se apresentou em palco com um homem disfarçado de pinguim e…
O gravador ainda funciona e conservo na gaveta algumas destas cassetes que ouvidas agora e com a “elevadíssima” qualidade que apresentam, quase nos levam a acreditar que os Festivais eram todos realizados sobre o tabuleiro metálico da Ponte 25 de Abril em dia de buzinão ou de concentração de camiões.
Está revelado o segredo dos meus auxiliares de memória em versão áudio, cassetes que ainda visito de vez em quando no Panteão das doces memórias para onde foram depois de assassinados pelo Youtube.
Só que o Youtube não tem o som das panelas e dos tachos lá de casa, e o tempo faz com que até dessas coisas tenhamos saudades.