domingo, 4 de maio de 2014

Mãe

Há um tudo de Céu debruado ao sorrir do teu olhar, e esse brilho que é meu tesouro, é bússola infalível no definir da minha mais do que certa e profunda sorte.
Há o teu abraço que é sempre o prefácio de um beijo perfeito onde morre toda a minha idade, onde se apagam as penas que o tempo foi remendando aos meus mais tristes dias, e onde desaparecem todas as aparentes certezas do ser homem… e eu, nesse instante, devolvo-me ao doce de todas as ilusões, ao despudorado e assumido prazer de sonhar; e eu nunca me recuso a voltar a ser criança.
Há o teu ninar que me aceita sempre como eu sou, e que a cada gesto me coroa príncipe que reina sobre o mundo inteiro, a Terra que roda toda na minha mão como um velho pião sobre o eixo da fantasia e lançado pelo legítimo impulso da esperança que tem ares de uma guita atada a uma velha carica.
Há poemas soltos e sem rimas nas palavras todas que me dás, soletradas pérolas da inesgotável fonte que bebe da nascente do teu amor maior, esse amor de quem nada quer ser para que eu possa ser tudo.
Há o riso cerzido às cumplicidades do nosso eterno caminhar lado a lado sem ter medo de ir buscar o infinito.
Há pospontos de alento que a tua esperança tece sempre sobre todas as minhas dores, as minhas hesitações e os meus medos.
Há a fé, a inspiração, o querer, o ser maior…
Mãe, minha querida mãe, há um dia perfeito em cada dia que nasce e eu te sinto aqui.
E ao jeito da nossa cumplicidade de todos os dias, antes ou depois de te fazer rodopiar comigo num apertado abraço, aqui vai:
- Marinacita, minha mater atómica, amo-te muito!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A tarde de Maio

A primavera sente-se muito para lá da perfeição de cores que nos encantam e prendem o olhar, à medida que os nossos passos avançam pela vereda muito estreita, caminho desenhado pelo calcar insistente da perseverança do Homem, trajecto de terra aqui e ali invadido pela erva ainda fresca que brotou de um inverno generoso de chuva.
Sigo pelo campo sem rota
Sou dono de mil caminhos
Por entre a vida que aqui brota
Entre estevas, poejo e pinhos
Mais à frente, o rosmaninho impõe a sua cor arroxeada, que brilha intensa por entre o quase monopólio de verde, e o momento impõe que o acariciemos, bebendo então as mãos daquele odor único de uma alfazema brava que me recordará sempre o cheiro da fé espalhada pelas ruas da minha terra em dias de passeio de Nosso Senhor.
E aqui parados junto ao tronco de uma árvore sem idade, sentimos e lemos o norte na muito natural e micológica bússola semeada pela brisa fresca.
Quem me dera ter-te aqui
E ir contigo mão-na-mão
Embora tudo me fale de ti
E me incendeie o coração
Há uma paz que se colhe de tudo o que se sente, e também de todas as infinitas memórias que nos assaltam e nos acompanham enquanto os pés avançam campo fora fazendo-nos ressuscitar a cada flor, a cada cheiro; uma história e as histórias de tantos dias felizes.
Paramos à sombra de um sobreiro de onde se avista a ribeira que corre generosa e deixamo-nos embalar pelo cantar perfeito de um cuco que nunca saberemos de onde vem mas que se faz presente e nos alegra as horas.
Fecho os olhos naquele esforço de quem quer dar força e primazia a todos os demais sentidos, e registar e tornar eterno este momento.
Na terra com cheiro de flor
Dormi num sonho com o teu sorrir
Foi a hora de soltar o amor
E finalmente ver Maio florir
E sinto-me em casa e colho do meu respirar profundo de mil aromas, todo o alento para regressar ao caminho sob o sol que me beija despudoradamente, o sol sinto adormecer com o cair da tarde, à medida que me “empurra” e me devolve à mesa dos amigos onde o pão, o vinho e a conversa; me esperam todos para a hora da celebração da amizade.
E tu, sempre no meu coração.
Sou de aqui e sou teu
Sou deste campo risonho
Meu amor, para que eu seja eu
Jamais partas deste sonho

E assim, de afectos e de amor, se cumpre Maio.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

“Adsum DEO”

