quinta-feira, 28 de agosto de 2014

E pimba… o regresso!

Há sempre algo que vem legitimar o título de tonta atribuído a esta estação do sol e das praias, e talvez tenha sido isso que senti justificar o facto de estar parado num semáforo de uma esquina de Lisboa e ter descoberto de repente que a loura que conduzia o super Mercedes que estava ao meu lado era a cantora Ágata.
Logo ali e em dia de regresso ao trabalho, a nossa fragilidade apela aos santinhos todos num pranto ao estilo de “Mãe querida, mãe querida…” e desliza para um secundaríssimo plano, o antecipado desconforto do regresso aos Mocassins depois de um mês de liberdade total para os pés em gozo de férias.
Já para não falar do aperto que as gravatas me oferecem ao pescoço habituado à brandura dos pólos…
Por entre o "perfume", que não de mulher, mas desse improvável dueto da Rainha do Pimba com um Quim Barreiros que não é o original; nada mais poderá constituir factor de risco para uma possível depressão pós-férias de verão.
Saberá no entanto Deus qual a causa para a imensidão do castigo que para mim constituiu tal visão demoníaca (e loura), como se de repente eu tivesse saltado para um videoclip do "saudoso" programa "Made in Portugal", para dentro de “A Casa dos Segredos” da Teresa Guilherme, para uma página central e poster da revista “Ana mais atrevida”, ou então para um daqueles programas da tarde em que os apresentadores me põem à mercê de Captopril debaixo da língua quando falam mil vezes por hora dos números de oitocentos e qualquer coisa e das enormíssimas vantagens de ligar e ganhar milhares e milhares de Euros.
Foi portanto com os pés devidamente aconchegados, com o pescoço aprumadinho num fantástico nó de duas voltas, e sem qualquer laivo de queixume que voltei a tomar a bica pelas sete horas da manhã na pastelaria do costume e a dar dois dedos de conversa enquanto folheio e leio as gordas do Record.
E as gordas, juro que não é piada para a Ágata.
Depois o trabalho, a alegria de rever os colegas e um dia fantástico, claro; se até a colega que faz a limpeza escutava por aqui e partilhou comigo o som do Waterloo dos Abba, da Eurovisão de 1974, um pouco antes das oito da manhã…
É que só podia correr bem...
Porque se o segredo e o melhor dos dias é o bom humor, nada de mau acontece se nos agarrarmos a ele com unhas e dentes dizendo a toda a hora que "podes ficar com o resto e dizer que eu não presto, mas não fiques com ele..."
Ele, o bom humor claro, que a outra coisa bem diferente se referia a Ágata nos seus “malditos amores”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

As sedes, os silêncios e o imenso querer dos heróis

O silêncio será sempre a melhor oportunidade para atribuir valor à música e às palavras; a ausência, a melhor forma de fazer justiça ao inquestionável valor de um abraço; e a saudade pode constituir uma fantástica e definitiva oportunidade para sentirmos que sim, este é o nosso definitivo amor de onde nunca iremos partir.
Só valoriza muito a água quem sente ou já sentiu sede, o pão vale muito pouco para quem nunca sentiu fome, e a liberdade é um dom fundamental para todos, mas muito especialmente para aqueles que um dia sentiram a mordaça que lhes limitou o desfrutar da sua própria verdade.
Depois… a adversidade é para os fortes uma escola de virtudes e para os fracos um fabuloso pretexto para dar brilho à sua “aura” de coitadinhos e desgraçados abandonados pela sorte.
E às vezes, no fim das tardes quentes de verão, quando o sol tinge de vermelho o horizonte e nós lhe entregamos o olhar, enquanto à janela escutamos a voz brava de alguém que do outro lado da linha partilha connosco a ânsia de muito querer viver por entre um interregno em que a saúde se foi; nós aprendemos tudo isso enquanto a emoção nos tolhe as palavras e nos põe o pensamento e o coração em cambalhotas a cem à hora.
E sentimo-nos muito grandes e ricos embora estejamos a chorar.
Amanhã o sol nascerá por certo mas é necessário ir procurá-lo ao outro lado da vida, perdão, da casa.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O último dia de férias

