domingo, 10 de agosto de 2014

Coentros, danças e Bolas de Berlim (Férias – Dia 9)

Entre borrifos de uma tímida chuva, o nevoeiro e algumas brevíssimas nesgas de sol, finalmente conseguimos vislumbrar o Monte de Santa Luzia.
E o dia foi de passeio a pé entre lojas, igrejas e, claro, algumas esplanadas em prol do descanso e de uma bebida fresca.
A minha mãe, costureira, não dispensou a visita a uma retrosaria e loja de bordados. Aí, a proprietária D. Fátima, que gosta de falar quase tanto como eu, acabou a confessar que adora o Alentejo mas detesta coentros. Quando lhe perguntei o que conhece do Alentejo, foi rápida a responder:
- Paramos sempre em Alcácer do Sal para comer um arroz de peixe, sempre que vamos de férias para o Algarve.
Comparando, é mais ou menos como dizer que se conhece muito bem Itália apenas porque se costuma ir comer Pizzas ao Colombo.
E claro, só ainda provou os ditos coentros no Arroz de Peixe. Onde mais poderia ser?
Mas enfim, a senhora é simpática e a minha mãe acabou de comprar uns preparos para uma toalha de altar cujo restauro tem em mãos.
Na Praça da República havia baile.
O traje garrido das raparigas, mais do que uma prova de vitalidade financeira das aldeãs na sua vinda à cidade, é um louvor herdade das “Maias” de outro tempo e um louvor à fertilidade da terra.
Se bem me lembro das palavras de Pedro Homem de Mello que um dia li algures.
E que bem que estas raparigas e rapazes dançam o vira minhoto.
No rancho, o rapaz mais pequeno e o que dança melhor, é único e fisicamente diferente dos demais.
Hoje por aqui nesta dança, não são só os tons garridos dos trajes que louvam a terra, há este louvor acrescido à essência da gente, tão independente das formas e dos “padrões”.
Gosto muito e não consigo evitar comover-me.
Afinal de contas, estas coisas do ser diferente…
Terminada a dança há que ir à Pastelaria Natário furar a dieta da Diabetes.
Dizem que são as melhoras Bolas de Berlim de Portugal, e eu atesto que são mesmo. Uma pequena caixa comprada no tempo record de cinco minutos; nada mau para quem como eu já aguentou aqui uma fila de quarenta e cinco.
Cumprindo o seu rito iniciático, os papás aprovam os ditos bolos e eu não resisto a fazer e a enviar uma foto para quem como eu adora pecar por via da gula.
Aquele creme a sorrir para nós!
Pois, pois…
Mais um passeio, um almoço de peixe no Pescador (com direito a saudades dos coentros) e o necessário mini descanso pós-prandial, porque afinal nós não somos Alentejanos só de parar no Canal Caveira, nós somos Alentejanos com vícios reais típicos de Alentejanos.
E ao fim da tarde, mais uma bebida fresca à conversa, e o jantar.
Há dias assim… bem passados e bem temperados, mesmo que sem coentros. Os dias, que são sempre como as danças e se querem afinados e com o mínimo de pisadelas.
E quando a coisa falha?
Ora bolas… de Berlim, claro.

sábado, 9 de agosto de 2014

Buscando o mar (Férias – Dia 8)

