sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ainda se escrevem cartas de amor…

Meu amor,

Num destes dias redesenharemos a lua no exíguo espaço de um abraço, e seguiremos pela noite na rota do seu brilho mais intenso, até aquele instante onde já não entram as palavras, e onde só os olhares conseguem ser fiéis e oferecer verdade a tamanho amor.
Aí, entregues os lábios a um longo beijo, e libertas as mãos do férreo peso das Histórias, entrelaçaremos mutuamente os nossos dedos, ao jeito da alma; marcando o ponto zero de um tempo que será o da nossa própria e única História.
Eterno: contigo, será o tempo cravejado de poesia.
E chegados assim juntos às manhãs de todos os dias, por entre o aroma do café e o conforto de um pão quente com cheiro a lenha de Alentejo, os dois olhando o mar para lá da vidraça que empalidece com o nosso respirar apaixonado; nós galgaremos horizontes como pássaros livres voando por sobre a racional escravidão dos limites.
Eu, tu e esse teu olhar irmão do céu que sabe incendiar-me a face do prazer dos mais rubros e intensos sorrisos.
Reencontro-me, no destino e na vontade, na esperança e na vida, quando te olho nos olhos… e tudo faz muito mais sentido.
Reencontro-me… às vezes tão-só numa memória e na saudade.
Meu amor, eu juro-te que num destes dias redesenharemos a lua…
Apenas porque necessitamos dela para nos alumiar nas noites do nosso caminho.
Afinal, a lua é tão-só um brevíssimo detalhe para alguém que como eu, amando-te assim, já é dono do universo inteiro.
Um beijo e esse amor infinito.
Teu,
Francisco

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Dia de Corpo de Deus

Não sei se têm a noção de que hoje, dia 19 de Junho de 2014, não fora a má gestão e a incompetência de quem nos obrigou a chamar a Troika (e não vou aqui apontar directamente os culpados pois esta discussão acaba sempre ao estilo Madalena Iglésias versus Simone de Oliveira, consoante as simpatias partidárias); mas hoje, dizia, estaríamos a esta hora a regressar a casa depois do gozo de um Feriado Nacional, o Dia de Corpo de Deus.
Os católicos talvez tivéssemos ido à missa ou à procissão, e os não praticantes, ateus, agnósticos e afins, talvez tivessem acudido a algum areal da Caparica, já que o dia esteve muito convidativo para uma ida até à beira-mar.
Já que nos acusam tantas vezes de memória curta, aqui fica pois esta menção que contraria esse princípio.
Eu não me esqueço, porque tenho memória; mas esperteza não devo ter muita pois não entendo a importância estratégica de tornar laboráveis estes dias que há muito eram festivos e de descanso.
E juro, não cheguei hoje a casa com a sensação de uma coroa de louros no alto da cabeça por ter ido ajudar a salvar o meu país da bancarrota, um herói ao estilo de Camões agarrado ao manuscrito de “Os Lusíadas” depois de um naufrágio.
Se vocês fizerem um dia um Pudim Mandarim, experimentem a juntar ao preparado, duas claras batidas em castelo. Dizem que o pudim ganha uma consistência idêntica aos pudins de ovos de confecção caseira, o que é claramente mentira. O selo de Mandarim continua lá na consistência e no sabor.
Abolição de feriados?
São “claras em castelo” para disfarçar o problema que continuará lá eternamente.
Mas como sou um homem de memórias e para não deixar passar em vão este dia, cheguei a casa e não dispensei procurar o ano da minha primeira comunhão, já que era esta a data para tal celebração em Vila Viçosa.
Foi no dia 21 de Junho de 1973 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição numa missa celebrada pelo saudoso Padre Reia e sendo minha catequista a também saudosa D. Mimi Lisboeta.
Tenho diploma, medalha no fio e uma foto “impublicável”.
Todos envergando um hábito branco, recordo-me de termos feito o percurso de São Bartolomeu para a Igreja de Nossa Senhora, no Castelo, dois a dois, de mão dada, sendo meu inevitável companheiro, o Manuel. Quem mais poderia ser?
A fila era imensa e atrasava-se sempre porque um de nós perdia os sapatos e tinha de se agachar para voltar a calçá-los; o dinheiro nunca era muito, nós crescíamos rapidamente e as mães compravam sempre os sapatos com alguma folga.
Depois da missa fomos todos até ao refeitório do Seminário de São José beber um cacau quente que era feito com um preparado comprado na Pérola Calipolense e que me recordo ser fantástico.
Foi assim há 41 anos e era feriado por ser Dia de Corpo de Deus.
Hoje já não é feriado mas eu quis terminar o dia a recordar o porquê de já não ser, demonstrando de caminho que podem levar-nos as festas, os subsídios, as férias… mas há duas coisas que nunca nos levarão: a memória e a vontade de mudar um destino tecido pela mediocridade.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A nossa terra

