quarta-feira, 20 de agosto de 2014

“Lindas, cheirosas e fantásticas”

Se são inteiramente gratuitos, a chuva e o nevoeiro em Agosto no alto do Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo; o acesso ao sol e ao mar supostamente quente do sul tem um elevadíssimo preço pago directamente por transferência bancária a partir da nossa conta corrente de tolerância e paciência.
E a factura, sem direito a desconto no IRS, e ao jeito de portagem, começa logo a pagar-se nas Áreas de Serviço da A2, antecâmara do pior que nos espera por aqui.
Escolhi um hotel numa zona não muito mediática e em que o acesso à praia até pressupõe uma viagem de barco, pensando desta forma evitar os malefícios do turismo de massas, mas foi em vão.
As “pseudo-tias” genéricas de imitação barata que gritam nas filas dos centros comerciais aos fins-de-semana nos dias livres em que não têm de ir à repartição vieram todas para aqui comigo.
Vestiram-se de rendas brancas e pretas por onde se espreitam os fatos de banho da La Redoute a tentar em vão esconder a celulite que não morreu com os drenantes que beberam durante a primavera, enfeitaram as cabeças das filhas com fitas de seda fazendo-as parecer embrulhos de presente da “Teresa Alecrim”, entregaram os i-pads aos Afonsos, aos Bernardos e aos Santiagos, vestiram os maridos de Lacoste mas com os crocodilos afogados nas asneiras que constantemente lhes saem da boca por entre a imagem de tio beto marinheiro entregue ao inevitável destino de ti Manel dos matraquilhos... e vieram todas atrás de mim.
Todos juntos, gritam no restaurante como se quisessem ser ouvidos em Casablanca, entornam a comida por todos os sítios, empurram-se uns aos outros, dizem asneiras, coçam a genitália na fila dos grelhados; mas sempre tudo a bem da descontracção das férias para partilharem de aqui a dias na repartição.
Por entre as rendas e as cores impossíveis dos cabelos pintados no cabeleireiro SanJam do Shoping mais perto de casa, elas "mascaram-se" de tudo, e comparado com isto, o Carnaval de Torres Vedras é uma produção de ópera do São Carlos.
Ontem ao jantar tive à minha frente uma criatura tão prateada que o vestido dela a esvoaçar entre as mesas pejadas de gente era uma versão em tecido daquelas frases estúpidas que as pessoas põem no Facebook só para chamarem à atenção: “engoli uma mosca”, “estou grávida” ou “acabei de fazer amor com um jacaré”.
Não fosse eu um proprietário de lentes anti-reflexo, e ainda tinha engolido o garfo.
Nas praias competem em cor com as sombrinhas, em cheiro com a Moqueca de camarão, e em ruído com a sirene do Cabo de São Vicente.
Até as gaivotas se têm mantido à distância.
A mesma distância que eu gostaria de ter tido de um grupo no toldo ao lado que entre Francês e Português se divertiram toda a tarde a rebolar na areia, aos gritos, quase me impedindo de escutar a “oração de sapiência” da criatura que no toldo do outro lado, explicava os benefícios do seu creme Ambre Solaire que era simultaneamente protector e bronzeador.
Estando por aqui sozinho, calmo e calado, tento passar despercebido nas refeições e também no areal onde recostado à sombra me entrego à leitura de Ovídio e de "A arte de amar"; mas sem sucesso.
Ontem o filho de uma "tia" aproximou-se a perguntar se eu queria comprar pulseiras de elásticos.
Rosnei-lhe um não muito feroz e hoje estou a pensar levar um letreiro para pôr no toldo ao jeito de "Cuidado com o cão".
À noite, sentado numa esplanada a beber uma Água Tónica, fui agredido no pescoço por um dos “embrulhos da Teresa Alecrim” que usava a base da cobertura como ensaio para a dança de varão que um dia possivelmente ainda irá praticar profissionalmente.
A mãe nem desviou os olhos do i-phone e o pai é que ainda disse a medo:
- Princesa não incomode o senhor.
Princesa…
Enfim, corro o risco de ser o Alien de serviço mas pouco me importo com esse estatuto enquanto tiver uma nesga de mar só para mim, um quarto com jardim e com flores que perfumam a noite, e essa infalível terapia da Bola de Berlim, ainda que devidamente compensada por um reforço da dose de Metformina.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

