quarta-feira, 30 de abril de 2014

A gente e as cores

Na passada segunda-feira e quando se preparavam para concluir as suas compras na minha vizinha loja dos supermercados Pingo Doce, os meus pais foram confrontados com uma operadora de caixa que lhes pediu para identificarem o conteúdo de um dos sacos, o das favas frescas, pois a dita criatura que sabia manipular toda a maquinaria à sua volta e saberia por certo distinguir todo o arsenal de maquilhagem com que se tinha transformado naquela espécie humana de árvore de Natal fora de época; não sabia distinguir favas de ervilhas.
Fui “desenterrar” esta anedota urbana da “filha do betão” que se pôs à mercê de um casal de alegres Alentejanos para ilustrar esta minha convicção de que os cérebros humanos (ou em alguns casos, a ausência deles) andam desfocadíssimos naquilo que deve ser ou não alvo de distinção.
Até aposto que esta criatura que não distingue vegetais tão diferentes no seu aspecto, sabe distinguir os Homens consoante a tonalidade da sua pele; porque não considero ser um acaso os recentes episódios que envolvem o arremesso de uma banana ao jogador Dani Alves ou o bloqueio à entrada do Nelson Évora e dos seus amigos numa discoteca lisboeta.
Perguntem a alguém que regressa a casa pelas duas da manhã se sente mais conforto a cruzar-se com um negro ou com um branco que até traz uma camisa da Façonnable?
Mas o branco até pode ser um serial killer
Perguntem a alguém se sente mais conforto por ver uma família de negros ou de brancos a mudar-se para o apartamento ao lado do seu?
Mas a família de brancos pode pertencer a uma associação criminosa…
Quem vê cores peca como quem vê caras e pensa ver os corações.
O mundo desprezou definitivamente o ser para se prender a irrelevantes detalhes como a tonalidade da pele, a religião, a posição e os círculos sociais, a orientação sexual, o poder económico…
Escrutina-se a gente com base na superficialidade e naqueles factores que até são no seu conjunto, uma prova viva da riqueza da humanidade.
Como se a casca valesse tanto ou mais do que o conteúdo…
E somos mais eficazes a fazer a distinção entre pessoas do que a distinguir favas de ervilhas.
No texto que publica sobre o episódio na discoteca, Nelson Évora puxa a seu favor o argumento de que entre esses negros estão muitos campeões de Portugal e muitos atletas que já elevaram o nome do país em provas internacionais.
Não tem e não deve usar este tipo de argumentos: era um grupo de pessoas, e já está.
Este tipo de argumentos manifesta quase sem querer uma complacência para aquilo que é inadmissível, o racismo e toda e qualquer forma de expressão em si enraizada.
Por isso e por palavras, dado que não gosto de bananas e como diabético não é recomendável que as consuma, sempre digo que sim, sou tão macaco como qualquer outro Homem.
Recordo-me de uma cena do filme “Cry Freedom” sobre o dissidente do apartheid, Steve Biko.
Quando o juiz pretende ter graça e lhe pergunta:
- Porque é que vocês dizem que são negros se efectivamente são mais para o castanho?
Ele responde:
- Pela mesma razão pela qual vocês dizem que são brancos e têm uma tonalidade mais para o cor-de-rosa.
Definitivamente a cor é irrelevante.
Manda a alma e o ser gente.

