segunda-feira, 17 de março de 2014

As heranças por entre os “passos” trocados

Sobre o altar e numa folha disponibilizada pelo pároco e pela catequista, o meu sobrinho João assina o nome dele e, na linha imediatamente por baixo, assino eu, assegurando dessa forma que ele está preparado para receber o baptismo.
Um momento muito simples e informal por entre mais oito pares de crianças / padrinhos, mas que não consigo deixar de sentir como uma passagem de testemunho entre a minha e a sua geração, porque a fé fará sempre parte desse pack das heranças da alma.
Na igreja de arquitectura demasiado minimalista e com aquele toque de “provisório” que nós, os “Portugueses suaves”, toleramos como “definitivo”; eu vou jogando cumplicidades com o João através de sorrisos e umas piscadelas de olho. De aí a muito pouco, o padre irá enredar-se e tropeçar nas suas próprias palavras quando tentar explicar às crianças a transfiguração e o rosto de Jesus Cristo.
Não é fácil…
O sol do meio-dia beija Lisboa de uma forma tão despudorada e sensual que, acabada a missa e já sozinho, não resisto e vou até ao Chiado.
Ao ser devolvido à superfície pelo elevador que me resgatou do parque de estacionamento do Camões, vejo-me envolvido por um grupo de Ucranianos que ali à sombra do poeta que um dia escreveu que “lágrimas tristes tomarão vingança”, gritam sem reservas e medos, reclamando a liberdade que lhes permita vingar tantos dias tristes.
Estas pedras e estas ruas conhecem tão bem estes gritos e estas vontades… que sejam para eles um bom prenúncio.
Desço a Rua Garrett por entre artistas, malabaristas, homens estátua, gente sem-abrigo, clamores de ajuda, riso, festa, a babel de muitas línguas, gente que diz ter fome, gente agarrada a gelados em cone de dimensões XL, velhos, novos, trôpegos, gente maltrapilha com os pertences todos em sacos de plástico, ali mesmo ao lado de gente carregada de mais sacos com tanta coisa que até não era precisa mas que não resistiram a comprar…
O sol continua a beijar Lisboa, o Tejo sorri de um intenso azul sempre que o espreito à direita ao dobrar uma esquina, e à mesa do café onde entretanto me sento com dois amigos apaixonados, é inevitável falar de amor, até porque os olhos deles, uns para os outros, não se cansam de lembrar que de amor estão cheios os seus dias.
O café ajuda a soltar a conversa que flui ligeira até ao momento em que me devolvo ao sol de Lisboa e subo novamente a Rua Garrett.
Há polícias nas esquinas a controlar o trânsito e soa forte o bombo de uma fanfarra: a procissão do Senhor dos Passos acabou de sair da Igreja de São Roque e desce e Misericórdia antes de mergulhar nas ruas do Chiado e percorrer o caminho até à Graça.
Desfilam ouros, pratas, vaidades e capas…
E a imagem do Cristo carregando a cruz avança ao ritmo do bombo e também da banda militar que segue imediatamente atrás.
Os Passos de Cristo a cruzarem-se assim com os passos vagabundos das dores de tantos Homens que carregam a cruz do peso da fome em sacos de plástico que têm muito pouco mais do que nada.
Penso no padre da missa dos Olivais…
Gostaria de o ter agora por perto para lhe explicar onde anda por ali o rosto de Cristo e de como é tão fácil encontrá-lo na cidade; não aos ombros da vaidade dos Homens, mas comigo ali na berma do passeio quando o aroma nauseabundo da má fortuna abre uma clareira por entre a multidão mais empenhada em fazer vénias a um sumptuoso detalhe artístico que fala de Cristo, mas que nunca será tão verdadeiramente Cristo quanto o irmão dos sacos de plástico ali ao meu lado, com capa de serapilheira e sem brasão dourado.
Penso agora no João e de como ele à saída da missa fez questão de dar uma moeda a um homem que pedia à porta do Centro Comercial, um homem pobre que lhe beijou as mãos e nos desejou aos dois a maior sorte.
Os papéis estavam afinal trocados e talvez o João esteja mais habilitado e devesse explicar ao padre por onde anda o rosto de Cristo por estes dias dos Passos da Quaresma.
Pisco-lhe o olho mentalmente, sorrio e sigo…
Caminho por entre os “Cristos”, com a alma cheia de palavras de amor e sempre nesse inquieto impulso de quem vive e caminha de encontro à liberdade.
Eternamente, quero que seja essa a minha herança.

