segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uma manhã triste e um pião que roda

Parece que só o brilhol mantém o mesmo sabor de sempre, nesta manhã anormalmente fria de um domingo de Julho e Verão em Vila Viçosa.
Saio de casa para a missa das onze e meia em São Bartolomeu, e no trajecto com um desvio programado até à banca das farturas, no mercado, acabo por passar na casa de três dos meus maiores amigos. Todas estão vazias de gente, as janelas cerradas, e só as paredes parecem ter resistido ao tempo e a essa sua dolorosa inevitabilidade da morte ou da doença que cedo ou tarde faz partir os nossos pais, dando assim uma face bastante mais triste aos recantos que nos serviram de berço.
Sinto saudades do tempo em que as janelas abertas deixavam passar o grito com os nomes do Manuel, do João Paulo e do Paulo Geadas, poupando-nos ao uso da campainha ou do martelo da porta nesses instantes de seguirmos juntos até à igreja.
Participo na missa no lugar de sempre e no conforto da presença daqueles rostos de onde transparecem os sorrisos e os afectos que me fazem sentir em casa, não consigo deixar de sentir saudades da D. Guilhermina que nos deixou há muito pouco tempo.
Vizinha da minha Tia Maria na Rua de Santa Luzia, era uma companheira fantástica quando os serões eram passados connosco sentados à porta tentando apanhar o fresco; os serões longos abrilhantados pelas palavras das nossas histórias e de tantas memórias.
Sempre que os olhos não podem, até os ouvidos conseguem ver, e por isso e passados tantos anos, nunca me trocou o nome sempre que depois da missa a ia cumprimentar e dar-lhe um beijo.
Sinto a sua falta numa manhã em que definitivamente e sob umas nuvens frias, eu navego claramente pela saudade.
Mas…
Na praça e um pouco abaixo do Framar encontrei a Zézinha, está linda, feliz e com um sorriso que esmaga tão eficazmente a lembrança dos dias de alguma apreensão que vivemos ainda tão recentemente.
Depois, de entre os presentes de aniversário que recebi no sábado está um pião e uma guita que eu não resisti e pus a rodar no chão da varanda logo que me levantei no domingo. Dei-lhe o toque e o jeito que já nem eu próprio acreditava poder dar, e o pião rodou que nem um louco durante umas dezenas de segundos.
Ainda consegui passá-lo a rodopiar para minha mão direita, e a única dificuldade que senti foi a dor nas costas ao levantar-me um pouco mais à pressa.
A vida é definitivamente desenhada em círculos e ao jeito de um pião que roda entre a saudade e a festa; e um ponto mais negro e mais difícil passa tantas vezes a um sorriso por artes mágicas deste saber e querer viver que tem semelhanças infinitas com o toque dado à guita, que existe em nós e que jamais se esquece.
E a guita que dá impulso ao pião é sempre como as memórias que fazem “rodopiar” as pessoas da nossa saudade no pensamento, que é efectivamente o único sítio capaz de oferecer eternidade a quem a merece: aqueles que amamos.  
A dor nas costas?
É fruto da idade ou do tempo e com ela vivemos nós muito bem. 

