quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O amor é uma obsessão exclusiva dos poetas e dos loucos (Férias – Dia 12)

Adormeço embalado pela persistência da água que corre na fonte do pátio da quinta, e noite fora, quando acordo e me dou conta das badaladas suaves do relógio da capela, o ruído da água a correr lá está, sereno, rompendo o silêncio das noites no campo.
E não há melhor despertar do que aquele que nasce de uma noite assim.
Mas a manhã leva-nos à cidade, a Viseu, sem que saibamos que à Terça a manhã é de feira; e em Agosto, há uma imensidão de carros e gente a entupir rotundas e vielas, com as matrículas e a fala da gente, a indicar-nos que chegámos à "festa" onde se matam as saudades acumuladas por uma dolorosa eternidade vivida longe de casa.
E chamo-lhe festa porque é isso que leio no olhar da gente.
Compras, passeio, café, almoço... e a tarde traz-nos de volta à irresistível quinta para um longo e demorado passeio entre frutos e flores.
E entre palavras e memórias.
Numa varanda junto à casa grande há uma fonte de granito que mantém de fonte apenas a traça e a bica, mas que ao contrário daquela que me embalou noite fora, está vazia de água.
Nada corre.
Reparo então que no tanque desta fonte alguém pôs terra transformando-o num canteiro; e agora nascem flores.
Mas eu que paro por ali e me encosto, faço-o ao jeito de quem "abraça" uma fonte.
A essência está lá e mantém-se viva por cima da ausência de água.
Eu sei que não sou poeta e que nunca o serei, apesar desta persistência algo tonta de oferecer palavras aos sentires; mas mesmo assim, onde mais me vejo próximo dos verdadeiros poetas é nesta condição de conseguir ver as fontes como quem persiste a ver amores por entre o vazio e o silêncio.
Talvez porque o amor seja um exclusivo e privilégio sentir dos loucos e dos poetas, não existindo em mais nada, nem em mais ninguém.
Talvez.
Mas se assim for, que eu morra como vivo, na coerência irracional desta loucura.
E na tarde da Ínsua, ali sentado junto ao canteiro que eu insisto em chamar fonte, e ao jeito de quem namora:
Na eternidade de um imenso querer
As fontes são fiéis irmãs de amores
Até na sede, saudade por não te ver
Há raízes, terra… e nascem flores
Poeta?
Acho que apenas um louco que dorme embalado pelo benefício da água das fontes do campo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Metamorfoses (Férias – Dia 11)

Imediatamente a seguir à noite da lua gigante que nos pôs a todos a olhar para o céu, a manhã trouxe o sol, e com ele uma nova face para a cidade que ainda ontem era um pranto de chuva.
Não somos de desistir e voltámos a subir a Santa Luzia, mas desta vez para apreciar devidamente o Lima e o Atlântico, os dois em perfeita sintonia com um céu intenso de azul.
Daí a pouco cruzámos o próprio rio Lima, e mais tarde o Douro sobre a Arrábida, olhando a foz à nossa direita.
Já não passámos o Vouga…
Saímos da A1 em Santa Maria da Feira e daí seguimos para Vale de Cambra, Arouca, e encetámos a subida à Serra da Freita.
Um pouco mais de mil metros de altitude, a subida por entre a vegetação que vai dando lugar ao granito, rei e senhor no topo da Serra devidamente adornado por uma vegetação rasteira em tons de amarelo; o encanto da paisagem, e a sensação de que há um paraíso por descobrir ali mesmo ao lado da rota de tantos dias.
Surpreende-me totalmente o caminho que se nos oferece em exclusivo, a estrada onde apenas o homem que guarda uma manada de pachorrentas vacas, nos acena algures quase a chegar a Manhouce, terra do canto com pronúncia do norte.
Depois… São Pedro do Sul, Viseu e a Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo.
É cedo e decido ir dar um passeio pelo jardim.
O sol incide lateralmente sobre a fachada que mira a sul, e eu sigo o trajecto das linhas desenhadas pelas camélias.
O chão seco de Agosto, as flores e as lembranças…
Os fins de tarde do campo são o paraíso para quem estando só se alimenta das mais doces memórias, aquelas que são capazes de matar as “solidões”.
E soltam-se as palavras à beira de um lago onde os cisnes coabitam com uns muito rurais e simpáticos patos que me fazem companhia.
Os dias são como a vida, são tecidos por nós no tear das mudanças e das opções que tomamos, e a esperança, muito mais do que o medo ou a incerteza, é o diesel de um motor que nos faz crescer e nos transporta para o tempo e para o espaço onde queremos estar, onde somos felizes.
Sabemos que há dias em que a neblina não nos deixa ver nada e outros em que o sol nos liberta o horizonte; há dias que parecem noites e noites que parecem dias porque beneficiam de luas gigantes; há dias em que tudo parece previsível mas que nos surpreendem quando seguimos por um novo caminho que está afinal tão próximo de onde circulamos mas que até aí se manteve inédito.
E descobrimos novas montanhas e renovamos os horizontes.
À noite voltámos a uma varanda para um serão de conversa. Desta vez não ouvi grilos, apenas escutei as rãs.
E acabava de escrever sobre metamorfoses quando leio que partiu o actor Robin Williams. Fez-me chorar em “O clube dos poetas mortos”, fez-me rir na “Gaiola das loucas”, fez-me sonhar com o seu Peter Pan…
A vida é como o cinema e pede-nos definitivamente que encaremos o dia com um sorriso esboçado pelos lábios, pelo querer ou então pelas palavras de um eterno:
- “Good morning Vietnam” 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Travestis, shopping e bebidas quentes (Férias – Dia 10)

