quinta-feira, 5 de junho de 2014

João Paulo

Era uma vez…
Poderia começar assim a história da nossa amizade a despontar no espaço forrado de muitas histórias da velha Livraria Escolar da D. Joana Ruivo, onde nos conhecemos.
Foi há mais de quatro décadas e numa altura em que acreditávamos poder copiar a heroicidade de “Os cinco”, e podermos descobrir tesouros algures nos subterrâneos que imaginávamos por debaixo das calçadas da nossa Vila Viçosa.
Não estávamos enganados quanto aos tesouros, e só a localização é diferente: eles existem, estão à superfície e têm expressão e vivem abraçados a todas as cumplicidades que nos fazem amigos.
Uma eterna amizade como as manchas de cereja que deixámos no nosso hotel de Edimburgo depois de os caroços nos terem caído da mão e de eu ter sugerido que limpássemos as nódoas com espuma de barbear; uma invenção de “McGyver Barreiros” que multiplicou por dez a área da mancha e que nos conduziu ao reposicionar estratégico das almofadas, não fosse a Escocesa que nos servia lentilhas ao pequeno-almoço, obrigar-nos a pagar-lhe um sofá novo e sem manchas.
Uma amizade carregada de boas memórias que soltamos tantas e tantas vezes, um pouco ao jeito da versão do “Terra a Terra Minha Gente” que organizaste para um dos teus aniversários, aí em meados dos anos setenta, em que tal como os concorrentes que no concurso da televisão davam a volta por um distrito e depois respondiam a perguntas sobre as terras que tinham visitado; nós demos a volta ao quarteirão entre a tua travessa e a Praça, e respondemos depois a questões sobre o que tínhamos visto.
Lembras-te? Eu fazia par com a Didi e fiquei em segundo lugar depois de responder à pergunta:
- Que letras estão escritas no marco da pedra à entrada da Rua de Santo António?
Estava lá a sigla “PUP” (Partido de Unidade Popular).
Outros tempos.
E as nossas muitas memórias acabam sempre por soltar-se nas conversas que não têm dia nem hora marcada, que até podem ter meses de intervalo, mas que às vezes duram horas; as conversas em que falamos de nós, dos projectos, da vida, das dores, das doenças reais e imaginárias, dos médicos, das cirurgias, dos nossos pais, das viagens, dos Óscares, dos Festivais da Canção, do Atletismo e das medalhas nos Jogos Olímpicos, da política, das novidades de Lisboa ou de Vila Viçosa, da necrologia, das alegrias, das festas e dos amores… sempre, mas mesmo sempre, por entre dezenas de boas gargalhadas.
Uma amizade em que podemos ser nós mesmos e que beneficia da não existência da reserva de quaisquer territórios tabu, tal qual as muitas cidades da Europa que visitámos juntos e em que nem um metro quadrado ficava por “bater”. Os pés sofriam e às vezes ficavam com bolhas, mas a alma e os olhos ficavam regalados.
Uma amizade para mim essencial e que tantas vezes foi GPS na hora das minhas grandes escolhas ou dos grandes momentos: quando entrei para a Faculdade explicaste-me tudo tão em detalhe que eu fiquei a conhecer a rede de autocarros da Carris e ao chegar à Reitoria até sabia qual a banca para adquirir o Selo Fiscal para a matricula; as ajudas perante as hesitações na altura de mudar de emprego ou de funções; os benefícios e os males de amor…
Uma amizade feita de um caminhar conjunto e feliz, um pouco como as nossas viagens para Vila Viçosa num tempo em que não existiam auto-estradas e tu gravavas cassetes para que pudéssemos ir escutando pelo caminho todas as canções da moda, sempre que a fita não resolvia enrolar-se no meu auto-rádio portátil com estilo de marmita.
Assim, era uma vez…
Dois amigos, dois românticos inveterados, dois sonhadores, dois teimosos com algumas muitas manias…
Eu e tu e uma amizade que é para mim um tesouro, que é parte integrante do todo essencial da minha existência; uma amizade sem a qual eu não seria eu e seria objectivamente bastante mais pobre e pior do que aquilo que sou.
E a vida é tão mais fácil quando nos oferece amigos como tu.
JP, muitos parabéns.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O meu reino