Tudo na vida é relativo, e por isso não estranhei que o motorista de táxi que me levou esta manhã do hotel em Ponta Delgada até ao aeroporto, ao saber que eu ia apanhar um avião para a Terceira e não para o continente, me tenha comentado:
- Então o senhor ainda vai até às ilhas.
Num processo em cadeia que vai no sentido do maior para o mais pequeno, o território onde se habita é assim uma espécie de “continente”, e os que se lhe seguem são as ilhas.
E para as ilhas ia também o jovem jogador de uma equipa de futebol da Madalena do Pico, que regressando a casa vindo de Boston, se encontra atrás de mim na fila para o controlo de segurança, a carpir as mágoas junto dos seus colegas, não se conformando com o regresso à terra “onde nada acontece e a noite é para dormir”.
Sentirá já saudades dos bares que frequentou na terra do Cheers, “aquele bar”.
Na ilha Terceira vive também a rapariga que me serve um café pela hora do almoço na pastelaria em frente à Sé, e que nem de propósito partilha com a sua colega de balcão e com uma cliente pelos vistos sua conhecida, o triste que é viver por aqui e encontrar todos os dias as mesmas caras.
As outras não concordam com ela e por isso ela vai extremando argumentos até dizer que ao ouvir falar em filas no IC19, até sente inveja porque isso é sinal de muita gente.
Haja gente com mau gosto.
Há então uma outra cliente que se mete na conversa e a tenta demover da vontade de ir para filas de trânsito, dizendo-lhe que vive na margem sul e de que já não suporta o trânsito na Ponte 25 de Abril.
Mas a rapariga segue pelas suas convicções.
É uma motorista de táxi que me traz de volta ao Aeroporto das Lajes vindo de Angra do Heroísmo. Metemos conversa e eu digo-lhe que a terra dela é fantástica.
Agradece e comenta:
- Não me vejo a viver em qualquer outro sítio. Este é o meu lugar. Já tive de reconstruir a minha casa após o terramoto de 1980 e voltaria a reconstruí-la mil vezes se tal fosse necessário.
E fala do sol e da forma como a luz vai alterando os tons de verde sobre a Serra do Cume.
Pego nos argumentos dos jovens com quem me cruzei pela manhã e questiono-a sobre a asfixia que se pode sentir a viver numa ilha pequena.
Sorri como que esperando a minha questão, previsível e com a qual tantas vezes se debate. Atira-me decidida:
- O meu marido foi o melhor homem que já viveu algum dia sobre a Terra. Partiu há quatro anos de morte súbita e deixou-me com este táxi e dois filhos que eu vou acabando de criar. Nunca importa o tamanho do sítio onde vivemos porque a nossa terra será sempre o local onde fomos ou somos felizes. O meu é aqui por entre as memórias de vinte anos e falando tantas vezes com o meu marido à medida que o sol me muda as cores de um caminho tão previsível e que faço tantas vezes.
É a minha vez de sorrir.
Pois é… o amor faz sempre a diferença, dá-nos pátria e às vezes até de uma ilha consegue fazer um continente.
Os outros dois “meninos” ainda não tiveram tempo de aprender a lição.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os caçadores de piolhos