Chove copiosamente quando saímos do hotel em direcção ao Monte de Santa Luzia, e à medida que subimos, o nevoeiro adensa-se de tal forma que começamos a acreditar ser possível ver por ali o D. Sebastião, ou então, e embalados pela sétima arte e entre uma enorme profusão de almas penadas, a Nicole Kidman a protagonizar o fantástico filme “Os outros”.
Mas não, espera-nos a missa das onze com o baptizado de um rapaz com nome impronunciável, e que será qualquer coisa entre “Gerson” ou “Jéssio” (todo o dia discuti o nome com a minha mãe e não conseguimos chegar a um consenso), o que para o caso pouco importa, mas que motivou inclusive uma confusão de género por parte do padre celebrante que começou a cerimónia a assumir que de uma rapariga se tratava.
O padre que também não resistiu a confessar que durante o seu sacerdócio já tinha baptizado gente com nomes mais agradáveis.
E se não vimos por ali o D. Sebastião perdido nos nevoeiros, com a ajuda de todos os convidados do pequeno G ou J qualquer coisa, vimos o que é estar no palco de uma noite de gala de “A casa dos segredos”, ou então num qualquer show de travestis em alguma casa da especialidade.
E perdoem-me desde logo estas apreciações da minha parte que são muito pouco católicas.
Mas tenho que confessar que por via do famoso programa da TVI, se a Teresa Guilherme tivesse aparecido, eu não me espantaria; embora a Teresa Guilherme esteja para uma missa como o leitão da Bairrada está para um banquete de judeus.
Saltos prateados de quinze centímetros, vestidos de folhos e esvoaçantes, cabelos coloridos armados ou esticados, unhas de cores impróprias, silicones que dispensam soutiens…
Ao meu lado, um destes seres esteve a missa toda de boca aberta a mascar pastilha elástica, oferecendo dessa forma uma sonoridade estranhíssima a todas as orações que ia fazendo:
- “Pgai nhosso que nhestais nho gcéu gnsantifignhado segnham nham o gvonho nhome…”
Só não fez balões mas eu estava a ver que ainda lá ia.
No final da missa, a mesma chuva, o mesmo nevoeiro, a abortada tentativa de ir almoçar a Moledo, e pronto, pela boca morre o peixe, acabámos a almoçar num Centro Comercial daqueles que são iguais em toda a parte mas que pelo menos nos garantia não tomar duche no percurso entre o carro e a mesa da refeição.
Num dia de férias de verão como nos domingos de inverno na pior opção nos arredores de Lisboa.
Dirão que cada um tem o que merece, e eu pelo menos ainda consegui que pelas seis da tarde existisse para mim um lugar ao sol na esplanada, para uma bebida fresca, embora a alma estivesse mais para algo quente.
Mas tomar uma meia de leite numa esplanada às dezoito horas de um dia de Agosto depois de um forçado almoço no Shopping, era garantia certa de anti-depressivo em perfusão endovenosa durante algumas horas.
Assim fiquei mais fresco e… molhado, pois quando me levantei dei conta que antes de me sentar, o sol não tinha tido força e tempo suficientes para secar as consequências da tromba de água de antes.
Um passeio e uma refeição leve, mas já fora do Shopping, e, rezando para que Jesus e os seus discípulos não metessem tanta água como as cadeiras da esplanada, lá me sentei a ver a Supertaça de futebol.
No final ganhou o Benfica mas porque eu me lembrei a tempo e expulsei o meu pai do quarto em direcção ao dele.
Cartão vermelho directo.
É que o seu Sportinguismo dá-me azar.
E depois deste dia de férias tão especial…
Com franqueza, Rio Ave?
Deus me livre. Era só o que me faltava.

