segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Diversidade e tolerância (Férias – Dia 3)

Seguimos pelo granito e buscamos Sortelha no cimo do monte que serpenteamos através de uma sucessão de íngremes curvas e contra-curvas que quase parecem rotundas inclinadas.
Passando as portas do castelo, a surpresa vem de um palco que anuncia festa para essa tarde, mas maior surpresa é o meu pai encontrar por ali inesperadamente o seu conhecido Sr. Júlio que é mestre de tirar cortiça lá para os lados da nossa terra.
É que o palco receberá hoje o Rancho Folclórico de Evoramonte e aqui, nos recantos de uma fortaleza Beirã “inventada” pelo nosso segundo rei, D. Sancho I, para nos defender dos arqui-inimigos Castelhanos, as modas que se ensaiam são da planície, entre saias e canto-chão.
A viola campaniça casa hoje com o adufe e a diversidade cultural é prova da riqueza da nossa identidade lusa, que mais do que um espaço delineado por fronteiras que nos separam de quem quer que seja, é esta “festa” da gente que fala a mesma língua.
E em Português falamos com o João, um rapaz que tem o seu café instalado numa velha casa de pedra devidamente recuperada, que tem à porta uma mega-abóbora digna de ter nascido no Entroncamento, e que juntamente com a bica nos serve um fresquíssimo licor de folhas de figueira; enquanto eu olho pela pequena janela e descubro que ali e com aquelas vistas, eu, Alentejano de gema, teria inspiração de sobra para escrever sobre o que quer que fosse.
Quando descemos de Sortelha levamos Belmonte como destino, e no velho convento feito Pousada em que os quartos não têm números mas nomes de frades, folheamos o menu que tem tudo o que possa saciar um qualquer cristão ou judeu.
E qualquer cristão alojado na cela do Frei Carlos poderá brindar ao almoço com um bom vinho kosher, que afinal até foi a bebida utilizada por Jesus Cristo na última ceia.
Mais tarde fotografamos uma cruz na entrada do Castelo, imediatamente antes de irmos visitar a Sinagoga.
Por aqui não há muros entre “fés”, não há pedras e bombas entre crentes nas diferentes faces de um mesmo e único Deus. Os profetas são diferentes, mas que importa? O que é que é mais importante, a carta com uma mensagem importante ou o carteiro que a traz?
Da praça do Castelo que celebra Pedro Álvares Cabral, que por aqui nasceu, a universalidade expressa em quatro bandeiras colocadas no cimo de outros tantos cantos da Torre de Menagem: Belmonte, Portugal, Brasil e União Europeia.
Os castelos já não separam e podem unir, que o digam as bandeiras e também todos os que descansamos sentados no anfiteatro ao ar livre assistindo a uma performance improvisada das crianças de uma família de luso-descendentes, com as línguas mães de Camões e Vítor Hugo entrelaçadas nas mesmas almas.
Por entre os que estamos sentados há de tudo e vislumbram-se todas as diferentes faces do amor, esse estado perfeito que nunca terá idades, fronteiras, etnias, línguas, género ou crenças.
E pela tolerância… máxima regressamos a Monfortinho com uma paragem breve na Senhora da Póvoa.
Nós e o silêncio perfeito do campo numa tarde quente de verão.

domingo, 3 de agosto de 2014

Altares de granito (Férias – Dia 2)