No cumprimento do meu vício diário de consultar as capas dos jornais e das revistas na “Banca do Sapo”, apercebo-me que para lá da eterna novela “O povo que se lixe que o que a gente quer é tacho”, em que ninguém parece “Seguro” e todos parecem querer ver-se pelas “Costas”; e para lá da série “Arreda a Constituição” que a gente quer escancarar as “Portas” para irmos a “Passos de Coelho” até à suprema austeridade; as apresentadoras de televisão só têm duas actividades possíveis, e de que quando não estão perante as câmaras a apelar ao “consumo” dos intermináveis números oitocentos e qualquer coisa, para ganhar dez, vinte ou mais mil Euros, estão a namorar ou à caça de marido.
Trocam de maridos de uma forma mais rápida que as mulheres do Minho quando dançam o vira.
Não entendo esta obsessão até ao momento que me apercebo que em Espanha, uma antiga colega destas ditas já se prepara por ser rainha num processo de ascensão real pela via genital, a mesma que transforma andebolistas em Duques. Fica tudo explicado nesta caça aos reis muito ao estilo da caça aos elefantes… brancos, claro. Que quem conheça a noite de Lisboa bem me entenderá.
E lá vem então a realeza e a história de uma transição que é difícil de entender para um republicano como eu que só admite a monarquia no perímetro das feiras, sendo como sou um fã do Rei das Farturas e da Rainha dos Frangos e do Choco Frito.
Até tenho uma admiração pelo Rei Juan Carlos e pela sua postura na defesa da liberdade aquando do golpe de Tejero Molina em 23 de Fevereiro de 1981, mas tudo o mais me parece demasiado surreal.
E pelo meu republicanismo vou pelos jornais e pelas revistas até chegar a uma selfie dos jogadores da Selecção Nacional de Futebol com o Presidente Cavaco Silva, e a uma declaração da Primeira-Dama: “Sinto-me uma Embaixadora da Língua Portuguesa”.
Só pode ser da língua estufada e acompanhada de puré de batata com bom travo a noz-moscada...
Com “presidentes” e “presidentas” assim até eu já nem sei o que é pior.
Não aguento mais após este pontapé nas minhas convicções republicanas e resolvo arrumar o i-pad e levantar-me para tomar um duche e esquecer as notícias.
Reparo então que no silêncio da noite alguém me colocou por debaixo da porta da rua, um convite impresso a convidar-me para um congresso de três dias no Estádio do Restelo onde será revelado “Quem será o novo governante da Terra”. Com o patrocínio das Testemunhas de Jeová.
Diz também o panfleto que “O Reino está próximo”.
Se eu fosse uma apresentadora de televisão era até capaz de exultar com esta notícia que bem poderia ter sido escrita pela Princesa Letícia, mas como não sou, fujo acelerado para debaixo do chuveiro e não perco tempo em despachar-me para ir governar a vida.
Bolas…
Se não for eu a tratar de mim, quem o fará no meio deste desgoverno indutor de depressões graves e crónicas?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Esse mimar eterno que nasce das palavras

