segunda-feira, 23 de junho de 2014

O céu que cabe todo no teu olhar

Há muito que ouço trovejar, e por isso não estranho a intensidade dos relâmpagos quando às escuras me aproximo da janela da Cozinha que me oferece vista desafogada até ao Tejo e ao seu irresistível encontro com o mar.
É um espectáculo único, este dos raios a tentarem contrariar a noite, iluminando assim intensamente o breu que é costumeiro palco exclusivo para o brilho das estrelas nas suas muito arrumadas e muito bem conhecidas constelações.
Um espectáculo ao jeito da melhor sessão de fogo-de-artifício em qualquer romaria, ou então do disparo do flash de uma hipotética câmara fotográfica gigante e com direito a Guiness Book of Records.
A noite de verão é denunciada aqui apenas pela temperatura, pois no demais tem tudo de inverno, e até a chuva que não tarda em cair com uma intensidade que faz tremer a vidraça.
O prédio já está em silêncio depois daquele “desafio” de gritos, golos e impropérios, patrocinados pela astenia dos jogadores da Selecção Nacional de Futebol, uma apatia crónica veiculada pelas operadoras de televisão que nos fazem chegar as notícias com a diferença de alguns segundos. A avaliar pelas manifestações sonoras, o meu vizinho de cima vê os golos antes de mim, mas eu levo vantagem sobre os vizinhos do apartamento ao lado do meu.
Hoje, nem no Campeonato do Mundo do Brasil, nem aqui no céu por cima da minha casa… esta não é definitivamente a noite que faça brilhar todas as estrelas.
Mas nunca será pelo facto de as não podermos ver, que as estrelas do céu deixarão de existir.
São muito mais vulneráveis, todas as nuvens que as escondem desta forma tão fugaz.
E o verão e as suas noites são como os golos gritados pelas gentes nos apartamentos do meu prédio; poderão tardar, mas chegarão sempre a tempo de podermos fazer uma grande festa… à luz das estrelas.
Agora, através da janela, vejo chover copiosamente enquanto tomo as minhas “pastilhas”, porque isto dos quarenta e muitos, arrasta sempre consigo o acelerar do risco cardiovascular. No prédio ao lado, alguém se entrega ao próprio “risco” e fuma com “ganas” à janela, promovendo uma estranha competição entre a ponta incandescente do seu cigarro em cada “passa”, com o impossível clarão dos relâmpagos.
E por falar em coração…
Tão parecidas que são as estrelas e o amor, em tudo e até no chorar; quando a saudade, assim como as nuvens, não nos deixam ver o céu.
O céu das estrelas que cabe todo no teu olhar.
Gosto tanto de ti.
Oxalá a chuva intensa sobre a vidraça não me acorde e interrompa o meu longo e permanente sonhar contigo.
Isso sim seria perder ou empatar.