Algures numa das ruas íngremes de Monsanto, a dona de uma das lojas vende-nos uma Marafona, a boneca de trapos e sem olhos que ela nos garante proteger do mau-olhado e das trovoadas, com o benefício acrescido da indução de uma extraordinária fecundidade.
Não acredito no mau-olhado, não tenho medo das trovoadas e quanto à fecundidade… que ela me ajude no que às palavras e aos sorrisos possa dizer respeito.
Na soleira da porta da loja há um velho sentado num banco de granito, o tão inevitável granito de Monsanto; ar sereno, um rosto intemporal, e um olhar que sorri feliz a quem passa hoje por aqui.
Percebe-se no olhar a “fecundidade” dos afectos abandonada à solidão dos mais tristes e da má sorte, destino tão duro quanto estas pedras que se confundem com as paredes e os telhados das casas.
Ao fundo, no miradouro, avista-se a Estrela, e é de sobro, azeitonas e pasto, o mar por debaixo dos nossos passos.
Monsanto?
Um altar de granito nascido da terra para trono de heróis e teimosos, os resistentes a tudo, à neve e ao estio; os Homens que foram retalhos de dor e lágrimas nas palavras do brilhante Dr. Namora.
Um altar para santos sentados à conversa com os seus próprios pensamentos numa festa privada e com o alto patrocínio da mais dura solidão.
Descemos e seguimos pelo granito até à Idanha, a velha e até mais velha que o próprio Portugal.
Não há Homens sentados nas soleiras das portas, há o eco dos nossos passos e som da História transpira aqui das próprias pedras.
No lagar de varas alguém ensaia tocando um cravo, um solitário tocador e a música em diálogo com as suas contemporâneas pedras.
Mais gente só no forno comunitário onde há pão quente a sair do forno, há borrachões e pães-de-leite.
Merendamos enquanto trocamos receitas e truques num desafio entre Alentejo e Beira Baixa com “penálties” servidos de um tinto artesanal e com toque morangueiro.
E o pão que não pára de nos desafiar pelo aroma que sai do forno de lenha.
Regressamos a Monfortinho onde nos espera o jantar na mesma varanda onde se escutam os grilos e onde as rolas quase comem nas nossas mãos.
Hoje, há o som gravado de um piano a abafar o canto dos grilos, um piano que me transporta directamente para o filme genial da Jane Campion. E do mar de verde floresta à minha frente surge uma praia, o oceano cúmplice de todos os sonhos.
Deixo-me ir…
Podem corta-nos todos os dedos, mutilar cada recanto do nosso corpo, mas jamais nos conseguirão arrancar a música que habita na nossa alma.
A eterna música.
Tão eterna quanto os sonhos e tão eterna quanto os heróis sentados nas soleiras de granito de Monsanto, os Homens que nos sorriem por cima da solidão à qual nunca se vergam.

sábado, 2 de agosto de 2014

Pelo tempo… à conversa (Férias - Dia 1)

Conheço bem este bafo de Alentejo em noites de verão, e o alívio fresco que sempre traz a madrugada quando os pavões do jardim começam a fazer-se ouvir em disputa com as centenas de pardais que habitam no cipreste ao lado da minha janela.
Um pouco depois, pelas sete horas, o relógio da torre do Paço começa a assinalar todos os quartos do tempo com umas muito sonoras e arrastadas badaladas.
Estou definitivamente na minha casa e esta é a banda sonora de um acordar perfeito.
O duche frio que ajuda no despertar para um dia de férias, o pequeno-almoço naquele recanto da sala que tem o meu nome, o café, dois dedos de conversa com os vizinhos que vão dizendo bom dia, uma mensagem especial com um beijo e a falar de amor…
Há alface no frigorífico, as malas estão prontas para que partamos por duas semanas, e o cisne do lago agradece que partilhemos com ele o alimento que o meu pai lhe lança em pedaços pequenos. Estamos ali os dois como muitas vezes há décadas, mas hoje é diferente, é o pai que, muito divertido, lhe lança a alface.
E hoje sou eu que lhe faço uma foto quase igual à que tenho naquele mesmo sítio com um fato azul de calções, no dia em que cumpri três anos.
Dali conseguimos ver a casa que era da avó e também os pedreiros que hoje nos compõem a fachada em obras, escutando no rádio uma música da moda: Story of my life.
E a história da minha vida será este espaço, este despertar, a minha gente e um perpétuo amor que me une aos meus pais, ainda que o tempo nos vá moldando e nos vá oferecendo novas faces.
Hoje é o pai que dá alface ao cisne e sou eu que conduzo estrada fora iniciando a “conversa” que durará um pouco mais de quinze dias.
Deixamos o Alentejo cruzando o rio em Vila Velha de Ródão, saboreando as curvas do caminho ao som das lendas da Senhora da Redonda, de Alpalhão, e também da princesa moura que de um dos lados das Portas do Rodão suspirava pelo seu amado tão inacessível ali na outra margem, no exacto local onde o Tejo parece ter acabado de romper a montanha para abrir para si um caminho até ao mar.
O Tejo, como todos os rios, é irmão gémeo da nossa vontade e não se demite jamais de traçar para si o melhor destino, a “história da sua vida”.
Até ao mar.
E a Beira Baixa é também definitivamente irmã siamesa do Alentejo na cor e no cheiro do campo que nos traz a Monfortinho.
Aqui pousámos, à sombra e esperando a noite que nos trouxe um jantar na varanda a escutar os grilos.
À conversa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

