segunda-feira, 30 de junho de 2014

O tempo e o envelhecer

À minha frente na sala de espera da consulta externa do Hospital da Luz está uma senhora lindíssima sentada numa cadeira de rodas. Não sou muito bom a reconhecer idades mas tenho a certeza de que o Cartão de Cidadã Nacional registará o seu nascimento numa data há mais de oitenta anos.
Alguém a transportou e a colocou face a face comigo deixando que os nossos olhares se cruzem e ela acabe até por esboçar um ligeiro sorriso nesse preciso instante. A mesma pessoa a transportará depois para a consulta quando chamarem pelo seu nome.
Imagino quantas histórias ela trará consigo “cravejadas” nas pernas já sem força e que impedem que caminhe...
Quanta vida lhe trará tingido assim de cinza o cabelo imaculadamente penteado por alguém nesta manhã?
E como olhará ela o tempo e o futuro por detrás daquele ser que já não existe de forma autónoma, independente?
Que cor terá o ver-se assim envelhecido?
Ontem domingo estive com os meus pais em Fátima na celebração da eucaristia no recinto, e junto a nós os três, estava uma outra família mas de dimensões bem maiores, com uma senhora que identifiquei logo como matriarca e denominador comum dos afectos de toda aquela gente.
À hora do adeus à virgem, impressionou-me a forma convulsiva como chorou, quando quase toda a gente por ali o fazia em silêncio, sendo denunciados apenas pelas lágrimas insistentes que corriam rostos abaixo.
Eu nunca entendi muito bem porque choramos no adeus a Fátima.
Será a saudade dos muitos que lá estiveram um dia connosco e agora já não estão?
Será a nossa própria saudade sobre aquele dia em que já não podermos estar ali?
Talvez um pouco de tudo isto.
E hoje ali na sala de espera, enquanto aguardava que chamassem o meu pai para a consulta de rotina de oftalmologia, a imagem serena da senhora à minha frente libertou-me na memória a senhora do choro de ontem, e juntei as duas talvez à esquina do medo de envelhecer que quase nunca deixa as pessoas indiferentes, e a mim por certo que também não.
Apeteceu-me então sair dali e ir viver intensamente para que nenhuma palavra fique por dizer ou escrever, nenhum beijo ou abraço fique adiado ou por dar, nenhum aroma e gosto fiquem por consumir no prazer de momentos únicos e irreversíveis…
Um dia, quando alguém me transportar seja para onde for por eu já não poder andar, quero ter o ar sereno daquela senhora que sorri, tendo no entanto comigo o peso de todas as histórias reservadas para mim no desenhar dos meus dias.
E se nessa altura me levarem a Fátima também quero chorar muito.
Não por saudade dos que já partiram, não por saudade dos dias em que já lá não conseguirei ir; mas chorar de alegria pela emoção de que o céu está ali a um passo e de que a bagagem que levo vai carregada daquilo que de melhor há no universo.

