domingo, 7 de setembro de 2014

(Sem título)

Conhecedora deste intercâmbio permanente entre Céu e Terra, uma das estrelas mais brilhantes do firmamento, e que se destacava de entre todas as que nos enchem as noites de infinitas e mágicas cores; andava há muito inquieta a olhar para a Terra e com uma enorme vontade de se tornar uma menina igual a tantas outras que habitam o Planeta Azul.
Confidenciou este propósito às estrelas vizinhas que de imediato lhe chamaram louca pela atracção por tal propósito.
- Tu vais deixar de ser uma das estrelas mais brilhantes... Não faças isso, estamos tão bem aqui em cima a ver tudo, e aquilo lá por baixo não parece andar muito bem.
E lembravam sempre:
- Para além de que o nosso pai não gosta que nos antecipemos às suas decisões.
Mas ela insistia:
- Eu quero ser uma menina como aquelas que eu aqui de cima vejo por ali a baloiçar, a mergulhar na água dos oceanos, a comer chocolate…
E tanto pensou e era tanta a força desta vontade que um dia foi mesmo falar com o pai de todas as estrelas e lhe confidenciou este desejo.
A princípio ele ficou triste com esta possibilidade de ir perder uma das suas estrelas mais reluzentes, mas prometeu ir pensar no caso.
- De aqui a uns dias mando-te chamar.
A estrela agradeceu, ficou esperançosa numa resposta positiva, mas ao mesmo tempo demasiado inquieta.
E se ele lhe dissesse que não.
Uma espera com dúvidas é sempre tão difícil.
E o tempo que parece uma eternidade…
Passou uma semana e o pai das estrelas chamou então a sua discípula de volta à sua presença.
Com um ar muito sério começou:
- Continuas com vontade de te tornar uma menina?
- Sim senhor.
Respondeu a estrela de imediato.
- Muito bem. Eu pensei no teu assunto e vou deixar-te ir.
A Estrela rasgou o sorriso mas ele continuou imperturbável:
- Vais, mas vais ter de prometer que não trairás nunca a condição de estrela. Porque uma estrela é sempre uma estrela. E todas as crianças são estrelas.
A Estrela sorriu feliz.
- Eu aceito.
- Mas há uma outra condição essencial que eu te imponho, já que tens tanta vontade de ir, terás de ficar por lá pelo menos cem anos.
- Eu aceito.
Respondeu novamente a estrela.
E depois de agradecer ao seu Pai, retirou-se e foi desde logo preparar as malas para fazer a viagem num destes dias.
A estrela está a preparar a bagagem, e este texto não tem nome porque as estrelas que habitam a Terra e a quem foi anunciada a chegada deste reluzente ser, ainda não decidiram que nome ele irá ter.
Por isso este texto aguarda e um dia terá esse nome feliz.

sábado, 6 de setembro de 2014

Esta noite…

Esta noite...
Toda a noite sonhei contigo.
Voávamos juntos cruzando o céu que o pôr-do-sol desarmou de azul e tingiu de laranja, como pássaros livres e enamorados pela geometria perfeita das quadrículas das ruas da Baixa de Lisboa.
Aqui e ali, numa esquina, a ver o rio, o Chiado ou o Castelo, pousávamos para que as palavras pudessem sair envoltas no acrescento da verdade doce que sempre lhes oferece o olhar.
E eu não me canso nunca de te olhar...
Caminhante sequioso em busca de uma fonte, sou eu pelos dias nesta vontade de te ter por perto... e poder voar.
Às vezes por entre o olhar e as palavras, enquanto voamos ou caminhamos sobre a calçada, interpõem-se as mãos, indutoras perfeitas do despertar sensorial desta  infinita paixão que começa na alma, muito a montante do que é humanamente explicável.
E tão siamesa é esta vontade que faz com que as minhas mãos suspirem de amor pelas tuas...
E os meus braços pelos teus braços…
E os nossos lábios nos convoquem para a hora de um beijo...
Quem voa, mesmo que às vezes apenas num sonho, conhece o enormíssimo valor da liberdade, e foi ela por certo que nos inspirou o canto deste tanto querer, num voo que com o anoitecer se fez cúmplice da lua e colheu dela toda a magia.
Toda a noite sonhei contigo, e o mais curioso é que não me recordo de ter pedido ao sonho para não se deixar morrer, como sempre fazemos quando eles são bons e se aproxima a madrugada.
Eu sei que num amor assim a consciência e o estar vígil nunca conseguem matar a nossa capacidade de sepultar os impossíveis nos panteões, deixando-nos ir pela liberdade.
E depois há Lisboa…
Se há cidades que nunca dormem, Lisboa, pelo contrário e por ti, dorme todas as noites abraçada a mim.
E tu e ela fazem-me voar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Viver ao sol