terça-feira, 29 de abril de 2014

As histórias eternas

Desde sempre ouvi contar que uma das minhas bisavós, a mãe do meu avô Francisco, entretinha os filhos e todos os amigos da vizinhança, contando-lhes histórias, ao mesmo tempo em que por acção de um velho candeeiro de petróleo, projectava na alva parede em frente da sua casa, as sombras dos dedos devidamente alinhados para que tomassem a forma dos personagens destes enredos que invariavelmente casavam os mistérios e as lendas que andavam de boca em boca ali pelas redondezas.
Em Vila Viçosa e na velha Rua de Évora da qual restam apenas as fachadas da actual Avenida Bento de Jesus Caraça, do lado da Pastelaria Azul, que do outro lado era a Rua do Espírito Santo antes da reforma dos anos quarenta operada por obra do Engenheiro Duarte Pacheco; os serões quentes de verão tinham assim uma animação extra que beneficiava ainda e em muitas noites, da música produzida por alguns instrumentos artesanais que um outro vizinho tocasse ali pelas redondezas.
Estas histórias também chegaram aos serões da minha infância contadas pelos meus avós ou tios-avós, já no tempo da luz eléctrica e sem direito a sombras na parede, mas com palavras que prendiam a nossa atenção, no inverno, quando nos reuníamos todos à volta da braseira por imposição do frio; ou então ao luar e sentados à porta enquanto tentávamos descobrir uma brisa fresca por entre as noites quentes de verão.
Lembro-me de muitas dessas histórias que terminavam sempre da mesma forma:
- O meu conto está terminado, e se vocês não se levantam já, vão todos acabar com o rabo colado.
E lá nos levantávamos todos de um salto não fosse a profecia cumprir-se nessa noite e ficássemos irremediavelmente agarrados ao assento de buinho das baixíssimas cadeiras coloridas e decoradas com desenhos de flores, como manda a boa tradição no Alentejo.
Porque são eternas e são detalhes valiosíssimos da melhor herança familiar, hoje sou eu que conto essas histórias, já não por entre os candeeiros de petróleo, as cadeiras de buinho ao luar e as braseiras de picão que nos aquecem no inverno; mas contando com a concorrência desleal da Meo, da Zon, dos i-pads e afins.
Mas já consegui que o meu sobrinho João me fizesse uma performance com fantoches colocando um pequeno palco apoiado nas costas do sofá, no dia em que senti que deverá ser eterno na família Barreiros este jeito para contar histórias usando as palavras… e os dedos.
Pelo menos já atravessou mais de um século e nada mais do que cinco gerações.
Ontem ao final da tarde e depois de um cafezinho à conversa com o meu amigo Álvaro Coelho no Oeiras Parque, cruzámo-nos com o actor Carlos Alberto Vidal e quase dissemos em coro:
- Olha o Avô Cantigas.
O homem é pouco mais velho do que eu, e eu até terei agora mais cabelos brancos do que ele, mas de repente e pela força das histórias ali presentes na memória, ele foi definitivamente o avô e eu vi-me criança e para aí com menos sessenta anos do que o seu personagem mais famoso.
Não há dúvida que as histórias e a imaginação “matam” o tempo, devolvem-nos ao riso e aos sonhos da infância e…
Fazem-nos muito mais felizes.
Sigamos pois pelo mapa e pelas coordenadas das histórias, e não matemos nunca o benefício da fantasia que nos faz eternamente crianças cruzando tudo e até infinitas gerações.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

As palavras

Indiferente às condições meteorológicas que poderão ser mais ou menos agrestes, às marés, à força das ondas, às estações do ano, à posição dos astros, às fases da lua, aos humores… e sendo muito mais do que apenas duas dúzias de horas oferecidas ao nosso passivo acto de respirar; os dias são fontes inesgotáveis de palavras.
De palavras ditas, escritas, cantadas, desenhadas, choradas, soluçadas, subentendidas…
De palavras e de silêncios, porque estes, porque as não têm, falam tanto ou mais do que elas.
Os dias são então nascentes de palavras sublinhadas ou não pela tinta da melhor verdade, aquela que é dádiva gratuita do espelho generoso que é o olhar.
E as palavras são assim e tantas vezes, perfumados detalhes tecidos a letras no tear de uma incessante poesia.
Há palavras ocas, estéreis, vãs e sem qualquer sentido; ou palavras recheadas do conteúdo que os gestos e as atitudes sempre lhes oferecem, quando os dias não as pretendem ver abandonadas nesse famoso orfanato das boas intenções.
Há palavras eternas porque enraizadas no sentir; e palavras descartáveis nascidas do bem parecer do socialmente correcto, as palavras que são adorno e fancaria dos travestidos de carácter.
Há palavras terapêuticas e que saram feridas; e palavras mortíferas e afiadas como punhais.
E nós, privilegiados geradores e emissores de todas essas palavras, temos a opção de um espectro entre o helicóptero que manda flores sobre uma multidão em festa, ou o Enola Gay, bombardeiro B-29 lançando a morte sobre Hiroshima.
Porque há palavras que florescem de esperança e fazem sorrir os outros; e há palavras que são bombas bem mais letais que as atómicas, matando friamente os Homens sem direito a qualquer apelo.
Porque há palavras como há vida e há morte, amor e ódio, fidelidade e traição, perdão e rancor, o riso e a dor do choro, um abraço e o esmurrar feroz de alguém…
E “há palavras que nos beijam como se tivessem boca”, afirmou um dia o poeta de “A gaivota”, o grande Alexandre O’Neill.
Na reconhecida e justa reciprocidade, ouso eu acrescentar que há palavras que são beijos dados por nós sobretudo quando é de amor que se faz o sentir e se preenche verdadeiramente aquele “espaço” que é o melhor de nós, o “território” a que chamamos alma e que ingenuamente insistimos em desenhar com a forma de um rubro coração.
E há dias como hoje em que um louco com alma vadia de poeta se senta em frente ao mar, mergulha no privilégio de um azul sem fim e… sente que as palavras se soltam ao ritmo dos seus inquietos pensamentos.
Para falar de amor e para vos abraçar a todos com um sorriso também tecido pelas inevitáveis palavras.