domingo, 22 de junho de 2014

Sob o céu perfeito da primeira tarde de verão

O sol rompeu vigorosamente as nuvens, e Lisboa brilha assim sem pudor na primeira tarde de verão, fazendo emergir todos os tons garridos que lhe vestem o casario disposto em socalco pelas sete colinas que namoram irresistivelmente o Tejo.
Sinto um indescritível prazer na hora de “aportar”.
E uma cidade é muito mais do que apenas um espaço físico, é uma confluência de vontades.
Em Lisboa, hoje há balões coloridos no Príncipe Real que se elevam juntamente com o orgulho de quem não se verga perante as convenções e se assume inteiro em todas as suas diferenças.
A marcha do orgulho gay irá descer até ao Chiado que já “arde” de turistas de todas as nacionalidades e línguas, prova maior da universalidade da velha Olisipo.
Eu deixo o carro no Camões no parque por debaixo da estátua do poeta da “lusitanidade” e de um palco onde uma jovem banda afina uns acordes para começar um concerto rock, e não tarda, descerei a Rua do Carmo a ouvir as palavras de ordem que chegam do Rossio. Os professores apelam ao reconhecimento do seu trabalho e pedem dignidade na forma como são tratados pela tutela.
Já vou nos Restauradores quando os ouço cantar o Hino Nacional e o da CGTP em despique com alguém que afina as vozes no palco gigante onde mais tarde actuará o Tony Carreira.
Há uma horta semeada na Avenida.
A minha geração americanizou-se e, ao estilo do Epcot Center do Disneyworld de Orlando, na Florida, necessita do Continente para demonstrar aos seus filhos e netos, que as ervilhas não são umas bolinhas verdes que já nascem congeladas em sacos nas arcas frigoríficas dos hipermercados.
Há ovelhas no Tivoli, porcos junto à Armani, e na Prada… o diabo com essa verdadeira mistura explosiva das “galinhas” e do próprio Tony.
A inevitável Serenella grita como se não houvesse amanhã, uma “tia” confunde os frutos pequenos de uma macieira com tangerinas… e eu parto para o Bairro Alto onde me espera o jantar.
Ainda estão “viçosas” todas as marcas de Santo António nas vielas que “bebem” o som de uma outra banda que actua agora no Palco do Camões; e, por entre as bolinhas de alheira do meu jantar regado com um tinto Alentejano, não tardarei a sentir como as ruas do Bairro adoptaram e tornaram seus os pontapés dos jogadores do Gana que fizeram golos na baliza da velha Alemanha.
Vingança ou tão-só porque o verdadeiro diabo não veste Prada, mas veste uns casaquinhos a três quartos, todos coloridos e que lhe assentam como cuspo numa parede caiada.
Mais tarde deixarei Lisboa pela rota do Tejo e deixarei a cidade entregue a outros sons numa noite regada a vinho e cerveja.
Uma cidade é muito mais do que apenas um espaço físico, é uma confluência de vontades e a pátria onde cabem e são legítimos, todos os sonhos.
Por impulso do reconhecimento da diferença, da revolta, da reclamada dignidade… ou até da paixão alimentada pelas palavras de um cantor romântico que fala de amor.
Uma cidade…
Lisboa sob o céu perfeito da primeira tarde de verão. 

sábado, 21 de junho de 2014

O verão

Com um assinalável rigor astronómico, mas com alguma chuva, o verão chegou hoje pelas 11.51 horas.
Há muito o pressentia, pelo ar quente que nos empurra para a melancia fresca e para os gelados; pela colocação do gaspacho e do “salmorejo” como opções a ter em conta na elaboração do menu; pelos dias maiores a convidarem a uma cerveja por entre a conversa ao fim da tarde numa esplanada algures na costa e a olhar o Atlântico; e também pelo esforço titânico de uma colega bem próxima de mim, que há duas semanas só almoça umas bolachas especiais que diz serem um compacto de salmão e outros alimentos, ingerindo simultaneamente litros de uma substância a que chama drenante, determinada que está a objectivamente urinar a parte do corpo que julga estar a mais e que a impede de vestir o fato de banho que seleccionou num catálogo a partir da fotografia de uma manequim que tem algo menos de metade do seu volume corporal.
Hoje é o maior dia do ano, pelo tempo disponível de sol, e não pelo concerto do Tony Carreira nos Restauradores ao fim da tarde na “Horta do Continente”, momento pimba-afectivo-musical que ontem era objecto de uma animada conversa de vizinhas aqui pela pastelaria perto de casa, acertando a logística para que chegassem o mais perto do palco e do cantor romântico; situações apoiadas pelos seus maridos, por certo, por via da perspectiva de finalmente poderem assistir a um jogo do Mundial de Futebol sem estes verdadeiros apitos humanos a martelarem-lhes os ouvidos.
Ao jeito de “Os Fúria do Açúcar”, eu também gosto do verão… mas sem ter motivos para apreciar em particular este dia do solstício.
A minha avó materna, a avó Francisca, foi para mim a mestra ideal no privilégio de desfrutar todas as excelências do campo.
Era a avó que eu acompanhava aos ribeiros de água fresca para lavar a roupa que corava pelas estevas, roubando-lhes os aromas; era a avó que trazia para casa os cheiros que dentro de água num alguidar no poial dos cântaros, perfumavam a cozinha durante todo o ano; era a avó que tinha vasos infinitos de sardinheiras e cravos nas janelas, e que sempre nos sorria por entre as suas flores, quando acudia ao seu nome na janela do Rossio ou na janela da Rua do Poço.
E tudo isso por entre esse infinito amor das avós que tantas vezes tinha expressão em coisas tão simples quanto o nosso despertar pela manhã num dia de feira, tendo por perto um saco de torrão, uma camisa nova pronta a estrear ou então uma bola de serradura envolta numa prata colorida e suspensa de um elástico que com a ajuda do impulso das nossas mãos, a fazia saltar.
Mas num dia de solstício, a avó partiu ao fim da tarde, levada por certo pelo sol, seu cúmplice, que a recrutava assim como um adicional e perfeito feixe de luz por sobre os dias.
Faz hoje precisamente 33 anos.
Eu gosto do verão, e acho que gostarei sempre, apesar de sentir saudades do tempo de antes desse dia do meu solstício triste.
O verão é o sol…
Acreditar que ainda se vai a tempo de ser modelo, que o Tony Carreira vai olhar para nós enquanto “debita” uma letra romântica… ou beber uma cerveja ao fim da tarde, conversar na praia, libertar todas as memórias…
Tudo isso é a vida, no riso e na saudade, a ser preenchida de momentos únicos “debaixo” do sol.
Afinal, tudo isso cabe no verão.
Aproveitem-no e encham-no de sorrisos, palavras, abraços, beijos e momentos felizes; por tudo e porque assim se faz a melhor profilaxia para enfrentar os dias curtos e frios do inverno.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ainda se escrevem cartas de amor…