domingo, 10 de agosto de 2014

Coentros, danças e Bolas de Berlim (Férias – Dia 9)

Entre borrifos de uma tímida chuva, o nevoeiro e algumas brevíssimas nesgas de sol, finalmente conseguimos vislumbrar o Monte de Santa Luzia.
E o dia foi de passeio a pé entre lojas, igrejas e, claro, algumas esplanadas em prol do descanso e de uma bebida fresca.
A minha mãe, costureira, não dispensou a visita a uma retrosaria e loja de bordados. Aí, a proprietária D. Fátima, que gosta de falar quase tanto como eu, acabou a confessar que adora o Alentejo mas detesta coentros. Quando lhe perguntei o que conhece do Alentejo, foi rápida a responder:
- Paramos sempre em Alcácer do Sal para comer um arroz de peixe, sempre que vamos de férias para o Algarve.
Comparando, é mais ou menos como dizer que se conhece muito bem Itália apenas porque se costuma ir comer Pizzas ao Colombo.
E claro, só ainda provou os ditos coentros no Arroz de Peixe. Onde mais poderia ser?
Mas enfim, a senhora é simpática e a minha mãe acabou de comprar uns preparos para uma toalha de altar cujo restauro tem em mãos.
Na Praça da República havia baile.
O traje garrido das raparigas, mais do que uma prova de vitalidade financeira das aldeãs na sua vinda à cidade, é um louvor herdade das “Maias” de outro tempo e um louvor à fertilidade da terra.
Se bem me lembro das palavras de Pedro Homem de Mello que um dia li algures.
E que bem que estas raparigas e rapazes dançam o vira minhoto.
No rancho, o rapaz mais pequeno e o que dança melhor, é único e fisicamente diferente dos demais.
Hoje por aqui nesta dança, não são só os tons garridos dos trajes que louvam a terra, há este louvor acrescido à essência da gente, tão independente das formas e dos “padrões”.
Gosto muito e não consigo evitar comover-me.
Afinal de contas, estas coisas do ser diferente…
Terminada a dança há que ir à Pastelaria Natário furar a dieta da Diabetes.
Dizem que são as melhoras Bolas de Berlim de Portugal, e eu atesto que são mesmo. Uma pequena caixa comprada no tempo record de cinco minutos; nada mau para quem como eu já aguentou aqui uma fila de quarenta e cinco.
Cumprindo o seu rito iniciático, os papás aprovam os ditos bolos e eu não resisto a fazer e a enviar uma foto para quem como eu adora pecar por via da gula.
Aquele creme a sorrir para nós!
Pois, pois…
Mais um passeio, um almoço de peixe no Pescador (com direito a saudades dos coentros) e o necessário mini descanso pós-prandial, porque afinal nós não somos Alentejanos só de parar no Canal Caveira, nós somos Alentejanos com vícios reais típicos de Alentejanos.
E ao fim da tarde, mais uma bebida fresca à conversa, e o jantar.
Há dias assim… bem passados e bem temperados, mesmo que sem coentros. Os dias, que são sempre como as danças e se querem afinados e com o mínimo de pisadelas.
E quando a coisa falha?
Ora bolas… de Berlim, claro.

sábado, 9 de agosto de 2014

Buscando o mar (Férias – Dia 8)

