segunda-feira, 7 de abril de 2014

Atravessar a “verdadeira” guerra por entre o sol da primavera

Quando regressava ontem a Lisboa e finalmente em pleno gozo de um sol de primavera, tive na A1 a percepção de que o único e grave problema do país é o excesso de velocidade nas auto-estradas.
Entre radares, veículos e homens colocados estrategicamente à sombra, aqueles quilómetros de asfalto apresentavam um estatuto algures entre o “Big Brother GNR” e a “Casa dos Segredos” sem Teresa Guilherme mas com a “voz” em tom “tinoni”.
É que não fossem as acelerações e este país assumiria um incrível estatuto de paraíso…
Na Área de Serviço de Santarém, um grupo de homens daqueles que têm ar de ser patrocinados pelo “Rendimento Mínimo de Inserção”, saiam de um veículo da marca Mercedes para tentar impingir “i-Phones” de 20 Euros a incautos cidadãos já com alguma idade que regressavam de Fátima e que ainda traziam um lenço colorido ao pescoço. Passei por eles e entrei na Casa de Banho onde os membros de uma claque de futebol de um clube com nome impronunciável se entretinham a pontapear sanitas, portas, armários… e até a gramática.
Não vi fardas por ali dado que estavam todas concentradas num parque exterior anexo onde o acerto de contas pela guerra da velocidade se fazia com terminais de Multibanco.  
Bebo um café por entre as asneiras vociferadas pela claque e entretenho-me a ler as capas dos jornais. Parece que o Banco de Portugal comprou nova frota automóvel de luxo para os seus quadros. Faço as contas e verifico que o meu recibo de ordenado de Março contribuiu para cerca de 2% do valor desta aquisição, o que me faz pensar se não deverei reclamar o apadrinhar de um dos veículos com direito a nome numa chapa e um brinde ao jeito das Arrecadas de Viana recebidas pela mulher do Primeiro-Ministro quando foi baptizar um barco.
Regresso ao “Campo de Batalha” que estranhamente sou eu que patrocino através de uma portagem cara, e apercebo-me que há cartazes gigantescos que falam de “Mudança” ou então de “conseguimentos” estatísticos. Aproximam-se eleições e com elas estes detalhes da rotatividade de faces, muito mais do que de políticas, a apelarem à costumeira amnésia eleitoral dos cidadãos num país onde nunca nada muda e onde a justiça e a impunidade dos poderosos se escrevem nessa linguagem perversa das prescrições de que fala o jornal que tenho ali no banco ao lado do meu.
Deixo a “guerra” por uns instantes para ir a um hospital próximo visitar um familiar. Apercebo-me aí que a excelente organização do Parque de Estacionamento e da sua cobrança contrasta com o caos do funcionamento que nem sequer permite ter um pijama disponível para trocar o de um doente em caso de algum percalço.
Mas isso não interessa mesmo nada porque é irrelevante quando comparado com a velocidade; e no meu regresso à A1, junto a uma cancela de segurança colocada discretamente, lá estão mais veículos e agentes para a “caça” aos bandidos aceleras.
Como Portugal seria bem mais feliz e perfeito se andássemos um pouco mais devagar…
De saída e agora já sem ironia apraz-me dizer que respeito sempre os limites de velocidade e que acho muito bem o controlo e as penalizações para quem conduz de forma irresponsável e tantas vezes atentatória da segurança dos outros. Mas, por favor, há tanto mais a fazer para lá desta “intensa” caça à multa.
A disparidade de meios e de empenho acaba por ter um leve trago a ridículo.