domingo, 29 de junho de 2014

Escravos da regra no silenciar da fé

A vela acesa tem o acrescido benefício de me confortar as mãos na noite fria de Fátima.
À minha volta há milhares de outras velas que resgatam rostos anónimos da penumbra da noite, e a vela acesa é assim a expressão de uma fé que nos une a todos.
A mim e aos meus pais, ao casal de Irlandeses que desceu connosco no elevador do hotel e que acabou a falar comigo de Temple Bar, do jovem com a camisola da Selecção de Futebol da Colômbia que grita golo no hall do hotel, da mulher que se descalça à minha frente no santuário quando a procissão se prepara para sair, dos dois meninos americanos de riso incontrolável que passam o terço a tirar fotos com o i-pad do pai, dos Chineses que rezam o quinto mistério em Mandarim fazendo com que eu só entenda a palavra “Maria”, das duas mulheres que há minha direita eu percebo que se namoram….
E quantas mais histórias…
Ali virado para a Capelinha das Aparições, penso também nos Jordanos com quem me cruzei há dias, ajoelhados nos seus tapetes e virados para Meca, penso nas raparigas Açorianas coroadas com a prata e os símbolos do Espírito Santo que vi também há pouco tempo nos Açores, e penso como a fé tem afinal tantos rostos quanto o número de Homens que habitam o universo.
E o epicentro dessa fé será sempre o coração dos Homens, com independência do “altar” ou da latitude para a qual nos viremos ou não na hora de rezar.
Na noite fria de Fátima impera o silêncio por entre as velas acesas até ao momento em que termina o terço e a procissão sai da Capelinha. Há então homens fardados ou homens com uma braçadeira verde que gritam para a multidão, empurram gente para a escravatura de uma linha preta desenhada estrategicamente na calçada, mandam acelerar velhos e coxos com a mesma leviandade com que se organiza um baile num serviço hospitalar de ortopedia… e já ninguém consegue rezar nem mais uma Ave-Maria.
Foi-se a paz e veio a estúpida regra de andar depressa sobre uma linha preta desenhada no chão.
O essencial, rezar, morreu às mãos da norma criada pelo Homem numa circunstância meramente logística em que não hesitou impor-se sobre a fragilidade dos outros fazendo de si um poderoso juiz.
Profético e exemplificativo.
A religião esmaga tantas vezes e inexplicavelmente a própria fé quando se substitui ao essencial na norma estúpida da conveniência de meia dúzia de poderosos.
E se os “operacionais das religiões” tivessem cara de ressuscitados, e palavras e gestos de gente de fé; nós até continuaríamos a rezar.
Mas há linhas pretas no chão de Fátima e um horário rígido a cumprir, há burkas sobre a face das Jordanas, há a moral que assenta mais nas convicções do que da própria fé.
Crucifiquem-me se quiserem, mas mesmo sendo católico e professando portanto uma religião, não tenho quaisquer dúvidas de que os maiores fazedores de ateus são os operacionais emissores e cumpridores de normas absurdas sacralizadas pelas suas conveniências; os que habitam nos templos mais íntimos das religiões a fabricar a moral.
A noite continua fria quando abandonamos o santuário e nos dirigimos de novo de volta ao hotel.
Falamos de quê?
Do homem e dos empurrões que levámos.
A paz à hora do terço?
Já passou.
A fé?
Viverá connosco eternamente e por cima de todas as convenções e meras circunstâncias da moral tantas vezes imbecil.

sábado, 28 de junho de 2014

Os mistérios do amor numa conversa ao fim da tarde

Em Vila Viçosa, às vezes ao fim da tarde e quando o sol insiste em se retirar ali para as bandas da Rua dos Fidalgos, a mesa dos amigos convoca-nos para a esplanada do Café Restauração, sendo a bebida fresca apenas um pretexto, porque o patrocínio da conversa e do riso, é o afecto eterno que nos une.
Ontem foi mais uma vez assim e as palavras levaram-nos até aquele momento “pirrónico” em que fui questionado sobre o amor e a paixão, expressos tantas vezes no que eu escrevo.
Como então não tive tempo para responder, Manuela, Manuel, Ana Cristina, Joana e Fábio, meus queridos amigos, aqui vai a resposta:

Perguntas tu se é uma paixão
O que está por detrás dos meus versos
E eu digo que não há coração
Que não guarde segredos diversos

Jamais existirá um poeta
Que fale de amor sem o sentir
Se é o sol que um dia completa
E faz a noite à hora de partir

É assim bem fácil saber quem é
Que dá ao amor identidade
Alguém que estando mesmo aqui ao pé
Nos faz até chorar de saudade

E o amor em total dimensão
Não tem género e não tem cor
O amor é o próprio coração
Rendido ao que lhe dá valor

Assim eu vos confesso pois aqui
Olhando à nossa grande amizade
Que amor é tudo o que eu já vivi
Com este anjo, que o é de verdade.

Para bom entendedor…
Até para a semana com mais uma bebida temperada de palavras… e mistérios.   