Acordar em Vila Viçosa a ouvir os pavões e as badaladas do relógio da Torre do Paço, tomar o pequeno-almoço com vista para o Terreiro desse mesmo Paço, percorrer as estradas do Alentejo e sentir todas as cores da primavera, tomar o café do pós almoço em Lisboa com vista para o Parque Eduardo VII, o Marquês e o Tejo, lanchar uma limonada no Chiado à conversa com um bom amigo; são privilégios que não se têm todos os dias e dos quais eu ontem pude usufruir.
Em dia da criança, eu fui assim e definitivamente, um petiz muito mimado pela sorte na magia de todas essas coisas.
Mas a sorte também se procura e sobretudo se treina…
Por força da sessão de autógrafos na Feira do Livro, tive de deixar Vila Viçosa mais cedo do que é normal nos domingos dos fins-de-semana que por ali passo, e acabei a almoçar sozinho num restaurante na zona do Marquês.
À minha frente e sentados num sofá em meia-lua devidamente colocado junto de uma mesa com a mesma forma, estava uma família constituída por pai, mãe e filho, este último com uma idade algures pelos doze anos e sentado no meio dos seus progenitores.
Não pude deixar de reparar no almoço animadíssimo desta família…
O filho estava concentrado num i-Pad e com os ouvidos tapados por uns auscultadores, de forma que não o ouvi dizer absolutamente nada; quanto aos pais, não fosse a funcionária ter enfrentado alguns problemas na hora de fazer o pagamento com Multibanco, e teriam saído dali sem dizer uma palavra um ao outro.
Um almoço de família em dia da criança?
Possivelmente sim mas para cumprir calendário, pois se um tivesse ido almoçar a Viana do Castelo, o outro a Faro, e ainda o outro a Elvas; talvez se sentissem mais acompanhados uns pelos outros por mérito de alguma possível mensagem escrita que enviassem pelo telemóvel a dizer algo do género:
“Estou a comer pizza”.
Perante estes biombos de silêncio, tal frase já seria uma autêntica algazarra nesta família que muito mais do que uma família, me parece uma “plataforma logística de vida em comum” de onde às vezes nascem surpresas menos agradáveis.
Achei interessante a forma e a disposição com que estavam à mesa, pelo facto de eu ter tomado o pequeno-almoço com os meus pais exactamente da mesma maneira, só com que vista para a janela da nossa sala que se abre ao Terreiro do Paço.
Sem i-Pads, i-Phones, televisão e mais nada a não ser as palavras, não nos calámos nem por um segundo, como é aliás típico nestas nossas refeições onde nunca faltam assuntos que têm a ver connosco e com os dias que vamos vivendo.
As nossas palavras que não são apenas ruído vago e sem sentido para preencher o silêncio, mas que são a expressão sonora de muitos afectos e são os elos que nos ligam e ligarão eternamente.
Pelas nossas palavras à mesa, ou noutras muitas situações, quanta herança passou ao jeito de uma “Transferência Genética”, quantos valores se transferiram de uma forma natural e espontânea, quantas dores e medos se apagaram, quanto riso, quanto eu cresci nesse privilégio de nunca deixar de sentir tão perto o infinito amor dos meus pais; esse tanto amor que me oferece o privilégio de ser uma eterna criança.
Pelas nossas palavras que sempre encerram os nossos “sentires” e tantas memórias, se foi criando a magia que tempera de especial todas as coisas banais de um dia simples: um acordar ao som dos pavões dos Jardins do Paço, uma vista para o Tejo ou uma limonada entre amigos num lanche no Chiado…
Tudo isso e o treinar da minha sorte, eu, um petiz super mimado.
Que Deus me conserve.

domingo, 1 de junho de 2014

A raiz de milhões de flores

No Portugal dos anos sessenta e setenta, a vida era tudo menos fácil para a maioria das pessoas, recordo-me bem.
Aqui por casa, o meu pai esteve desempregado por um longo período e foi preciso "esgravatar" muito para que nada nos faltasse, com a minha mãe a trabalhar objectivamente por dois e a esticar o dinheiro para chegar para quatro.
Nunca nos faltou nada e muito também pela ajuda da família e de muitos amigos.
Mas um dia o meu pai arranjou emprego na mesma instituição onde ainda hoje trabalha, a Fundação da Casa de Bragança, e no serão do primeiro dia de trabalho, já depois de nos deixarem a nós a dormir na nossa casa à Rua de Três, os meus pais foram em silêncio até à porta da Igreja da Senhora da Conceição, no Castelo, rezar e agradecer o trabalho e a força recebida durante esses longos dias difíceis.
A minha mãe caminhou então descalça desde a nossa casa, faz hoje precisamente quarenta anos.
Eu tive conhecimento desta história muitos anos mais tarde, já adulto, beneficiário então dos muitos frutos semeados pela fé dos meus pais sobre as calçadas frias de Vila Viçosa algures numa noite de primavera; ao jeito dos muitos frutos que a sua fé semeou em mim e no mais profundo do meu ser.
E a fé é o segredo de tudo aquilo a que chamamos e parece magia.
Hoje é dia da criança e num tempo que parece querer demonstrar que são genéticas as dificuldades neste país, quis deixar aqui esta pequena história da minha infância, como mote para a esperança.
Porque por sobre todos os dias tristes e duros, a fé e o querer conseguem sempre fazer despontar milhões de flores.
Desistir é que não vale.
Digo-o eu com toda a legitimidade, ainda hoje e sempre, a criança mais feliz do mundo e com os melhores pais do universo. 