domingo, 6 de abril de 2014

ZÉZINHA

Zézinha, sabes que a vida às vezes ganha o tom cinzento desta estranha primavera, sem que tal como ela deixe de ter o sol a brilhar por cima das nuvens que fazem tecto aos nossos dias.
Aí na cama onde esperas por Terça-feira, tem a certeza de que a vida só faz isto às pessoas grandes e maiores, aquelas que como tu, e por sobre a dor, ainda conseguem mandar-nos flores, como fizeste esta manhã aos amigos do Face à hora do meu despertar.
Eu tenho a certeza de que tudo irá correr bem na Terça-feira, nessa hora em que a Senhora da Conceição, Mãe de todos, mas Mãe em especial de nós Calipolenses, te tiver a ti ao colo; e o bisturi for comandado por essa força invisível e poderosa das Ave-Marias que por ti e para ti andam por estas horas na boca e no coração de tantos amigos.
Lutadora, tu vais ter a força toda do universo, e lutarás por ti e por todos nós que não conseguimos imaginar os nossos dias sem o brilho imenso desse teu sorriso.
Sabes, há mais de quarenta anos que te conheço e não me recordo de alguma vez teres falado para mim sem ser a sorrir.
Vai tudo correr bem, estou tão certo disso como de o sol romper as nuvens num destes dias para nos devolver a primavera.
Fica prometido e desde já combinado que farei para ti em exclusivo um lançamento especial do meu livro. Levamos a “apresentadora” Manuela, o artista mor Zé Maria para nos rabiscar a lápis de carvão; e sentados na esplanada da Pastelaria Azul brindaremos com Tibornas debaixo daquele aroma intenso das laranjeiras em época de Páscoa, aquele aroma único que só nós de Vila Viçosa sabemos desfrutar em grande quando a brisa vem do lado do Castelo.
Zézinha, um beijo grande, sorri como sempre e confia em mim porque vai mesmo tudo correr bem.
Deixa comigo e com todos os que lerem este texto, o alimentar desta força invisível feita uma onda enorme de Ave-Marias.

sábado, 5 de abril de 2014

“Culpado”

As nuvens que persistentes se interpõem entre mim, o sol e o mar, revelam-me da cidade uma estranha e inédita face, quando apenas o eco dos meus passos lentos na calçada vazia de outra gente, rima com o voo alucinante e os gritos estridentes das gaivotas que por sobre mim dão um claro prenúncio de tempestade.
Há cadeiras empilhadas que esperam o verão para se espreguiçarem nos passeios fazendo nascer esplanadas à sombra dos chapéus por ora fechados; há um ar fantasma nascido da regra de portas e janelas cerradas por densas cortinas e persianas; há montras vazias onde os manequins despidos têm apenas a companhia dos sobrescritos que o inverno fez acumular na alcatifa junto à porta…
Sigo “abrigado” pelas gargalhadas inscritas nas lembranças dos dias de verão, esse tempo em que as pipocas se faziam em casa e até trepavam para a cabeça do Paulo que tinha posto gel no cabelo para irmos à sessão da meia-noite ao cinema do casino, o local das cadeiras estufadas e confortáveis onde eu e o Manuel sempre dormíamos o primeiro sono vencidos pelo cansaço dos dias passados a correr saltando as ondas.
E por todas estas lembranças, e sentido na face a agradável e despudorada brisa com aromas de sal; estaria por certo a sorrir no instante em que um rapaz à esquina de uma perfumaria me rompe o sossegado passeio pela tarde e me entrega um papel acabado de borrifar com o conteúdo de um frasco que carrega na outra mão.
- O senhor tem cara de gostar de perfumes da “Gucci”. E o “Guilty” assenta-lhe bem.
Resolvo brincar:
- Tenho assim uma cara tão marcada de “culpado”? Deve ser da barba…
- Não, nem pense nisso, até foi dos poucos que parou. A maior parte das pessoas pensa que eu estou aqui a pedir algo, e foge de mim.
Sorrio, agora de forma consciente, cheiro o pedaço de papel, elogio o aroma que coloco no bolso de fora junto à gola do casaco, agradeço-o ao rapaz e sigo depois o trajecto até ao jornal e ao café que me indicaram no hotel.
A uma mesa de canto e na companhia de um casal de idosos que está na ponta exactamente oposta à minha na longa sala, leio as gordas do Expresso, o meu vício de sábado, enquanto a pequenos tragos, bebo a bica que hoje traz o aroma do café acompanhado pelo “Guilty” que se solta da lapela.
Não demoro e regresso ao hotel porque o trabalho chama por mim.
As ruas seguem vazias e até o rapaz da esquina dos perfumes está agora abrigado entre as portas da sua loja.
A vida é esta tarde em que caminho carregando os aromas e as palavras que o destino fez com se cruzassem comigo, não só os aromas e as palavras que busquei, mas também todos os que são benefício dos passos dados em liberdade ao ritmo guloso do imprevisível a que nunca gosto de virar costas.
Sorrio.
Agora já não só pelas lembranças de ontem, mas muito pelo presente que para além de ti, o meu amor presente em tudo e em tantas palavras de amor; tem infinitos prazeres escondidos numa insuspeita tarde cinzenta e de tempestade algures no mar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Os desempregados e o Facebook