As flores cúmplices do luar

No jardim em frente ao meu quarto há um canteiro enorme com flores cúmplices do luar que só libertam o seu cheiro depois do sol se esconder para lá do horizonte.
Um perfume intenso e inesperado que me abraça na noite enquanto caminho escutando o canto de cigarras, sentindo ao longe a perseverança do afecto das ondas enrolando-se na praia.
Quem disse que não há encantos guardados nos momentos em que o sol não brilha?
O segredo será talvez o "acender" de todos os sentidos e não amputarmos a hora do benefício de qualquer um deles.
O sol voltará sempre, já o sabemos, tenha a noite a aparência de longa ou curta, tenha ou não o luar a companhia de doces aromas de flores... mas a espera da madrugada nunca é um tempo morto e é em si mesma um tempo de "prazeres" únicos a não rejeitar.
A vida não é intermitente e nunca é ou será cativa do brilho do sol que nos faz os dias.
A madrugada devolveu-me o azul do mar de que eu desfruto enquanto caminho só pela areia sentindo aqui e ali o beijo fresco de uma onda mais ousada e distendida.
Este azul tem a cor do sorrir de alguém.
Gosto do cheiro da maresia, deste odor salgado de algas e de tudo o grande que o mar guarda em si.
Mas o perfume das flores guardo-o apenas da noite.
E o teu sorriso?
Também está guardado nas noites, em mim e nos meus sonhos, muito mais do que aqui ao sol no azul do mar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Uma carta de amor

Meu amor,
Nem as estradas de sempre conseguem ser velhas quando como hoje me oferecem um caminho novo: vou ter contigo.
E a rota banal de tantos dias, traçada entre sobro e olivais, tem nesta tarde, e por ti, as virtudes do cumprir de um destino.
Tudo faz sentido.
Se na vida há sempre um primeiro amor, eu hoje sei que tu és o meu último e definitivo amor.
Cheguei.
Tudo o de antes ganhou estatuto de irrelevante e o depois deste amor não existe. Por ser tão grande e tão justo para com os meus maiores sonhos, este amor é a própria eternidade.
Todos os meus passos, toda a minha história, foram para chegar aqui a este abraço.
E se eu pudesse, mil anos viveria contigo.
Enquanto espero que chegues e me sento à sombra de uma árvore num banco no Camões, olho em volta para as casas e a luz do Chiado, palpo no peito esta certeza de que tu vens, e consigo sentir uma estranha saudade deste momento que é em tudo perfeito.
É a este momento que eu quero voltar sempre tal como Sophia o faz nas tardes junto ao mar.
E depois tu chegas, dás-me um abraço, caminhamos lado a lado em direcção ao rio, e o Tejo faz-se um lago em 180 graus de azul.
Enquanto toda a gente brinca com as margens, enquanto os cacilheiros cumprem a sua sina e ligam norte e sul, nós vamos tecendo a tarde de palavras, de beijos secretos soltos pelos nossos olhares enamorados.
E as minhas mãos que há milénios esperavam pelo toque assim perfeito das tuas…
Ao chegar o instante mágico do pôr-do-sol sabemos que já dissemos infinitas vezes a palavra amor, mas muito poucas vezes para a paz que sentimos neste entrelaçar das nossas duas almas que se desejam e que por isso se fazem uma só.
Meu amor…
Nunca as estradas serão velhas quando percorridas para chegar a ti; e as cartas de amor jamais serão banais, sendo eternas bebendo das palavras deste sentir que não tem fim.
Toda a noite sonhei contigo, toda a noite senti o teu cheiro, o calor do teu abraço, a vida toda que se solta dos teus beijos...
Sim, sou teu.
Serei sempre.
Sinto-o mais do que nunca nesta madrugada que é prefácio de uma vida inteira que espera as minhas palavras e os teus traços.
E por isso te escrevo e te mando um beijo.
Teu eternamente,
FC   

domingo, 17 de agosto de 2014

“Não chores…”

"Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade"
Dos idos de 1954, a minha mãe recorda-se de os meus avós lutarem pelo aumento de um escudo no valor pago para ceifar o trigo de sol a sol, valor que era há muitos anos de dezasseis escudos para as mulheres e de vinte para os homens.
Recorda-se de o meu avô recomendar prudência à minha avó, sempre mais rebelde e de verbo fácil, porque no Baixo Alentejo já tinham assassinado uma mulher que lutava pelo mesmo objectivo. Tinha sido um soldado da GNR com um disparo da sua arma.  
"Não chores pelos que te abandonaram e luta pelos que estão contigo"
Era solidão o que sentia pelos montes fora nas manhãs de inverno em que de joelhos nas margens dos ribeiros de água límpida mas gelada, o pão se ganhava lavando a roupa das clientes endinheiradas da terra.
As minhas avós falavam da solidão e do abandono pela sorte. Com elas vivia apenas a fé que desfiavam em perpétuas Ave-Marias rezadas à medida que os dedos cobriam a roupa do aroma do sabão azul e branco.
"Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens"
A liberdade chegou numa manhã de Abril de 1974, e um ano depois eu acompanhei os meus avós na primeira vez que foram votar. Estivemos horas numa fila nas instalações do Ciclo Preparatório.
Pelo sofrimento e pelo silêncio foram muitos os anos perdidos, mas agora o que interessava era o valor muito elevado do que se tinha: uma inédita liberdade.
As três frases magníficas que aqui cito neste texto são da autoria do Papa Francisco e foram recentemente utilizadas por Ricardo Salgado numa entrevista ao Diário Económico.
Os bancos mudam e passam a chamar-se “Novos”, e “Cristão Novos” também é designação que a História registou em compulsivas conversões em séculos passados, mas “Velhos Ricos” com estes “Novos” argumentos é coisa que definitivamente não se tolera à luz da memória, do bom senso e sobretudo do pudor.
As palavras do Papa que fazem todo o sentido para muita gente, para a grande maioria das pessoas minhas concidadãs e para a herança que recebemos dos nossos avós (e os meus de quem aqui falo são os meus verdadeiros heróis), dificilmente farão sentido para o “Último Banqueiro”, que por seu “mérito” e para desgraça dos contribuintes “malandros” que mais uma vez irão suportar o “experimentalismo financeiro com elevados lucros para os próprios”, se condenou a ele mesmo a esse estatuto de “Último”.
O Papa falou mais para nós do que para Ricardo Salgado, porque o sofrimento, a solidão e as perdas doem muito mais sem pão e em casas simples de pedra, do que nos salões do Palace do Estoril à volta de um lauto banquete.
A “pobreza” dos banqueiros é a “riqueza” que nós nunca conseguiremos alcançar. 