domingo, 16 de março de 2014

Nós “Pimba”

No dia em que li no jornal Expresso que o Oliveira e Costa pediu prescrições no caso BPN e vai poupar assim cerca de 9,9 milhões de Euros…
Depois de através do mesmo jornal ter tomado conhecimento de que uma deputada do PSD eleita pelo círculo do Porto, Maria José Castelo Branco, ter chorado em plena reunião do seu grupo parlamentar porque se via forçada a mudar o seu voto e a chumbar a co-adopção porque caso contrário perderia lugar nas próximas listas eleitorais do partido…
Depois de ter lido a afirmação de Pedro Santana Lopes a referir que “José Sócrates foi um Primeiro-Ministro com visão”…
Após ter ouvido António José Seguro afirmar que o PS “sabe governar com rigor, disciplina orçamental e pôr as contas públicas em ordem…
Confesso que nada me surpreendeu a escolha pela RTP, via Festival da Canção e para representar Portugal na Eurovisão, de uma canção assumidamente pimba da autoria do Emanuel.
É que neste país, se não emigraram já, a poesia e a música estão “enterradas” numa campa rasa ao lado de uma outra onde enfiaram a decência, o pudor, a consciência, a honestidade, o bom senso… e tantas outras coisas fundamentais à dignidade das pessoas e das nações.
A RTP foi ao panteão dos verdadeiros festivais, fez uma homenagem ao Ary e ao Eládio, entregou flores ao Calvário e à Simone; e de seguida rendeu-se ao produtor que com músicas pimba lhe anima as tardes de fim-de-semana naqueles indescritíveis programas em que os apresentadores estão reduzidos a máquinas repetidoras de números setecentos e “o raio que os parta”, os números que dão Euros e são apontados como solução para a crise das bolsas de cada um.
E assim estaremos representados na Dinamarca pela Suzi, uma loura que dança de perna aberta porque tem medo de cair dos saltos altos, e que pela voz que apresenta, eu diria que é uma espécie de mulher-a-dias da Madalena Iglésias emancipada por se ter amantizado com o homem do talho, o “fundo monetário” que lhe patrocinou assim esta aproximação ao microfone da patroa. Com todo o meu máximo respeito pelas mulheres-a-dias e pelos homens do talho, que em ambos os sectores de actividade tenho muito bons amigos.
A letra da canção tem uma dimensão que cabe no talão de uma compra no talho e parece ter sido escrita naquele hiato em que na paragem se espera o autocarro, com a inspiração incrivelmente tolhida pelo cansaço de um dia de trabalho, a pressa de apanhar o dito transporte, e também o maldito peso do saco da carne, que hoje foi dia de levar o chispe para o Cozido:
- “Quero ser tua, oh oh oh oh!”.
No resto do país a situação é exactamente igual, e haverá sempre o detalhe de um perverso interesse económico para justificar porque estamos rodeados e condenados ao “pimba” e a este “inestético” fado da miséria que começa na inspiração da ausência de honra de alguns e depois nos mata à fome por entre uma desafinada incompetência.
E como as eleições estão muito próximas, confesso-vos que vou aplicar a estes imbecis o verdadeiro método do Emanuel:
“Se eles querem um abraço ou um beijinho… nós pimba…”
Nós pimba… não votamos neles, seguindo então o conselho do Pedro Abrunhosa:
“Vamos fazer o que ainda não foi feito”.
A escolha até pode ser difícil mas se isto não dá depressa uma cambalhota e não destruímos este arco execrável do poder… não sei, não…
Acho que iremos todos directamente para Berlim, sem direito a passar por Copenhaga e sem direito aos pouquíssimos votos que sempre nos calham em sorte. 