domingo, 6 de julho de 2014

A genética perseverante do diospireiro

O que será que liga os elementos de um conjunto de objectos formado por uma Barbie, uma pequena vara cortada de um diospireiro, uma T-shirt amarela, algumas fotografias tiradas maioritariamente nos anos oitenta do Século XX, e um casaco colorido comprado em Lisboa, nos Porfírios, no final dos anos setenta desse mesmo século?
Aparentemente muito pouco ou até mesmo nada, até ao dia de ontem quando nos sentámos à volta da comemoração do meu 48º aniversário e levámos connosco objectos que nos permitissem soltar a memória e contar uma pequena história.
Uma história, um pedaço, um detalhe da amizade que tem tantos anos quanto nós, e sempre, no inevitável Alentejo.
Nós, os filhos desta terra de horizontes fartos, sabemos que a magia chega sempre no fim das tardes de verão, quando procuramos a brisa por entre as árvores e nos alimentamos de todos os aromas que ela foi recolhendo no seu abençoado varrer da planície.
E em Vila Viçosa, com o conforto do olhar dos amigos e com o ar das laranjeiras nosso cúmplice e irmão, esta é a hora em que mais nos sentimos em casa.
Ontem voltou a ser assim.
Três gerações, um bolo de aniversário a servir de pretexto, e um mar de palavras tecendo muitas histórias.
Entre uma história e outra, às vezes uma emoção pela saudade de quem já não está, mas essencialmente muito riso, porque o que guardamos da nossa história é muito bom, e porque as gargalhadas fazem-nos bem à cútis e à alma, sendo bênçãos a crepitar deste fogo de incontáveis cumplicidades.
E os objectos?
O casaco que tem quase todas as cores do arco-íris, para além de ter dado uma notoriedade elevadíssima à Zinha num tempo em que nós tínhamos acesso a roupa muito monocromática comprada na Feira dos Santos de Borba, é um símbolo da nossa geração: nenhuma “cor” é desprezível num todo que é tanto mais rico quanto mais “cores” tiver; a camisola amarela unia-nos num grupo em crescíamos vivenciando e partilhando a fé, em Deus e em nós, nós os verdadeiros “filhos da madrugada”; as fotografias têm-nos a todos a cantar o Patchouli, a imitar a Filipa Vacondeus… e muito mais magros e quase só reconhecíveis pelos sonhos que ainda hoje nos caracterizam; a Barbie que a Marta levou para relembrar que um dia me chamou “amigo viajador”, muito mais do que o objecto ícone de uma certa opulência de vida de princesa, é um brinquedo que conta as heranças que fomos passando à geração que se seguiu a nós e que hoje consegue rir connosco…
E o pau do diospireiro?
Mesmo não tendo folhas, esta árvore dá sempre fruto e é generosa a fazê-lo. E sobre a aparência da sua pobreza vai renascendo todos os anos e dando frutos.
Assim somos nós perante aquelas “partidas” que a vida vai pregando.
Persistimos nos “frutos”, na amizade… e nas gargalhadas.
E sabemos que somos muito mais fortes porque nos temos sempre uns aos outros, e porque de vez em quando temos este benefício único de nos juntarmos assim “colhendo” o beijo da brisa perfeita que corre nos fins da tarde da nossa terra.
Um Homem rico é aquele que tem amigos, e a amizade quando o é de verdade, é eterna como os diamantes e é factor multiplicador de sorrisos à medida que os anos vão passando.
E também nunca deixaremos que as gargalhadas se apaguem.
Venham então mais bolos de aniversário que nós não os tememos.

sábado, 5 de julho de 2014

JOAQUIM FRANCISCO

Quando me pergunto quem sou, cedo descubro junto aos pés o eco do aroma e da cor da terra lavrada pelos meus avós.
A terra irmã de todos os meus passos, a terra do trigo em dias de estio... ou o barro molhado que nos dias frios agradece de braços abertos, o fruto maduro da oliveira, o prenúncio da luz.
Descubro a fé, herança da oração desprovida de palavras e nascida do ajoelhar da minha avó na carícia às águas límpidas dos ribeiros, oferecendo-lhe o beijo dos tecidos que no regresso do campo sempre traziam em si, o aroma de poejo, o incenso mais nobre do meu povo por sobre o sacrário da mais completa simplicidade.
Reencontro o calor do abraço das tias que todas as noites chegavam para o chá e que nos aconchegavam a elas envoltos no xaile que tinha cadilhos com os quais podíamos brincar nos doces instantes imediatamente antes de adormecer.
Reencontro-me inteiro e imensamente feliz na memória do amor tecido de infinitos beijos do meu pai e da minha mãe; descubro-me forte nesse caminhar lado a lado, privilégio maior de um amor partilhado com o meu irmão; e palpo o futuro que antevejo feliz quando me sorri por entre os beijos e abraços do João e do Luís.
Encontro-me com o querer infinito que sabe que um horizonte é só e apenas a ilusão de um fim, e que mesmo aquele monte muito lá ao longe e para lá da seara imensa, é sempre o ponto de partida para uma nova etapa, um recomeço.
E provo novamente daquele sabor único da liberdade que só conhece quem andou descalço, quem colheu amoras pelas silvas do caminho sem ter medo de se arranhar; e quem bebeu livre, pelas mãos em concha ou por um coxo, a água fresca dada generosamente pelas fontes do campo.
Vejo-me confortável no tudo que sou e em todas as diferenças, porque só a verdade importa à alma, e a nossa liberdade é incompatível com a pré-formatação de todos modelos.
Vejo-me feliz a trabalhar na energia e na bênção de tantos colegas que o tempo foi tornando amigos.
Quando me pergunto quem sou revisito todos os livros que li, as palavras dos poetas que me fizeram sorrir e chorar, os filmes e as peças que vi, as músicas que se me colaram à voz e à alma, todas as viagens que fiz, os quadros por que me apaixonei, aqueles petiscos todos que saboreei iluminados por um copo de um bom vinho tinto…
Quando me pergunto quem sou, descubro também o olhar doce do Manuel, do qual não prescindo nas manhãs de Vila Viçosa, descubro as gargalhadas da Zinha, as palavras sensatas do João Paulo, as cumplicidades todas com a Manuela e o Zé Maria... e todo o infinito amor que todos os amigos generosamente semearam em mim nos dias que de tão grandes nunca terão nome, mas que já hoje me fazem por vezes chorar de saudade.
Vejo-me muito mais novo à medida que os anos passam e deixam ficar aquela acrescida descontracção de quem vive tão bem e confortável com toda a verdade do que é.
Não vejo, porque já esqueci, tudo aquilo que foi mau, porque o que não presta nunca se guarda e cedo se deve deitar fora.
E quando me pergunto quem sou, invariavelmente concluo que sou um tonto e eterno apaixonado, um privilegiado beneficiário do amor de muita gente, e que apenas coloco palavras por cima da poesia desses tantos mestres que me vão tecendo os dias no tear de todos os afectos.
Hoje, o dia em que cumpro o 48º aniversário.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Deusas e ninfas da diurese