Por mais que insistam em falar-nos do destino, a verdade é que somos nós os arquitectos da nossa própria história, oferecendo ao tempo essas "mãos" impulsionadas pelo muito querer e inspiradas em tudo o que sonhamos e desejamos muito.
Por isso, meu querido amigo, não foi o tempo que te fez assim por artes de magia ou até por um simples acaso, foste tu que sempre te sonhaste e fizeste grande.
Por ti, as lágrimas das saudades de casa confidenciadas aos tachos gigantes quando aos quinze anos os lavavas no hotel perdido no meio da serra, se fizeram hoje coloridos cristais de açúcar que tu moldas dando uma expressão única ao amor de tantos.
Por ti, por exclusivo mérito teu, os quilómetros percorridos a pé entre a cidade e a aldeia quando os escudos eram poucos para o autocarro, se tornaram hoje caminhos por entre flores e sorrisos, e são os tapetes para sorrires por entre o teu sucesso.
Por ti, a neve fria do inverno da serra que te gelava os pés, é hoje um manto gigante que te acaricia e embala em todos os sonhos, tornando legítimos mesmo até os mais ousados.
Por ti, os aromas todos se soltaram como que por magia por entre tudo o que a terra nos oferece.
Por ti, o choro se fez um fado alegre, os silêncios encheram-se de palavras grandes e únicas, os medos se converteram em aleluias, e as sombras morreram pelo benefício do sol mais generoso, o sol que acompanha os especiais.
Por isso, por ti e para ti, haverá sempre uma música inspirada que tempere o ar de poesia, e por ti, e para ti, a Nana Mouskouri será sempre eterna a interpretar Vivre au soleil.
Rui, parabéns pelo meio século de vida que hoje cumpres.
Segue assim porque há no mínimo mais cinquenta anos para seres feliz e para nos fazeres pessoas mais felizes.
Um brinde especial… por ti!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Entre Sophias e Ginas

Depois de uma viagem de táxi para o aeroporto em que o meu estômago foi agitado como numa montanha russa pelas travagens e arranques da condução de um motorista louco que passou o tempo todo ao telemóvel com um tal de Massimo qualquer coisa; regressar de Roma num avião cheio de peregrinos Italianos que vêm para Lisboa para depois irem até Fátima é uma espécie tão estranha de paraíso que quase nos faz querer e desejar muito todas as chamas do inferno.
Nada poderá ser pior do que isto.
As primas afastadas da Sophia Loren gritam como se não existisse amanhã, não conseguem escutar que o embarque será feito por filas, não vêm a sinalética com os números dos lugares, bloqueiam a coxia com as suas ancas avantajadas alimentadas a Lasanha, esparguete e Cannelloni, tropeçam nas bengalas umas das outras, chamam alto pelos maridos; e por entre os copos de vinho tinto que pedem às meninas da TAP, dão cabo da cabeça ao padre que as acompanha e que ganhará um indiscutível estatuto de santidade no final de tal viagem.
Perante esta visão dantesca, as hospedeiras adoptam um bem Italiano enigmático sorriso de Gioconda, assim algures entre o estar feliz e o estar incomodado com uma forte dor de barriga, acabam por desistir em pôr ordem na aeronave; enquanto eu, sentado a uma janela e acompanhado por um casal em que a mulher, sentada na coxia, é tão gorda que cria uma intransponível barreira entre mim e qualquer espaço de mobilidade que eu possa ter, acabo por matar as pouquíssimas saudades daquelas excursões em que o “Malhão, malhão” era acompanhado pelo toque de uma pandeireta e as anedotas eram contadas ao microfone por alguém que já tinha bebido um pouco mais do tinto que ia no garrafão.
O momento de maior aflição vivo-o no entanto quando a mulher tenta baixar a mesa à sua frente para poder comer a parca refeição que lhe iam oferecer, pois não conseguindo endireitá-la mas não desistindo de tentar e fazer pressão, eu fico com a claríssima sensação de que os pulmões lhe irão saltar pela boca a qualquer momento e acertar-me em cheio algures descompondo-me o fato.
As vendas a bordo também foram interessantes, com as “Ginas Lollobrigidas”, temendo por certo os raios de sol da Cova da Iria, a experimentarem todos os óculos de sol existentes no carrinho e sorrindo umas para as outras com um estilo entre o Jô Soares e o Benny Hill no apogeu dos seus respectivos programas de humor.
Depois finalmente Lisboa, a viagem de autocarro até ao terminal nos mesmos preparos, mas consigo finalmente perceber que viajámos todos num avião de nome José Régio.
Agora não me espanta nada, pois o que vivemos foi a incorporação do mais negro de todos os cânticos.
E como diz o magnifico poeta, repito eu agora já liberto deste “Tiramisú” mas de travo bem ácido:
- “Não, não vou por aí!”
Ou melhor, antes não tivesse vindo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Coisas ao redor de uma cerveja e de um pôr-do-sol