“Uma pipa de massa”

Se há coisa que a vida me foi ensinando, é que os crentes são os maiores criadores de ateus, os capitalistas os responsáveis pela “invenção” dos comunistas, e os políticos são os grandes responsáveis pelo divórcio entre cidadãos e política, os grandes impulsionadores da abstenção em actos eleitorais.
Começando por estes últimos e olhando por exemplo ao passado mais recente do PS e à briga de "lavadouro público", é muito fácil não querer ir por nenhuma das opções em disputa, e os e-mails que me têm chegado à caixa de mensagens a apelarem à minha participação têm ido directamente para o mesmo sítio para onde os políticos deitaram o rating de Portugal: o lixo.
E quando ouvimos um indivíduo que foi presidente da Comissão Europeia durante os últimos dez anos, afirmar que Portugal vai receber da Europa uma "pipa de massa". Percebemos que por tudo e por via da linguagem, esta gente não se recomenda para o nosso círculo de amigos.
Eu bem sei que o senhor foi emigrante, andou a falar muita língua estrangeira lá por fora, e pode ter sido atacado do mesmo mal de uma senhora portuguesa que há uns anos à entrada da Eurodisney e quando uns amigos compravam o acesso para o parque, ela ao mesmo tempo que lhes vendia os bilhetes, recomendou que estacionassem num determinado sítio pois ali seria mais fácil despejar as "merrrdas e as mijas" (e desculpem o vernáculo); mas depois do "país de tanga" e da cumplicidade com o "porreiro pá", tudo isto parece demasiado mau para quem gere destinos de nações e tem que ser e parecer credível.
Quanto aos capitalistas e olhando ao Grupo Espírito Santo, alguém acha hoje que o banco está melhor nas mãos da família?
Não.
E nacionalização volta que estás perdoada.
Já olhamos para 1975 com outros olhos.
Relativamente aos crentes, aqueles que fizeram transitar a cruz das costas para os fios de prata e ouro da vaidade exposta ao pescoço, são uma semelhança tão desfocada de um Deus em que ninguém pode crer.
Um testemunho falso de um Deus que sendo amor é apresentado como um juiz tirano que condena os Homens à escravidão das regras impostas pelos interesses de alguns, invariavelmente os poderosos.
E depois há a hipocrisia. Eu conheço um padre que se diz incompreendido no seu excesso de humildade, mas fala tantas vezes da sua humildade que nem se dá conta que ela virou um adorno que alimenta a sua vaidade. E ele é o mais vaidoso de entre todos os Homens.
Políticos, capitalistas, crentes...
Quando se espreita e se vê que o hotel está sujo, a gente prefere ir ficar ao da concorrência.
Estamos sempre nos territórios da fé e das convicções mas sem esquecer que nesta vida o mais importante e o que nos fazer optar por aqui ou por ali é o exemplo e a coerência.
Eu até sou crente em Deus, liberal e nunca me abstive em eleições… mas confesso que às vezes a convicção…
É que, darmos pontapés no bom senso e trairmo-nos a nós e à nossa vontade nas opções que fazemos, isso nunca.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Eu não resisto nunca…