sábado, 15 de março de 2014

O “formol” dos afectos e a eternidade dos amigos

De repente e por conta de uma foto partilhada no Facebook, o serão de ontem acabou por me proporcionar uma agradabilíssima conversa com duas eternas amigas, companheiras de tantos dias de brincadeiras e cumplicidades na rua em que eu nasci em Vila Viçosa, exactamente a rua retratada na foto partilhada.
E a Rua de Três, como sempre chamaremos à nossa Rua Gomes Jardim, juntou-nos aos três numa animada e ciber tertúlia de amigos.
Sem que nos déssemos conta cruzámos as onze da noite a falar sobre o papagaio do Sr. Ezequiel, ave que por estar mesmo em frente à minha janela, cumprimentava a minha mãe com um ruidoso “bom dia” sempre que pela manhã ela abria a dita janela (e por conta dele a minha primeira palavra foi “olá”; a D. Palmira, que tinha nêsperas no quintal e que não era propriamente bem-disposta, um pouco como a vizinha Jerónima que nos molhava com água atirada da janela onde passava os dias, sempre que por brincadeira lhe batíamos à porta; as tardes passadas à porta da Avó Bacalhau, quando ela nos contava as histórias das revoluções republicanas em Lisboa e até nos pedia que palpássemos as balas que guardava como prova dentro da pele das suas mãos…
Eu, aqui desde esta casa que mira o Atlântico, juro-vos que até os cheiros desse tempo me acorreram ao serão, tão bem guardados que estão com toda a herança desses magníficos dias, na parte mais segura da memória.
E sorri muito.
Passaram quarenta e tal anos sobre esse tempo, tatuámos a nossa história de tantas coisas boas e às vezes dores tão fortes que eu nem ao de leve tento descrever aqui por palavras; mas a sensação que eu tive foi a de que pegámos na conversa no exacto ponto onde há décadas a deixámos, quiçá depois de um baptizado de bonecas feito ao portão sempre fechado do “Tap’um” onde se punha um repuxo durante as Festas de São Pedro, ou então quando nos cruzávamos por ter ido pedir um raminho de hortelã, salsa ou coentros a casa da Vizinha Sebastiana ou da Vizinha Marianita Ferreira.
A vida tatuada a festa e dores, mas entre nós, eterna, a essência desses afectos que nos moldaram definitivamente o ser por entre os dias simultaneamente tão simples e tão nobres.
E são os afectos, o “formol” que a tudo é capaz de dar marca de eternidade.
No dia em que fui fazer uma sessão à escola que frequentei em Vila Viçosa, um aluno mais destemido questionou-me:
- Não tem medo de um dia acordar e confrontar-se com a total ausência de inspiração para escrever o mínimo de qualquer coisa?
É pertinente, mas com amigos por perto há sempre inspiração para escrever e…para sorrir naqueles serões em que até não há ninguém em casa.
Basta estar atento e beber dos dias tudo aquilo que eles oferecem, muitas vezes tanta coisa que até nos pode parecer tão pouco importante.
São e Lavinia, muito obrigado. Foi muito boa a conversa no nosso pedaço de serão. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