Substituindo as carteiras da Channel ou Dolce Gabbana, as unhas de gel, o botox, a VIP, a Caras e os brindes destinados à praia e à feijoada das tias, os livros da Guiduxa Rebelo Pinto, as sandálias compensadas ao melhor estilo Drag Queen e Finalmente Club, o cartão de crédito ou as inevitáveis enxaquecas; por estes dias, a melhor amiga das mulheres é uma garrafa de água de um litro e meio, cheia com a própria água no seu estado mais puro recolhido directamente da natureza, ou então cheia com algum líquido com uma coloração que pode variar muito, mas que na grande maioria das vezes se assemelha a uma amostra de urina; detalhe que o aproxima inevitavelmente da pescada pois sendo diurético, pode dizer-se que antes de o ser já o é, pelo menos na aparência.
E a constatação desta intima relação entre as mulheres e as garrafas de água de litro e meio beneficia de significado estatístico com um bom valor de p dada a dimensão da amostra, leia-se o número de colegas, amigas, conhecidas, vizinhas, transeuntes… com quem me cruzei nos últimos dias e que transportavam semelhante objecto, muitas vezes camuflado naquelas malas que transportam todo o arsenal de beleza e que têm dimensões parecidas com os sacos reciclados do Pingo Doce ou do Continente.
Olhem por favor à vossa volta e vejam se não é verdade.
Um litro e meio de diurético ingerido durante um dia e as esperanças de fazer boa figura na praia a crescerem à medida que aumentam as visitas à casa de banho para descarregar o próprio líquido e tudo o que ele arrasta na desejada concretização de um autêntico milagre como há muito não se vê por terras lusitanas.
O líquido e a prece a todos os santinhos:
Isabel, Santa Rainha
Espanhola de Aragão
De gorda faz-me magrinha
Como rosas fizeste do pão
A esperança também reflectida na compra de roupa com dimensões três números abaixo do indicado, e é ver depois o sofrimento das linhas nas costuras e nas bainhas onde são esticadas quase até à morte.
Pobres linhas que até a mim me dói só de olhar para elas…
E como tudo o que é moda, há aquelas que não conseguem aguentar a “pedalada” por múltiplas razões e acabam por sofrer com isso. Já esta semana me cruzei com uma colega que levava na mão duas garrafas pequenas cheias de água.
Sentiu-se na obrigação de se justificar:
- Eu também tenho de beber um litro e meio de água por dia mas como detesto água, ingeri-la assim em pequenas quantidades dá-me mais alento.
Pois… os objectivos intercalares e intermédios acabam sempre por facilitar a concretização dos objectivos maiores.
O certo é que por entre esta obsessão feminina eu estou na expectativa em relação às minhas idas à praia em algum dos dias de férias que já não tardam.
E das duas uma, ou vou andar a tropeçar em sereias pelo areal ao jeito de mergulho no casting para Miss Portugal, ou então não vou conseguir comprar nem uma Bola de Berlim ao vendedor poliglota que apregoa andando por entre os toldos e as barracas:
- Bolinhas quentinhas, “pelotas dulces”, “donuz oooo’ meid”
Tomadas que estão todas pelas amigas dos líquidos drenantes que por constatarem que os bikinis lhes assentam como sempre, estão em cura de depressão na ausência de algum medicamento para o efeito.
Não é que eu não seja um homem de fé, mas parece-me que a segunda hipótese será bem mais provável de acontecer, pelo que vou eu comendo já umas “Bolinhas de Berlim” por entre o olhar reprovador das minhas amigas “Deusas e ninfas da diurese” pois…
Candeia que vai à frente…

