sexta-feira, 1 de agosto de 2014

“Uma pipa de massa”

Se há coisa que a vida me foi ensinando, é que os crentes são os maiores criadores de ateus, os capitalistas os responsáveis pela “invenção” dos comunistas, e os políticos são os grandes responsáveis pelo divórcio entre cidadãos e política, os grandes impulsionadores da abstenção em actos eleitorais.
Começando por estes últimos e olhando por exemplo ao passado mais recente do PS e à briga de "lavadouro público", é muito fácil não querer ir por nenhuma das opções em disputa, e os e-mails que me têm chegado à caixa de mensagens a apelarem à minha participação têm ido directamente para o mesmo sítio para onde os políticos deitaram o rating de Portugal: o lixo.
E quando ouvimos um indivíduo que foi presidente da Comissão Europeia durante os últimos dez anos, afirmar que Portugal vai receber da Europa uma "pipa de massa". Percebemos que por tudo e por via da linguagem, esta gente não se recomenda para o nosso círculo de amigos.
Eu bem sei que o senhor foi emigrante, andou a falar muita língua estrangeira lá por fora, e pode ter sido atacado do mesmo mal de uma senhora portuguesa que há uns anos à entrada da Eurodisney e quando uns amigos compravam o acesso para o parque, ela ao mesmo tempo que lhes vendia os bilhetes, recomendou que estacionassem num determinado sítio pois ali seria mais fácil despejar as "merrrdas e as mijas" (e desculpem o vernáculo); mas depois do "país de tanga" e da cumplicidade com o "porreiro pá", tudo isto parece demasiado mau para quem gere destinos de nações e tem que ser e parecer credível.
Quanto aos capitalistas e olhando ao Grupo Espírito Santo, alguém acha hoje que o banco está melhor nas mãos da família?
Não.
E nacionalização volta que estás perdoada.
Já olhamos para 1975 com outros olhos.
Relativamente aos crentes, aqueles que fizeram transitar a cruz das costas para os fios de prata e ouro da vaidade exposta ao pescoço, são uma semelhança tão desfocada de um Deus em que ninguém pode crer.
Um testemunho falso de um Deus que sendo amor é apresentado como um juiz tirano que condena os Homens à escravidão das regras impostas pelos interesses de alguns, invariavelmente os poderosos.
E depois há a hipocrisia. Eu conheço um padre que se diz incompreendido no seu excesso de humildade, mas fala tantas vezes da sua humildade que nem se dá conta que ela virou um adorno que alimenta a sua vaidade. E ele é o mais vaidoso de entre todos os Homens.
Políticos, capitalistas, crentes...
Quando se espreita e se vê que o hotel está sujo, a gente prefere ir ficar ao da concorrência.
Estamos sempre nos territórios da fé e das convicções mas sem esquecer que nesta vida o mais importante e o que nos fazer optar por aqui ou por ali é o exemplo e a coerência.
Eu até sou crente em Deus, liberal e nunca me abstive em eleições… mas confesso que às vezes a convicção…
É que, darmos pontapés no bom senso e trairmo-nos a nós e à nossa vontade nas opções que fazemos, isso nunca.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Eu não resisto nunca…

O eléctrico trepa veloz pela calçada, mostrando saber de cor todas as curvas do caminho. Com ele, quando acelera e frena, os nossos corpos ganham o toque de coreografia de um bailado que deixa aos olhos o benefício exclusivo dos abraços.
Eu não resisto nunca a olhar-te ao jeito de quem te abraça.
Ali, algures entre Alfama e o Castelo, há uma estrada marcada por séculos de passos e vontades, uma calçada de Lisboa que hoje é para nós a inédita rota de um sonho que por ser tão nosso, tem sobrenome de eternidade.
No cimo da colina há uma mar de flores lilases que são a antecâmara perfeita para a vista que nos revela as cores garridas do casario que parece render-se ao Tejo, o rio perfeito, que, hoje e com o sol deste fim de tarde, beija Lisboa com a força de um inultrapassável azul.
E de azul se tinge também o rendilhado namoro dos nossos olhares.
E das nossas tantas palavras…
Há séculos que Lisboa semeou aqui esta varanda, trono e casa para os nossos sonhos que não têm idade.
E por entre os olhares e as palavras, eu não resisto nunca a tocar-te ao jeito de quem te beija.
Depois, descemos a pé pela calçada, deixando-nos ir com o sol que parte, mas a tempo de ver como a fachada da Sé se ilumina e se revela perfeita com esta luz do fim da tarde.
Não tardará um adeus, a saudade semeada por um abraço de despedida, um beijo… e as nossas mãos que se tocam quando os lábios não conseguem travar um muito breve:
- Amo-te.
E parto com a certeza de que lá atrás e antes do instante deste amor, não há nada que importe; e à frente, a sorrir-me assim intensamente como o faz agora a lua que brilha no céu de Julho, estás tu.
Eternamente.
Penso em ti.
Sabes, eu não resisto nunca a pensar em ti ao jeito de quem te abraça… e de quem te beija. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

