quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A perseverança dos heróis (Férias – Dia 6)

Deixamos o Douro subindo do Pinhão a Sabrosa, seguindo entre os inevitáveis vinhedos, e alimentando a alma por via do olhar e da perfeição “colhida” em cada uma das curvas daquela que eu há muito considero uma das minhas estradas, um dos meus caminhos dilectos da terra lusa.
É obrigatório vir aqui pelo menos uma vez na vida para que sintamos como o olhar reza dispensando quaisquer palavras.
Dizemos sempre que subimos a Trás-os-Montes, porque sim, pela latitude, mas sobretudo porque é grande e elevada a alma da gente que é bênção desta terra.
O primeiro Homem a demonstrar que a Terra é redonda tinha forçosamente de ser Transmontano, Fernão de Magalhães, nascido em Sabrosa. Espreitamos a casa onde nasceu… entre vinhas.
E seguimos depois para São Martinho de Anta, berço de Miguel Torga, o génio mestre de palavras e do sentir que me fez amar esta terra e esta gente muito antes de vir até aqui.
Há feira e festa nas ruas, mas o ruído de quem vende e de quem compra aproveitando a breve estada dos emigrantes, não consegue calar da minha memória as palavras do poeta:
“A gente não endoudece de desespero. Há um tal poder de recuperação dentro de nós, que cada trovoada que vem encontra o corpo já esquecido da que passou.”
A resistência dos bravos, dos Homens fortes irmãos do granito e heróis da persistência do ser.
E as palavras revestem-se de eternidade quando nos são dadas pela alma dos poetas.
Depois seguimos… Vila Real e o Alvão.
Há infinitas ribeiras de água fresca e límpida escorrendo pela serra entre o denso arvoredo, há fontes que correm e nos oferecem o privilégio da água pura que nos mata a sede e nos refresca o rosto e o pescoço num dia quente como este.
Há os aromas, todos juntos, indecifráveis.
Mondim de Basto e o Monte Farinha, um “micro-Pico” que é altar da Senhora da Graça, cedo se avistam quando seguimos por entre pequenas aldeias que nasceram sempre à sombra de uma Igreja, oráculo da santos ou da fé da gentes, que por estes dias se encontra decorada com festão e luzes garridas na fachada.
Pelas aldeias, há homens carregando arcos e pondo lâmpadas nas ruas, que é Agosto e todos voltaram para ver e fazer a festa.
E ao fim da tarde, da janela do meu hotel eu consigo cheirar as flores do campo, e espreitar o mundo todo nas montanhas que se erguem aos céus como mãos da Terra rezando a Deus.
Alimento-me de paz.
Agora, já é noite e ouço lá fora os grilos enquanto escrevo à janela e na cumplicidade da lua.
Sigo por Torga:
“A natureza organiza estas coisas bem. Já contando com as nortadas do mar alto, deu ao pinheiro uma fibra tão obstinada, que ele torce-se nas dunas, nodoso e corcunda, mas não quebra nem morre”.
E quem diz um pinheiro pode dizer uma alma… ao jeito de Trás-os-Montes.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Serão os Homens como as uvas e o vinho? (Férias – Dia 5)