Há dias que amanhecem nublados para que nos possa sobrar o olhar e nos consigamos ver bem por dentro.
E com o Alvão e o Tâmega escondidos, restaram as dálias vermelhas, e sobretudo, os pensamentos e as lembranças tecidas por tantas palavras e sensações, para que o dia pudesse sorrir com intensidade.
Um Homem feliz é um Homem bem agarrado às suas raízes, um Homem envolvido na coerência entre a herança e o seu presente. Sinto-o ao pequeno-almoço quando tudo e nada é um pretexto para uma conversa e uma gargalhada à mesa com os meus pais.
As conversas de onde nascem as memórias daqueles que nos encheram os dias do passado e já partiram, dos amigos de hoje, dos outros quatro membros da família mais próxima…
A minha mãe esqueceu-se de trazer um dos seus terços e reza todos os dias pela manhã enquanto nós dormimos, desfiando as contas daquele que eu trago comigo no carro. As raízes e o mesmo tronco comum, a linguagem e os gestos de uma mesma fé.
E um Homem feliz é também um Homem que não trava sentimentos e se deixa ir pela verdade, é um Homem que envia e recebe palavras de amor com mais nenhum outro motivo que não seja o próprio amor.
Sinto-o quando leio o que me escreves, e também quando busco as palavras mais justas para a tradução deste inédito sentir.
E um Homem feliz é um Homem que viajando estrada fora, consegue disponibilizar o olhar para a festa que o caminho, com mais ou menos nuvens, sempre lhe oferece.
De Mondim de Basto viajámos para Guimarães, e foi debaixo de uma chuva inusitada e quente de Agosto, que percorremos o centro histórico ao redor da Senhora da Oliveira.
Aqui nasceu Portugal, para renascer depois em 1640 na minha Vila Viçosa, e como Portugal necessita urgentemente de renascer…
Tomámos um café, comprámos um presépio para a colecção e um galo cor de laranja, e seguimos buscando o mar na rota do Cávado, almoçando depois junto ao mar de Esposende.
Um mar cinzento a impor lembranças de olhares azuis, um mar de inverno em pleno Agosto, mas o mar nunca é triste, e mesmo assim revolto nas ondas contra o areal, sempre nos embala e nos leva pela poesia.
Recordo Sophia:
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Chegámos a Viana do Castelo envoltos pela neblina e ao fim de meio dia não conseguimos ainda sequer vislumbrar Santa Luzia.
Sobra-me o olhar para pensar em ti.
Pelo facto de te amar tanto assim, sinto que sou irmão do tempo no mar de Sophia, porque por muito que pareça estranho, estando “preso” a ti, eu encontrei toda a minha liberdade.
E que bom foi ter um dia cheio de nuvens a permitir espreitar tão profundamente para dentro do que sou.

MARTA CRISTINA & FRIENDS

A Marta, filha dos meus queridos amigos Maria Manuela e José Maria, cumpre hoje o seu 23º aniversário.
No ano em que decidi celebrar com palavras e de forma especial, os amigos no dia do seu aniversário, escolhi esta data para compor e publicar este pequeno texto, porque a Marta foi a primeira a nascer como filha da minha geração de amigos.
Na verdade, este texto também poderia chamar-se Miguel, Nuno, Pedro, Francisco, Isabel, João, Luís, Fábio, Joana, André, Margarida, Eduardo, Manuel, Mário, Teresa, Rita…
E escrevo-o para que conste no final de 2014, e sempre, o orgulho profundo que sinto por termos conseguido criar uma geração fantástica que dá legitima continuidade à esperança que nós tantas vezes sonhámos “à sombra das laranjeiras”.
A herança está a passar.
Sinto-o sempre que conversamos e nos rimos muito em conjunto, quando partilhamos mesa no Restauração a propósito de um café, de um aniversário, quando nos juntamos num jantar ou numa festa, quando interagimos no Facebook, quando cantamos juntos as mesmas canções partilhando as violas, quando compartimos a mesma fé, e especialmente quando vos dou boleia até Lisboa nos finais de tarde de domingo sentindo que os duzentos quilómetros assim à conversa passaram de uma forma demasiado rápida.
Conseguimos entender-nos tão bem que a Maria Isabel faz músicas fantásticas para os meus poemas.
Vejo-vos e sinto-vos grandes, capazes de irem conquistar o mundo e conseguirem captar dos dias tudo aquilo que eles têm de melhor.
Vislumbro a vossa garra e palpo que o sucesso está-vos no sangue, e é uma garantia.
É por isso que sinto orgulho e me revejo em tudo aquilo que vocês são e fazem.
Vocês são no fundo um upgrade fantástico da minha geração e da amizade que eu e os vossos pais conseguimos criar.
O tempo passou depressa demais e nós ainda há pouco vos ouvíamos dizer que “os meus olhos têm sono mas eu não”, que queriam uma Barbie no Natal, que não bebiam leite porque este não era da marca Mimosa, a gritarem ao telefone e nos restaurantes cheios de gente que a noite tinha sido tranquila porque tinham uma fralda, a dizerem que um pedaço de madeira servia para irem à caça porque era a vossa “pingada”…
Talvez eu tenha saudades desse tempo, mas sinto que todo o tempo que passou foi bem empregue e os vossos pais fizeram um verdadeiro trabalho de mestres.
Também não é por acaso que são meus amigos.
Por isso aqui fica um beijo especial à Marta pelo seu aniversário e beijos e abraços para todos vocês do “Tio Quim”.
Sigam em frente, sejam felizes e amem loucamente a vida.
Vocês são definitivamente o melhor e mais completo epílogo para a história das nossas vidas que aqui tenho vindo a contar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O “Basto” e outros heróis e santos (Férias – Dia 7)