MARIA MANUELA

Sempre que eu acompanhava a minha avó Natividade a casa do Sr. Manuel Silvério e da D. Maria Cândida, quando ela ia amassar os bolos fintos na véspera da Páscoa, ou então quando ia provar os fatinhos à homem com que nos vestiam nas ocasiões especiais aí pelos anos setenta, e aprendi que nos alfaiates temos de responder à questão: “para que lado pendes?”; encontrava invariavelmente as três meninas da casa, donas de uns olhos amendoados e grandes com o mundo todo a brilhar por detrás deles e dos seus imensos sorrisos.
Falo, claro, de ti e das tuas super irmãs Rosa e Zézinha, dizendo-te que jamais imaginei por essa altura, que um dia iríamos ser os amigos que somos hoje, amigos com marca registada de eternidade.
Porque por mais anos que passem, nós sabemos que há sempre uma ginja com “brinhol” que espera por nós nos Capuchos, um pôr-do-sol na esplanada do Restauração, um cafezinho de Natal com troca de presentes e degustação das azevias da minha mãe, uma viagem ou um passeio aqui ou além, um centro de alerta e resolução de processos patológicos e outros de familiares e amigos… e por entre tudo isso, as nossas gargalhadas nascidas de todas as piadas, sem restrições, que para rir e como eu digo sempre “ao contrário de muitas, tu és muito homem”.
E claro, há também a acidez das nossas críticas e revoltas, porque os desaforos não se guardam em nós pelo risco acentuado de podermos vir a desenvolver incómodas úlceras gástricas.
A amizade nasceu de muitas cumplicidades mas sobretudo do encontro que a vida nos foi proporcionando no velório dos impossíveis, naquela “festa” onde se sepultam irreversivelmente os medos e onde o canto nasce suplantando o choro.
Por entre a lamúria e os lamentos das “carpideiras” do mundo, nós sabemos que o difícil é o melhor estímulo para chegarmos até onde nos impõe o sonho, porque a fé em Deus começa sempre pela suprema fé em nós mesmos, seres nascidos à sua imagem e semelhança.
E mesmo sem termos uma grande voz, os melhores salmos cantamo-los ao jeito do “rouxinol” Manuel, quando sorrimos por entre esse mágico sabor doce de conseguir.
O futuro é arquitectado pelos sonhos, mas é construído pela vontade e pelas nossas próprias mãos, com esforço, às vezes com dor, mas sempre com o auxílio precioso dos andaimes da fé, os degraus que são privilégio de quem acredita.
E porque os amigos se orgulham com o grande e bom que há nos seus amigos, eu orgulho-me infinitamente por tu seres arquitecta, engenheira e mestra de pedreiro desses dias fantásticos com que vais tecendo a tua própria vida.
Vejo no Zé Maria o mesmo querer, e na Marta vislumbra-se claramente que a genética se cumpre, sendo fantástico contar convosco como parceiros desta viagem pelo tempo.
Maria Manuela, hoje é o teu aniversário e por isso aqui fica o teu presente.
Porém e antes de terminar não queria deixar de te dizer publicamente e por escrito que todos os livros que eu lançar em Vila Viçosa serão apresentados por ti.
Isso acontecerá obviamente pela amizade que nos une, e não levarão os nossos amigos a mal que eu apresente uma razão extra e decisiva, é que és de entre todos eles, aquela em que eu mais me revejo. Em tudo, mas sobretudo na fé e no “esganar” dos impossíveis.
Um beijo grande e parabéns.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As flores do amor são definitivamente as rosas