Meu amor,

Num destes dias redesenharemos a lua no exíguo espaço de um abraço, e seguiremos pela noite na rota do seu brilho mais intenso, até aquele instante onde já não entram as palavras, e onde só os olhares conseguem ser fiéis e oferecer verdade a tamanho amor.
Aí, entregues os lábios a um longo beijo, e libertas as mãos do férreo peso das Histórias, entrelaçaremos mutuamente os nossos dedos, ao jeito da alma; marcando o ponto zero de um tempo que será o da nossa própria e única História.
Eterno: contigo, será o tempo cravejado de poesia.
E chegados assim juntos às manhãs de todos os dias, por entre o aroma do café e o conforto de um pão quente com cheiro a lenha de Alentejo, os dois olhando o mar para lá da vidraça que empalidece com o nosso respirar apaixonado; nós galgaremos horizontes como pássaros livres voando por sobre a racional escravidão dos limites.
Eu, tu e esse teu olhar irmão do céu que sabe incendiar-me a face do prazer dos mais rubros e intensos sorrisos.
Reencontro-me, no destino e na vontade, na esperança e na vida, quando te olho nos olhos… e tudo faz muito mais sentido.
Reencontro-me… às vezes tão-só numa memória e na saudade.
Meu amor, eu juro-te que num destes dias redesenharemos a lua…
Apenas porque necessitamos dela para nos alumiar nas noites do nosso caminho.
Afinal, a lua é tão-só um brevíssimo detalhe para alguém que como eu, amando-te assim, já é dono do universo inteiro.
Um beijo e esse amor infinito.
Teu,
Francisco

