segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os pássaros e os Homens que gostam de voar

Um Homem resignado é um pássaro auto-mutilado nas suas asas que entrega facilmente o céu ao voo de todas as outras aves.
Então, prostrado nas pedras duras do caminho, apenas verá de céu, alguma qualquer pequena nesga de azul que as asas alheias em voo lhe quiserem deixar por dó e caridade.
E um pássaro assim, sem céu, é um pássaro morto na sua raiz, na sua essência, mesmo que ainda possa continuar a respirar.
Pelo contrário, um Homem ousado é um pássaro que dá vida às asas e que chama a si, o céu, buscando-o sem reservas e sem temer sequer os perigos que espreitam por exemplo, por detrás dos arbustos na pontaria certeira de um qualquer caçador.
Poderá chegar o dia em que possa ficar ferido, quiçá morrer, mas nunca foi por si que o céu deixou de lhe sorrir e deixou de ser seu.
E já tem muito de nosso, tudo aquilo a que aspiramos e pelo qual lutamos, mesmo que jamais consigamos ter dele posse total e efectiva.
Para além de que a esperança que vive colada aos sonhos já nos faz sorrir. É o açúcar da vontade.
Um pássaro que se faz ao céu fá-lo pois ao jeito de um Homem que dispensa as gaiolas, as grades, e que cumpre o destino que a alma lhe impõe em pleno e despudorado gozo da sua liberdade…
Um Homem que faz suas, todas as fontes; um Homem que não nega jamais um beijo aos seus amores, da mesma forma que um pássaro em voo, jamais se recusa pousar e entregar uma sua carícia à mais viçosa das flores do campo…
Um Homem que sonha e que assume assim a ousadia que a nada se rende; nem sequer à perspectiva desse tão desconfortável epíteto de louco, oferecido gratuitamente e de forma voluntária pela multidão gigante dos mestres e escravos da sensatez, “papagaios” mais ou menos coloridos e instalados em poleiros dourados, entregues à monótona “cassete” de tantas frases feitas.
Um Homem…
Sou eu e sou tudo isso pelo impulso de voar para ti, para os teus braços…
Definitivamente, o meu céu.
Digam o que disserem e com independência de onde cheguem os tiros.

domingo, 11 de maio de 2014

Elevar-se como uma Fénix

Na mitologia grega, a Fénix é uma ave que quando morre entra numa espécie de auto-combustão, renascendo mais tarde a partir das suas próprias cinzas. Quando viva, a Fénix tem uma força incrível, sendo capaz de transportar elefantes em voo, presos ao seu bico.
Há algo de cinza nos dias que cruzamos, este tempo em que os Homens excluem outros Homens pelo tom de pele, pela religião, pelo poder económico e também, e muitas vezes, pela ousadia de amar diferente mas da forma que oferece verdade ao que manda o coração.
Há muito de cinza da própria humanidade no pó destes dias tristes em que a perseguição, a tortura e a fome, ecoam demasiadas vezes por entre tantos tristes amanheceres.
Conchita Wurst, ou Thomas Neuwirth, porque pouco importa, é um austríaco que venceu ontem o Festival da Eurovisão com a canção “Elevar-se como uma Fénix” obtendo pontuações máximas de toda a Europa, incluindo Portugal.
Um homem de barba e vestido de mulher, mas que bem poderia ser uma mulher sem barba vestida de homem… e uma canção bem construída e muito bem cantada, que muito mais do que um grito de um grupo de gente a reclamar o justo e merecido respeito pela fidelidade à orientação que o coração sempre nos dá, é a expressão de uma terra, a velha Europa, pátria da liberdade, que precisa de se elevar por sobre as cinzas da intolerância, da guerra, da miséria, da fome, do racismo, da homofobia…
Senhor Putin e seus fiéis acólitos, escutem bem:
- Estamos vivos e sentimos forças para voar com o peso de elefante da vossa intolerância, fazendo-a despedaçar-se algures de forma irreversível!
E depois, e sempre, os Homens não o são pelo que vestem, pelo que têm, pelo que professam, por quem beijam e por quem amam, não o são pelo tom mais ou menos escuro da sua pele; os Homens são Homens, e ponto final.
E os grandes Homens são sempre construídos pelos valores que em si transportam, muito mais do que pelas aparências vãs e tolas que os revestem e os mascaram no caldo do socialmente correcto.
Os grandes Homens são homens, mulheres...
Os grandes Homens elevam-se sempre por sobre as dores e as cinzas e cumprem a sina eterna de saber voar percorrendo a esperança.