Já está, cheguei ao meu último dia de férias.
Durante um pouco mais de três semanas tive tempo para passear no campo, na serra, nas cidades, nas ruas com muita gente, nos trilhos solitários e só meus, à beira mar, nas margens dos rios, dos lagos azuis, das ribeiras com aroma de hortelã e poejo…
Cantei, assobiei, comovi-me, chorei, ri muito, encantei-me com as palavras dos poetas e com as canções que fui escutando. Li e reli Eugénio de Andrade e definitivamente fiz minha (nossa) a fantástica Where dreams go to die, de John Grant.
Escrevi prosa, crónica, romance e poesia, à luz de um luar gigante ou de um sol mais ou menos envergonhado; a olhar o Douro, o Tâmega e o mar Atlântico; escrevi por entre o cheiro a flores, a campo, a maresia… mas sempre a pensar em ti.
Sorri muito sob o privilégio do afecto dos meus pais a quem dei o braço em inesquecíveis passeios, e também sob o efeito doce das palavras e das memórias que soubemos ir semeando pelos dias.
Bebi, brindei com vinho, cerveja e sangria, comi petiscos, gaspacho, sardinhas, bolas de Berlim…
Iniciei muitos dias a saborear o mar e simultaneamente o prazer de um bom café com gelo.
Li mensagens, comentei fotos, vídeos, partilhei piadas e até já gritei golos do Benfica.
Falei muito e saboreei todos os silêncios e o privilégio que ele nos oferece de podermos falar a toda a hora com aqueles a quem queremos muito.
Arrumei o escritório vasculhando memórias.
Abandonei o relógio para que não existisse hora para nada, existindo simultaneamente tempo para tudo.
Estive na praia, procurei conchas, falei com o mar nos instantes ali naquele terreno mágico onde as ondas se rendem à areia e ela nos desenha o caminhar.
Tomei banhos no mar e à excepção da chuva num domingo no Monte de Santa Luzia, não despejei sobre mim qualquer outra água fria. No mundo já se mete demasiada água, e para além disso, gosto mais de nomear os que amo por via do coração e do pensamento.
Namorei, umas vezes sob o olhar doce da pessoa por quem se me solta a poesia, outras, muitas mais, naquele abraço perpétuo que a memória sempre nos oferece fazendo com que a distância de quem amamos seja apenas um desprezível detalhe de natureza geográfica.
Mas já está… as férias acabam hoje.
Tenho no entanto de confessar que gostando muito do que faço no trabalho e das pessoas com quem o faço, já tenho saudades e me vai fazer muito bem o regresso.
Há mais de um mês que não tomo o café matinal com a minha querida colega Carla Antunes, e isto é uma violência.
No fundo, quer falemos de férias ou trabalho, o segredo é sempre o mesmo, é fazermos nossos todos os dias pondo-lhes a marca do que queremos, rodeados pelas pessoas de quem gostamos.
Venham de lá então os doces dias de trabalho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu jamais quererei morrer

As calçadas da Mouraria, pátria mãe de todos os fados, souberam esperar mil anos, por nós, pelos nossos passos e pelo canto tom de flor que sempre se solta do teu olhar.
A noite a cair sobre a viela, e a alma a acender-se lentamente ao ritmo do velho candeeiro que lá do alto já perdeu o conto às lágrimas da gente na Rua do Capelão.
E por entre este choro que transpira e ressoa das paredes cúmplices de tantos sofreres de amor, por entre a poesia que nos beija entrelaçada na brisa do fim da tarde, por entre a liberdade, fiel irmã e companheira de Lisboa, os teus braços foram o cais do melhor destino, e o nosso abraço foi aquilo que será sempre: o cumprir do meu melhor fado.
Aqui mudámos o tempo e o ciclo vazio de duas tristes histórias.
Agora, há muitos mais mil anos que esperam por nós, a eternidade e esta festa que matou solidões e encheu de amor e palavras de verdade, as tardes de Lisboa e os mais recônditos recantos da mais escondida e estreita viela.
Há tantas calçadas atapetadas de fados que esperam pelos nossos passos cúmplices de eternos enamorados.
A eternidade…
Há tanta vida que se solta dos beijos que tu me dás.
Tu és a minha vida, e assim, eu jamais quererei morrer.

Há exactamente 26 anos o Chiado ardia num dia de verão em que chorámos por Lisboa.
O tempo devolveu-nos o Chiado a tempo de nos sorrir nas tardes perfeitas que Lisboa nos oferece para namorar.
Pelo sonho da Mouraria deixo aqui um beijo à cidade mais bonita do universo.

domingo, 24 de agosto de 2014

“Arranjem-nos a água…”