Há dias que amanhecem nublados para que nos possa sobrar o olhar e nos consigamos ver bem por dentro.
E com o Alvão e o Tâmega escondidos, restaram as dálias vermelhas, e sobretudo, os pensamentos e as lembranças tecidas por tantas palavras e sensações, para que o dia pudesse sorrir com intensidade.
Um Homem feliz é um Homem bem agarrado às suas raízes, um Homem envolvido na coerência entre a herança e o seu presente. Sinto-o ao pequeno-almoço quando tudo e nada é um pretexto para uma conversa e uma gargalhada à mesa com os meus pais.
As conversas de onde nascem as memórias daqueles que nos encheram os dias do passado e já partiram, dos amigos de hoje, dos outros quatro membros da família mais próxima…
A minha mãe esqueceu-se de trazer um dos seus terços e reza todos os dias pela manhã enquanto nós dormimos, desfiando as contas daquele que eu trago comigo no carro. As raízes e o mesmo tronco comum, a linguagem e os gestos de uma mesma fé.
E um Homem feliz é também um Homem que não trava sentimentos e se deixa ir pela verdade, é um Homem que envia e recebe palavras de amor com mais nenhum outro motivo que não seja o próprio amor.
Sinto-o quando leio o que me escreves, e também quando busco as palavras mais justas para a tradução deste inédito sentir.
E um Homem feliz é um Homem que viajando estrada fora, consegue disponibilizar o olhar para a festa que o caminho, com mais ou menos nuvens, sempre lhe oferece.
De Mondim de Basto viajámos para Guimarães, e foi debaixo de uma chuva inusitada e quente de Agosto, que percorremos o centro histórico ao redor da Senhora da Oliveira.
Aqui nasceu Portugal, para renascer depois em 1640 na minha Vila Viçosa, e como Portugal necessita urgentemente de renascer…
Tomámos um café, comprámos um presépio para a colecção e um galo cor de laranja, e seguimos buscando o mar na rota do Cávado, almoçando depois junto ao mar de Esposende.
Um mar cinzento a impor lembranças de olhares azuis, um mar de inverno em pleno Agosto, mas o mar nunca é triste, e mesmo assim revolto nas ondas contra o areal, sempre nos embala e nos leva pela poesia.
Recordo Sophia:
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Chegámos a Viana do Castelo envoltos pela neblina e ao fim de meio dia não conseguimos ainda sequer vislumbrar Santa Luzia.
Sobra-me o olhar para pensar em ti.
Pelo facto de te amar tanto assim, sinto que sou irmão do tempo no mar de Sophia, porque por muito que pareça estranho, estando “preso” a ti, eu encontrei toda a minha liberdade.
E que bom foi ter um dia cheio de nuvens a permitir espreitar tão profundamente para dentro do que sou.

MARTA CRISTINA & FRIENDS

A Marta, filha dos meus queridos amigos Maria Manuela e José Maria, cumpre hoje o seu 23º aniversário.
No ano em que decidi celebrar com palavras e de forma especial, os amigos no dia do seu aniversário, escolhi esta data para compor e publicar este pequeno texto, porque a Marta foi a primeira a nascer como filha da minha geração de amigos.
Na verdade, este texto também poderia chamar-se Miguel, Nuno, Pedro, Francisco, Isabel, João, Luís, Fábio, Joana, André, Margarida, Eduardo, Manuel, Mário, Teresa, Rita…
E escrevo-o para que conste no final de 2014, e sempre, o orgulho profundo que sinto por termos conseguido criar uma geração fantástica que dá legitima continuidade à esperança que nós tantas vezes sonhámos “à sombra das laranjeiras”.
A herança está a passar.
Sinto-o sempre que conversamos e nos rimos muito em conjunto, quando partilhamos mesa no Restauração a propósito de um café, de um aniversário, quando nos juntamos num jantar ou numa festa, quando interagimos no Facebook, quando cantamos juntos as mesmas canções partilhando as violas, quando compartimos a mesma fé, e especialmente quando vos dou boleia até Lisboa nos finais de tarde de domingo sentindo que os duzentos quilómetros assim à conversa passaram de uma forma demasiado rápida.
Conseguimos entender-nos tão bem que a Maria Isabel faz músicas fantásticas para os meus poemas.
Vejo-vos e sinto-vos grandes, capazes de irem conquistar o mundo e conseguirem captar dos dias tudo aquilo que eles têm de melhor.
Vislumbro a vossa garra e palpo que o sucesso está-vos no sangue, e é uma garantia.
É por isso que sinto orgulho e me revejo em tudo aquilo que vocês são e fazem.
Vocês são no fundo um upgrade fantástico da minha geração e da amizade que eu e os vossos pais conseguimos criar.
O tempo passou depressa demais e nós ainda há pouco vos ouvíamos dizer que “os meus olhos têm sono mas eu não”, que queriam uma Barbie no Natal, que não bebiam leite porque este não era da marca Mimosa, a gritarem ao telefone e nos restaurantes cheios de gente que a noite tinha sido tranquila porque tinham uma fralda, a dizerem que um pedaço de madeira servia para irem à caça porque era a vossa “pingada”…
Talvez eu tenha saudades desse tempo, mas sinto que todo o tempo que passou foi bem empregue e os vossos pais fizeram um verdadeiro trabalho de mestres.
Também não é por acaso que são meus amigos.
Por isso aqui fica um beijo especial à Marta pelo seu aniversário e beijos e abraços para todos vocês do “Tio Quim”.
Sigam em frente, sejam felizes e amem loucamente a vida.
Vocês são definitivamente o melhor e mais completo epílogo para a história das nossas vidas que aqui tenho vindo a contar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O “Basto” e outros heróis e santos (Férias – Dia 7)

