terça-feira, 22 de abril de 2014

Estatísticas, leões e os verdadeiros campeões

O facto de ser Benfiquista encartado e com lugar na “Catedral” e ter um pai sócio do Sporting acrescenta ao meu curriculum quase 48 anos de convívio à mesa com o anti-Benfiquismo, ainda por cima com essa particularidade de uma desenvolvidíssima tolerância feita de tantos silêncios incómodos, pois uma coisa é o futebol e outra coisa é o respeito pelo meu progenitor, o que será sempre superior às militâncias clubistas.
Mas mesmo assim e com todo este treino, os últimos dias têm sido insuportáveis.
Por favor deixem-nos ser felizes que eu acho que até merecemos pelo que jogámos.
Já não aguento mais ouvir os Sportinguistas a falarem do leão do Marquês de Pombal.
Meus amigos, de uma vez por todas entendam que nós fomos celebrar para a rotunda tão-só porque nos identificamos com o Sebastião José de Carvalho e Melo, o homem que reconstruiu Lisboa por sobre os escombros do terramoto de 1755 e que, tal como nós em relação a vocês, está ali no alto do pedestal há décadas a conviver com um leão quedo e estático como um gatinho manso.
Já entenderam?
E a águia da rotunda da Boavista no Porto representa o Napoleão e nada tem a ver com o Benfica. Se generalizarmos os símbolos ainda chegamos à conclusão que o leão da Metro é o vosso leão e que vocês andam metidos em grandes comédias, para além de dramas, é claro.
Ou então que vocês são como os chocolates “Lion”, vendidos a preço acessível e comidos por toda a gente.
Gostam da analogia?
E de repente, eis que ocorre também a norte um fenómeno curioso e no Porto se dá uma epidemia de estatística.
Depois do ano 2000 o FCP ganhou…
Depois dos campeonatos com vitórias a valerem três pontos o FCP ganhou…
Confundem campeonatos nacionais com Taças de Oeiras, Supertaças de Ovos Moles de Aveiro e Taças da Liga da Cerveja…
Por favor, as estatísticas dizem sempre o que nós queremos e eu sempre posso dizer que desde Janeiro de 2014 o Benfica é o clube com 100% dos Campeonatos Nacionais.
Neste delírio anti-Benfiquista já assisti a um reputado jornalista a fazer uma análise ao número de Benfiquistas com base nas audiências televisivas de domingo (como se alguém campeão quisesse permanecer em frente à televisão) e até já ouvi um intelectual do norte, e de reputados créditos na área da cultura, apelidar os Benfiquistas de provincianos por celebrarem desta forma.
Bolas… o que chamará ele então às vendedoras do Bolhão suas eleitoras quando elas invadem os Aliados só porque o FCP ganhou ao Benfica e gritam por debaixo do seu generoso buço: “Bibó Porto”?
E depois há a piada do pó e da naftalina dos cachecóis…
Meus amigos, definitivamente eles foram arejados o ano passado porque os retirámos muito precocemente da gaveta onde depois os tivemos que voltar a pôr à pressa, mas mesmo assim arejaram e fizeram um breve tratamento anti-traça.
Este ano só irão ficar mais tempo fora da gaveta. É só isso.
Vá lá…
Lembram-se do que nos massacraram o ano passado? Do muito que se riram de nós? Das piadas?
Olhem que aquilo doeu-nos muito.
Façam um esforço e deixem-nos celebrar.
Afinal vamos estar os três na Liga dos Campeões do próximo ano (torcerei pelo Porto na pré-eliminatória) e não tarda, estaremos todos juntos a vibrar com os golos do Ronaldo e companhia num grande e inesquecível “Viva PORTUGAL”.
Para além disso, também há muito mais com que nos preocuparmos, nomeadamente com outros deficits bem mais dolorosos do que o de pontos na Liga Sagres.
E depois…
Até o meu pai me deu os parabéns… mas sabe Deus com que custo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Campeão