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Dia de Corpo de Deus

Não sei se têm a noção de que hoje, dia 19 de Junho de 2014, não fora a má gestão e a incompetência de quem nos obrigou a chamar a Troika (e não vou aqui apontar directamente os culpados pois esta discussão acaba sempre ao estilo Madalena Iglésias versus Simone de Oliveira, consoante as simpatias partidárias); mas hoje, dizia, estaríamos a esta hora a regressar a casa depois do gozo de um Feriado Nacional, o Dia de Corpo de Deus.
Os católicos talvez tivéssemos ido à missa ou à procissão, e os não praticantes, ateus, agnósticos e afins, talvez tivessem acudido a algum areal da Caparica, já que o dia esteve muito convidativo para uma ida até à beira-mar.
Já que nos acusam tantas vezes de memória curta, aqui fica pois esta menção que contraria esse princípio.
Eu não me esqueço, porque tenho memória; mas esperteza não devo ter muita pois não entendo a importância estratégica de tornar laboráveis estes dias que há muito eram festivos e de descanso.
E juro, não cheguei hoje a casa com a sensação de uma coroa de louros no alto da cabeça por ter ido ajudar a salvar o meu país da bancarrota, um herói ao estilo de Camões agarrado ao manuscrito de “Os Lusíadas” depois de um naufrágio.
Se vocês fizerem um dia um Pudim Mandarim, experimentem a juntar ao preparado, duas claras batidas em castelo. Dizem que o pudim ganha uma consistência idêntica aos pudins de ovos de confecção caseira, o que é claramente mentira. O selo de Mandarim continua lá na consistência e no sabor.
Abolição de feriados?
São “claras em castelo” para disfarçar o problema que continuará lá eternamente.
Mas como sou um homem de memórias e para não deixar passar em vão este dia, cheguei a casa e não dispensei procurar o ano da minha primeira comunhão, já que era esta a data para tal celebração em Vila Viçosa.
Foi no dia 21 de Junho de 1973 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição numa missa celebrada pelo saudoso Padre Reia e sendo minha catequista a também saudosa D. Mimi Lisboeta.
Tenho diploma, medalha no fio e uma foto “impublicável”.
Todos envergando um hábito branco, recordo-me de termos feito o percurso de São Bartolomeu para a Igreja de Nossa Senhora, no Castelo, dois a dois, de mão dada, sendo meu inevitável companheiro, o Manuel. Quem mais poderia ser?
A fila era imensa e atrasava-se sempre porque um de nós perdia os sapatos e tinha de se agachar para voltar a calçá-los; o dinheiro nunca era muito, nós crescíamos rapidamente e as mães compravam sempre os sapatos com alguma folga.
Depois da missa fomos todos até ao refeitório do Seminário de São José beber um cacau quente que era feito com um preparado comprado na Pérola Calipolense e que me recordo ser fantástico.
Foi assim há 41 anos e era feriado por ser Dia de Corpo de Deus.
Hoje já não é feriado mas eu quis terminar o dia a recordar o porquê de já não ser, demonstrando de caminho que podem levar-nos as festas, os subsídios, as férias… mas há duas coisas que nunca nos levarão: a memória e a vontade de mudar um destino tecido pela mediocridade.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A nossa terra

Tudo na vida é relativo, e por isso não estranhei que o motorista de táxi que me levou esta manhã do hotel em Ponta Delgada até ao aeroporto, ao saber que eu ia apanhar um avião para a Terceira e não para o continente, me tenha comentado:
- Então o senhor ainda vai até às ilhas.
Num processo em cadeia que vai no sentido do maior para o mais pequeno, o território onde se habita é assim uma espécie de “continente”, e os que se lhe seguem são as ilhas.
E para as ilhas ia também o jovem jogador de uma equipa de futebol da Madalena do Pico, que regressando a casa vindo de Boston, se encontra atrás de mim na fila para o controlo de segurança, a carpir as mágoas junto dos seus colegas, não se conformando com o regresso à terra “onde nada acontece e a noite é para dormir”.
Sentirá já saudades dos bares que frequentou na terra do Cheers, “aquele bar”.
Na ilha Terceira vive também a rapariga que me serve um café pela hora do almoço na pastelaria em frente à Sé, e que nem de propósito partilha com a sua colega de balcão e com uma cliente pelos vistos sua conhecida, o triste que é viver por aqui e encontrar todos os dias as mesmas caras.
As outras não concordam com ela e por isso ela vai extremando argumentos até dizer que ao ouvir falar em filas no IC19, até sente inveja porque isso é sinal de muita gente.
Haja gente com mau gosto.
Há então uma outra cliente que se mete na conversa e a tenta demover da vontade de ir para filas de trânsito, dizendo-lhe que vive na margem sul e de que já não suporta o trânsito na Ponte 25 de Abril.
Mas a rapariga segue pelas suas convicções.
É uma motorista de táxi que me traz de volta ao Aeroporto das Lajes vindo de Angra do Heroísmo. Metemos conversa e eu digo-lhe que a terra dela é fantástica.
Agradece e comenta:
- Não me vejo a viver em qualquer outro sítio. Este é o meu lugar. Já tive de reconstruir a minha casa após o terramoto de 1980 e voltaria a reconstruí-la mil vezes se tal fosse necessário.
E fala do sol e da forma como a luz vai alterando os tons de verde sobre a Serra do Cume.
Pego nos argumentos dos jovens com quem me cruzei pela manhã e questiono-a sobre a asfixia que se pode sentir a viver numa ilha pequena.
Sorri como que esperando a minha questão, previsível e com a qual tantas vezes se debate. Atira-me decidida:
- O meu marido foi o melhor homem que já viveu algum dia sobre a Terra. Partiu há quatro anos de morte súbita e deixou-me com este táxi e dois filhos que eu vou acabando de criar. Nunca importa o tamanho do sítio onde vivemos porque a nossa terra será sempre o local onde fomos ou somos felizes. O meu é aqui por entre as memórias de vinte anos e falando tantas vezes com o meu marido à medida que o sol me muda as cores de um caminho tão previsível e que faço tantas vezes.
É a minha vez de sorrir.
Pois é… o amor faz sempre a diferença, dá-nos pátria e às vezes até de uma ilha consegue fazer um continente.
Os outros dois “meninos” ainda não tiveram tempo de aprender a lição.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os caçadores de piolhos