Nunca saberemos onde foi o ponto de viragem, aquele instante em que a mais pura realidade ganhou um romanceado e heróico estatuto de lenda.
Talvez "O Basto", enigmática figura imortalizada na pedra e cujo nome dá apelido a estas terras (Celorico, Mondim e Cabeceiras), não seja mais do que uma simples pedra tumular de um qualquer soldado lusitano; mas bem melhor fica a “História” se lhe chamarmos Hermígio Romarigues, um guerreiro monge do Mosteiro de São Miguel de Refojos, que comandando as tropas conseguiu defender o Mosteiro do ataque dos infiéis, gritando com valentia e junto a uma ponte:
- Até ali, por São Miguel, até ali “Basto” eu.
E a estátua do soldado lusitano, para além da lenda, ganhou ainda uma nova cabeça com direito a um farto bigode, e ganhou no peito uma inscrição topográfica pois durante anos esteve sobre um pedestal à entrada de uma ponte muito importante.
Assim o vemos na praça de Cabeceiras de Basto um pouco antes de entrarmos no mosteiro de São Miguel, de que já falei.
Também a História moldou a face do mosteiro que já existia no tempo de D. Afonso Henriques, com os finais do Século XVII a darem-lhe uma imponente face barroca.
A igreja surpreende pelo todo grandioso, pelos dois órgãos de tubos, mas eu não consigo deixar de me fixar num pequeno detalhe que se salienta junto a um dos altares laterais. Reza assim uma inscrição (e reproduzo):
“Todos os Fieis de hum e outro sexo que verdadeiramente confessados e comungados vezitarem esta Igreja e nella o Altar da Senhora das Dores e pedirem pella paz entre os Princepes Christaons, Ganhão Indulgencia Plenaria desde as primas vésperas athe o sol posto no dia da sua festividade. E cada hum dos dias da sua novena cem dias de Indulgencia estando contritos. Assim o concedeo in perpetuum o Sm. PP Pio VI. Anno Domini 1787.”
Vá lá que a salvação não faz distinção de género mas de qualquer forma fixa-se mais na contrição e na prática religiosa, omitindo talvez o mais importante: “as obras valerosas”.
Sinais dos tempos?
Parece que não, e bem parece ser transversal à História este desvirtuar da realidade que faz heróis, santos e cria lendas a partir de gente e coisas tão demasiado simples.
Ainda hoje, de um corrupto se pode fazer um Homem livre, tão-só porque a liberdade é um bem vendável pela justiça e pode ser paga pelos que têm dinheiro; e os que roubaram têm habitualmente muito dinheiro quando o guardam bem guardado.
Que nos valha sempre o Espírito Santo…
E com o eco das lendas e dos santos espíritos contritos e peregrinos, regressámos ao poiso que mira ao Tâmega e ao Alvão, e ao quarto que tem dálias vermelhas a brilhar na varanda.
Tarde de leitura e conversa olhando as montanhas, com os meus pais a revisitarem as minhas “palavras” e a porem questões e a fazerem comentários acerca das mesmas.
Interessante porque sem filtros.
Sei que nunca serei herói, e santo então muito menos, por mais que reze, mas desta liberdade de ser eu já ninguém me priva; e liberdade com o benefício de ser totalmente gratuita.
Até amanhã… em Viana do Castelo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A perseverança dos heróis (Férias – Dia 6)