Cara Isabel
Bastas vezes alimentei a sua ideia fazendo-a minha, contribuindo dessa forma para que as refeições pudessem chegar à mesa daquelas pessoas para quem a vida é assiduamente madrasta.
Confesso que continuarei a faze-lo de igual forma, pela própria ideia em si, pela concretização da ajuda a quem mais precisa e por ter a noção de que há cada vez mais “enteados” à margem da própria vida.
As organizações estão sempre por cima de quem as lidera num determinado momento, e por isso, nunca será pelo facto de coleccionar os disparates com que nos vai brindando que eu deixarei de colaborar com o “seu” Banco Alimentar.
Depois da espantosa ideia dos “bifes” vem agora a Isabel referir que o mal dos desempregados é passarem demasiado tempo nas redes sociais, concretamente no Facebook.
Não me soou bem num contexto de caridade e fui por isso àquela que é para mim a referência da própria caridade, a Carta de São Paulo aos Coríntios, mensagem que acredito também não lhe seja indiferente; e por esse prisma da minha fé, que penso seja também a sua, fiz a leitura das suas palavras.
Depois de dizer que “Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita”.
São Paulo vai continuando…
A caridade é paciente
Os desempregados que vão ao Facebook não são os culpados da crise, são as vítimas dos empresários e dos políticos para quem a Isabel é bem mais paciente e tolerante.
Não a ouço “falar grosso” para cima e para os lados, só para baixo; e isso é demasiado fácil. A História não está reservada a quem pisa nos que já estão no chão mas sim nos que pegam na espada para falar com os poderosos e fazer levantar os outros.
E aí a Isabel…
Quando os banqueiros nos mandam aguentar e os políticos nos sobrecarregam de impostos vem falar no Facebook dos desempregados…
E o BPN e o BCP? Tem alguma coisa para nos dizer?
Sabe, eu às vezes vou ao Facebook e encontro por lá amigos e colegas que estão desempregados. E sabe o que é que eu faço? Animo-os e converso um pouco com eles, dou-lhes pistas, contactos, etc. Sabe porquê? Porque os seus amigos, muitos dos quais foram seus colegas na Universidade Católica em cursos de luxo, não os escutam, não lhes dão oportunidades e mandam-nos para as longas filas do Centro de Emprego onde as pessoas sérias e honestas são tratadas como marginais.
Porque não faz o mesmo com os seus amigos desempregados?
Ah claro, não tem.
A caridade não é altiva nem orgulhosa
Quando lhe voltarem a pôr um microfone à frente, tente não falar muito dos “pobres”, é que não é por ser gestora de uma “plataforma logística de caridade” que a Isabel fica a saber como eles vivem.
É que não sabe mesmo.
E depois, a Isabel e as suas amigas “tias” que chegam da Quinta da Marinha para pegarem nos megafones em dias de recolha de alimentos, anunciam apenas as toneladas da caridade dos outros.
Vir dar conselhos aos “pobrezinhos”?
Contenha-se, guarde a sua altivez para quem de direito e poupe-nos a esta figura triste que faz de si um genérico da Madre Teresa de Calcutá, mas assim daqueles genéricos muito manhosos e sem bioequivalência.
Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil.”
Sempre aproveito a deixa para lhe dizer que quando a ouço falar assim, me recordo de “quando eu era criança”, naquela altura em que o Salgueiro Maia tinha passado pelo Carmo há muito pouco, e uma senhora da minha terra se lamentava de que os Natais agora não faziam tanto sentido, pois ela já não tinha à-vontade para oferecer camisolinhas aos pobres em nome do Menino Jesus:
- É que vou por essa rua acima e já toda a gente tem sofás e televisão.
Pois…
Eu fui dos que comprou sofás nessa altura e passei a dispensar as “camisolinhas”. E talvez por isso e porque tenho memória, agora que me fiz homem, não leve a mal, mas é que não consigo mesmo tolerar essa sua altivez de “Mestra em Pobreza” no regresso à “caridadezinha do chá e da canasta”.
Não leve a mal esta missiva que já vai longa mas sabe, a revolta impôs-me que a escrevesse, afinal de contas também diz São Paulo: “a caridade não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade”.
E a Isabel foi tão injusta para com os desempregados…
E eu senti a necessidade de escrever da mesma forma que sinto a necessidade de alimentar a sua ideia e faze-la minha, um dia destes em algum supermercado perto de mim.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Amar-te