sábado, 31 de maio de 2014

Um passeio com “Cara de Mel”

Só a dona da pequena mercearia onde eu antes comprava os iogurtes para o pequeno-almoço parece ter resistido à “cirurgia plástica” que mudou a face da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.
Até os empregados da Cister já não são os mesmos que antes comentavam connosco as notícias do jornal durante os pequenos-almoços de domingo que pegavam sempre com a hora do almoço, e onde tinha sempre lugar cativo o saudoso José Medeiros Ferreira. Mantém-se na “velha” pastelaria a memória do Eça, e num esforço grande da minha memória, ainda consigo ouvir o eco das nossas gargalhadas quando comentávamos as proezas vocais da funcionária que nos vendia as peúgas na Poli, o pronto-a-vestir quase em frente à Imprensa Nacional; criatura que insistia em “arfar” salmos, dado que era ela dotada de tanto jeito para cantar como eu de arte para fazer ponto de cruz.
É tarde de sexta-feira e eu vou à missa das 18.30 horas na Capela de Monserrate, às Amoreiras. Há sol, há chuva lilás dos jacarandás e eu não resisto a um passeio lento e ao sabor das memórias por sobre as calçadas minhas cúmplices na minha chegada a Lisboa há precisamente 30 anos.
Deixo o carro no Camões e faço o rendilhado caminho pelo Bairro Alto que me faz sair na esquina da Rua D. Pedro V com a Rua da Rosa, ali junto à Pensão Londres e à Padaria São Roque, que tinha dos melhores Pães de Deus de Lisboa, uma tentação no meu regresso a casa depois de subir pelo Elevador da Glória.
Faltam-me as tascas, o talho, o lugar da fruta que cheirava a morangos maduros por esta altura…
E quando chego ao Jardim do Príncipe Real, falta-me o Professor Agostinho da Silva por ali sentado num banco, nunca se negando a um fantástico e sonoro “Bom dia”.
Agora há turistas aos milhares, lojas de design, um grupo de rapazes Espanhóis em comemoração de uma despedida de solteiro que se esquecem de que nós Portugueses, ao contrário deles que nunca nos percebem, entendemos todo o tipo de asneiras que eles soltam em Castelhano…
A rapariga que passou também estava claramente a pedi-las.
E ninguém dos que por ali estão poderá imaginar o que foi aquela rua aquando das explosões das bombas das FP-25 na Casa de Macau e na Associação dos Proprietários Lisbonenses. Para mim que tinha acabado de chegar do Alentejo, juro que teve ares de guerra mundial.
Espreito para o Jardim Botânico e não dispenso olhar a casa da minha velha cantina onde fui submetido a cinco anos de tortura com solha frita e um peixe amarelado decorado com molho de tomate.
Nunca pensei que um dia teria saudades, assim a olhar para lá.
Continuo calmamente, bebo o tal café na Cister e chego depois ao Rato e às Amoreiras.
Na missa por alma do Fábio, o padre fala da necessidade de ser alegre e acho-lhe graça quando aplica a expressão “Cara de Vinagre” como algo que nenhum católico deverá ser portador.
Os anjos recrutados pelo Céu falam-nos às vezes ao fim da tarde. E dão-nos bons conselhos.
Já corre uma brisa fresca quando faço o caminho de volta e por isso acelero o passo, não deixando porém de sentir saudades de um rissol quente comido na cafetaria ao lado do Fidalgo quando nos preparávamos para dar um salto a qualquer um dos bares do Bairro Alto que abriram portas com a liberdade para nos dar esse prazer supremo do alinhamento da vida com as vontades mais puras expressas pela alma.
O privilégio de nunca ter de negar o verdadeiro amor que se sente.
É quase Santo António e os homens penduram agora balões coloridos enquanto os turistas parecem alucinados na ânsia de registar tudo em fotografia.
Eu chego ao carro a sorrir e com uma despudorada “Cara de Mel”.
Afinal matei as saudades de tanta gente, das ruas e sobretudo de mim, nos anos passados num percurso único sem o qual eu não seria eu.
Saio do parque com o carro e desço a Rua do Alecrim olhando o Tejo e a outra margem; e juro a mim próprio: quando algures a morte me oferecer asas, raro será o dia em que não virei até aqui a matar saudades de Lisboa ao fim da tarde.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Vida e liberdade