O país perfeito co-adoptado pelo FMI

Portugal é hoje um país socialmente perfeito.
Organizado com base em famílias em que coabitam modelos femininos e masculinos, os filhos são educados de forma exemplar num contexto de respeito; nunca há casos de pedofilia; há a prática de um puro equilíbrio económico; não há quaisquer sinais ou evidência de violência doméstica por entre a riquíssima partilha dos mais puros valores; e não há infidelidades por parte dos pais que apenas se relacionam fisicamente em pura e assumida monogamia em actos sexuais que têm em vista a divina reprodução da espécie humana.
A prostituição masculina e feminina morreu por culpa desta monogamia e da ausência de clientes, não há casas de alterne, motéis e outras pensões de curta permanência.
Nem pensar em haver divórcios, adultérios, traições, abortos, etc.
Por vezes até se torna monótona tão acérrima fidelidade aos mandamentos e a total ausência de depressões porque todos somos efectivamente muitíssimo felizes.
Os filhos perfeitos destes santos matrimónios, que nunca são homossexuais dado que beneficiam de ambos os modelos, masculino e feminino, são assim pessoas muito equilibradas, educadíssimas, indivíduos que nunca apresentam comportamentos violentos e que são incapazes de agredir professores ou colegas de escola, para além de que são alunos com um aproveitamento exemplar num filão inesgotável de “Einstein’s” que em poucos anos nos tornarão uma potência mundial.
São a base de novas células familiares perfeitas sem nunca cometer esse pecado de praticar qualquer acto sexual antes do matrimónio que une sempre e exclusivamente homens e mulheres virgens.
Se não há pais para cuidar dos filhos, as crianças são exemplarmente tratadas em instituições onde não existe violência de qualquer espécie, existindo a garantia de Homens totalmente equilibrados num país onde sobra tempo aos juízes por não haver corrupção e outros quaisquer desvios a uma lei amplamente seguida por todos.
A co-adopção é desnecessária, e por pessoas do mesmo sexo é que nem pensar.
Íamos lá agora estragar este pedaço de paraíso…
Neste contexto familiar exemplar fecharam-se todos os lares da terceira idade porque os idosos são tratados em casa num contexto de afectos proporcionado por filhos e netos. Nem pensar em existir qualquer sinal de abandono de idosos à sua sorte em urgências de hospitais ou paragens de autocarros em sítios isolados.
E ninguém morre sozinho neste perfeito ambiente de amor, respeito e valores tradicionais…
Quem conseguiu chegar até aqui na leitura deste texto por certo estará a chamar-me louco, e até acredito que os amigos mais íntimos estejam já a consultar as Páginas Amarelas no sentido de encontrar um psiquiatra que me possa dar assistência.
Indevidas pretensões de sanidade à parte, não, eu não enlouqueci.
O país que aqui descrevo pura e simplesmente não existe e defender esta descrição como a verdade da pátria é um exercício de loucura, cegueira e hipocrisia.
Mas há quem o faça beliscando os mais elementares direitos dos cidadãos em sede onde a salvaguarda desses direitos deveria ser garantida.
E aquilo que poderia ser um país melhor passa a ser um país mais hipócrita e de loucos com visões idílicas e românticas que não lhes moem as convicções mas matam a felicidade dos outros.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os dias tristes sem as flores