Há um pedaço de céu no instante de cada golo; e no mágico impulso que alma me oferece, os braços erguem-se no ar, a garganta solta um grito e o corpo salta matando a idade, os incómodos, os cansaços e todos os demais e racionais detalhes do ser.
Sou Benfica… e se o não fosse não seria eu.
Sou vermelho da cor das papoilas mas muito mais da força do sangue que é o fluir intenso da melhor vida.
Sou uma voz entre tantas vozes no cantar sublime que sempre carrega a vontade, a superação… uma vitória.
Sou um entre milhões na partilha de uma esperança que nunca morre porque mesmo quando a derrota nos faz ajoelhar, sabemos que a genética de campeões imporá o pular para o céu no instante que chegará imediatamente a seguir.
Sou povo muito mais do que tudo ou apenas um clube, assumido plebeu inspirado na força de muitos heróis; Eusébio e Coluna, reis no trono dos grandes e instalados por mérito nos anéis infinitos dos etéreos estádios, bem acima dos panteões de todos os Homens.
Sou águia, ave imperial voando por sobre tudo, por sobre as dores, por sobre a mesquinhez de tantos, e tendo o céu como limite, sempre de encontro ao sonho.
Sou luz brilhando por entre as tardes e as noites de uma cidade perfeita, Lisboa, candelabro de vitória à conquista de todo o universo.
Sou a herança da fé de muitos e a raiz da fé de muitos mais que chegarão para cumprir um destino de eternidade.
Sou raça, garra, querer, amor, vitória, poesia, coração…
Sou Benfica…
E sou Campeão!

domingo, 20 de abril de 2014

Aleluia

Há amêndoas sobre a mesa, o fruto revestido de açúcar que do arco-íris tomou as cores para nos adoçar este Domingo de Páscoa em que as nuvens persistem em querer copiar o encanto e o vigor das três bicas da Fonte Pequena aqui mesmo em frente à nossa casa.
Aleluia…
Sente-se por todo o lado mas é bem visível aqui no brilho das sardinheiras que a mãe tem na varanda, na jarra dos lilases roubados ao quintal por estes dias de Primavera, nas palavras breves trocadas com os vizinhos e com a D. Zárita que compõe os pratos de barro no seu quiosque com lembranças do Alentejo; aleluia nos sorrisos ao redor da bica por entre as memórias e as dores e alegrias do presente.  
Aleluia…
Em tudo mas sobretudo em mim.
Serei sempre eu quem optará pela reclusão escura de um sepulcro ou então quem iluminará os dias retirando à força as pedras, os biombos, os falsos pronomes que mascaram a minha verdade.
E é o degustar dessa verdade que faz os dias rimar com as amêndoas em cor e sobretudo em sabor; sempre no despudorado desprezo das “correctas” regras de toda a falsa moral e das hipócritas ambições dos tontos imbecis que se vestem de “heróis” pelas marcas que compram e pelos carros em que se montam, os presunçosos que são “dejectos” móveis e buracos negros de carácter e virtudes.
Aleluia…
Será sempre o canto da minha liberdade e do que sou; e eu sou o conjunto de todos os meus sonhos, a minha fé, as minhas crenças, os meus amores, as minhas vontades…
Eu sou a voz entregue às palavras ditadas pela alma, sou a expressão de um querer nos beijos, nos abraços aos que amo e quero, sou o grito que diz “não” ou o perfeito sorrir no cantar de um imenso “sim”…
Olho para longe, muito para lá do Castelo que em primeiro plano a minha vista alcança desde aqui do alto do monte onde vim beijar a passos a terra perfeita de onde sou e a que um dia me devolverei no beneficio de um sono eterno.
Vejo terras de Espanha.
E mais terras, eu poderia ver se mais alto fosse o monte e mais alto, eu tivesse subido pelo trilho que me indica esta verdade que define os horizontes.
Respiro o campo, agradeço a chuva, sinto-me em casa e… gosto do que sou.
Aleluia!