sábado, 16 de agosto de 2014

O príncipe que não sabia o que era a poesia

No seu castelo com janelas grandes rasgadas para a serra, parapeitos adornados de tulipas que nos dias de vento deixavam entrar o aroma fresco da maresia, porque o Atlântico não ficava longe; vivia um príncipe de olhar sereno e sorriso feliz.
O jardim era o seu mundo, e o seu confidente nas brincadeiras, nos sonhos e nas angústias, era um enorme pé de abacate que lhe dava abrigo, sombra e lhe retribuía em frutos verdes e gigantes, o afecto feito de tantos cuidados e carícias.
Às vezes nas tardes mais quentes, sentado junto à janela do primeiro andar, ou mesmo junto ao seu pé de abacate, o príncipe lia os livros guardados na biblioteca do castelo, apreciava a prosa que o fazia sonhar, mas ficava sempre triste quando tentava entender os poetas.
As palavras destes pareciam-lhe vagas e o príncipe ficava sempre triste por não poder e não saber entender a poesia.
Este sentir manteve-se sempre igual, até que numa tarde quente e risonha de primavera, estando ele entregue aos seus pensamentos à sombra do seu pé de abacate, o Deus que sempre cuida do coração dos Homens, lhe apareceu num pensamento e lhe deu as coordenadas de um caminho.
E disse-lhe:
- Vai e aprenderás o que é a poesia.
O príncipe que sempre vivera ali fechado no seu castelo, não hesitou, de pronto preparou a mochila com algumas poucas coisas de que necessitava, e fez-se à estrada seguindo as indicações deste Deus que não tem nome mas que todos conhecemos.
Subiu estrada fora, península arriba e foi dar a uma terra verde da cor dos seus abacates, uma terra onde corriam incansáveis rios e ribeiras, uma terra onde os Homens cantavam com fé ao som de gaitas e brindavam com o “vinho” que sabiam colher das macieiras.
Aí, o príncipe apaixonou-se na hora em que alguém chegou e lhe entrou de rompante por todos os sonhos.
E sem saber como, e sem que o Deus dos apaixonados lhe tivesse voltado a aparecer em pensamento, o príncipe regressou ao seu castelo, ao seu pé de abacate, às janelas para a serra que traziam o cheiro a maresia… e começou a ler e a entender finalmente todas as palavras dos poetas, até aquelas que pareciam indecifráveis.
Cumprira-se a profecia do Deus do amor em conversa tida numa tarde de primavera.
Afinal, a poesia é a linguagem das almas apaixonadas, e o príncipe enamorado e com o coração lá longe entre os bosques onde habitam deuses e sonhos, aprendeu por tudo e também pela saudade, os segredos desta “fala” que expressa os sentimentos, mesmo os mais profundos.
E o príncipe viveu feliz para sempre no seu castelo, com as suas plantas, o mar, os seus sonhos e claro, a poesia.
Álvaro José, muitos parabéns pelo teu aniversário.
Desculpa a brincadeira mas terias de figurar na galeria de textos dos meus amigos.
E nesta coisa dos poetas, eu nunca consegui perceber como é que tu não os entendias, tu que pela tua generosidade e amizade, és afinal uma pessoa ao jeito de um “verso” do melhor que tem a poesia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A poesia que se solta de um pôr-do-sol (Férias – Dia 14)

Primeiro começamos a conseguir olhar o sol de frente, e daí a pouco ele desaparece mergulhando naquele exacto sítio lá ao longe onde o mar parece tocar o céu.
Sabemos que o pôr-do-sol é uma ilusão que a esfericidade da Terra nos oferece, e também estamos conscientes da relatividade de um momento que sendo para nós o anoitecer, para muitos será o inicio de uma nova manhã; mas deixamo-nos ir pela magia desta hora, que as ilusões são especiarias que nos dão sabor e gosto aos dias, e esmaga a poesia quem se faz escravo cego da razão.
Da mesa do nosso último jantar de férias vemos o pôr-do-sol no mar de São Pedro de Moel, beneficiando da generosidade de quem nos pôs a mesa, quadrada, e deixou devidamente livre o lugar que condenaria algum de nós a não o ver.
Vamos apreciando os tons do sol, do céu e do mar, falo da "hora dos mágicos cansaços" e dos abraços, de Florbela, e deixamo-nos levar pelas inevitáveis palavras.
Levamos duas semanas a conversar, e de Florbela passamos pelo amor, pelos namoros de há cinquenta anos (eu sou da mesma idade do amor dos meus pais), os bailes nas sociedades recreativas, a vergonha do primeiro beijo só após um ano de namoro...
E eu ouso pegar no i-phone e ler um dos meus poemas de amor.
Ali os três sentados, eu e os meus pais, sabemos que o amor assim tão perfeito não é compatível com disfarces, é a festa das almas abertas, é a arte dos recomeços; e tudo, mesmo até o pôr-do-sol, pode ser o inicio de um dia novo e bem melhor.
Por isso terminaram as férias mas seguem as palavras e este infindável amor que tem expressão em todos os momentos.
Já temos planos para o ano que vem e para estas duas semanas que sempre reservamos no calendário.
Nunca nos deixaremos morrer e nós sabemos que ter planos e ambições é tão fundamental quanto o respirar para quem se quer manter vivo.
Sabem que nestas férias e em todas as refeições brindei com o meu pai fazendo tilintar os copos dos tintos que se foram cruzando connosco, e ensinei-o que para dar sorte temos de nos olhar de frente no momento do brinde. Ele agora escancara-me sempre os olhos.
Assim e para terminar, brindo com todos vós na alegria de ter sentido os vossos olhares sobre estas partilhas:
- À vossa!
E viva a vida recheada de amor e poesia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O mar é sempre azul (Férias – Dia 13)