As uvas já rompem de um tom escuro de azul, o império verde das parras que se deleitam ao sol na totalidade dos degraus desenhados na montanha beijada pelo privilégio do rio.
E “D’ouro” é o rio, mas também esta esperança doce que será vindimada de aqui a muito pouco tempo.
E de ouro são também todos os caminhos, a generosidade do granito de milénios que se faz privilégio e tapete para o beijo dos nossos passos.
Passeamos ao ritmo de cada imagem que a paisagem nos oferece, contemplamos a terra, as uvas, as árvores de fruto, as flores, as cambiantes de cor que o sol e o dia vão oferecendo ao rio…
E as palavras parecem sair de nós ao ritmo da água que corre e nos oferece a calma.
Cumprimentamos a gente, apertamos as mãos que guardam todos os segredos, e também não resistimos a passar a mão pela madeira áspera de carvalho que nos tonéis oferece “leito” ao vinho no repouso generoso que o faz néctar precioso de Baco e bebida digna de qualquer ditoso Olimpo.
Claro que também erguemos a taça e brindamos com dois tintos, três Portos e… tantos, mas tantos desejos de ventura e felicidade.
A tarde passa-se à conversa e com a leitura das palavras escritas, mas sempre sentindo a paz do rio aqui tão perto a correr para o seu inevitável destino de mar.
Na tarde do Douro, leio e releio todas as lembranças de ti. E questiono-me, embora de uma forma serena:
- Serão os Homens como as uvas e o vinho?
Beberá o Homem, do sol, do mundo e da fé, o açúcar que o tornará especial e que fermentará nessa espera feita na escuridão de muitos anos, e muita gente; até ao sacro instante em que os “tonéis” se abrem pela mão de um mestre, sendo então néctar de reis e enzima de festa nos brindes por entre os quais se grita “saúde”?
Se sim, muito obrigado por teres chegado e me teres arrancado à espera e à solidão.
Por ti, por este amor e por este momento de festa, tudo faz sentido: sol, açúcar, a espera, a escuridão e tanta gente.
O fim da tarde traz uma brisa que se agradece e que se sente no instante em que regressamos à varanda onde tomámos o pequeno-almoço, mas desta vez para jantar.
À conversa e com o brilho dos vinhos da quinta que o chefe escolheu para nos acompanharem no repasto, deixamos que anoiteça porque a nenhum de nós apetece romper a festa e dizer:
- Vamos embora.
Então expressamos um tímido “até já”.
E eu penso em ti antes de adormecer, sempre a escutar o rio que corre perseverante aqui mesmo por debaixo da minha janela.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Da Montanha Mágica ao Rio do Ouro (Férias – Dia 4)

O rio corre e soa tranquilo, alguns poucos metros abaixo dos meus pés, oferecendo assim à noite uma acrescida paz, benefício que comprovo no instante em que chego à janela para espreitar a lua na companhia do meu pai, e acabamos os dois a olhar as estrelas, tentando decifrar todos os luzeiros que o céu guarda.
Estamos no Douro, o Pinhão é já ali e a Quinta de La Rosa oferece-nos abrigo.
No meu quarto tenho livros, muitos livros, e uma parede de granito que a casa grande da quinta herdou da escarpa que se faz à água e que o Homem foi “tecendo” de socalcos, os degraus extraordinariamente férteis por onde “cresce” o vinho.
A imponência da Terra expressa por uma rocha imensa, o rio, as estrelas, o luar e as palavras todas impressas em tantos livros, tudo isso numa perfeita intimidade comigo e com a minha nudez; e é tão fácil conseguir depreender quão óbvio e pequeno é o poder do Homem sobre as maravilhas todas do universo.
Assim, numa simples noite de luar.
Para chegar aqui desde Monfortinho cruzámos a Estrela, no caminho entre a Covilhã e Seia, com uma pausa na Pousada da Serra para um almoço com amigos.
Os mosaicos, a arquitectura dos espaços comuns, e também as muitas fotos que estão espalhadas pela unidade hoteleira inaugurada em Abril passado, transportam-nos para a anterior finalidade do edifício: o sanatório dos ferroviários.
Como no livro de Thomas Mann, a Serra aqui a tentar ser Estrela, e uma Montanha Mágica para as imensas vítimas do terrível bacilo de Koch. O romancista Alemão afirma no seu livro que “todo o interesse na doença e na morte é, em verdade, apenas uma outra expressão do nosso interesse pela vida”.
E a vida, sim, é o centro de tudo quando passamos pela Serra da Estrela à conversa sobre as nossas anteriores visitas, sobre a minha estreia ali com os meus avós em 1974 num passeio de uma semana, e a vida espreita por detrás de tantas histórias e tantas palavras que se vão cruzando com estas tão antigas e que quase sempre nos fazem rir.
E a vida, sim, é extraordinária nos momentos passados à janela de uma quinta que espreita o Douro, falando de estrelas com o meu pai, e admirando a lua em quarto crescente.
E a vida, sim, é perfeita no instante em que numa mensagem me sorris e me falas de amor.
E a vida, sim…
Tudo o mais serão apenas expressões diferentes e às vezes bem enviesadas deste interesse pelo extraordinário que é viver. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Diversidade e tolerância (Férias – Dia 3)