Deixo o mar e cruzo o Alentejo com o sol a pique pela hora do meio-dia.
A imperial solidão dos montes, a espera dos sobreiros, o tom de ouro do feno que preserva em si a eterna genética rubra das papoilas, o olhar perdido pelo horizonte que parece não ter fim, enquanto a alma relembra a sede das árvores de Florbela, e o corpo, mais do que tudo, pede uma gota de água fresca “colhida” algures numa fonte, daquelas do campo que são guardiãs de histórias de amor.
Naquela casa que se avista quase a chegar à aldeia da Messejana, ali muito próximo de Aljustrel, pararia eu agora se pudesse para a frescura de um Gaspacho em festa de orégãos, daqueles que o Tio Filipe preparava sempre que vinha do campo e que nós repetíamos voltando a atestar a malga por duas e três vezes.
Só nós Alentejanos e por entre este calor, reconhecemos que esta sopa é uma necessidade e um prazer supremo nestes dias quentes de verão.
Mas hoje sigo e fico-me pela vontade.
Mais à frente e por entre os olivais, consigo vislumbrar a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, ou Nossa Senhora de Entre as Vinhas, um templo barroco e imponente que as gentes regressadas do Brasil importaram para aqui matando saudades da “colónia” que lhes ofereceu prosperidade.
No meio do campo e de quase nada se podem fazer jóias assim.
Assalta-me depois à memória a história da Praia da Messejana, esta aldeia aqui bem no interior da planície.
Por alturas da primeira república, algures pelo ano de 1920, ganhou protagonismo um homem desta região chamado Brito Camacho. Os seus conterrâneos reconhecendo o seu poder de influência, estabeleceram uma longa lista de solicitações com melhoramentos para a freguesia, que lhe entregaram numa sua visita a casa.
Depois de os escutar atentamente e depois daquele extenso rol de pedidos, Brito Camacho usou do humor à boa maneira Alentejana e perguntou-lhes se não queriam também uma praia. Os interlocutores não se deram por vencidos e responderam:
- Arranje lá a água que a areia arranjamos nós.
Pelo Alentejo nunca necessitámos passar procuração para alguém nos inventar as anedotas.
Hoje e nesta tarde de sol intenso, eu prossigo o meu caminho e não tardo a chegar ao rio que é quase sempre o nosso destino, e que nos oferece esse doce privilégio de Lisboa: o Tejo.
Reencontro o mar na vista da minha janela e deixo-me ir pelo que resta de tarde, com os sabores do Alentejo a fervilharem num Sericá que partilharei à noite com um grupo de amigos por entre palavras e afectos num jantar que será a coroa num longo dia de viagem com os pensamentos e as lembranças.
Passa pouco da uma da manhã quando regresso a casa e se cruza à minha frente o voo de uma coruja.
Diz-se pela minha terra que estas aves, habitantes das torres das igrejas e de lugares inóspitos das cidades e dos campos, carregam em si o mau agoiro e um sinistro prenúncio de desgraça; mas um homem que vai aqui feliz e com o coração já confortado pelas palavras de um beijo de amor, pode lá pensar em maus agoiros…
Sigo e aposto que adormeço a sorrir por entre o cansaço.
Os dias felizes são como as praias, e nem sequer precisamos que nos arranjem a água, somos nós que preparamos tudo: água, areia, sol…
Às vezes com muito pouco mas com muita força.
Da mesma forma que de um dia com uma viajem terrível numa auto-estrada com milhares de carros e gente, se consegue às vezes escrever uma história como esta.
Um bom domingo para todos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Coreia do Norte e a sacristia