O meu amigo António disse-me hoje pela manhã que em Trás-os-Montes e por estes dias de um sol de quase primavera, as flores das amendoeiras já estão de partida.
O esplendor branco e rosa que enfeitou as árvores, despede-se agora beijando despudoradamente a terra e oferecendo aos nossos pés um alvo e inédito tapete, o manto que por terras do sul bem se ajusta às lendas e às saudades da neve de uma Princesa Moura.
Mesmo racionalmente sabendo que num destes dias chegará o fruto e que esta despedida cumpre o inevitável ciclo da vida, jamais deixaremos de sentir saudades dos dias mágicos das flores.
É normal.
De forma mais ou menos marcada, todos nós carregamos na alma as virtudes e a sensibilidade de um poeta.
E um poeta sempre se condói na hora de dizer adeus às flores, mesmo quando elas são assim brevíssimos detalhes do tempo e carregam em si mesmas, um intenso sabor a lendas e gosto de ilusão.
Mesmo sabendo que as flores acabam sempre por voltar.
Também por estes dias têm estado bem presentes em mim aquela amiga que se fortalece na cama do hospital para lutar contra um estúpido tumor, e também aquela outra muito mais nova que aguarda ansiosa a hora de um transplante que lhe devolva os dias com melhor respirar…
“Impõe-me” a fé e a amizade que as lembre todos os dias naquele Padre-nosso e nas Ave-Marias que quase sempre o cansaço já não me deixa terminar na hora em que adormeço.
As duas, lindas como as pétalas das amendoeiras, seguiram a rota das flores e saíram por momentos das janelas desses olhares de onde sempre me sorriem, tão-só para que pela sua dor me ofereçam o fruto benefício de um exemplo e uma lição de coragem e infinita bravura.
“Impõe-me” também a fé acreditar que passados estes dias, ambas em breve voltarão a abrir sorrisos nos olhares depois de as suas dores me terem ensinado a ser um pouco melhor... e maior.
Deus ou ciclo do tempo jamais nos levam os dias das flores.
Mesmo que a espera por vezes aparente ser o infinito e mesmo que haja sobre a dor, lágrimas impostas pela nossa assumida alma de poetas; esses dias acabam sempre por voltar.
A saúde voltará em breve minhas queridas, doces e inesquecíveis amigas.
É que se o Céu precisa de anjos, o que seria de nós se eles não continuassem também por aqui a alegrar-nos os dias, a sorrir-nos generosos desde as varandas lindas de uns tão perfeitos olhares. 

terça-feira, 11 de março de 2014

“Barriga cheia não acredita em fome alheia”

No dia em que recebi pelo correio um sobrescrito com alguns cupões de desconto em cartão para compras nos Hipermercados Continente, o patrão da SONAE, grupo detentor dessa cadeia de lojas, e personalidade com direito a nome na FORBES na lista das pessoas mais ricas do mundo, defendeu a legitimidade para os baixos salários em Portugal, tão-só porque eu e os meus e seus concidadãos, somos afinal “malandros” e não produzimos tanto quanto os Alemães, uma atitude supra-patriótica capaz de fazer muito pela economia nacional e atrair investidores, uma atitude “generosa” a justificar no fundo aquela ideia de que “com amigos assim, para quê ter inimigos”?
Mas de repente, e perante esta inevitabilidade da minha pobreza, os cupões fizeram lembrar-me as senhas das Conferências Vicentinas que permitiam receber o pão dos pobres; e o cartão de fidelidade à marca Continente que tenho na carteira passou simplesmente a ser um adereço de acesso à caridade do seu iluminado e endeusado patrão através de um processo certificado e com recurso a banda magnética.
E confesso que já não suporto ouvir os ricos a opinar e a falar da legitimidade da pobreza dos outros…
A senhora do Banco Alimentar que pode comer bifes todos os dias e que é heroína da generosidade por mérito dos sacos cheios de comida e da solidariedade que eu lhe despejo nos carrinhos de supermercado, fala de cátedra sobre a impossibilidade dos outros poderem ambicionar a comer o que quiserem.
O banqueiro presidente da instituição onde tenho as minhas contas e que alimenta as suas através das infinitas taxas bancárias que me “sorve”, vem dizer que o povo ainda aguenta mais austeridade, mesmo havendo gente que se depara já com gravíssimas dificuldades para sobreviver.
O empresário que detém a rede telefónica do meu telemóvel e que é dono destes supermercados onde faço grande parte das minhas compras, e onde deixo grande parte do meu ordenado ao pagar a comida para a satisfação das minhas necessidades mais básicas, chama-me “malandro” e diz que não posso ambicionar a mais ordenado.
Tudo se assemelha ao sádico prazer do conforto de estar com os pés bem firmes na terra, e não dispensar o atar de uma pedra aos pés dos que se afogam, quiçá para que desapareçam mais depressa.
E Portugal é hoje assim definitivamente uma terra onde impera o pecado da soberba lado a lado com o da hipocrisia, esta última expressa pela imbecil dicotomia e bipolaridade entre o parecer e o ser: políticos incompetentes a apontar a incompetência e a irresponsabilidade dos outros; descarados e perversos travestidos de moralistas e a vender avulso e barato, a moralidade aos outros; pretensos defensores dos pobrezinhos a banquetearem-se descaradamente com os prazeres do fausto e da riqueza, etc.
Sem pudor e sobretudo sem a manifesta vontade de alterar este ciclo e o seu ritmo que tanto convêm a quem está bem e confortavelmente sentado no paraíso.
A crise de muitos é a passadeira vermelha para o sucesso e conforto de poucos, sendo que o poder desses poucos é infinitamente maior que o dos muitos que agonizam “surfando” pela crise.
O poder dos Euros é muito superior ao poder da dor de qualquer Homem.
E se o povo diz que “barriga cheia não acredita em fome alheia”, acrescento eu que também não as respeita nunca.
Voltando à SONAE e relativamente aos cupões e ao cartão, talvez os utilize quando tiver mesmo que ser, até porque o respeito pelos patrões das outras lojas também não é lá grande coisa, mas descanse o senhor em causa porque nunca farei qualquer escândalo nos seus hipermercados. Afinal, os meus interlocutores por lá, seus funcionários e nossos concidadãos, merecem a minha total solidariedade pois para além de terem um ordenado baixo e de serem alcunhados de malandros pelo seu chefe mor, têm uma enormíssima desvantagem em relação a mim: têm um patrão sem vergonha. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