Labirinto de destinos e babel de tantas expressas vontades, o aeroporto cruza à minha volta milhares de passos e de anónimos olhares.
Sou apenas mais um na multidão que desde aqui se propõe regressar a casa ou então partir à descoberta e conquistar o mundo, quando decido parar e sentar-me a um canto discreto de onde vejo o campo que bebe do sol um fantástico tom de verde primavera.
Poucos dos que passam irão reparar que há aqui um homem repartindo o olhar entre a larga janela e o telefone que há muito pouco tirou do bolso.
E no telefone estás tu no sorriso que enviaste ainda pela manhã por entre as palavras que de ti ajudam a matar saudades nesta incómoda distância.
Tanta gente buscando “asas” para conquistar o mundo… e afinal o mundo está todo aqui e é meu, neste sorriso de um olhar carregado de paz e de tudo aquilo que a alma me diz ser o meu destino.
No silêncio e no segredo, escancara-se o relicário do diamante que vem de encontro a todos os meus sonhos: tu.
E a vida perfeita é afinal e tão-só este momento único que me ofereces.
A vida perfeita é este privilégio: amar-te.

terça-feira, 1 de abril de 2014

“Eterno feminino”

Sou das pessoas que acham que tudo na vida tem um sentido positivo e por isso não estranhei que o encontro com as minhas três colegas no aeroporto de Lisboa, um pouco antes das seis da manhã de uma Segunda-feira de chuva, se tenha revelado numa verdadeira lição de beleza e uma incursão fantástica no universo feminino.
Ali algures ao redor das remelas, dos bocejos e da bica que nos ajudava a despertar, vi-me incorporado num momento semelhante àqueles programas que a Teresa Guilherme apresentava nas tardes do final dos anos oitenta e que tinham nomes como “Eterno feminino” e “O resto é conversa”.
Não resisto a partilhar a experiência…
Fiquei a saber por exemplo que as “Placas de Alisamento” existem para ajudar a esticar o cabelo e que acabam por ocupar muito volume nas malas de viagem; há uma técnica recente que permite fazer permanente nas pestanas mas que é muito incómoda porque exige 45 minutos de olhos fechados algures num “corner” qualquer onde também se pode fazer uma extensão das mesmas ditas pestanas mas com uma cola muito desagradável; os “Biquinis Canté” e os chapéus-de-sol para a nova estação de praia poderão ser adquiridos via internet em sites onde só necessitamos escolher o padrão do tecido, recomenda-se no entanto que experimentem os biquínis antes de os usarem num areal qualquer; depois de fazer nuances é aconselhável fazer um banho para homogeneizar a cor do cabelo…
Também fiquei a saber tudo sobre DPP (depressão pós-parto), mamas, aleitamento, bombas para retirar leite, mastites e as suas dores e incómodos, bexigas hiperactivas, suplementos alimentares, drenantes, dietas, ginásticas especiais, perfumes, unhas de gel, Baleás, depilação Brasileira, etc.
Já no avião e porque a revista “Nova Gente” nos fazia companhia, tive o privilégio de conhecer o sucesso de três mulheres portuguesas em concursos de beleza com nomes tão sugestivos como: Miss European, Miss República Portuguesa, Miss América Latina do Mundo, Miss Princess of the Globe e Miss Turismo Internacional.   
E eu que pensava já ter visto tudo quando descobri que uma colega de faculdade tinha sido eleita Miss Simpatia Alentejo num evento onde também participou uma conterrânea minha eleita Miss Vila Viçosa num baile realizado no quintal de “O Calipolense”, e onde as candidatas transportavam um saco de plástico do patrocinador, a “Mercalip”, recipiente onde os homens depositavam os seus votos no caso de as preferirem. No final ganhou a que tinha mais papelinhos no saco.
Mas continuando pela viagem…
Já na terra das tulipas fiquei a saber que há uma coisa que se chama Gloss e que se passa nos lábios para lhes dar brilho.
Amigos homens, a propósito de Gloss, aconselho-vos a não o confundirem com os batons pois para além de terem de ficar uns minutos à porta da casa de banho a guardar as malas enquanto as senhoras põem os lábios com um brilho estonteante, ainda têm de se confrontar com uma forte reprimenda em público.
Sei-o por experiência.
Mas claro, e como comecei por dizer, tudo tem um sentido positivo e por isso: bendito pente três passado na cabeça uma vez por mês, bendita barba aparada com pente dois de três em três dias, e bendito sabonete para lavar a cara.
Hoje é dias das mentiras, o que é perfeitamente desnecessário pois as mentiras andam aí à solta por todos os dias e o necessário era mesmo um dia das verdades.
Mas indo pelas mentiras e aproveitando a deixa do dia, por favor e por defeito, quando virem uma senhora digam sempre que ela está linda… mesmo até quando acharem que não está, e mesmo quando souberem que ela recorreu a este “doping estético”.
São mentiras piedosas.