Um dos desportos mais em voga é a caça ao piolho, designação que eu atribuo aquele hábito tão lusitano e com raízes na inveja pura e dura, de conseguir descobrir algo menos positivo, um “piolho”, por entre uma amálgama infinita de excelentes atributos; dando então de seguida um desmesuradíssimo destaque a esse pequeníssimo detalhe que passa a ser o núcleo de qualquer apreciação.
Um exemplo:
- O Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo.
- Sim…mas já viste como a irmã é pirosa?
Outro:
- O Jorge Jesus foi campeão pelo Benfica.
- Sim filho… mas a mascar pastilha daquela maneira…
E ainda outro:
- A Ana Moura tem uma voz fantástica.
- Sim… mas aquele vestido semi-transparente do concerto do Coliseu…
Como se a forma de mascar pastilha ou a existência de uma irmã “pimba” fossem essenciais para ganhar jogos de futebol ou um vestido fosse fundamental para se afinar um fado.
Nesta caça, tal como em todas as outras, há também aqueles que regressam sem peças conseguidas, mas mesmo assim nunca se atrapalham e deixam algo no ar:
Um exemplo:
- A Julia Roberts é muito gira.
- Sim… mas tem ali qualquer coisa que eu não consigo explicar e que não me agrada.
Outro exemplo com algumas diferenças:
- O Mourinho é o melhor treinador de futebol do mundo.
- Sim… mas consta que para chegar onde chegou houve ali um não sei quê.  
E às vezes já não se fala sobre mais nada a não ser “o não sei o quê” destas criaturas.
Tal como eu já referi, esta prática da Caça ao Piolho tem raízes na inveja e também no assumir da postura de que na vida andamos todos a competir uns contra os outros; e elogiar alguém é então dar trunfos ao adversário.
E trunfos que podem ser decisivos.
Esta prática tem também alguns contornos de âmbito religioso e é muito treinada em sacristias e sucedâneos, pois na ânsia de chegar ao Céu rapidamente e até antes de morrer, qualquer beata gosta de se elevar ao estatuto de santidade, empurrando os outros para um nível um pouco mais abaixo atando aos outros os atributos mais negativos e cabeludos, ao jeito de pedras para que se afoguem rapidamente no mar.
Estou certo de que todos temos exemplos…
Ontem ao colocar no Facebook a foto que tirei em Petra ao lado de um velho Beduino que tocava um instrumento feito de pele de cabra e com uma crina de cavalo, houve logo alguém que comentou:
- A tua T-shirt ocidental é que não fica bem.
A minha T-shirt por acaso até era um pólo passou a ser o elemento mais importante da foto… e não precisam de ir ver quem fez o comentário porque eu já o apaguei.
Feito o meu diagnóstico deixem que vos diga que a malta anda a precisar da terapia do elogio e do positivo no sentido de acabar com esta prática infeliz e ridícula da Caça ao Piolho.
Tendo no entanto presente, e ressalvo, que aquilo que for seriamente negativo deve ser referido e combatido com veemência. Mas apenas o que valer a pena por ser importante.
É que se formos reler a História e já que falei de religião, repare-se que Jesus Cristo combateu seriamente os grandes pecados da humanidade; e nos outros detalhes era muito mais de dar e receber beijos do que de atirar pedras.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A verdadeira história do Tó Zé e da Fátinha

Nos tempos longos de viagem pelo deserto da Jordânia nas férias da semana passada, foi nascendo uma história cuja semelhança com quaisquer personagens reais, a existir, será pura coincidência.
O nosso grupo de quatro, habitando no T0 na traseira do autocarro, deu assim argumento a esta história que bem poderia resumir os quatrocentos e noventa episódios de uma telenovela da TVI.
Eu limitei-me a fazer as rimas.
Divirtam-se e não pensem mais em futebol.

Uma história de encantar
Que do amor não prescinde
O Tó Zé de Gondomar
E a Fátinha de Ermesinde

Estilo estranho beto rural
Sempre, sempre numa boa
Assim entre o "Pão sem sal"
E a "kitada" Ana Malhoa

Roupa três números abaixo
Para ficar apertadinha
Não se come nada do tacho
Só se ingere uma frutinha

E assim com grande astenia
São gente de poucas falas
Com muito pouca alegria
A arrastarem grandes malas

A Fátinha já mexeu na boca
Que aquilo tresanda a bótox
Os dentes alinham com a roupa
Nas aplicações de inox

A sua "cumbersa" é tão estranha
Que até parece irmã do par
Assuntos? Nada se apanha
O interesse é de vomitar

Mas já sabem como é
Felizes para sempre serão
Duas pedrinhas sempre em pé
Com menos tino que um limão