Por vezes interrogo-me se nós os que somos orgulhosamente guardiões de memórias, somos assim por um qualquer instinto ou detalhe genético, ou então por termos sido treinados ao longo da vida através do convívio muito próximo com grandes mestres.
Numa terceira via, será possivelmente a confluência dessas duas razões a ditar-nos o gosto.
Mas no meu caso concreto e no que ao convívio com os mestres diz respeito, há muito que contar…
Na sequência dos serões passados a dois na velha casa da Rua de Santa Luzia, sem televisão, à conversa e no meio de infinitas histórias; a Tia Maria ofereceu-me um pequeno álbum onde durante anos guardou as suas recordações escritas, na maioria, postais ilustrados e com letras denunciadoras de afectos, amizades e amores mais ou menos felizes.
Trouxe este álbum para a minha casa, ajeitei-lhe e colei-lhe as folhas, e às vezes vou dando uma espreitadela apreciando os tons pintados das fotos quase sempre de casais em poses românticas, e também as caligrafias desenhadas com um rigor de fazer inveja a qualquer um.
As mensagens reportam na grande maioria aos anos trinta do século vinte, a década em que a tia, nascida em 1909 andaria exactamente pelos vinte anos, e uma década em que os meus pais não eram sequer nascidos.
Com a subtileza e o pudor próprios da época e de uma rapariga com uma reputação intocável, é interessante notar como os verbos, os adjectivos e todos os demais pedaços dos pequenos parágrafos, são diferentes dos de agora, por vezes demasiado barrocos e enfeitados; mas todos os sentimentos por detrás das palavras são universais e persistem ainda hoje no coração de todos os Homens.
E no que diz respeito ao amor…
Há sempre a alusão ao paraíso, ao destino, à felicidade e ao perfume doce e perfeito de uma flor.
E as flores do amor são definitivamente as rosas.
Depois, fecho o álbum e devolvo-o à estante onde habita no meio de muitas outras memórias, ali na minha casa que dispensou sempre decoradores para ser um repositório de peças que podem não ter nada a ver umas com as outras e nem com o padrão vigente no gosto do Século XXI, mas têm todas uma história para me contar ou me recordar.
Então, vou eu depois escrever as minhas histórias, ponho palavras na poesia dos sentires e deixo-me ir exactamente pelas palavras, com a responsabilidade acrescida de saber que elas nos sobrevivem e são definitivamente uma herança do melhor de nós.
Um dia, quando eu já não for mais do que simples alimento para a terra de onde brotam as rosas, que haja algum meu herdeiro coleccionador de memórias, capaz de olhar para essas mesmas rosas, e por mérito das minhas palavras, se lembre do seu próprio amor, e quiçá lhe mande um beijo.
E o meu amor por ti?
Persistirá nas palavras e será sempre bem maior do que a minha própria vida.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Se fosse assim tão fácil…

Há caminhos que só têm a utilidade de nos indicar por onde não queremos ir, destinos que só servem para reforçar os outros onde queremos estar; e pessoas que nada mais têm para nos oferecer, para lá do reconhecimento e do reforço do afecto por aquelas outras que realmente amamos e nos amam a nós, comprovadamente.
E eu disse sempre “querer” e não “dever”, porque a nossa própria vontade, muito mais do que a “moral” das devoções e as regras bacocas e impostas; é a melhor bússola neste percurso pelos dias, em que tudo, o positivo e o menos positivo, tem sempre algo para nos dizer e ensinar.
Com mais ou menos trauma sobretudo naquilo que ao menos positivo diga respeito, no processo longo e difícil do sindroma das dores de viver; e sabendo também que às vezes não há profilaxia que nos valha, e que não adianta a troca de experiências e o GPS da voz dos demais para que tiremos conclusões, sendo obrigatório que sejamos nós a “sujar” as mãos, “colocando-as directamente na massa”.
Valha-nos então sempre a marcha atrás e a inversão de marcha, que em segurança são procedimentos como quaisquer outros, mesmo que à nossa volta alguém possa buzinar ou até chamar-nos nomes feios. Com essas vozes do coro da desgraça damo-nos nós bem, e nunca nos esqueçamos que por culpa delas já um velho e um rapaz acabaram a transportar um burro às costas.  
Mas… marcha atrás e inversão de marcha sempre a sorrir.
Sorrir é essencial na vida, é a pimenta e o sal que dão gosto e aroma aos dias; e sorrir é definitivamente a melhor forma de irritar quem não gosta de nós.
Agora é a vossa vez de perguntarem o porquê deste meu discurso, e aposto até que já pensavam:
- Que mal fizeram a este rapaz para ele estar com esta conversa? Deve ter sido coisa feia…
Pois ninguém fez nada em particular.
Ontem na missa das 18.30 nos Mártires, em Lisboa, o padre falava de tesouros e pérolas encontradas ao longo da vida, e referia o aniversário do sacristão dizendo que ele tinha de aproveitar bem os anos que lhe restam, colhendo frutos de todos os ensinamentos que a vida já lhe oferecera, e sendo feliz.
No mesmo banco que eu e sentada ao meu lado, uma senhora com idade a rondar os oitenta, e que eu nunca tinha visto antes, confidenciou-me então baixinho em tom de segredo:
- Se fosse assim tão fácil… há tanta coisa má.
Respondi apenas com um sorriso porque não era altura para estar a falar com a senhora ali durante a homilia.
Respondo-lhe hoje por aqui. Tenho quase a certeza de que ela não terá acesso à resposta mas pouco importa, fica dada.
Porém não consigo terminar sem antes fazer uma ressalva…
Entre mim e a minha interlocutora há pelo menos trinta anos de diferença, e eu reservo-me o direito de também poder um dia dizer o mesmo que ela após viver tudo aquilo que o futuro, grande ou pequeno, me reserva.
O futuro é sempre pródigo em volatilizar e anular certezas.
Mas se na altura me sair um desabafo do tipo:
- Se fosse assim tão fácil…
Que eu o possa fazer do jeito que ela o fez, a sorrir muito.