domingo, 27 de abril de 2014

“O dedo fez-me cócegas”

Há uma fonte em pedra construída pelos Homens, um círio aceso ao lado de um altar debruado a flores; e a fé é água viva que corre pelos tempos atravessando gerações, e luz que alumia caminhos desenhados por inspiração do amor.  
Um dia, em 14 de Maio de 1982, em Vila Viçosa e à esquina da Casa dos Cantoneiros, juro que o meu olhar se cruzou com o de João Paulo II. Não foi preciso o dia de hoje para saber que nesse instante, como em muitos outros instantes em encontros com tantos anónimos sem altar, os meus olhos beneficiaram do privilégio do olhar de um santo.
E santos são sempre aqueles que nos desafiam a ser maiores.
Hoje, à hora em que subia ao altar o dono do olhar que me tocou algures pelos meus quase dezasseis anos; em Lisboa, os meus sobrinhos João e Luís, recebiam o baptismo, e eu, testemunho-o, e sou o mesmo ali entre a fonte e o círio, escutando a água e olhando a luz, reconhecendo em mim a mesma fé numa genética de esperança que me sai directamente da alma.
A esperança e a fé que jamais poderei explicar mas que são minhas como tudo o mais que sou.
A fé que recebi da herança de tantos santos, faz-se assim também uma herança da minha pobreza e simplicidade num instante de partilha numa das colinas de Lisboa, daquelas em que nos dias limpos e de sol beneficiamos do azul intenso do Tejo.
Ao seu ungido no peito, o Luís não trava a espontaneidade e diz alto:
- “O dedo fez-me cócegas”.
E as cócegas têm sempre o condão de nos fazer sorrir…
O dedo de um sacerdote que faz no peito um sinal da cruz, ao jeito do dedo de Deus num instante em que a de fé se solta como o melhor de uma herança que marca a vida.
O instante em que as cócegas atingem a alma… e nós sorrimos.