O eléctrico trepa veloz pela calçada, mostrando saber de cor todas as curvas do caminho. Com ele, quando acelera e frena, os nossos corpos ganham o toque de coreografia de um bailado que deixa aos olhos o benefício exclusivo dos abraços.
Eu não resisto nunca a olhar-te ao jeito de quem te abraça.
Ali, algures entre Alfama e o Castelo, há uma estrada marcada por séculos de passos e vontades, uma calçada de Lisboa que hoje é para nós a inédita rota de um sonho que por ser tão nosso, tem sobrenome de eternidade.
No cimo da colina há uma mar de flores lilases que são a antecâmara perfeita para a vista que nos revela as cores garridas do casario que parece render-se ao Tejo, o rio perfeito, que, hoje e com o sol deste fim de tarde, beija Lisboa com a força de um inultrapassável azul.
E de azul se tinge também o rendilhado namoro dos nossos olhares.
E das nossas tantas palavras…
Há séculos que Lisboa semeou aqui esta varanda, trono e casa para os nossos sonhos que não têm idade.
E por entre os olhares e as palavras, eu não resisto nunca a tocar-te ao jeito de quem te beija.
Depois, descemos a pé pela calçada, deixando-nos ir com o sol que parte, mas a tempo de ver como a fachada da Sé se ilumina e se revela perfeita com esta luz do fim da tarde.
Não tardará um adeus, a saudade semeada por um abraço de despedida, um beijo… e as nossas mãos que se tocam quando os lábios não conseguem travar um muito breve:
- Amo-te.
E parto com a certeza de que lá atrás e antes do instante deste amor, não há nada que importe; e à frente, a sorrir-me assim intensamente como o faz agora a lua que brilha no céu de Julho, estás tu.
Eternamente.
Penso em ti.
Sabes, eu não resisto nunca a pensar em ti ao jeito de quem te abraça… e de quem te beija. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

MARIA MANUELA

Sempre que eu acompanhava a minha avó Natividade a casa do Sr. Manuel Silvério e da D. Maria Cândida, quando ela ia amassar os bolos fintos na véspera da Páscoa, ou então quando ia provar os fatinhos à homem com que nos vestiam nas ocasiões especiais aí pelos anos setenta, e aprendi que nos alfaiates temos de responder à questão: “para que lado pendes?”; encontrava invariavelmente as três meninas da casa, donas de uns olhos amendoados e grandes com o mundo todo a brilhar por detrás deles e dos seus imensos sorrisos.
Falo, claro, de ti e das tuas super irmãs Rosa e Zézinha, dizendo-te que jamais imaginei por essa altura, que um dia iríamos ser os amigos que somos hoje, amigos com marca registada de eternidade.
Porque por mais anos que passem, nós sabemos que há sempre uma ginja com “brinhol” que espera por nós nos Capuchos, um pôr-do-sol na esplanada do Restauração, um cafezinho de Natal com troca de presentes e degustação das azevias da minha mãe, uma viagem ou um passeio aqui ou além, um centro de alerta e resolução de processos patológicos e outros de familiares e amigos… e por entre tudo isso, as nossas gargalhadas nascidas de todas as piadas, sem restrições, que para rir e como eu digo sempre “ao contrário de muitas, tu és muito homem”.
E claro, há também a acidez das nossas críticas e revoltas, porque os desaforos não se guardam em nós pelo risco acentuado de podermos vir a desenvolver incómodas úlceras gástricas.
A amizade nasceu de muitas cumplicidades mas sobretudo do encontro que a vida nos foi proporcionando no velório dos impossíveis, naquela “festa” onde se sepultam irreversivelmente os medos e onde o canto nasce suplantando o choro.
Por entre a lamúria e os lamentos das “carpideiras” do mundo, nós sabemos que o difícil é o melhor estímulo para chegarmos até onde nos impõe o sonho, porque a fé em Deus começa sempre pela suprema fé em nós mesmos, seres nascidos à sua imagem e semelhança.
E mesmo sem termos uma grande voz, os melhores salmos cantamo-los ao jeito do “rouxinol” Manuel, quando sorrimos por entre esse mágico sabor doce de conseguir.
O futuro é arquitectado pelos sonhos, mas é construído pela vontade e pelas nossas próprias mãos, com esforço, às vezes com dor, mas sempre com o auxílio precioso dos andaimes da fé, os degraus que são privilégio de quem acredita.
E porque os amigos se orgulham com o grande e bom que há nos seus amigos, eu orgulho-me infinitamente por tu seres arquitecta, engenheira e mestra de pedreiro desses dias fantásticos com que vais tecendo a tua própria vida.
Vejo no Zé Maria o mesmo querer, e na Marta vislumbra-se claramente que a genética se cumpre, sendo fantástico contar convosco como parceiros desta viagem pelo tempo.
Maria Manuela, hoje é o teu aniversário e por isso aqui fica o teu presente.
Porém e antes de terminar não queria deixar de te dizer publicamente e por escrito que todos os livros que eu lançar em Vila Viçosa serão apresentados por ti.
Isso acontecerá obviamente pela amizade que nos une, e não levarão os nossos amigos a mal que eu apresente uma razão extra e decisiva, é que és de entre todos eles, aquela em que eu mais me revejo. Em tudo, mas sobretudo na fé e no “esganar” dos impossíveis.
Um beijo grande e parabéns.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As flores do amor são definitivamente as rosas