sábado, 10 de maio de 2014

Alcobaça e uma manhã de primavera

Há góticas cúpulas, braços longos de pedra esticados pelos Homens na ânsia de chegar ao Céu, mas é aqui ao redor dos nossos passos que de Céu se sente o amor na eternidade de uma paixão: Pedro e Inês.
Estas pedras beijadas pelos nossos pés de monges silenciosos resgatados hoje pela abadia ao bulício do Século XXI, estão cravejadas de História e gritam-nos convictas, que vazios e imbecis serão sempre todos os tronos, outros que não aqueles que nos fazem reis por verdadeira bênção do coração...
E da fé cruzando os séculos, falaram por certo os dois sinos que repousam agora a um canto discreto da longa igreja.
Os sinos assim pousados são como os Homens que desistem de o ser, como os tronos e os dias sem amor: não ressoam, estão mortos.
Cá fora, no claustro e por entre as laranjeiras sem idade, há o soluço do correr da água de um rio e há flutuantes detalhes de primavera ao jeito de pedaços de algodão beijando-nos o respirar.
E há o Céu, que é definitivamente muito mais de quem o sonha, de quem lhe entrega assim solto, o olhar, do que de quem estica vaidoso e poderoso, os braços, construindo majestosos tectos de pedra na ambição de lhe tocar.
Um Homem, o sonho do Céu, a fé, os detalhes de um amor perfeito, de uma paixão...
Hoje, sou eu.
E haverá trono maior para eu me poder sentar?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Alho Francês à Brás

Chega sempre o dia em que o “simples”, por insistir tanto no realçar da sua simplicidade, se revela vaidoso; sendo afinal a simplicidade, apenas mais um dos argumentos que compõem o pedestal em que se coloca a si próprio, no centro da “rotunda” onde quer que tudo gire, o ciclo contínuo do culto despudorado do seu ego.
É no mesmo dia em que o desprendido de bens materiais se “embrulha” em roupa de marca e compra móveis com nome e apelido, para decorar a sua casa; o "servo" veste a alva descartável da sua "santidade" e se coloca no altar da vaidade, ofuscando assim o Senhor da sua fé; o "caridoso" trai o seu gesto pelo reconhecimento ou recompensa humana ou divina que acredita estar à sua espera; "auto-proclamados" amigos e amores são denunciados pela indiferença que é marca da gestão dos dias feita apenas ao ritmo dos seus interesses...
O “modesto” suicida-se pelo abuso do veneno do “eu já sabia” e do “eu sei”; o “puro” e o “limpo” não resistem a sujar-se, colocando a mão e o corpo todo na massa que lhe acena à ambição; o “democrata” se mutila pela intolerância e a obsessão no impor das suas vontades; o “respeitador” apela à amnésia e à falta de inteligência dos demais; e o “desinteressado” vende a alma a todos e também ao diabo.
Assim, bem-vindos ao mundo encantado do bem parecer, dos “bonzinhos” e das ilusões tornadas ciência por via do Marketing Pessoal; o comboio imparável alimentado pelo motor da ambição desmedida e onde há monstros escondidos por detrás de anjos, príncipes e princesas; o território onde esvoaçam em vão, ténues véus da moral a tentarem esconder despudorados, desavergonhados e muito bem patrocinados orgasmos… o circo rasca e barato onde há uma profusão e um infindável filão de caracteres fraudulentos muito piores que palhaços.
Há gatos muito mal escondidos e com rabos demasiado expostos no reino da aparência, esse apátrida e universal local onde a mulher de César se esquece de o ser, investindo apenas no muito bem parecer.
Como se bastasse um equipamento sofisticado de ginástica para se poder ser maratonista e correr um pouco mais de 42 quilómetros, como se bastasse pôr um xaile negro aos ombros para se ser fadista.
A tatuada mentira mata a essência e dá-lhe uma nova e muito conveniente forma: a aparência; e viver é a arte de bem saber caçar as “bruxas” que esvoaçam e estão escondidas por entre os andores nas “sacristias” do social e do politicamente correcto.
Há alguns anos existia um prato vegetariano na carta de um restaurante que eu frequentava: Alho Francês à Brás. Não tendo qualquer pedaço de bacalhau na sua confecção, juro-vos que sabia mesmo a Bacalhau à Brás.
O bicarbonato de sódio quando utilizado na cozedura dos legumes acentua-lhes o tom verde.
Há iguarias que são demasiado aparentadas com as pessoas.
E para estas, o melhor antídoto é a intolerância.
Pode ser tomada diariamente, com ou sem alimentos, nas doses que forem necessárias e sempre à hora que dê mais jeito ao freguês.
Pode ser cara e pode ter alguns efeitos secundários, mas eu garanto eficácia total e o benefício de sonos altamente reparadores. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os átomos e as histórias