A terra é muito mais de quem a pisa descalço, do que de quem a assinala como sua na formalidade de escrituras notariais, delimitando-a com cercas, grades e marcos…
O amor é usufruto de quem deseja, de quem beija e de quem abraça; muito mais do que de quem segue todas as regras e modelos, e se auto-escraviza “atando-se” aos grilhões das convenções…
O mar é muito mais do pescador que lhe beija as ondas todos os dias no instante de puxar as redes, do que de quem o atravessa veloz no conforto de uma aeronave que bate recordes…
O sonho é muito mais daquele que quer do que daquele que pode…
A vitória é daquele que corre para chegar à meta e nunca daquele que vive sentado na meta, confortável e feliz, vendo passar o tempo no cronómetro que não lhe oferece quaisquer desafios…
A poesia é sempre do poeta, é daquele que escuta as palavras que lhe são segredadas pela sua própria alma, e nunca daquele que consegue comprar todas as palavras que um dia foram ditas e escritas por todos os poetas do universo…
A fé é património daquele que espera e nunca daquele que acredita já ter chegado…
O canto e a música são de quem os sente…
São os olhos que agarram o sol e se fazem donos de um poente…
O riso é gratuito e é de quem o faz de verdade…
E a vida…
Sempre, mas sempre…
É daquele que sabe dizer sim e não, tornando-se fiel à sua liberdade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os pés

Há doenças raras que tornam as pessoas super especiais.
É um rapaz único e raro que brinca hoje à minha frente enquanto estou na sala de espera de um hospital. Há espaço e o pai ensina-o a caminhar começando pelo princípio: a forma correcta de colocar os pés.
A criança que terá uns três anos já dá os primeiros passos, e procura-me com o olhar e o sorriso na hora de os celebrar abraçado ao pai que a cada pequeno conjunto de passos lhe oferece um beijo.
Percebo que esta criança vai um dia caminhar sozinha e feliz, percebo-o na sua alegria, no amor que a envolve e também, e muito, na perseverança do pai.
Sinto-me pequeno perante tanto amor assim à solta à minha volta nesses instantes em que aquilo a que tantas vezes chamamos problemas adquire o estatuto de ridículos pedaços de quase nada.
Não tarda a que o rapaz siga para a consulta montado agora no carrinho onde descansa, e eu faço-lhe adeus.
Juro que sei que ele vai andar.
Estou em Coimbra e a Universidade atribuiu hoje o título de Doutor Honoris Causa ao Dr. António Arnaut, o mestre que criou em Portugal o Serviço Nacional de Saúde.
No discurso de aceitação, o jurista de Coimbra, por entre muitas palavras sábias, refere as suas origens na Cumieira, uma aldeia da zona de Penela e uma terra onde segundo ele “havia muito poucos sapatos, mas havia pés e por isso se caminhava”.
E nós para podermos caminhar, precisamos muito mais dos pés do que dos sapatos.
Um mesmo dia, e os pés e os passos a virem ter comigo algures à beira do Mondego.
E duas lições na velha Coimbra…
O amor faz-nos caminhar por sobre tudo e por sobre todas as adversidades.
Podem tirar-nos os sapatos todos que mesmo assim não nos conseguirão deter. Caminharemos descalços… e sabendo que mesmo descalços, também conseguimos dar pontapés, na pouca sorte e nos imbecis que nos descalçam.
Quem é que ousa dizer que os dias mais simples não falam connosco?