domingo, 27 de julho de 2014

O sangue e as dores de uma geração

Por “mérito” da Diabetes Tipo 2 e pela necessidade de controlar a Glicemia, a Hemoglobina Glicada, o Coleresterol e afins; e depois de andar durante vinte e quatro horas a urinar para um frasco, ontem foi dia de ir fazer recolha de sangue.
Pela manhã e em jejum.
Depois de todos os procedimentos logísticos, vi-me sentado na cadeira do martírio vampiresco tendo à minha frente um jovem de bata branca devidamente vestida e com a voz e as mãos trémulas.
Percebi-lhe o nervosismo, e por isso, e também porque a melhor perspectiva do mundo não é definitivamente a de umas mãos trémulas a avançarem com uma seringa em riste que nos “furar” umas das veias do braço esquerdo que já está devidamente esticado, resolvo atacar com uma das áreas em que me sinto mais à vontade: a conversa.
E pergunto:
- Então já trabalha há muito nesta área?
A pergunta não resultou muito porque claramente o rapaz percebeu que eu tinha lido o seu nervosismo, e responde sentindo a necessidade de se justificar:
- Acabei o curso de Técnico de Análises Clínicas e fiz de imediato um estágio, depois tive de parar dois anos e agora consegui novo estágio e estou aqui há duas semanas. E sabe… perdemos um pouco a mão para o trabalho.
E reforça:
- Gosto muito desta área, por isso insisto em ficar por aqui.
Então já de garrote, de veia picada e com o sangue a jorrar de um tubo para dois grande frascos, eu lá vou animando o meu interlocutor que se vê respirar melhor a cada segundo e à medida que vê o trabalho a chegar ao fim e sente como eu, a sua “vítima” desta manhã, até estou feliz.
- Não está a sentir-se mal?
- Nem pensar. Estou óptimo. Siga que está a ir muito bem.
Não fixei o nome deste rapaz que até o tinha gravado numa placa presa à bata, mas pouco importa, ele é um dos muitos da geração a seguir à minha que por culpa da precariedade vai adiando os seus sonhos num país onde os cidadãos só interessam na perspectiva de contribuintes, e contam muito pouco por entre a administração feita pelos políticos que só têm visão se por acaso a comprarem à quinta-feira na banca dos jornais.
Um país onde a agonia das pessoas conta muito pouco perante a prioritária saúde dos impolutos banqueiros protegidos por uma justiça que é um mero folclore de retórica.
As mãos trémulas de uma geração que envia milhares de curricula para receber outros tantos milhares de nãos.
E eu entendo bem o amargo sentir das suas agonias porque muito bem me recordo da alegria de ter acabado uma licenciatura a 27 de Abril e ter começado a trabalhar no do dia 2 de Maio do mesmo ano, ganhando então há 24 anos e em escudos, o mesmo que este rapaz ganha hoje na “esmola” de um estágio profissional pelo qual esperou dois anos.
Entretanto o sangue acabou de escorrer para os tubos, eu já carrego num algodão impregnado de álcool e em breve, o técnico colará ao meu braço um penso rápido que me protegerá durante algum tempo.
Levanto-me, estendo-lhe a mão e tenho a noção clara de que minto com todos os dentes que carrego na boca quando lhe confidencio com claro intuito energizante e indutor de confiança:
- Vá em frente, em tantos anos a tirarem-me sangue ninguém o fez tão bem quanto o acabou de fazer.
Ele sorriu e tenho esperança que tenha tremido um pouco menos ao tirar sangue à senhora que se sentou a seguir a mim na dita cadeira do martírio.
É que com as mãos a tremer assim, a picada dói muito mais. Eu que o diga.