sábado, 26 de abril de 2014

Esta persistente chuva de Abril

Caem intensas e são infinitamente muito mais do que apenas mil, as persistentes gotas da chuva deste estranho mês de Abril.
É primavera, mas sobre o Tejo, as nuvens invejam do meu olhar, a vontade, e abraçam despudoradamente a ponte e um velho cacilheiro, móvel ponto laranja na perseverança da travessia até à bênção do chão de Lisboa.
Eu, dono de tantas e tão doces lembranças de um Alentejo ao sol pejado de estevas e giestas, entrego agora os meus passos às calçadas desenhadas da Cidade Branca, que tal como as veredas do campo, também são minhas.
E um Homem feliz…
É um Homem assim como eu percorrendo todos os caminhos que sente como seus, as “ruas” que lhe são sugeridas pela alma e que são mães e cúmplices de todos os seus sonhos.
Nesta manhã, percorro a Avenida com nome e resquícios da festa da Liberdade, e, não tarda, chegarei ao Rossio, a praça que coroada pelo Carmo e pela Trindade, imbatíveis, é estrela maior da velha Olisipo e que, pela genética da própria cidade, não caberá nunca na pequenez de uma qualquer irrelevante “Betesga”.
Há turistas em romagem à Ginjinha, como se, com ou sem elas, este fosse o código de acesso ao jeito de ser muito lusitano que por aqui floresce entre a poesia do Nicola e o aroma das bancas das flores de onde emergem por estes dias os naturais cravos vermelhos.
Solta-se a memória…
À esquina e quase em frente à Camisaria Moderna, vejo-me por ali esperando o autocarro de dois pisos, o 39, que me levaria a casa, ao Príncipe Real. Na mão, um cartuxo de papel pardo contendo um quilo de cheirosos morangos maduros, e um embrulho da Pastelaria Suíça contendo uma “Frigideira de Carne”; se essa era noite de fazer greve à inevitável solha frita que me esperava para o jantar na Cantina da Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica.
Passaram trinta anos sem que quase tivesse dado por isso.
Afinal, revejo-me eterno nos passos pelas ruas de Lisboa, os caminhos da minha vontade, e também em tudo o que de mais existe nos sonhos que os ditam dia-a-dia.
Que vive muito mais quem sonha do que quem apenas respira sem colher do ar o alento para a sua fé.
Persiste a chuva de Abril sobre Lisboa e o abraço das nuvens dá ao Tejo um triste tom cor de cinza inteiramente à mercê da rota dos velhos e novos cacilheiros.
É primavera.
O sol…
Persiste nas minhas eternas memórias do campo e nas tatuadas lembranças do teu olhar, essas sim as raízes de todos os meus sonhos.
O sol…
É eterno no ADN de Lisboa por mais estranho que seja este Abril e a primavera.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O meu país de Abril

No meu país de antes de Abril, a criatividade tinha o sabor dos dois pedaços de pão que a minha avó entregava ao meu pai para a merenda; um maior que fazia de si próprio e o outro mais pequeno que ele teria de imaginar ser o inacessível queijo.
À hora do jantar, a açorda carregava em si a “generosidade” dos senhores abastados que entregavam à Avó Natividade o azeite que sobrara do fritar do peixe.
No meu país de antes de Abril, o Tio Zé aprendeu o valor do livre pensamento no instante em que dois homens lhe bateram à porta pela madrugada e o esmurraram e lhe partiram dois dentes ainda antes de lhe dizerem que o iam levar para Caxias.
O outro, o livre pensamento que é raiz das artes, era riscado a azul e eliminado do som dos dias.
No meu país de antes de Abril, a minha mãe cumpriu o previsível fado da sua condição quando foi aprender a costurar apesar de ser uma das melhores alunas da sua classe e pretender continuar a estudar para cumprir a sua vocação de professora.
O meu pai foi aprender a profissão de barbeiro porque recusou o patrocínio de uma senhora que o ajudaria nos estudos, mas desde que a sua opção fosse o seminário.
No meu país de antes de Abril, os meus avós Joaquim e Francisca passavam os dias de verão integralmente ao sol e a cortarem as ondas… mas as ondas das searas de trigo que eles ceifavam sem descanso desde o nascer até à partida do astro-rei.
A minha mãe e os meus tios levavam-lhes a merenda percorrendo quilómetros pelo pó das estradas da planície.
No meu país de antes de Abril, o Tio Lucas embarcou entre lágrimas no Cais de Alcântara rumo à Guiné para lutar numa guerra da qual desconhecia os contornos; e voltou diferente passados três anos, porque nunca ficamos iguais depois de andarmos pelo mato a recolher os pedaços do corpo de um amigo que na véspera jantou connosco e esteve à conversa a partilhar os seus planos para o futuro.
No meu país de antes de Abril a dor vivia tatuada nas histórias de muita gente. A dor tinha milhões de nomes e apelidos.
Há precisamente quarenta anos, a madrugada de 25 de Abril de 1974 fez surgir o dia mais importante para mim e para toda a minha geração.
Sobre os pecados de uma História e de uma dura memória que conservo em mim, nasceu o privilégio de um dia celebrado com cravos da cor da bravura e do tom do sangue dos imortais, a rubra cor inscrita orgulhosamente na bandeira de Portugal.
O dia em que a História dobrou a esquina e entrou alegre pelo privilégio de um caminho feito de paz e liberdade.
Pela mão de inquestionáveis heróis morreram os nossos tão tristes e previsíveis destinos, e hoje, no meu país de Abril, eu sou muito mais dono dos meus dias, posso dizer “sim” ou dizer “não”, posso pensar livremente, posso gritar, revoltar-me, posso soltar as palavras que me são ditadas pela alma, posso amar à luz do dia quem verdadeiramente o coração escolheu, posso crer no Deus da minha fé, posso ser tudo e… posso ser muito mais eu.
25 de Abril de 1974.
Passaram quarenta anos.
Questione-se tudo e até a imbecilidade dos políticos, mas nunca, mesmo nunca, se questione o infinito valor que em si carrega a liberdade.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