Maria Manuela, eu concordo contigo; de histórias, muito mais do que de átomos, se compõe e define a vida.
As histórias guardam em si afectos e tornam eternos, todos os instantes dos beijos, dos abraços e a enxurrada de emoções de tantos, e às vezes tão ridículos amores.
As histórias gritam palavras e fervilham com as sensações tatuadas aos nossos dias pela mão da gente com quem partilhamos a “estrada”.
As histórias são essa mesma gente.
As histórias riem e choram, por nós e como nós, dando expressão de verdade ao que alma sente.
As histórias guardam dores, desalentos…
E as histórias cantam, gritam vitória e oferecem-nos mar e caravela para que da nossa esperança nasçam as rimas de uma epopeia perfeita.
As histórias são rotas, são caminhos, destino vão ou verdadeiro; e as histórias jamais sacodem de si, o pó dos nossos passos por sobre todas as agruras dos caminhos.
As histórias são sonhos e são pedaços soletrados das nossas mais indispensáveis vontades.
As histórias encerram em si toda a ciência e são teoremas explicados da microbiologia da mais profunda fé.
Um dia, alguém entregará por mim, e por minha expressa vontade, os meus átomos à paciente nobreza de um sobreiro que sem pressas e durante quase uma década, tece no seu tronco, o tecto perfeito para o vinho com que os meus “netos” brindarão à vida.
Serei eterno oferecendo impulso ao extraordinário e único ciclo perfeito que é a própria vida.
Mas nesse dia, mais do que os átomos eternos na matéria, falarão de mim as histórias…
Por via da alma.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Mc Lusitânia

Depois da "Mc Bifana", do "Mc Caldo Verde", e mais recentemente do "Mc Prego", é de prever que o processo de "Mequização" da Lusitânia e dos seus ícones possa continuar com a criação da "Mc Alheira", o "Mc Pão-de-Ló", a "Mc Queijada de Sintra", a "Mc Sardinha Assada", o "Mc Bacalhau à Brás" e até as "Mc Favas com Chouriço".
Será na altura em que possivelmente já poderemos encher os copos e beber com a ajuda de uma palhinha descartável, um “Mc Tinto Carrascão”, um “Mc Branco Fresquinho”, um “Mc Vinho Verde” e até uma “Mc Jeropiga”.
Para o final um “Sundae Ginjinha de Óbidos” com molho de chocolate.
Tudo indica no entanto que este fenómeno não se restringirá à gastronomia, sendo possível que do novo programa da TVI, "Rising Star", possa sair uma "Mc Amália" especialista em "Mc Fado", música em que ao jeito das bifanas pré-mastigadas, a guitarra Portuguesa é substituída por um banjo que lhe oferece um toque country.
Não é de estranhar que nas festas de Santo António, em Lisboa, algum bairro popular possa trocar o cravo pela garrafa de Coca-cola espetada no manjerico, possa convidar a Dolly Parton para madrinha e substituir o grito tradicional por "a minha Mc Marcha é Mc Lindaaaaaaa".
E a tradicional quadra poderá ter o patrocínio da marca de hambúrgueres e dizer algo do género:
Anthony my dear friend
You are a saint and a star
To be Mac it’s a new trend
So fashion, magic and popular
No futebol não se admirem se surgir um “Mc Ronaldo” (servido em menu com a Mc Irina), um “Mc Mourinho” e até um “Mc Jorge Jesus”, sendo que este último, e por ser um pouco indigesto, será servido em pacotes com doses individuais ao estilo dos “Mc Nuggets”.
Convenhamos que há limites para tudo e um prego, tal como uma bifana, tem de ser comido numa tasca com todos os aromas que merecemos, e jamais servido por uma rapariga de touca e com o pin de um palhaço espetado na lapela que em vez do tradicional “boa tarde amigo, então o que vai hoje?” nos diga numa voz metálica “olá, bem-vindo à Mc Donalds”.
É contra-natura embora explique esta ânsia de ensinar Inglês às criancinhas que nem Português sabem.
Assim, força com a campanha “Salvem o prego das nossas tascas” e não nos deixemos “comer” por parvos.
Please.
Isto é, por favor.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Saídas limpas