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Um pássaro no parapeito

Devo-lhe o nome…
O avô Joaquim era a pessoa que com mais perícia enrolava tabaco numa mortalha em momentos em que as histórias lhe saiam melhor do que nunca. E quando beijava o seu cigarro e o acendia, já as memórias estavam à solta e crepitavam como as brasas da lareira a que ele injectava energia pelo sopro oferecido a um longo tubo de metal.
As histórias que nos faziam voar muito para lá daquela cozinha que tinha sempre aroma de temperos, tinha a água fresca guardada em cântaros de barro, e onde a comida era feita num enorme fogão de lenha que tinha incorporada uma torneira de onde saía água quente e um forno onde na Páscoa se coziam os melhores folares feitos de bolo finto.
E a comida herdava sempre os sabores da lenha que o avô tratava com a perícia de um mestre.
As histórias carregadas com os detalhes do campo que provávamos juntos quando em direcção ao Colmeal da Silveirinha, caminhávamos ao longo da parede da Tapada, muito para lá do Paraíso e do Carapiteiro, na cumplicidade de uma terra que fazíamos nossa pelos passos firmes e seguros, aprendendo eu o nome de cada planta e erva que ladeavam as veredas… ou quando procurávamos ao longo da ribeira, o aroma do poejo que permitisse temperar de Alentejo a açorda mais perfeita que alguma vez comi.
O campo sentido naqueles melões e melancias que nunca cresceram, na azeitona que apanhávamos quando chegavam os dias frios ao redor do Natal, nas peras mínimas temperadas de mel e que tínhamos em casa aos milhares, naquela produção de tomate que parecia milagre da multiplicação, em número e qualidade; e sempre no melhor de cada colheita que invariavelmente aparecia em nossa casa após viagem em cestos e canastras de verga impecavelmente limpas, activando de aromas o melhor e mais eficaz calendário dos sentidos.
E no avô havia também o humor com marca de Alentejo expresso por exemplo naquela história contada pela avó Chica quando numa determinada noite sentiu ao seu lado que o avô urinava na cama e o despertou aos gritos, recebendo como resposta:
- Mas porque é que me acordaste? Eu estava a ficar tão aliviado enquanto sonhava que estava a urinar para um canteiro da estação dos caminhos-de-ferro.
E comigo, todo o afecto sempre por entre os beijos, as carícias, o olhar de orgulho para o primeiro neto rapaz e a insistência em chamar-me carinhosamente “o meu caga e tosse”.
Devo-lhe portanto muito mais do que apenas o nome, inúmeras memórias a que cada dia vai acrescentando eternidade.
Quem dá tudo e o melhor de si, mesmo que objectivamente pouco aos olhos dos Homens, é o mais generoso. E aquele que é receptor desse todo de alguém é um príncipe afortunado que só pode reconhecer-se como o mais feliz do universo. Eu sou este último pelo privilégio de um avô assim.
Aqui em minha casa e no parapeito da janela pousam muitas vezes as gaivotas que sinto me vêm trazer lembranças do mar.
Da mesma forma, estas memórias tecidas de histórias minhas e perfeitas que me acodem em tantos e tantos dias são as melhores lembranças de um campo que nunca será meu, porque eu é que serei sempre dele.
Quem pisa veredas sabe que não há caminhos impossíveis na concretização dos sonhos e das vontades, e quem faz uma concha com as mãos para beber a água que corre livre pelas fontes, conhece bem o valor incalculável da liberdade, da qual jamais abdicará.
São essas as lições do campo, são essas as heranças valiosas que eu guardo do avô Joaquim.
Num dia de muito sol, o avô Joaquim partiu faz hoje precisamente 33 anos, a dois dias de eu completar 15 anos no meu pior dia de aniversário.
Lembrei-me dele porque hoje enquanto tomava o pequeno-almoço olhando o Tejo e o Atlântico para lá da minha vidraça, vi um pássaro que pousou no parapeito.
Hoje, num dia de muito sol.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA

Recuso-me a deixar de ser menino…
E aqui no mar da Granja, o eterno novo mar do norte que nunca se cansa de falar comigo, reconheço em cada detalhe por entre a água e o areal, todos os mistérios revelados nas tardes em que lá longe ofereci os meus ouvidos à bênção de um velho búzio.
Menino nascido de um búzio deste mar… ou do mar grego que banha as férteis planícies de Cós, ilha, musa, pátria de deuses e irmã cúmplice da história da liberdade.
Aqui, com um antes e um depois, um tempo dividido mas sempre sob o signo de sonhar; sou um poeta com o canto e a herança de Orfeu, e um eterno apaixonado com a fidelidade de Eurídice fugindo às garras da cobiça do apicultor Aristeu.
Com as cores rebeldes de um coral, sou vadio, um Cristo cigano entregue às navegações que a alma lhe impõe, na geografia da vontade que dá um nome, o meu nome, a todas as coisas que por eu tanto querer já se fizeram minhas.
E juro que serei fiel a mim, e serei sempre eu, aqui em frente ao mar vivendo intensamente o hoje em que tudo acontece.
“No Hoje, nasci... no Hoje, vivo... no Hoje, morrerei um dia”
Aqui em frente ao mar e ao jeito de Sophia, que mais do que a rima que lhe dá o nome, é a própria poesia.
Sophia de Mello Breyner Andresen torna-se hoje a segunda mulher a entrar no Panteão Nacional. Depois da voz dos deuses, Amália, completa-se um ciclo com a mestra das palavras desses mesmos deuses.
Juntam-se aquelas que eternamente no Luso Olimpo, são as palavras e a voz maior da glória do nosso povo.
Um dia ainda menino e na minha Vila Viçosa, com a ajuda da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, li de Sophia, “A Menina do Mar”.
E mais do que um livro, foi um búzio carregado do som e de todos os mistérios e encantos da poesia, que transpira até da própria prosa; a poesia que me tomou pela mão ao jeito de um convite:
- “Vem comigo, no caminho eu te explico”.
E por aí vamos.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Julho

Não fora a consciência do sítio por onde andamos no calendário, e pela chuva persistente a bater na janela do meu quarto durante a madrugada, eu juraria que hoje não se iniciava o segundo semestre do ano, o mês de Julho.
Mas sim, é Julho e vai estranho este verão na agonia de mais um ditado popular, pois parece pouco crível que “em Julho nunca a água do rio fez barulho”
Se nunca fez, talvez faça agora, sem que Julho deixe de ser Julho.
As nuvens no céu nunca conseguirão matar o verão, resistente no calendário, tal como nós não morremos nunca, nem nos deixamos morrer naqueles dias em que parece que o sol emigrou muito para lá da nossa existência.
Julho homenageia Júlio César, o imperador romano que nasceu nesta altura do ano, e é o mês designado por Heinakuu no Calendário Finlandês, o que significa “o mês dos fenos”…
E o tempo, ou qualquer das suas fracções, será sempre aquilo que quisermos que ele seja, em tudo e até no nome, com mais ou menos intervenção das nossas mais convictas crenças.
“Em Julho, eu o ceifo e o debulho” ou “Por todo o mês de Julho, o celeiro atulho”, faz-nos estar mais próximos dos Finlandeses do que aquilo que poderíamos supor.
Há sempre pontes entre duas margens que parecem inconciliáveis. Às vezes basta apenas procurá-las com arte e engenho.
E se nós gostamos de um Julho quente para andarmos por aí a saltitar e até aproveitar o sol ao fim da tarde para uma bebida à beira-mar, o contrário pensam as abelhas, de quem se diz:
- “Em Julho abafadiço, fica a abelha no cortiço”.
Até o clima, à semelhança de nós, não consegue agradar a todos ao mesmo tempo…
Impossível… e cuidado com as abelhas que com estes dias vão andar por aí a disponibilizar ferrão para quem se aproximar delas.
Julho…
Com chuva ou sem chuva vou fazer dele um pedaço fantástico do meu verão. Serei imperador ao fim da tarde sentindo o rio correr, a cantar ou no silêncio, recolhendo na alma todos os beijos da seara dos desejos que semeei contigo numa luminosa e fértil primavera.
Dar-te-ei abraços ao jeito de eternas pontes, em momentos doces, cúmplices e gémeos do amor que une as abelhas e as suas flores.
Em Julho…
Contigo.