A insustentável “beleza” do ser

Ter o atraso de uma hora no voo que me levará do Aeroporto de Lisboa até Ponta Delgada, e partilhar a Sala de Embarque com uma "multidão" de Portugueses que vai de férias para Cancun, deixa-me na dúvida se estarei na fila do casting para as novas divas do Finalmente Club ou então no desfile das novas atracções para o Carnaval de Torres Vedras.
Cada modelo é pior do que o anterior, e ao meu lado está uma que terá um metro e meio, mas que jurou a ela própria que um dia teria a altura da Claudia Schiffer.
Com um vestido comprido colado ao corpo e uns sapatos que lhe exigiriam aulas de circo no Chapitô, a criatura desloca-se com a classe de uma pata choca e a desenvoltura de uma lesma.
Surreal.
Vendo esta performance das Portuguesas, as Brasileiras que não são de se ficar e vão em passo apressado para o seu voo numa porta mais à frente, começam instintivamente uma guerra ao estilo "Noite de Nomeações na Casa dos Segredos" com as pontuações a serem inversamente proporcional ao tamanho das saias.
E com direito a doping, leia-se bótox.
Tento abstrair-me e olho para os monitores de TV. A RTP está em directo do Marquês de Pombal e alterna cantores pimba em playback com pares de mulheres aos saltos por detrás deles, com apresentadores a repetirem números de oitocentos e qualquer coisa que dão Euros.
Ainda não entendi porque é que eu que sou farmacêutico e irei preso se for à televisão publicitar um produto para combater a diarreia, e está gente passa impunemente os dias a anunciar esta "treta" como sendo a solução milagrosa para os problemas financeiros de pobres e desempregados.
Numa estação pública.
Peço aos Céus que comece o embarque e me tire deste inferno, e não tardo a ser ouvido, desculpando até o pontapé na língua pátria dado pela criatura que na instalação sonora tenta separar os passageiros de Ponta Delgada daqueles que seguirão para Toronto, pondo ordem na porta "Córenta e dois".
Jorge Jesus, amigo, tu estás a fazer escola.
Mostro o Cartão do Cidadão e já na manga e em fila para o avião reparo numa criatura XXL a que o peso não conseguiu demover de usar um vestido sem costas onde se vislumbra uma tatuada Estrela de David a ser literalmente esmagada por duas, por certo "Palestinianas", dobras de banha que pendem de um e de outro lado do pescoço.
Junto ao seu companheiro e a falar alto apercebo-me que em cada cinco palavras, quatro são asneiras e das feias.
Tinha de ser...
O "Concurso de Beleza" Portugal - Brasil terminou e eu levo à minha frente a "Primeira-dama de Horror" que também será candidata a "Miss Fotofobia".
Bolas!
Pois… por falar em bolas; veio depois o Pepe, a Austeridade Merkeliana de resultados e…
Ele há dias...
Meninas Sónia, Margarida e Patrícia, mas que bem que se estava no deserto na Sexta-feira, dia 13, ainda que só a comer fruta. 

domingo, 15 de junho de 2014

O Chiado nunca falha…

Para quem chega a Lisboa depois de uma semana na Jordânia e carrega em si esse tão legítimo e luso sindroma de privação de uma Bica e um Pastel de Nata, nada melhor do que esquecer o cansaço da viagem, e, depois de ter devolvido a roupa pejada de sal do Mar Morto à neutralidade da água que passa pela Máquina de Lavar, ir até ao Chiado, cumprindo esse “divino” prazer tão queirosiano e terapêutico no que à cura das saudades diz respeito.
Assim fiz ontem pela tarde, e com dúvidas sobre se o calor do deserto tinha ficado apaixonado por mim e me tinha seguido até casa.
Entre turistas alucinados com a temperatura e a oportunidade de muitas compras, e enquanto eu imitava os passos do Carlos da Maia e do João da Ega, o Chiado permitiu cumprir mais uma vez esse prazer de nunca deixar de encontrar alguém conhecido e dar dois dedos de conversa.
Conhecemo-nos há mais de quarenta anos, fomos colegas de escola até ao 12º ano e eu não a via há cerca de duas décadas.
Eu a descer e ela a subir, cruzámo-nos algures entre o Loreto e a Brasileira, e eu reconhecia-a de imediato, num misto dos contornos do seu rosto e também do andar que ainda mantém igual ao de antes.
Cumprimentei-a usando o seu nome.
Ela olhou-me, teve não mais de dez segundos de hesitação em que terá por certo pensado:
“Mas quem será este barbudo que até conhece a minha graça?” …
E cumprimentámo-nos de seguida com alegria pelo nosso reencontro ao fim de tantos anos, não tendo sido difícil pegar na conversa pois fomos sabendo notícias um do outro pelos muitos amigos comuns.
Estivemos à conversa uns bons cinco minutos, e depois lá seguimos os nossos caminhos, tendo eu finalmente saciado na Brasileira, a minha enorme vontade de uma Bica.
Ali, olhando os turistas no seu delírio em manter para a posteridade uma infinita variedade de poses com o Pessoa sentado e “moldado” no bronze pelas mãos de Mestre Lagoa Henriques, temperei de memórias, muito mais do que de açúcar, o prazer do meu café.
São as pessoas, muito mais do que os lugares e qualquer outro detalhe, que fazem a nossa História, e por mais décadas que passem, quem se agarrou a nós pela cumplicidade de tantos e infinitos afectos, jamais partirá.
Sabe bem “envelhecer” descobrindo que somamos riqueza nas pessoas que as décadas de vida nos oferecem, uma riqueza infinita e perpétua como o incalculável e imenso prazer da amizade.
O Chiado nunca me falha e dá-me sempre muito mais do que apenas bom café.
E dou por mim a sorrir a assobiar enquanto desço a Rua Garrett.