Há não muitos anos contava-se como anedota uma história imaginada numa barraca onde vivia um grupo de gente bastante humilde e com fome, que ao ouvir bater à porta e depois de saber que quem batia vinha da parte da Cruz Vermelha Portuguesa, respondia:
- Já demos.
Sem pretender discutir aqui a legitimidade desta crítica à organização secular em causa, lembrei-me ontem desta história ao ouvir os ministros a apresentarem o DEO (Documento de Estratégia Orçamental), porque entre o IVA e a TSU lá veio mais um ataque às poucas décimas / migalhas que nos restavam.
E a mim e aos outros, por entre esta corrida a "Passos de Coelho" para as "Portas" do inferno parece que nada mais resta do que dizer Adsum Deo, que é como quem diz em latim “eis-me aqui Deus”.
E o Deus é aqui a despudorada face dos eleitos que atacam em conferências de imprensa ao fim da tarde, e sempre por entre a mentira de quem diz não aumentar impostos e a hipocrisia de saídas limpas, que o podem ser para os mercados, mas que são sujas e bem sujas pelo sangue da dor do povo, e sujas pela asquerosa trampa da incompetência deste bando de incorrigíveis “jotas” armados em ministros.
Onde estão os cortes na despesa que não os ordenados dos funcionários públicos, as reformas e os demais componentes do Estado “minimamente” social?
Onde estão os cortes nos pagamentos aos escritórios de advogados que fazem leis e dão pareceres infindáveis?
Quantos assessores por nomeação política se cortaram em número e benefícios?
Quanto se reduziu nas verbas entregues pelo Estado aos partidos políticos?
Quanto se reduziu nas ajudas de custo e de representação dos políticos eleitos?
E quanto...
Parece que muito pouco, e por isso e na véspera do Dia do Trabalhador, que por este andar, mais ano menos ano, ainda virará "Dia do Pingo Doce", lá tivemos que aturar a Colombina e o Arlequim numa Comédia Bufa da qual já começamos a saber de cor todo o enredo e onde os heróis não são aqueles que propagandeiam números em cartazes, mas aqueles tantos que damos o couro e o cabelo para pagar as contas da incompetência destes e dos seus antecessores de quem são clones.
Batam-nos palmas e vão-se embora.
Esses cartazes que andam por aí espalhados e que pretendem ser eco do mérito dos políticos no virar das estatísticas e argumentos na caça aos votos, são apenas epitáfios colocados sobre a dor de muita gente.
Lembrem-se disso quando chegar a hora da vossa “saída limpa”.
É que se é verdade que quem não é para comer não é para trabalhar, não é líquido que quem mais “coma” seja o melhor para trabalhar. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A gente e as cores

Na passada segunda-feira e quando se preparavam para concluir as suas compras na minha vizinha loja dos supermercados Pingo Doce, os meus pais foram confrontados com uma operadora de caixa que lhes pediu para identificarem o conteúdo de um dos sacos, o das favas frescas, pois a dita criatura que sabia manipular toda a maquinaria à sua volta e saberia por certo distinguir todo o arsenal de maquilhagem com que se tinha transformado naquela espécie humana de árvore de Natal fora de época; não sabia distinguir favas de ervilhas.
Fui “desenterrar” esta anedota urbana da “filha do betão” que se pôs à mercê de um casal de alegres Alentejanos para ilustrar esta minha convicção de que os cérebros humanos (ou em alguns casos, a ausência deles) andam desfocadíssimos naquilo que deve ser ou não alvo de distinção.
Até aposto que esta criatura que não distingue vegetais tão diferentes no seu aspecto, sabe distinguir os Homens consoante a tonalidade da sua pele; porque não considero ser um acaso os recentes episódios que envolvem o arremesso de uma banana ao jogador Dani Alves ou o bloqueio à entrada do Nelson Évora e dos seus amigos numa discoteca lisboeta.
Perguntem a alguém que regressa a casa pelas duas da manhã se sente mais conforto a cruzar-se com um negro ou com um branco que até traz uma camisa da Façonnable?
Mas o branco até pode ser um serial killer
Perguntem a alguém se sente mais conforto por ver uma família de negros ou de brancos a mudar-se para o apartamento ao lado do seu?
Mas a família de brancos pode pertencer a uma associação criminosa…
Quem vê cores peca como quem vê caras e pensa ver os corações.
O mundo desprezou definitivamente o ser para se prender a irrelevantes detalhes como a tonalidade da pele, a religião, a posição e os círculos sociais, a orientação sexual, o poder económico…
Escrutina-se a gente com base na superficialidade e naqueles factores que até são no seu conjunto, uma prova viva da riqueza da humanidade.
Como se a casca valesse tanto ou mais do que o conteúdo…
E somos mais eficazes a fazer a distinção entre pessoas do que a distinguir favas de ervilhas.
No texto que publica sobre o episódio na discoteca, Nelson Évora puxa a seu favor o argumento de que entre esses negros estão muitos campeões de Portugal e muitos atletas que já elevaram o nome do país em provas internacionais.
Não tem e não deve usar este tipo de argumentos: era um grupo de pessoas, e já está.
Este tipo de argumentos manifesta quase sem querer uma complacência para aquilo que é inadmissível, o racismo e toda e qualquer forma de expressão em si enraizada.
Por isso e por palavras, dado que não gosto de bananas e como diabético não é recomendável que as consuma, sempre digo que sim, sou tão macaco como qualquer outro Homem.
Recordo-me de uma cena do filme “Cry Freedom” sobre o dissidente do apartheid, Steve Biko.
Quando o juiz pretende ter graça e lhe pergunta:
- Porque é que vocês dizem que são negros se efectivamente são mais para o castanho?
Ele responde:
- Pela mesma razão pela qual vocês dizem que são brancos e têm uma tonalidade mais para o cor-de-rosa.
Definitivamente a cor é irrelevante.
Manda a alma e o ser gente.