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Uma absurda obsessão pela tragédia

Com mais ou menos fundamento, e com mais ou menos influência da nossa História antiga e recente, há em nós Portugueses uma quase absurda obsessão pela tragédia.
Não é raro que quando alguém vem ter connosco e desabafa:
- Sabes que tive um acidente e parti os dois braços?
Nós respondamos:
- Tiveste muita sorte…
Concluindo logo de seguida:
- É que poderias ter morrido.
Mas a sorte associada a um acidente e à fractura dos dois braços é algo que efectivamente soa a muito estranho, a não ser para nós que pomos sempre o destino muito para lá da fronteira do jazigo.
Agora que a Selecção Nacional de Futebol saiu do Campeonato do Mundo sem grande glória, o coro dos trágicos lá voltou a atacar com argumentos do tipo:
- “Pelo menos o Cristiano Ronaldo marcou um golo”;
Ou:
- “De todas as selecções europeias eliminadas, a nossa foi a que conseguiu maior número de pontos”;
Ou ainda:
- “Afinal até não foi mau porque só fomos eliminados pela diferença de golos”.
Pois foi, saímos eliminados como os demais e ao jeito dos dois braços partidos, mas ainda tivemos muita sorte. Porque até poderia ter caído o avião no regresso de campinas…
Um aluno que tire dez num exame tem uma óptima nota, pois poderia ter reprovado.
18% de desemprego é excelente, poderíamos estar todos desempregados e a dormir na rua.
Se nos fixarmos no terrível mais negro que nos possa acontecer até a mediocridade se torna aceitável.
Neste contexto da tragédia também é fácil “desenhar” e inventar heróis. O guarda-redes Beto chorou porque foi substituído e foi desde logo “trasladado” para o altar dos heróis porque as suas lágrimas eram da cor das dores da pátria.
Por favor, este homem foi o que afirmou depois da final da Liga Europa que ganhou ao Benfica pelo Sevilha, que o facto de ter ganho a uma equipa Portuguesa ainda lhe dava mais gozo.
Herói nacional? Com este conceito estranho de pátria, o homem estava a chorar pelas dores na barriga ou então porque o regresso antecipado a Portugal lhe diminuía consideravelmente o prémio de jogo.
Ainda associado a esta prática também é comum que alguém conclua no final que:
- “Afinal tinha sido possível”.
Já assim foi em Alcácer-Quibir com o desejado D. Sebastião e mais recentemente na final europeia com a Grécia.
Até o PEC IV ainda entra nesta onda.
Já li hoje o mesmo relativamente à goleada ao Gana.
Meus amigos, acreditar dá sempre muito mais jeito antes de um desfecho irreversível. Mais tarde, para além de ter o inconveniente sabor de uma sopa ingerida depois do almoço, já não consegue ajudar muito a mudar o destino.
Concluindo, tivemos uma prestação fraca no Mundial de Futebol. O Cristiano Ronaldo é indiscutivelmente o melhor jogador do mundo mas a grande maioria dos seus companheiros de selecção não é lá grande coisa, e o facto do Paulo Bento ser um treinador que nunca ganhou mais nada para lá de umas Taças de Portugal, também não ajuda muito.
Sem explorações pela área negra da tragédia, com objectividade e sem resignações; que assim com total apoio da razão, se cresce e se altera o rumo negativo que possa ter a História.
E sem que nos contentemos com pouco.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tu, o teu amor e o quase nada que eu sou…