Directamente da mesma sala onde há cerca de três anos José Sócrates anunciou oficialmente ao país que tinha negociado um excelente acordo com a Troika, Passos Coelho anunciou ontem que sairemos do programa de reajustamento no próximo dia 17 de Maio, de uma forma limpa, não deixando de evocar o 25 de Abril, que começa a estar para a política como o Santo António está para as desgraças do dia-a-dia; e tivesse estes meios D. Manuel I, e em 1498 teria usado iguais palavras de orgulho para anunciar a heróica chegada de Vasco da Gama à Índia.
Para além dos diferentes protagonistas donos do microfone há a registar que o então Ministro das Finanças Teixeira dos Santos, com ar esfíngico e mumificado, foi agora substituído por todo o elenco governativo onde se destacava o vice Paulo Portas com aquele crónico e muito confortável ar de quem acompanha um filho que tira e come burriés durante uma recepção chique, um ar ao jeito de “se eu estivesse no lugar de Passos Coelho faria bem melhor”, disfarçado com alguns forçados esgares de concordância com o discurso.
Dois/três partidos diferentes, dois governos e o mesmo destino na mesma sala; sendo que pelo meio estão três anos em que verdadeiramente nos “limparam” muita coisa, entre bens materiais e também a paciência. E este local do Palácio de São Bento acaba por concretizar a maldição expressa na toponímia de Lisboa, pois quem desce da Estrela e passa por São Bento acaba invariavelmente no Poço dos Negros, este último sem quaisquer conotações racistas mas prenúncio de muitos dias negros.
Os dias negros das dores do povo que são verdadeiros orgasmos para os poderosos “mercados” e que nunca têm tradução nas estatísticas: se um indivíduo tem quatro milhões de Euros e eu tenho zero, a média não deixa de dizer que cada um de nós tem 2 milhões.
As estatísticas e o valor dos juros da dívida de que falam os políticos, não expressam nunca as dores do desemprego, das carências alimentares, da degradação do Estado Social, da falta de perspectivas de futuro, da revolta dos reformados que aspiravam legitimamente a ter paz e dignidade como corolário de anos de trabalho, a dor da saudade e do desconforto de quem tem forçosamente de partir da terra e dos seus…
Essas, as dores, não chegam aos políticos por não conseguirem nunca furar essa camada autista e cega que os protege e que não lhes permite que vejam mais nada para além da ambição pelo poder.
O poder pelo poder por entre a camuflagem e o travestismo que transforma o vazio de carácter em tristes e bacocos heróis mediáticos.
Passados alguns segundos, as oposições reagem ao anúncio lendo longos textos escritos que comprovam que o guião estava pré-definido, e os partidos do governo aplaudem, tudo isso enquanto o país está entretido a festejar o campeonato ganho pelo Benfica, a subida de divisão do Penafiel, e enquanto as televisões se esforçam por encontrar e dar ao mundo as melhores e mais afinadas vozes cá do burgo, o que até nem está mal num assumido contexto de “dar música”.
O guião do poder em que todos assumem os seus papéis consoante a “cadeira” em que estão sentados, por entre esta sensação tão nossa de que ninguém realmente nos fala verdade.
A orfandade do povo contribuinte no vazio de uma esperança morta às mãos da incompetência e da impunidade dos políticos que fazem o permanente e despudorado apelo à amnésia da gente na hora de votar.
Saída limpa…
Eu gosto da expressão “saída limpa”, embora confesse que a designação “saída à Irlandesa” me resulta mais agradável pois sempre parece indiciar uma saída nocturna em Dublin ao som dos U2 a beber Guiness pelos pubs de Temple Bar.
Saída limpa…
Confesso que entradas e saídas limpas deste género fazem sempre com que me recorde daquelas pessoas que seguindo um velho hábito do Alentejo, têm os portados da sua casa a brilhar, mas só mesmo os portados, pois para lá das entradas e saídas limpíssimas pode existir uma casa com algum deficit de limpeza.
Saída limpa…
No meio de tanto lixo e tanta dor?