terça-feira, 29 de abril de 2014

As histórias eternas

Desde sempre ouvi contar que uma das minhas bisavós, a mãe do meu avô Francisco, entretinha os filhos e todos os amigos da vizinhança, contando-lhes histórias, ao mesmo tempo em que por acção de um velho candeeiro de petróleo, projectava na alva parede em frente da sua casa, as sombras dos dedos devidamente alinhados para que tomassem a forma dos personagens destes enredos que invariavelmente casavam os mistérios e as lendas que andavam de boca em boca ali pelas redondezas.
Em Vila Viçosa e na velha Rua de Évora da qual restam apenas as fachadas da actual Avenida Bento de Jesus Caraça, do lado da Pastelaria Azul, que do outro lado era a Rua do Espírito Santo antes da reforma dos anos quarenta operada por obra do Engenheiro Duarte Pacheco; os serões quentes de verão tinham assim uma animação extra que beneficiava ainda e em muitas noites, da música produzida por alguns instrumentos artesanais que um outro vizinho tocasse ali pelas redondezas.
Estas histórias também chegaram aos serões da minha infância contadas pelos meus avós ou tios-avós, já no tempo da luz eléctrica e sem direito a sombras na parede, mas com palavras que prendiam a nossa atenção, no inverno, quando nos reuníamos todos à volta da braseira por imposição do frio; ou então ao luar e sentados à porta enquanto tentávamos descobrir uma brisa fresca por entre as noites quentes de verão.
Lembro-me de muitas dessas histórias que terminavam sempre da mesma forma:
- O meu conto está terminado, e se vocês não se levantam já, vão todos acabar com o rabo colado.
E lá nos levantávamos todos de um salto não fosse a profecia cumprir-se nessa noite e ficássemos irremediavelmente agarrados ao assento de buinho das baixíssimas cadeiras coloridas e decoradas com desenhos de flores, como manda a boa tradição no Alentejo.
Porque são eternas e são detalhes valiosíssimos da melhor herança familiar, hoje sou eu que conto essas histórias, já não por entre os candeeiros de petróleo, as cadeiras de buinho ao luar e as braseiras de picão que nos aquecem no inverno; mas contando com a concorrência desleal da Meo, da Zon, dos i-pads e afins.
Mas já consegui que o meu sobrinho João me fizesse uma performance com fantoches colocando um pequeno palco apoiado nas costas do sofá, no dia em que senti que deverá ser eterno na família Barreiros este jeito para contar histórias usando as palavras… e os dedos.
Pelo menos já atravessou mais de um século e nada mais do que cinco gerações.
Ontem ao final da tarde e depois de um cafezinho à conversa com o meu amigo Álvaro Coelho no Oeiras Parque, cruzámo-nos com o actor Carlos Alberto Vidal e quase dissemos em coro:
- Olha o Avô Cantigas.
O homem é pouco mais velho do que eu, e eu até terei agora mais cabelos brancos do que ele, mas de repente e pela força das histórias ali presentes na memória, ele foi definitivamente o avô e eu vi-me criança e para aí com menos sessenta anos do que o seu personagem mais famoso.
Não há dúvida que as histórias e a imaginação “matam” o tempo, devolvem-nos ao riso e aos sonhos da infância e…
Fazem-nos muito mais felizes.
Sigamos pois pelo mapa e pelas coordenadas das histórias, e não matemos nunca o benefício da fantasia que nos faz eternamente crianças cruzando tudo e até infinitas gerações.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