sábado, 19 de abril de 2014

A inédita arte da reciclagem dos pastéis de nata

Sempre que o pai lhe levava da Pastelaria o seu bolo favorito, o Pastel de Nata, a minha amiga Rosa Silvério comia o creme com a ajuda de uma colher e entregava posteriormente a estrutura restante de massa folhada para que o pai a levasse de volta ao pasteleiro e ele a voltasse a preencher com a sua iguaria favorita.
Este inédito processo de reciclagem não se aplica definitivamente aos Pastéis de Nata, mas aplica-se à vida…
Ontem cumprimos o prometido e por entre os aromas das flores das laranjeiras de Vila Viçosa, sentei-me na Pastelaria Azul com a Zézinha, a Manuela, o Zé Maria e o Manuel; e não fosse o risco de rebentarmos com os agrafos que restam na barriga da Zézinha e ainda nos tínhamos vingado muito mais a riso e gargalhadas da dor e das apreensões de há alguns dias.
A cirurgia foi um sucesso ao ritmo das nossas Ave-Marias e a vida que parecia estar a esvaziar-se está novamente repleta do maior e mais doce “creme” da melhor esperança.
E agora que siga a fé pelo futuro.
Mas os dias carregam sempre múltiplas faces e entre elas a inevitável dor.
Depois da Pastelaria Azul descemos à Igreja de Santo António para dar um conforto à Maria João. O pai partiu e com ele a melhor competência, profissionalismo, educação e simpatia que conheci a alguém atrás de um balcão.
Naqueles dias em que interrompia as brincadeiras para ir à loja do Senhor Ramalho compras linhas, fitas e até forrar botões para que a minha mãe pudesse costurar os fatos para as suas clientes, guardo do Sr. João Nogueira a melhor colecção de sorrisos.
Estou certo de que essa generosidade no sorrir define aqueles que para lá da vida estão destinados a serem anjos no Céu.
E assim, o riso e a dor da saudade compuseram a minha Sexta-feira santa que terminou a caminhar com os meus pais através do silêncio da procissão do Enterro do Senhor, o lento e compassado caminhar pelas ruas onde só as velas e os archotes dão luz e onde só as matracas e as marchas fúnebres cortam o silêncio.
Ao atravessar a Praça nunca sabemos de que lado corre a brisa que nos apaga as velas e que me fazem puxar dos fósforos estrategicamente colocados num dos bolsos.
Também são assim os dias onde a esperança se acende pela fé estrategicamente colocada no mais íntimo de nós.
A fé em Deus e sobretudo a fé em nós, a receita para preencher dias ao jeito de pastéis de nata vazios.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Estes dias santos

Não resisto a abrir a janela do carro ao aroma do campo de Alentejo e primavera e respiro fundo por impulso de uma infinita saudade.
É impossível distinguir o que é o quê no privilégio do odor deste momento, mas o que é certo é que cheguei a casa.
Mais além, no cimo do monte por onde se estende a seara, há um sobreiro solitário e meu irmão, que bebe do sol, como eu de ti, a luz, e estende dos seus ramos e pela sombra, o abraço ao tapete verde de onde já emergem rubras papoilas.
Sorrio então quase da mesma forma que o farei mais tarde ao chegar a casa e ao colher do pai e da mãe a magia desses beijos que hoje brilham por entre todos os cheiros dos bolos da Páscoa, o resultado da visita anual ao livro de receitas da Tia Maria Teodora, o testamento perfeito que perpetua a festa dos nossos sentidos.
Já está posta a mesa para o chá…
Por entre os bolos de sempre coloco o Pão-de-Ló do Mário e brilham assim novos afectos por entre os afectos eternos.
O presente cola-se ao passado, somam-se quereres, e isto sim, é viver em plenitude não rejeitando as bênçãos que são transportadas pelos dias, mesmo aqueles que às vezes aparentam não ser nada.
É envolto na amizade e a pretexto do aniversário da Ana Cristina que mais tarde, e sentado na esplanada do Café Restauração, verei o sol a despedir-se deste dia. O mesmo sol que beija loucamente os sobreiros na quietude do campo, parte agora ali para os lados da Rua de Santa Luzia, deixando sobre nós e a envolver a Praça, o privilégio único de uma intensa luz com a marca do sul.
Esta é a hora perfeita para estar por ali envolto na conversa que sempre conduz ao riso, sentindo o cheiro único que está inscrito no ADN de Vila Viçosa: as laranjeiras em flor.
Agora sim não me restam mais quaisquer dúvidas de que este é um dia de Páscoa.
Não tardarei a descer a Corredora a bom passo porque já vou atrasado para o jantar e não quero deixar arrefecer a Sopa de Cação carregada de coentros que me espera.
Sorrio.
Há pouco na mesa do café, o Manuel falou que na Vigília Pascal deste ano cantará o primeiro salmo da sua vida: “A bondade do Senhor”.
Eu sorrio porque sigo pelo espaço e pelo tempo que serão sempre os primeiros da minha vida e porque estou envolto nos afectos eternos que tornam perfeitos todos os dias.
Estes dias são o salmo da minha vida.
Os dias santos e os verdadeiros dias da Páscoa.
Sorrio.
E claro que vou pensando em ti. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Palavras ao vento