Nunca saberemos onde foi o ponto de viragem, aquele instante em que a mais pura realidade ganhou um romanceado e heróico estatuto de lenda.
Talvez "O Basto", enigmática figura imortalizada na pedra e cujo nome dá apelido a estas terras (Celorico, Mondim e Cabeceiras), não seja mais do que uma simples pedra tumular de um qualquer soldado lusitano; mas bem melhor fica a “História” se lhe chamarmos Hermígio Romarigues, um guerreiro monge do Mosteiro de São Miguel de Refojos, que comandando as tropas conseguiu defender o Mosteiro do ataque dos infiéis, gritando com valentia e junto a uma ponte:
- Até ali, por São Miguel, até ali “Basto” eu.
E a estátua do soldado lusitano, para além da lenda, ganhou ainda uma nova cabeça com direito a um farto bigode, e ganhou no peito uma inscrição topográfica pois durante anos esteve sobre um pedestal à entrada de uma ponte muito importante.
Assim o vemos na praça de Cabeceiras de Basto um pouco antes de entrarmos no mosteiro de São Miguel, de que já falei.
Também a História moldou a face do mosteiro que já existia no tempo de D. Afonso Henriques, com os finais do Século XVII a darem-lhe uma imponente face barroca.
A igreja surpreende pelo todo grandioso, pelos dois órgãos de tubos, mas eu não consigo deixar de me fixar num pequeno detalhe que se salienta junto a um dos altares laterais. Reza assim uma inscrição (e reproduzo):
“Todos os Fieis de hum e outro sexo que verdadeiramente confessados e comungados vezitarem esta Igreja e nella o Altar da Senhora das Dores e pedirem pella paz entre os Princepes Christaons, Ganhão Indulgencia Plenaria desde as primas vésperas athe o sol posto no dia da sua festividade. E cada hum dos dias da sua novena cem dias de Indulgencia estando contritos. Assim o concedeo in perpetuum o Sm. PP Pio VI. Anno Domini 1787.”
Vá lá que a salvação não faz distinção de género mas de qualquer forma fixa-se mais na contrição e na prática religiosa, omitindo talvez o mais importante: “as obras valerosas”.
Sinais dos tempos?
Parece que não, e bem parece ser transversal à História este desvirtuar da realidade que faz heróis, santos e cria lendas a partir de gente e coisas tão demasiado simples.
Ainda hoje, de um corrupto se pode fazer um Homem livre, tão-só porque a liberdade é um bem vendável pela justiça e pode ser paga pelos que têm dinheiro; e os que roubaram têm habitualmente muito dinheiro quando o guardam bem guardado.
Que nos valha sempre o Espírito Santo…
E com o eco das lendas e dos santos espíritos contritos e peregrinos, regressámos ao poiso que mira ao Tâmega e ao Alvão, e ao quarto que tem dálias vermelhas a brilhar na varanda.
Tarde de leitura e conversa olhando as montanhas, com os meus pais a revisitarem as minhas “palavras” e a porem questões e a fazerem comentários acerca das mesmas.
Interessante porque sem filtros.
Sei que nunca serei herói, e santo então muito menos, por mais que reze, mas desta liberdade de ser eu já ninguém me priva; e liberdade com o benefício de ser totalmente gratuita.
Até amanhã… em Viana do Castelo.