As palavras

Indiferente às condições meteorológicas que poderão ser mais ou menos agrestes, às marés, à força das ondas, às estações do ano, à posição dos astros, às fases da lua, aos humores… e sendo muito mais do que apenas duas dúzias de horas oferecidas ao nosso passivo acto de respirar; os dias são fontes inesgotáveis de palavras.
De palavras ditas, escritas, cantadas, desenhadas, choradas, soluçadas, subentendidas…
De palavras e de silêncios, porque estes, porque as não têm, falam tanto ou mais do que elas.
Os dias são então nascentes de palavras sublinhadas ou não pela tinta da melhor verdade, aquela que é dádiva gratuita do espelho generoso que é o olhar.
E as palavras são assim e tantas vezes, perfumados detalhes tecidos a letras no tear de uma incessante poesia.
Há palavras ocas, estéreis, vãs e sem qualquer sentido; ou palavras recheadas do conteúdo que os gestos e as atitudes sempre lhes oferecem, quando os dias não as pretendem ver abandonadas nesse famoso orfanato das boas intenções.
Há palavras eternas porque enraizadas no sentir; e palavras descartáveis nascidas do bem parecer do socialmente correcto, as palavras que são adorno e fancaria dos travestidos de carácter.
Há palavras terapêuticas e que saram feridas; e palavras mortíferas e afiadas como punhais.
E nós, privilegiados geradores e emissores de todas essas palavras, temos a opção de um espectro entre o helicóptero que manda flores sobre uma multidão em festa, ou o Enola Gay, bombardeiro B-29 lançando a morte sobre Hiroshima.
Porque há palavras que florescem de esperança e fazem sorrir os outros; e há palavras que são bombas bem mais letais que as atómicas, matando friamente os Homens sem direito a qualquer apelo.
Porque há palavras como há vida e há morte, amor e ódio, fidelidade e traição, perdão e rancor, o riso e a dor do choro, um abraço e o esmurrar feroz de alguém…
E “há palavras que nos beijam como se tivessem boca”, afirmou um dia o poeta de “A gaivota”, o grande Alexandre O’Neill.
Na reconhecida e justa reciprocidade, ouso eu acrescentar que há palavras que são beijos dados por nós sobretudo quando é de amor que se faz o sentir e se preenche verdadeiramente aquele “espaço” que é o melhor de nós, o “território” a que chamamos alma e que ingenuamente insistimos em desenhar com a forma de um rubro coração.
E há dias como hoje em que um louco com alma vadia de poeta se senta em frente ao mar, mergulha no privilégio de um azul sem fim e… sente que as palavras se soltam ao ritmo dos seus inquietos pensamentos.
Para falar de amor e para vos abraçar a todos com um sorriso também tecido pelas inevitáveis palavras.

domingo, 27 de abril de 2014

“O dedo fez-me cócegas”

Há uma fonte em pedra construída pelos Homens, um círio aceso ao lado de um altar debruado a flores; e a fé é água viva que corre pelos tempos atravessando gerações, e luz que alumia caminhos desenhados por inspiração do amor.  
Um dia, em 14 de Maio de 1982, em Vila Viçosa e à esquina da Casa dos Cantoneiros, juro que o meu olhar se cruzou com o de João Paulo II. Não foi preciso o dia de hoje para saber que nesse instante, como em muitos outros instantes em encontros com tantos anónimos sem altar, os meus olhos beneficiaram do privilégio do olhar de um santo.
E santos são sempre aqueles que nos desafiam a ser maiores.
Hoje, à hora em que subia ao altar o dono do olhar que me tocou algures pelos meus quase dezasseis anos; em Lisboa, os meus sobrinhos João e Luís, recebiam o baptismo, e eu, testemunho-o, e sou o mesmo ali entre a fonte e o círio, escutando a água e olhando a luz, reconhecendo em mim a mesma fé numa genética de esperança que me sai directamente da alma.
A esperança e a fé que jamais poderei explicar mas que são minhas como tudo o mais que sou.
A fé que recebi da herança de tantos santos, faz-se assim também uma herança da minha pobreza e simplicidade num instante de partilha numa das colinas de Lisboa, daquelas em que nos dias limpos e de sol beneficiamos do azul intenso do Tejo.
Ao seu ungido no peito, o Luís não trava a espontaneidade e diz alto:
- “O dedo fez-me cócegas”.
E as cócegas têm sempre o condão de nos fazer sorrir…
O dedo de um sacerdote que faz no peito um sinal da cruz, ao jeito do dedo de Deus num instante em que a de fé se solta como o melhor de uma herança que marca a vida.
O instante em que as cócegas atingem a alma… e nós sorrimos.