Deixamos o Douro subindo do Pinhão a Sabrosa, seguindo entre os inevitáveis vinhedos, e alimentando a alma por via do olhar e da perfeição “colhida” em cada uma das curvas daquela que eu há muito considero uma das minhas estradas, um dos meus caminhos dilectos da terra lusa.
É obrigatório vir aqui pelo menos uma vez na vida para que sintamos como o olhar reza dispensando quaisquer palavras.
Dizemos sempre que subimos a Trás-os-Montes, porque sim, pela latitude, mas sobretudo porque é grande e elevada a alma da gente que é bênção desta terra.
O primeiro Homem a demonstrar que a Terra é redonda tinha forçosamente de ser Transmontano, Fernão de Magalhães, nascido em Sabrosa. Espreitamos a casa onde nasceu… entre vinhas.
E seguimos depois para São Martinho de Anta, berço de Miguel Torga, o génio mestre de palavras e do sentir que me fez amar esta terra e esta gente muito antes de vir até aqui.
Há feira e festa nas ruas, mas o ruído de quem vende e de quem compra aproveitando a breve estada dos emigrantes, não consegue calar da minha memória as palavras do poeta:
“A gente não endoudece de desespero. Há um tal poder de recuperação dentro de nós, que cada trovoada que vem encontra o corpo já esquecido da que passou.”
A resistência dos bravos, dos Homens fortes irmãos do granito e heróis da persistência do ser.
E as palavras revestem-se de eternidade quando nos são dadas pela alma dos poetas.
Depois seguimos… Vila Real e o Alvão.
Há infinitas ribeiras de água fresca e límpida escorrendo pela serra entre o denso arvoredo, há fontes que correm e nos oferecem o privilégio da água pura que nos mata a sede e nos refresca o rosto e o pescoço num dia quente como este.
Há os aromas, todos juntos, indecifráveis.
Mondim de Basto e o Monte Farinha, um “micro-Pico” que é altar da Senhora da Graça, cedo se avistam quando seguimos por entre pequenas aldeias que nasceram sempre à sombra de uma Igreja, oráculo da santos ou da fé da gentes, que por estes dias se encontra decorada com festão e luzes garridas na fachada.
Pelas aldeias, há homens carregando arcos e pondo lâmpadas nas ruas, que é Agosto e todos voltaram para ver e fazer a festa.
E ao fim da tarde, da janela do meu hotel eu consigo cheirar as flores do campo, e espreitar o mundo todo nas montanhas que se erguem aos céus como mãos da Terra rezando a Deus.
Alimento-me de paz.
Agora, já é noite e ouço lá fora os grilos enquanto escrevo à janela e na cumplicidade da lua.
Sigo por Torga:
“A natureza organiza estas coisas bem. Já contando com as nortadas do mar alto, deu ao pinheiro uma fibra tão obstinada, que ele torce-se nas dunas, nodoso e corcunda, mas não quebra nem morre”.
E quem diz um pinheiro pode dizer uma alma… ao jeito de Trás-os-Montes.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Serão os Homens como as uvas e o vinho? (Férias – Dia 5)