Seguimos pelo granito e buscamos Sortelha no cimo do monte que serpenteamos através de uma sucessão de íngremes curvas e contra-curvas que quase parecem rotundas inclinadas.
Passando as portas do castelo, a surpresa vem de um palco que anuncia festa para essa tarde, mas maior surpresa é o meu pai encontrar por ali inesperadamente o seu conhecido Sr. Júlio que é mestre de tirar cortiça lá para os lados da nossa terra.
É que o palco receberá hoje o Rancho Folclórico de Evoramonte e aqui, nos recantos de uma fortaleza Beirã “inventada” pelo nosso segundo rei, D. Sancho I, para nos defender dos arqui-inimigos Castelhanos, as modas que se ensaiam são da planície, entre saias e canto-chão.
A viola campaniça casa hoje com o adufe e a diversidade cultural é prova da riqueza da nossa identidade lusa, que mais do que um espaço delineado por fronteiras que nos separam de quem quer que seja, é esta “festa” da gente que fala a mesma língua.
E em Português falamos com o João, um rapaz que tem o seu café instalado numa velha casa de pedra devidamente recuperada, que tem à porta uma mega-abóbora digna de ter nascido no Entroncamento, e que juntamente com a bica nos serve um fresquíssimo licor de folhas de figueira; enquanto eu olho pela pequena janela e descubro que ali e com aquelas vistas, eu, Alentejano de gema, teria inspiração de sobra para escrever sobre o que quer que fosse.
Quando descemos de Sortelha levamos Belmonte como destino, e no velho convento feito Pousada em que os quartos não têm números mas nomes de frades, folheamos o menu que tem tudo o que possa saciar um qualquer cristão ou judeu.
E qualquer cristão alojado na cela do Frei Carlos poderá brindar ao almoço com um bom vinho kosher, que afinal até foi a bebida utilizada por Jesus Cristo na última ceia.
Mais tarde fotografamos uma cruz na entrada do Castelo, imediatamente antes de irmos visitar a Sinagoga.
Por aqui não há muros entre “fés”, não há pedras e bombas entre crentes nas diferentes faces de um mesmo e único Deus. Os profetas são diferentes, mas que importa? O que é que é mais importante, a carta com uma mensagem importante ou o carteiro que a traz?
Da praça do Castelo que celebra Pedro Álvares Cabral, que por aqui nasceu, a universalidade expressa em quatro bandeiras colocadas no cimo de outros tantos cantos da Torre de Menagem: Belmonte, Portugal, Brasil e União Europeia.
Os castelos já não separam e podem unir, que o digam as bandeiras e também todos os que descansamos sentados no anfiteatro ao ar livre assistindo a uma performance improvisada das crianças de uma família de luso-descendentes, com as línguas mães de Camões e Vítor Hugo entrelaçadas nas mesmas almas.
Por entre os que estamos sentados há de tudo e vislumbram-se todas as diferentes faces do amor, esse estado perfeito que nunca terá idades, fronteiras, etnias, línguas, género ou crenças.
E pela tolerância… máxima regressamos a Monfortinho com uma paragem breve na Senhora da Póvoa.
Nós e o silêncio perfeito do campo numa tarde quente de verão.

domingo, 3 de agosto de 2014

Altares de granito (Férias – Dia 2)