“Estas palavras nascidas dos dias”

Há tardes que nos abraçam pela força do afecto que transparece do olhar dos amigos, são as tardes que valem a pena e que passam directamente para o sector “inesquecível” da memória dos momentos mais especiais.
Eu confesso-vos comovido que jamais poderei esquecer a tarde de ontem, dia 9 de Março de 2014, e o calor desse vosso tão grande abraço.
Há trinta anos, quando cheguei a Lisboa e descia o Chiado a sentir ao redor de mim os passos do Carlos da Maia e do João da Ega na descrição única de Eça em “Os Maias”, ou quando entrava na Bertrand para matar a saudade e o vício do aroma do “pó dos livros”; estava muito longe de sonhar que algures numa tarde de Março de um ano qualquer, eu iria estar por ali envolto na atenção e no carinho de centenas de amigos, todos ao redor das palavras simples que os dias me vão ditando.
“Estas palavras nascidas dos dias” é um despretensioso livro de afectos escrito por inspiração das coisas mais pequenas de todos os meus dias, quando os sonhos oferecem a convicção de que a fé é muito maior do que qualquer religião, que o amor é o sentimento maior de todos; e a liberdade é o condimento perfeito para um tempo vivido com o máximo do sabor de nós próprios.
Com fé, amor e liberdade… e quando os sonhos nos conduzem à esperança de que um pequeníssimo detalhe de um dia banal poderá tornar-se no “Minuto Zero” de uma história inesquecível ou do mais perfeito amor.
Na minha tarde maior, estas palavras simples ganharam uma dimensão fantástica na voz inconfundível do actor Victor de Sousa e no embalo perfeito dos andamentos de Bach “arrancados” ao violoncelo pela arte da Rita Ramos.
O Filipe Valentim traduziu os dias pelos traços e cores que me ofereceram pela amizade, a capa do livro; o fotógrafo Miguel Quesada captou-me o olhar ao sol de uma tarde de Outono; e a Ana Torres falou da amizade de uma forma fantástica e superior. O Dr. Ângelo Rodrigues e a equipa da Minerva foram companheiros fundamentais no percurso até à concretização deste sonho tecido a palavras.
E de todos vós… a amizade expressa por esses olhares que sempre me abraçam.