As uvas já rompem de um tom escuro de azul, o império verde das parras que se deleitam ao sol na totalidade dos degraus desenhados na montanha beijada pelo privilégio do rio.
E “D’ouro” é o rio, mas também esta esperança doce que será vindimada de aqui a muito pouco tempo.
E de ouro são também todos os caminhos, a generosidade do granito de milénios que se faz privilégio e tapete para o beijo dos nossos passos.
Passeamos ao ritmo de cada imagem que a paisagem nos oferece, contemplamos a terra, as uvas, as árvores de fruto, as flores, as cambiantes de cor que o sol e o dia vão oferecendo ao rio…
E as palavras parecem sair de nós ao ritmo da água que corre e nos oferece a calma.
Cumprimentamos a gente, apertamos as mãos que guardam todos os segredos, e também não resistimos a passar a mão pela madeira áspera de carvalho que nos tonéis oferece “leito” ao vinho no repouso generoso que o faz néctar precioso de Baco e bebida digna de qualquer ditoso Olimpo.
Claro que também erguemos a taça e brindamos com dois tintos, três Portos e… tantos, mas tantos desejos de ventura e felicidade.
A tarde passa-se à conversa e com a leitura das palavras escritas, mas sempre sentindo a paz do rio aqui tão perto a correr para o seu inevitável destino de mar.
Na tarde do Douro, leio e releio todas as lembranças de ti. E questiono-me, embora de uma forma serena:
- Serão os Homens como as uvas e o vinho?
Beberá o Homem, do sol, do mundo e da fé, o açúcar que o tornará especial e que fermentará nessa espera feita na escuridão de muitos anos, e muita gente; até ao sacro instante em que os “tonéis” se abrem pela mão de um mestre, sendo então néctar de reis e enzima de festa nos brindes por entre os quais se grita “saúde”?
Se sim, muito obrigado por teres chegado e me teres arrancado à espera e à solidão.
Por ti, por este amor e por este momento de festa, tudo faz sentido: sol, açúcar, a espera, a escuridão e tanta gente.
O fim da tarde traz uma brisa que se agradece e que se sente no instante em que regressamos à varanda onde tomámos o pequeno-almoço, mas desta vez para jantar.
À conversa e com o brilho dos vinhos da quinta que o chefe escolheu para nos acompanharem no repasto, deixamos que anoiteça porque a nenhum de nós apetece romper a festa e dizer:
- Vamos embora.
Então expressamos um tímido “até já”.
E eu penso em ti antes de adormecer, sempre a escutar o rio que corre perseverante aqui mesmo por debaixo da minha janela.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Da Montanha Mágica ao Rio do Ouro (Férias – Dia 4)

O rio corre e soa tranquilo, alguns poucos metros abaixo dos meus pés, oferecendo assim à noite uma acrescida paz, benefício que comprovo no instante em que chego à janela para espreitar a lua na companhia do meu pai, e acabamos os dois a olhar as estrelas, tentando decifrar todos os luzeiros que o céu guarda.
Estamos no Douro, o Pinhão é já ali e a Quinta de La Rosa oferece-nos abrigo.
No meu quarto tenho livros, muitos livros, e uma parede de granito que a casa grande da quinta herdou da escarpa que se faz à água e que o Homem foi “tecendo” de socalcos, os degraus extraordinariamente férteis por onde “cresce” o vinho.
A imponência da Terra expressa por uma rocha imensa, o rio, as estrelas, o luar e as palavras todas impressas em tantos livros, tudo isso numa perfeita intimidade comigo e com a minha nudez; e é tão fácil conseguir depreender quão óbvio e pequeno é o poder do Homem sobre as maravilhas todas do universo.
Assim, numa simples noite de luar.
Para chegar aqui desde Monfortinho cruzámos a Estrela, no caminho entre a Covilhã e Seia, com uma pausa na Pousada da Serra para um almoço com amigos.
Os mosaicos, a arquitectura dos espaços comuns, e também as muitas fotos que estão espalhadas pela unidade hoteleira inaugurada em Abril passado, transportam-nos para a anterior finalidade do edifício: o sanatório dos ferroviários.
Como no livro de Thomas Mann, a Serra aqui a tentar ser Estrela, e uma Montanha Mágica para as imensas vítimas do terrível bacilo de Koch. O romancista Alemão afirma no seu livro que “todo o interesse na doença e na morte é, em verdade, apenas uma outra expressão do nosso interesse pela vida”.
E a vida, sim, é o centro de tudo quando passamos pela Serra da Estrela à conversa sobre as nossas anteriores visitas, sobre a minha estreia ali com os meus avós em 1974 num passeio de uma semana, e a vida espreita por detrás de tantas histórias e tantas palavras que se vão cruzando com estas tão antigas e que quase sempre nos fazem rir.
E a vida, sim, é extraordinária nos momentos passados à janela de uma quinta que espreita o Douro, falando de estrelas com o meu pai, e admirando a lua em quarto crescente.
E a vida, sim, é perfeita no instante em que numa mensagem me sorris e me falas de amor.
E a vida, sim…
Tudo o mais serão apenas expressões diferentes e às vezes bem enviesadas deste interesse pelo extraordinário que é viver.