Um dos desportos mais em voga é a caça ao piolho, designação que eu atribuo aquele hábito tão lusitano e com raízes na inveja pura e dura, de conseguir descobrir algo menos positivo, um “piolho”, por entre uma amálgama infinita de excelentes atributos; dando então de seguida um desmesuradíssimo destaque a esse pequeníssimo detalhe que passa a ser o núcleo de qualquer apreciação.
Um exemplo:
- O Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo.
- Sim…mas já viste como a irmã é pirosa?
Outro:
- O Jorge Jesus foi campeão pelo Benfica.
- Sim filho… mas a mascar pastilha daquela maneira…
E ainda outro:
- A Ana Moura tem uma voz fantástica.
- Sim… mas aquele vestido semi-transparente do concerto do Coliseu…
Como se a forma de mascar pastilha ou a existência de uma irmã “pimba” fossem essenciais para ganhar jogos de futebol ou um vestido fosse fundamental para se afinar um fado.
Nesta caça, tal como em todas as outras, há também aqueles que regressam sem peças conseguidas, mas mesmo assim nunca se atrapalham e deixam algo no ar:
Um exemplo:
- A Julia Roberts é muito gira.
- Sim… mas tem ali qualquer coisa que eu não consigo explicar e que não me agrada.
Outro exemplo com algumas diferenças:
- O Mourinho é o melhor treinador de futebol do mundo.
- Sim… mas consta que para chegar onde chegou houve ali um não sei quê.  
E às vezes já não se fala sobre mais nada a não ser “o não sei o quê” destas criaturas.
Tal como eu já referi, esta prática da Caça ao Piolho tem raízes na inveja e também no assumir da postura de que na vida andamos todos a competir uns contra os outros; e elogiar alguém é então dar trunfos ao adversário.
E trunfos que podem ser decisivos.
Esta prática tem também alguns contornos de âmbito religioso e é muito treinada em sacristias e sucedâneos, pois na ânsia de chegar ao Céu rapidamente e até antes de morrer, qualquer beata gosta de se elevar ao estatuto de santidade, empurrando os outros para um nível um pouco mais abaixo atando aos outros os atributos mais negativos e cabeludos, ao jeito de pedras para que se afoguem rapidamente no mar.
Estou certo de que todos temos exemplos…
Ontem ao colocar no Facebook a foto que tirei em Petra ao lado de um velho Beduino que tocava um instrumento feito de pele de cabra e com uma crina de cavalo, houve logo alguém que comentou:
- A tua T-shirt ocidental é que não fica bem.
A minha T-shirt por acaso até era um pólo passou a ser o elemento mais importante da foto… e não precisam de ir ver quem fez o comentário porque eu já o apaguei.
Feito o meu diagnóstico deixem que vos diga que a malta anda a precisar da terapia do elogio e do positivo no sentido de acabar com esta prática infeliz e ridícula da Caça ao Piolho.
Tendo no entanto presente, e ressalvo, que aquilo que for seriamente negativo deve ser referido e combatido com veemência. Mas apenas o que valer a pena por ser importante.
É que se formos reler a História e já que falei de religião, repare-se que Jesus Cristo combateu seriamente os grandes pecados da humanidade; e nos outros detalhes era muito mais de dar e receber beijos do que de atirar pedras.