Quando me sento perante o desafio de uma página em branco tento sempre ser fiel na transposição daquilo que sinto para as palavras que escrevo; e o resultado, uns parágrafos de mim, ficam soltos e à mercê das opiniões e do sentir de quem lê.
Faço isto numa crónica, num poema e até no âmbito da ficção, num romance ou num conto, espaço onde as personagens carregam sempre algo de nós, nem que seja às vezes apenas um breve e discreto “julgamento” implícito.
Gosto tanto da expressão de desacordo quanto da concordância total de alguém que me leia, porque acredito que deste confronto de ideias se constrói a verdadeira riqueza da humanidade.
E a liberdade para podermos ser nós nestes diálogos é um bem de primeira necessidade, como pão.
Foi noticiado recentemente que a prelatura da Opus Dei mantém um Index de livros proibidos nos quais se incluem 79 obras de autores Portugueses, com Eça e Saramago à cabeça; sendo que para mim o primeiro é o maior escritor Português de todos os tempos, e Saramago, juntamente com Cardoso Pires, os meus favoritos de entre os contemporâneos.
Acho esta situação vergonhosa no sentido em que sendo eu crente e Católico, vejo criar na Igreja um enclave que junta o pior do mundo; um corredor ao estilo da Coreia do Norte dominado pelos “Kim Jon-un’s de Sacristia”, espaço obscuro dominado pelo radicalismo que cobre com “Burkas” muito opacas o intelecto dos crentes seus “irmãos”.
Quem proíbe desvaloriza sempre a inteligência dos demais, não lhes reconhecendo a capacidade de fazerem o seu próprio julgamento sobre aquilo que se lhes depara, quer seja em livro, numa peça de teatro, na pintura ou em qualquer outra expressão artística.
E o desvalorizar da inteligência dos “irmãos” é “cuspir” sobre o próprio Deus que os criou à Sua imagem.
Por outro lado, quem proíbe passa a si próprio um certificado de mediocridade, na medida em que se assume com capacidade para ser um chefe que comanda um “rebanho” de gente que pensa toda da mesma forma, mas proclama a sua incapacidade para ser “líder” de um grupo de pessoas que pensam e discutem ideias com base naquilo que verdadeiramente pensam e ambicionam.
E não evoquem o Espírito Santo para reclamar maior clarividência e legitimar estas atitudes imbecis.
A História não se apaga, e proibir “O Memorial do Convento” privando as pessoas do “facto” de Baltasar e Blimunda se terem conhecido no Rossio durante um Auto-de-Fé, não limpa infelizmente a nódoa de que um dia, e em nome da mesma fé, as pessoas foram queimadas vivas por ordem da Inquisição.
Em nome do obscurantismo e da uniformidade do pensamento que vê os Homens de fé como inactivos e acéfalos seres dentro de redomas de vidro, em vez de nos verem como somos, gente do mundo que pensa e vive a fé e que a confessa muito mais por obras e convicções do que pelas ladainhas aprendidas de cor no contexto da redoma.
Ao longo da minha existência aprendi tanto com gente crente como com ateus, porque gente igual na riqueza de valores e no afecto que me dedicaram. Ter fugido daqueles que à partida pensavam e agiam de forma diferente de mim, seria desde logo amputar muito daquilo que hoje sou.
Quantas vezes o contraditório foi raiz para as minhas maiores convicções.
Quem nos ama e é grande ensina-nos sempre a pensar, quem é medíocre e não nos tem em grande conta impõe-nos regras na hora de agir.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A remexer na areia

Deitado na praia olhando para cima e beneficiando da visão de 180 graus de céu, vou mexendo e remexendo a areia ao ritmo dos pensamentos.
O meu sobrinho João, de férias em Vila Viçosa, fez-me chegar um fax com os personagens que ele quer ver na próxima história que eu escrever para ele e para o Luís. O primo Afonso tem de constar num enredo que terá de falar de monstros.
E enquanto remexo a areia vou pensando como irei eu colar os meus agora três super heróis a uma história de monstros com nomes que ele já inventou, e que... valha-me Deus.
Quando tratamos o amor por tu, por vezes tomamos o benefício de ser confidentes dos amigos que sofrem ou cantam amores.
Tenho uma amiga tão apaixonada, que por estes dias de férias e estando afastada da sua paixão, sonhou duas noites seguidas que a mesma nunca iria chegar ao que deseja: partilhar todas as luas com o seu amor.
Mandou mensagem e aqui vou eu alimentando de fé, a morte deste "monstro" chamado medo que lhe vai poluindo o sonho.
Aqui estou remexer na areia tentando pôr monstros numa história enquanto os sacudo de uma outra história bem mais real.
Libertando a areia das minhas carícias, de vez em quando levanto a mão e olho-a atentamente reparando que está diferente; os anos salpicaram-na de pêlos brancos.
Mas mesmo assim diferente, não hesito em colocá-la em frente ao sol fazendo sombra e pensando como antes: tenho uma mão capaz de agarrar toda a imensidão do sol.
Depois sorrio não conseguindo deixar de pensar que, para além do sol, nesta mão também cabe o universo inteiro quando toco na tua mão e dou sentido à espera tecida pelos anos que semearam os pêlos brancos.
E regresso à areia, palpando-a e encontrando pequenas conchas.
Afinal isto dos monstros é uma coisa fácil de lidar...
Primeiro porque somos sempre nós a colocá-los nas nossas histórias, e segundo porque quem consegue agarrar o sol e tomar o universo na sua mão no momento em que as peles se enleiam para falar de amor, também domina qualquer monstro.
Sei-o há muito.
Troco mensagens com a minha amiga até conseguir palpar-lhe o sorriso.
A história do João fica mais ou menos alinhavada...
E assim se faz a tarde de quem estando só nunca sente a solidão.
E do mexe e remexe da mão na areia trouxe uma concha, a mais pequena e a mais perfeita.
Guardei-a para ti como presente, afinal foste tu que me mataste os monstros, que prolongaste a magia da infância até aqui onde as mãos estão mais velhas, ofereces-me o universo com as tuas mãos e apareceste assim como esta concha, inesperado e perfeito enquanto eu mexia e remexia as horas de todos os meus dias.