As casas que guardam as palavras

Hoje é Dia Internacional do Livro e por isso me propus o difícil exercício de seleccionar dez obras que me marcaram nas diferentes fases da vida. Fico com a clara sensação de que faltam aqui muitas mais, mas estas recordo-as pelas histórias e pelo muito que representaram para a minha própria História. Partilho convosco:
Os Cinco na Quinta Finniston (Enid Blyton)
Poderia colocar aqui qualquer um dos 21 livros que compõem a colecção de “Os cinco”, estive muito indeciso entre este que é o número 18, e o 10 que é “Os cinco no Lago Negro”. Optei pela Quinta Finniston porque foi o primeiro que li. Nas tardes de Vila Viçosa algures entre os meus 8 e 10 anos, quantas aventuras e quanto desejo de comer scones e beber limonadas.
Platero e eu (Juan Ramón Jimenez)
A Andaluzia é afinal tão próxima do Alentejo e como é bom descobrir que as coisas realmente importantes estão afinal guardadas nos detalhes mais simples. São os privilégios de quem é do campo.
Homem rico, homem pobre (Irwin Shaw)
Li-o algures pelo verão de 1983 quando já me preparava para ser adulto e numa altura em que ainda acreditava que crescer é conhecer a fundo todos os Homens. Talvez esta obra tenha sido a primeira lição de que definitivamente nunca os conheceremos pois há territórios blindados no imprevisível ser de cada um.
A história do cerco de Lisboa (José Saramago)
Considero Saramago o melhor escritor Português do Século XX e não existe nenhum livro dele que verdadeiramente não goste. Escolhi este por ter sido o primeiro que li, no verão de 1991, em Sesimbra e em frente ao mar, uns dias antes de ser incorporado no Exército Português. Da história fica esta certeza de que é impossível não ter uma opinião sobre tudo o que nos cerca e de como às vezes uma vírgula ou um ponto final, afinal tão pouco, podem mudar o curso da própria história.
Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar)
Considero-o o melhor livro que já li até hoje e li-o pela primeira vez também em frente ao mar algures numas férias nos anos noventa. O testamento do imperador expresso nas memórias de tudo, e sobretudo no que mais conta, o amor a que nunca deveremos virar costas.
As horas (Michael Cunnyngham)
Três momentos e três mulheres, idênticos afectos e a mesma ambição / inquietação. O tempo conta-se em ciclos.
O Primo Basílio (Eça de Queirós)
Eça é para mim o melhor escritor Português de sempre. Ninguém como ele falou do Portugal do final do Século XIX e desenhou por palavras este perpétuo jeito de ser Português feito de públicas virtudes e tantos vícios privados. Poderia também colocar aqui Os Maias, A Relíquia ou A Capital.
De profundis valsa lenta (José Cardoso Pires)
Um dos livros mais fantásticos que já li e que privilégio ter sido escrito por um Português. A “ressurreição” de uma espécie de morte numa narrativa na primeira pessoa.
A Mensagem (Fernando Pessoa)
O meu poeta de eleição, genial em cada palavra e aqui a cantar o orgulho lusitano.
Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez)
Às vezes as casas não têm telhados e as pessoas bebem das estrelas a magia que lhes oferece vidas únicas. Ler e sonhar.

Como é hábito trocar livros e flores neste Dia de S. Jorge, deixo-vos aqui também uma flor da minha modesta autoria…
Sobre a mesa há um velho livro aberto
Que herdou de uma rosa, aroma de flor
Nestas páginas o sonho andou desperto
Solto nas palavras de um grande amor

um abraço e um sorriso.
E que nunca morram as palavras.