sábado, 26 de julho de 2014

Essa sementeira de afectos de onde colhemos a felicidade

A avó Natividade tricotava botas de dormir com uma perícia tal, que ao serão já conseguia continuar o seu trabalho, mesmo quando o sono a obrigava a fechar os olhos. Ainda guardo umas na gaveta das meias, e usa-as sempre nas noites frias, nunca deixando de me lembrar que era eu que muitas vezes lhe segurava as meadas da lã para que ela fosse fazendo o novelo. Nessa altura, a avó contava-me histórias e rimas que tinha aprendido em criança.
Crente, benzia-se sempre antes de algum trabalho doméstico mais importante, como amassar os bolos fintos na Páscoa ou mexer as carnes da matança que permaneciam nos alguidares de barro. Dos bolos fintos saía sempre o meu folar em forma de lagarto e com dois ovos cozidos, e da matança uns mini chouriços com que nós brincávamos antes de os comermos entre as duas partes de um papo-seco à hora do lanche.
Com oitenta e seis anos ainda me confidenciava que aquilo que lhe provocava mais saudades era levantar-se cedo nos dias de inverno para ir apanhar azeitona.
A avó Francisca gostava mais de ceifar do que de apanhar azeitona.
Com a mesma fé da avó Natividade, conseguiram as duas colocar-me o mais próximo da santidade, pagando-lhes promessas vestido de Santo António e São Francisco nas procissões de Nossa Senhora da Conceição. Íamos buscar os fatos a casa da saudosa D. Lígia Cravo, e só as auréolas de metal pareciam querer fazer justiça à minha genética não santidade, não encaixando nunca na minha avantajada cabeça.
A avó Francisca gostava de me levar com ela para o campo nos dias em que ia lavar aos ribeiros da Fonte Cebola, e aí, às vezes os dois sozinhos partilhando a merenda por entre o cheiro a esteva, ia contando as histórias da sua vida tão feita de generosidade; a mesma que a fazia bater-nos à porta e acordar-nos quando em dias de feira não dispensava as madrugadas para nos comprar uma camisa nova, um saco de torrão ou uma bola de serradura envolta em prata e agarrada a um elástico que a fazia subir e descer consoante o impulso das nossas mãos.
A melhor compota que já comi era a Uvada feita pela avó, com uvas frescas, mel, nozes e amêndoas.
O avô Joaquim também nos batia muitas vezes à porta, mas muito mais ao fim da tarde quando ia levar-nos para o jantar, tudo o que de melhor tinha encontrado na horta durante esse dia. Às vezes e enquanto cavava a terra, encontrava moedas antigas que guardava no bolso e me oferecia mais tarde para eu colocar na minha colecção.
Com o avô Joaquim aprendi a apanhar azeitona e a semear e colher todos os bons frutos e aromas do campo. Eu gostava particularmente quando ele me levava até à “Casa da Burra”, a arrecadação onde guardava todos os apetrechos, e quando me apresentava um a um, todos os instrumentos e segredos que lhe permitiam cultivar a terra.
O avô Francisco era carpinteiro e por isso acariciava a madeira dos móveis como se fosse gente, fazia réguas de madeira muito certinhas para levarmos para a escola, contava-me como era a Florbela Espanca, com quem ele se cruzara muitas vezes em pequeno, e todos os anos pelo meu aniversário me oferecia uma nota de vinte escudos com o Santo António, que me permitia comprar tantas coisas que hoje ninguém acredita se nos fixarmos no valor de dez cêntimos.
O avô Francisco gostava de me trazer a passear a Lisboa e de passar comigo a ponte e admirar o monumento de Cristo - Rei, sempre que apanhávamos o autocarro na Avenida de Ceuta para irmos a Almada visitar a prima Naíca, que fumava muito e aproveitava os maços vazios para fazer bases para colocar debaixo das panelas.
Hoje é dia de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus, e é por isso Dia dos Avós.
Eu deixei-me ir pela memória dos meus com a certeza de que ninguém é feliz por acaso, e de que eu sou feliz porque alguém com amor e infinita generosidade semeou em mim essa mesma felicidade.
Um beijo especial de aqui para as estrelas onde agora vivem todos os quatro que o fizeram de uma forma inesquecível.