Sente-se a brisa do Tejo quando o sol se põe e a fachada dos Jerónimos emerge num tom verde que rima com a fonte da Praça do Império, a explosão artificial de água que à mercê do vento acaba quase sempre por me vir beijar o rosto quando sou apenas mais um na grande MARCHA DOS DESALINHADOS que por uma noite abre uma excepção e se alinha na disposição de matar saudades recuando vinte anos e reencontrando o FADO e a história de tantos dias felizes.
Por instantes olho à volta mais do que para o palco e descubro que NÃO SOU O ÚNICO a ter agora cabelos brancos e a ter sofrido um upgrade no volume corporal.
E elas são agora senhoras cheias de madeixas louras.
Estamos todos diferentes mas parece que só por fora… afinal, quem NASCE SELVAGEM jamais se rende a “gaiolas”, e isso percebe-se claramente quando todos juntos abrimos as vozes e se solta o tom de LIBERDADE da nossa genética de “filhos da madrugada” e cantamos a urgência do querer que sente que AMANHÃ É SEMPRE LONGE DEMAIS.
Estou em festa com a minha geração e não é só para matar saudades.
Hoje sorrimos porque algumas causas dos anos de entre oitenta e noventa do século passado, TIMOR por exemplo, já deixaram de ser um PERIGO e já deixámos para trás alguns dos mais tristes dias de AQUELE INVERNO.
Mas para quem sonha, as lutas nunca têm FIM, e FINISTERRA, ao jeito de um cabo algures na costa dos nossos medos, é tão-só um breve momento de ilusão porque a nossa sina é SER MAIOR e é feita de conquistas mares fora em busca de um derradeiro e perfeito LUGAR AO SOL.
Mesmo que tantas vezes… SÓ NO MAR.
CHAMARAM-ME CIGANO já muitas vezes por causa desta inquieta errância. Mas mesmo assim prometo, e prometo-me, não deixar morrer o “diabo” que tenho na mão… deixando de o ser.
Eu e todos aqueles em quem me reconheci na plateia e no palco do concerto da Resistência no Centro Cultural de Belém, quando as palavras e os acordes foram a expressão sonora do ADN da minha geração.
Cá fora, no ar da Praça do Império, há agora mais do que água da fonte, há palavras ao vento, pedaços de história e de vontades beijando-nos pela via da memória que se tornou tão nítida.
A NOITE vale sempre a pena quando é assim um momento de encontro com amigos e quando percebemos que nunca estaremos velhos porque por mais anos que passem… “só o sonho fica, só ele pode ficar”. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Gólgota e o pesado caminhar da cruz

Na noite de Terça-feira Santa da minha terra, a paixão saía à rua na forma de um lento e compassado caminhar ao redor de andores envoltos em panos negros.
Santos sem rosto e sem nome, as trevas carregadas aos ombros dos Homens sobre o granito das calçadas em direcção ao Castelo, território de tantas lendas e mistérios onde a esta hora apenas reinavam as sombras, muito mais do que a luz ténue de um velho candeeiro pendurado algures na porta da Torre de Menagem.
Na noite desta minha Terça-feira Santa estou sentado no sofá da casa de onde espreito o mar, não caminho em direcção ao Castelo mas deixo-me levar pelas lembranças de uma conversa que a tarde me revelou no corredor do Centro Comercial por entre a alegria do reencontro com um velho amigo, um cúmplice de muitos anos.
Despedido aos 54 anos, reformado aos 57 no limite do subsidio de desemprego e sem qualquer outra solução de vida que não uma partida para Angola inviabilizada por uma terrível Anorexia Nervosa da filha que com 15 anos foi internada há meses com 25 quilos…
Os santos neste país têm nome e rosto, cruzam-se connosco pelas calçadas dos nossos dias sem que sejam levados aos ombros como os anónimos dos andores da minha terra. Estes santos caminham de pé carregando o peso de uma cruz enorme, de tal forma que não há “Cirineu” que lhes possa acrescentar alívio e lhes permita sorrir por entre as sombras de uma vida à luz de um esperança ténue e tão demasiado vaga.
Nem “Cirineu” e nem a honestidade e a história de um profissionalismo exemplar conseguem alterar a dor deste destino de uma Via Crucis tão cedo condenada ao inevitável Calvário.
O “Gólgota” conscientemente ignorado pela incompetência, ignorância e imbecilidade dos arremessadores de estatísticas cosméticas que são bóias para a sua sobrevivência: os políticos.
Bem sei que o domingo não tarda trazendo com ele a música, o retomar alegre do toque dos sinos, os aromas das giestas, do rosmaninho e de todas as flores do campo… para a Páscoa e para os altares onde os Santos voltarão a ganhar assento, rosto e nome, na despedida das trevas carregadas pelo negro tom dos panos.
Mas por aqui e para os santos que deambulam pela má fortuna, segue pesada a pedra de um túmulo onde se apodrece intensa e precocemente em convívio íntimo com a dor.
Esperança, precisa-se!