Há instantes que nos resgatam da mágoa, nos transportam para os sonhos e fazem surgir a melhor versão de nós mesmos por entre sorrisos francos e com raiz na alma.
Instantes que são fruto às vezes da aparência de tão pouco; que nunca nada é pouco quando nos torna assim felizes, e até o quase nada multiplicado com o amor resulta sempre no muito e no mais que perfeito.
E os bancos de jardim que amparam solidões tornam-se fontes de afecto e de pura paixão…
E as ruas, ao jeito da vida, ganham sempre um tom novo e doce quando o nosso olhar toca e beija o sorrir de quem carregamos na alma e nos pensamentos, mesmo que muito secretos.
Os mesmos caminhos e a mesma vida, polvilhados de amor e de açúcar como uma imensa e irresistível Bola de Berlim.
Esses instantes em que não travamos a vontade, chegam tantas vezes com a luz do fim da tarde, quando os nossos passos alinhados num paralelo desejo acompanham o ocaso por entre as palavras soltas e temperadas de uma indesmentível verdade.
Os passos… e as mãos que tantas vezes se procuram saciando-me a cada toque, mesmo que ao de leve, do mágico perfume da tua pele.
Gosto tanto de ti.
Muito obrigado por devolveres aos meus dias a bênção da melhor versão de mim.
Tu, o teu amor, e o quase nada que eu sou e que multiplicado por ti me faz perfeitos todos os caminhos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Fraquezas musculares e outras da gente da pobre terra da má sina

Se existe algo de que nunca nos podem acusar é de falta de coerência, e a prestação da Selecção Nacional de Futebol no Campeonato do Mundo do Brasil, é afinal, apenas e só, um detalhe do país que já não põe bandeiras à janela, até porque muitas dessas janelas pertencem a casas entretanto entregues aos bancos por falta de liquidez dos proprietários que assim não conseguem pagar as suas prestações.
Na minha urbanização, a Remax e os seus colaboradores em pose de candidatos à Junta de Freguesia, ganham por goleada ao espírito nacionalista da bandeirinha que foi criado há uns anos pelo Brasileiro Scolari.
Assim, neste país de Estádios vazios e plantados no terrível silêncio de muitas dívidas, emerge sempre um problema de falta de músculo nas lideranças, e os jogadores a saírem do campo em maca têm claras semelhanças com as “saídas de comícios” de Seguro e Costa em KO’s conseguidos em dias alternados com base em “pontapés” dados mais ou menos à socapa. Nem precisam dos adversários para se magoarem, uma “corridinha” para a liderança e aí está alguém a cair para o lado.
Há também algo de Cavaco em Paulo Bento, na pose de zangado com o mundo, nas suas formas muito peculiares de falar de onde nunca se capta muito bem o que dizem, e sobretudo ao nível das suas escolhas polémicas. Seleccionar para um Campeonato do Mundo um Postiga com uma hérnia discal é como escolher Pedro Passos Coelho para Primeiro-Ministro. Sair do Mundial sem glória é quase como desmaiar num púlpito por entre assobios e gritos da populaça.
Escolher a Maria para Primeira-Dama e o Miguel Veloso para o Centro do Terreno também é algo muito parecido, pois entre o tom da tinta no cabelo e a falta de jeito, os destinos parecem coincidir inteiramente no desacerto e desadequação.
Um passe do Miguel Veloso e um prato de carapaus alimados preparados na marquise do Possolo… são quase a mesma coisa.
Depois, temos de olhar para o nível de outros intérpretes.
O João Pereira está para a lateral direita da defesa como o Paulo Portas para Vice Primeiro-Ministro: muita “sarrafada”, muitas penalidades… mas defender só a espaços; e quando nos damos conta já fomos goleados pela Alemanha.
O Éder é como o Secretário de Estado da Cultura, ninguém sabe quem o inventou e não há nenhum remate que acerte no alvo.
O próprio luso-brasileiro Pepe encarna em si muito de PSD, com as suas cabeçadas e pontapés nos diferentes adversários a serem muito parecidas com as sovas no Tribunal Constitucional.
Já o Raul Meireles e aquela profusão de tatuagens, mais parece um bordado de croché inventado pela Joana Vasconcelos sobre uma estátua do António Variações.
Embarcar num cacilheiro e ir embora não lhe faria mesmo nada mal.
O Rui Patrício também tem algo de Isabel Jonet e não se nega a distribuir uns franguinhos para alimentar a malta.
Até o Sócrates faz da RTP o seu “estágio” no Irão, e paira sobre o país ao estilo de Carlos Queirós, sempre a mandar palpites sobre um desacerto que ele próprio conhece por dentro.
Sempre nos podem dizer que temos o Cristiano Ronaldo que é indiscutivelmente, e eu concordo, o melhor jogador de futebol do mundo…
Sim. Mas nós também somos o melhor povo do mundo e estamos onde estamos, quase sempre condenados a fazer contas com o FMI ao jeito das operações matemáticas difíceis que envolvem os nossos grupos de apuramento.
Será sina? A inevitabilidade de um terrível e inevitável fado?
Talvez mais falta de jeito e ambição.
Eu vou continuar a torcer pelo país e pela selecção, com “Gana”. Mas não me parece que chegue a algum lado.