Por vezes interrogo-me se nós os que somos orgulhosamente guardiões de memórias, somos assim por um qualquer instinto ou detalhe genético, ou então por termos sido treinados ao longo da vida através do convívio muito próximo com grandes mestres.
Numa terceira via, será possivelmente a confluência dessas duas razões a ditar-nos o gosto.
Mas no meu caso concreto e no que ao convívio com os mestres diz respeito, há muito que contar…
Na sequência dos serões passados a dois na velha casa da Rua de Santa Luzia, sem televisão, à conversa e no meio de infinitas histórias; a Tia Maria ofereceu-me um pequeno álbum onde durante anos guardou as suas recordações escritas, na maioria, postais ilustrados e com letras denunciadoras de afectos, amizades e amores mais ou menos felizes.
Trouxe este álbum para a minha casa, ajeitei-lhe e colei-lhe as folhas, e às vezes vou dando uma espreitadela apreciando os tons pintados das fotos quase sempre de casais em poses românticas, e também as caligrafias desenhadas com um rigor de fazer inveja a qualquer um.
As mensagens reportam na grande maioria aos anos trinta do século vinte, a década em que a tia, nascida em 1909 andaria exactamente pelos vinte anos, e uma década em que os meus pais não eram sequer nascidos.
Com a subtileza e o pudor próprios da época e de uma rapariga com uma reputação intocável, é interessante notar como os verbos, os adjectivos e todos os demais pedaços dos pequenos parágrafos, são diferentes dos de agora, por vezes demasiado barrocos e enfeitados; mas todos os sentimentos por detrás das palavras são universais e persistem ainda hoje no coração de todos os Homens.
E no que diz respeito ao amor…
Há sempre a alusão ao paraíso, ao destino, à felicidade e ao perfume doce e perfeito de uma flor.
E as flores do amor são definitivamente as rosas.
Depois, fecho o álbum e devolvo-o à estante onde habita no meio de muitas outras memórias, ali na minha casa que dispensou sempre decoradores para ser um repositório de peças que podem não ter nada a ver umas com as outras e nem com o padrão vigente no gosto do Século XXI, mas têm todas uma história para me contar ou me recordar.
Então, vou eu depois escrever as minhas histórias, ponho palavras na poesia dos sentires e deixo-me ir exactamente pelas palavras, com a responsabilidade acrescida de saber que elas nos sobrevivem e são definitivamente uma herança do melhor de nós.
Um dia, quando eu já não for mais do que simples alimento para a terra de onde brotam as rosas, que haja algum meu herdeiro coleccionador de memórias, capaz de olhar para essas mesmas rosas, e por mérito das minhas palavras, se lembre do seu próprio amor, e quiçá lhe mande um beijo.
E o meu amor por ti?
Persistirá nas palavras e será sempre bem maior do que a minha própria vida.