É que elas esforçam-se tanto!

segunda-feira, 31 de março de 2014

MANUEL JOÃO

Nenhum dos muitos e felizmente bons amigos que tenho se importará que eu diga que és o melhor de todos esses amigos.
Não aplico aqui nenhuma escala especial de avaliação, digo isto apenas porque sinto que somos afinal muito mais irmãos do que propriamente apenas amigos.
Um irmão extra oferecido pela vida e escolhido por mim por claro mérito teu. És feito da “massa” das pessoas de excelência, e eu por ti, ponho as mãos no fogo pois sei que jamais me queimarei.
Crescemos juntos e a nossa amizade terá sempre a nossa idade, alicerçada nessa partilha que hoje fazemos à mesa do Restauração como antes fazíamos nas salas do teu segundo andar, alinhando os bonecos de um improvisado Jardim Zoológico e uma cidade cheia de carrinhos miniatura da Matchbox com que depois brincávamos.
Brincávamos mas já com a ambição de ser homens quando fumávamos cigarros Kentucky às escondidas e atirávamos as “beatas” para o telhado.
À hora do lanche, a tua mãe chamava-nos sempre para uma torrada e um Sumol que íamos buscar ao café do teu pai, um homem que raríssimas vezes eu consegui ver de outra forma que não a trabalhar.
Herdaste dos teus pais a generosidade e a honestidade, para além de milhões de outros valores de excelência; e isso fui sentindo sempre, mesmo quando apenas as cartas escritas aproximavam Lisboa e Portalegre nos anos em que estávamos a estudar.
Guardo ainda todas essas cartas e às vezes abro uma e releio-a para activar a memória que me reconheces.
Estão lá todas as palavras da partilha que entrelaça definitivamente as vidas e constrói as melhores amizades do mundo, a partilha de dois amigos que apanharam o “vapor da liberdade” e ousaram sonhar juntos construindo vidas que romperam os destinos bem mais modestos que por família nos eram atribuídos.
As cartas falam de uma fé inabalável em nós e em Deus, e transpiram um afecto fantástico.
E às vezes nas cartas até havia direito a banda desenhada (lembras-te das aventuras de “O grande bolo”?). Nem morto direi aqui quais eram as personagens principais do enredo que metia unhas e espátulas.
Quem nos vir hoje terá dificuldade em acreditar que éramos ambos tímidos e que às vezes também tínhamos aqueles arrufos típicos de amigos. Os arrufos passavam sempre rapidamente e a timidez foi sendo vencida aos poucos e muito por mérito desta amizade.
E o que a gente se ria?
Quando imitaste a Filipa Vacondeus a fazer panquecas na versão Herman José; quando fizeste de Jesus com uma alva para uma criança dez anos mais nova do que tu e ficaste com 40 centímetros de perna ao leu junto às peúgas brancas; quando enfiaste o vestido de noiva da tua tia Jeca e casaste com a Juca que ia de rapaz; quando fizeste de Ti Maria do Monte na festa da Zinha Duarte e levavas uma enorme saia de nazarena…
Os dias sorriem despudoradamente, e cresce e consegue ser muito maior quem tem amigos como tu.
Manuel, muitos parabéns pelos 48 anos e sobretudo, muito obrigado por me teres composto e recheado os dias dessa felicidade e ternura que te saem da massa de melhor amigo de que definitivamente és feito.