Primeiro as badaladas das oito horas no relógio da capela da Casa da Ínsua, o fresco da manhã servido pelas janelas que miram ao pátio e à sombra dos plátanos centenários, e mais tarde um café acompanhado pela ousadia de uma fatia de Pão-de-Ló temperada por uma excelente compota de tomate que tem um inesquecível aroma de canela.
O dia hoje vai levar-nos até São Pedro de Moel, e o GPS alia-se a nós “empurrando-nos” para o cumprimento do destino maior do ser Português: o mar.
Em Portugal, por mais longe que estejamos do mar, estaremos sempre perto; e no contexto do universo, duzentos quilómetros são a largura perfeita para uma imensa praia.
E mesmo quando cruzamos as serras mais altas, templos e altares de imponente granito; quando nos entregamos aos caminhos bordejados de vinho ou pão; ou então quando nos sentamos na margem de um rio ou na soleira de uma porta de uma aldeia lá longe junto à fronteira; o mar sempre se pressente.
Carregamos no olhar uma genética de marinheiro; no choro, o triste tom da saudade que agita lenços e os faz voar como pombas no cais das partidas; e na alma, muito mais do que nas mãos ásperas e calejadas pelo tempo e pelas cordas que nos ligam ao sonho, temos o mundo inteiro que fazemos nosso em cada dia temperado de um incansável querer.
Por isso seguimos sentindo como inevitável esta estrada que passa o Dão e se alinha com o Mondego, tomando-lhe a rota até ao mar.
Figueira, Pedrogão, Vieira, São Pedro de Moel...
Chegámos.
Da janela hoje vê-se o mar, e os grilos, o toque breve dos sinos e a persistência da fonte que corre no pátio da Ínsua, hoje foram substituídos pelo som do vaivém das ondas que pinta a praia de um branco intenso de espuma.
E o horizonte vê-se azul lá ao longe num beijo imaginário entre o céu e o próprio mar.
Pelo caminho a mãe hoje tomou as rédeas da conversa e partilhou connosco as histórias tão cheias de alinhavos e pospontos desde o dia em que com treze anos levou de casa uma cadeira baixinha e se sentou ao redor de uma mestra que dispensava a fita métrica porque dizia ter centímetros no olhar, a mesma mestra que quando lhe pediam para baixar meio centímetro numa bainha, promovia a "emenda de cabide", pendurando a peça sem lhe tocar, mas satisfazendo a cliente...
Pelo caminho, o eco e o ressoar das palavras de amor: "gosto tanto que me ames assim"...
E um dia ganha-se às vezes entre memórias, riso e palavras de amor, quando seguimos estrada fora buscando o mar; nós, os instituídos marinheiros pela força de sonhar, os que nunca tememos fazer-nos ao sonho, de caravela, com uma caneta na mão, ou então com uma simples cadeira baixinha.
À noite, da minha janela, já não o vejo, apenas escuto o vaivém do mar. Mas depois de um dia com palavras de amor, quem é que se rende à escuridão?
"Gosto tanto que me ames assim..."
Mesmo de noite, ao luar, o mar e a vida seguem sendo azuis.
E eu... sou um eterno um marinheiro, muito mais pelo sim ao sonho nesta aventura preciosa de te amar, do que pela inevitável lusa genética que obviamente carrego no olhar.