Algures numa das ruas íngremes de Monsanto, a dona de uma das lojas vende-nos uma Marafona, a boneca de trapos e sem olhos que ela nos garante proteger do mau-olhado e das trovoadas, com o benefício acrescido da indução de uma extraordinária fecundidade.
Não acredito no mau-olhado, não tenho medo das trovoadas e quanto à fecundidade… que ela me ajude no que às palavras e aos sorrisos possa dizer respeito.
Na soleira da porta da loja há um velho sentado num banco de granito, o tão inevitável granito de Monsanto; ar sereno, um rosto intemporal, e um olhar que sorri feliz a quem passa hoje por aqui.
Percebe-se no olhar a “fecundidade” dos afectos abandonada à solidão dos mais tristes e da má sorte, destino tão duro quanto estas pedras que se confundem com as paredes e os telhados das casas.
Ao fundo, no miradouro, avista-se a Estrela, e é de sobro, azeitonas e pasto, o mar por debaixo dos nossos passos.
Monsanto?
Um altar de granito nascido da terra para trono de heróis e teimosos, os resistentes a tudo, à neve e ao estio; os Homens que foram retalhos de dor e lágrimas nas palavras do brilhante Dr. Namora.
Um altar para santos sentados à conversa com os seus próprios pensamentos numa festa privada e com o alto patrocínio da mais dura solidão.
Descemos e seguimos pelo granito até à Idanha, a velha e até mais velha que o próprio Portugal.
Não há Homens sentados nas soleiras das portas, há o eco dos nossos passos e som da História transpira aqui das próprias pedras.
No lagar de varas alguém ensaia tocando um cravo, um solitário tocador e a música em diálogo com as suas contemporâneas pedras.
Mais gente só no forno comunitário onde há pão quente a sair do forno, há borrachões e pães-de-leite.
Merendamos enquanto trocamos receitas e truques num desafio entre Alentejo e Beira Baixa com “penálties” servidos de um tinto artesanal e com toque morangueiro.
E o pão que não pára de nos desafiar pelo aroma que sai do forno de lenha.
Regressamos a Monfortinho onde nos espera o jantar na mesma varanda onde se escutam os grilos e onde as rolas quase comem nas nossas mãos.
Hoje, há o som gravado de um piano a abafar o canto dos grilos, um piano que me transporta directamente para o filme genial da Jane Campion. E do mar de verde floresta à minha frente surge uma praia, o oceano cúmplice de todos os sonhos.
Deixo-me ir…
Podem corta-nos todos os dedos, mutilar cada recanto do nosso corpo, mas jamais nos conseguirão arrancar a música que habita na nossa alma.
A eterna música.
Tão eterna quanto os sonhos e tão eterna quanto os heróis sentados nas soleiras de granito de Monsanto, os Homens que nos sorriem por cima da solidão à qual nunca se vergam.

sábado, 2 de agosto de 2014

Pelo tempo… à conversa (Férias - Dia 1)

Conheço bem este bafo de Alentejo em noites de verão, e o alívio fresco que sempre traz a madrugada quando os pavões do jardim começam a fazer-se ouvir em disputa com as centenas de pardais que habitam no cipreste ao lado da minha janela.
Um pouco depois, pelas sete horas, o relógio da torre do Paço começa a assinalar todos os quartos do tempo com umas muito sonoras e arrastadas badaladas.
Estou definitivamente na minha casa e esta é a banda sonora de um acordar perfeito.
O duche frio que ajuda no despertar para um dia de férias, o pequeno-almoço naquele recanto da sala que tem o meu nome, o café, dois dedos de conversa com os vizinhos que vão dizendo bom dia, uma mensagem especial com um beijo e a falar de amor…
Há alface no frigorífico, as malas estão prontas para que partamos por duas semanas, e o cisne do lago agradece que partilhemos com ele o alimento que o meu pai lhe lança em pedaços pequenos. Estamos ali os dois como muitas vezes há décadas, mas hoje é diferente, é o pai que, muito divertido, lhe lança a alface.
E hoje sou eu que lhe faço uma foto quase igual à que tenho naquele mesmo sítio com um fato azul de calções, no dia em que cumpri três anos.
Dali conseguimos ver a casa que era da avó e também os pedreiros que hoje nos compõem a fachada em obras, escutando no rádio uma música da moda: Story of my life.
E a história da minha vida será este espaço, este despertar, a minha gente e um perpétuo amor que me une aos meus pais, ainda que o tempo nos vá moldando e nos vá oferecendo novas faces.
Hoje é o pai que dá alface ao cisne e sou eu que conduzo estrada fora iniciando a “conversa” que durará um pouco mais de quinze dias.
Deixamos o Alentejo cruzando o rio em Vila Velha de Ródão, saboreando as curvas do caminho ao som das lendas da Senhora da Redonda, de Alpalhão, e também da princesa moura que de um dos lados das Portas do Rodão suspirava pelo seu amado tão inacessível ali na outra margem, no exacto local onde o Tejo parece ter acabado de romper a montanha para abrir para si um caminho até ao mar.
O Tejo, como todos os rios, é irmão gémeo da nossa vontade e não se demite jamais de traçar para si o melhor destino, a “história da sua vida”.
Até ao mar.
E a Beira Baixa é também definitivamente irmã siamesa do Alentejo na cor e no cheiro do campo que nos traz a Monfortinho.
Aqui pousámos, à sombra e esperando a noite que nos trouxe um jantar na varanda a escutar os grilos.
À conversa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