terça-feira, 24 de junho de 2014

São João e um brinde com limonada

A Tia Maria faria hoje 105 anos, e nos 86 em que andou pela Terra nunca se conformou com o seu segundo nome de Teodora, considerando que em homenagem ao santo do dia do seu nascimento, se deveria ter chamado Maria João.
Mas nunca se dando por vencida e não aceitando como último destino esta má escolha dos seus padrinhos, tratou sempre de comemorar o seu aniversário em festa de grande louvor ao “Baptista”, não faltando à missa na ermida existente no Carrascal, preparando sofisticadas flores de papel para ajudar a decorar a sua Rua de Santa Luzia, e também com a montagem de uns altares encimados pela imagem de barro pintado que ela tinha todo o ano sobre a cómoda do seu quarto, e que ainda hoje lhe guardamos em nossa casa; altares decorados com as flores dos melhores vasos do quintal.
E o quintal era um espaço não muito grande, sombrio e fresco, porque beneficiário da sombra de um velho limoeiro que jamais soube o que era não ter folhas, e que partilhava raízes com os coentros, a hortelã e a salsa, os “cheiros” existentes no canteiro arrumado à parede do lado esquerdo.
Ao fundo do quintal existia um telheiro onde no verão tomávamos banho com a ajuda de um balde / duche de metal cuja torneira funcionava através de uma corrente que se puxava sempre que desejássemos que a água caísse sobre a nossa cabeça.
Do incansável limoeiro se colhiam os frutos em Dia de São João para preparar um lanche de aniversário que para além do toque ácido da limonada, tinha também o aroma e o gosto de um daqueles bolos que se fazem em casa nas velhas formas que parecem já saber de cor todas as receitas.
Chamávamos a Angelina que era nossa amiga e tinha uma mercearia quase em frente da casa da tia, e sentávamo-nos todos à volta da mesa redonda que ficava muito próxima da janela do rés-do-chão que era o melhor contacto com a rua, e debaixo da qual estava o célebre altar de São João.
Por mais anos que passem e por mais dias de São João que a vida me ofereça, não chegará nunca a hora do lanche sem que eu sinta saudades destes momentos.
Da “Ti Bia” e desta casa guardo as memórias de muitos e bons anos, milhões de palavras, de gestos, de aromas e sabores, dos infinitos e profundos afectos que me moldaram o ser; e guardo em minha casa uma velha e colorida manta de lã que ainda hoje derrota por goleada, os sofisticados edredões do IKEA, nas noites em que é mesmo necessário aquecer.
Uma herança de lã para me confortar na hora de soltar em sonhos as muitas heranças da gente, da minha gente, e de um tempo magnífico e inesquecível.
Um dia, a Tia Maria resolveu deitar para o chão do fundo do quintal, a água que restava no alguidar depois de ter lavado e preparado o tomate para a sopa do almoço.
Não tardou a que por entre as frestas das lajes grosseiras e desordenadas que nos ofereciam chão, nascessem viçosos tomateiros de onde se colheram frutos para algumas outras sopas.
Por debaixo das lajes havia terra fértil.
Por debaixo do tempo de hoje há sempre a raiz do que somos alimentada pelo muito que nos deram e que vivemos.
Serei sempre grato.
E um beijo muito especial de parabéns para a Tia Maria, que esteja onde estiver não resistirá hoje a ir cumprimentar o São João e a brindar com ele… com limonada, claro.