“Uma pipa de massa”

Se há coisa que a vida me foi ensinando, é que os crentes são os maiores criadores de ateus, os capitalistas os responsáveis pela “invenção” dos comunistas, e os políticos são os grandes responsáveis pelo divórcio entre cidadãos e política, os grandes impulsionadores da abstenção em actos eleitorais.
Começando por estes últimos e olhando por exemplo ao passado mais recente do PS e à briga de "lavadouro público", é muito fácil não querer ir por nenhuma das opções em disputa, e os e-mails que me têm chegado à caixa de mensagens a apelarem à minha participação têm ido directamente para o mesmo sítio para onde os políticos deitaram o rating de Portugal: o lixo.
E quando ouvimos um indivíduo que foi presidente da Comissão Europeia durante os últimos dez anos, afirmar que Portugal vai receber da Europa uma "pipa de massa". Percebemos que por tudo e por via da linguagem, esta gente não se recomenda para o nosso círculo de amigos.
Eu bem sei que o senhor foi emigrante, andou a falar muita língua estrangeira lá por fora, e pode ter sido atacado do mesmo mal de uma senhora portuguesa que há uns anos à entrada da Eurodisney e quando uns amigos compravam o acesso para o parque, ela ao mesmo tempo que lhes vendia os bilhetes, recomendou que estacionassem num determinado sítio pois ali seria mais fácil despejar as "merrrdas e as mijas" (e desculpem o vernáculo); mas depois do "país de tanga" e da cumplicidade com o "porreiro pá", tudo isto parece demasiado mau para quem gere destinos de nações e tem que ser e parecer credível.
Quanto aos capitalistas e olhando ao Grupo Espírito Santo, alguém acha hoje que o banco está melhor nas mãos da família?
Não.
E nacionalização volta que estás perdoada.
Já olhamos para 1975 com outros olhos.
Relativamente aos crentes, aqueles que fizeram transitar a cruz das costas para os fios de prata e ouro da vaidade exposta ao pescoço, são uma semelhança tão desfocada de um Deus em que ninguém pode crer.
Um testemunho falso de um Deus que sendo amor é apresentado como um juiz tirano que condena os Homens à escravidão das regras impostas pelos interesses de alguns, invariavelmente os poderosos.
E depois há a hipocrisia. Eu conheço um padre que se diz incompreendido no seu excesso de humildade, mas fala tantas vezes da sua humildade que nem se dá conta que ela virou um adorno que alimenta a sua vaidade. E ele é o mais vaidoso de entre todos os Homens.
Políticos, capitalistas, crentes...
Quando se espreita e se vê que o hotel está sujo, a gente prefere ir ficar ao da concorrência.
Estamos sempre nos territórios da fé e das convicções mas sem esquecer que nesta vida o mais importante e o que nos fazer optar por aqui ou por ali é o exemplo e a coerência.
Eu até sou crente em Deus, liberal e nunca me abstive em eleições… mas confesso que às vezes a convicção…
É que, darmos pontapés no bom senso e trairmo-nos a nós e à nossa vontade nas opções que fazemos, isso nunca.