Quando em pequeno eu brincava em Vila Viçosa na minha Rua de Três, uma rua estreita de casas caiadas de Alentejo e rodapés vermelhos, azuis e amarelos; eu aprendi que uma conversa à porta numa roda de vizinhos pode ter mais emoção e efeitos especiais do que um filme de Hollywood, as pedras soltas da calçada podem ser as primeiras peças de uma casa para brincar, um pedaço de madeira pode ser um microfone, e até o portão fechado da olaria do "Tapum" pode ser o palco brilhante do Festival da Eurovisão.
A capacidade de sonhar será algo que nasce connosco, mas treina-se assim neste tanto querer que consegue criar impossíveis por cima da aparência do quase nada.
E assim, qualquer fim do mundo fica ali ao acessível virar de uma esquina.
Ontem ao fim da tarde, depois de andar a tirar fotografias ao pôr-do-sol sobre a Ponte Sisto, tomei uma cerveja fantástica e fresca, sentado numa esplanada do Trastevere, um dos bairros mais especiais da cidade de Roma, talvez um carisma muito idêntico ao do nosso Bairro Alto.
Ao meu lado, um homem toca um Bouzouki, instrumento de corda que nos transporta logo para as bandas do Mar Egeu, numa sonoridade que me faz recuar para 1972 quando a Vicky Leandros, Grega por nascimento, ganhou a Eurovisão pelo Luxemburgo com a fantástica canção “Après toi”, um dos ícones dos festivais organizados por nós à porta do "Tapum", sem que soubéssemos francês e com as palavras a surgirem com um som estranho parecido com o posteriormente famoso “Asereje”.
Por aqui, agora, sabe-me bem a cerveja; releio a ultima mensagem que fala de amor, recebo uma foto com colegas que estando juntas se lembraram de mim e manifestam saudade, recebo a foto dos meus sobrinhos no seu primeiro dia do regresso à escola, telefono aos meus pais e ouço-lhes a voz...
E fico baralhado sem saber se sonhar é uma capacidade que se treina ou se é afinal a própria vida em momentos perfeitos como este; quando a vida se entrelaça assim na nossa mais fiel vontade e em tudo e todos os que amamos, e nos amam.
A resposta não interessa.
O que interessa é que estou feliz aqui ao som do Bouzouki como há quarenta e tantos anos a brincar na Rua de Três quando a percussão das cantigas era dada pelo toque em qualquer lata.
O segredo?
Antes como agora, construirmos o que queremos por cima daquilo que se tem.
Tudo saberá sempre a muito e a perfeito, não tanto pelo que se tem, mas muito mais pela força do que queremos.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O doce sabor das palavras que se soltam da poesia

Os pinheiros competem com os campanários no desenhar da linha do horizonte a que generosamente entregamos o olhar, quando sentimos as palavras pelo eco que transpira de todas as pedras do que resta de templos, vaidades, casas ou simplesmente do serpenteado caminho que rasga as colinas.
E as palavras aqui por entre o sol de verão são pedaços de lendas, traições, ambição, guerra, paz… parágrafos de uma História que só é antiga pelo tempo que passou, porque actual nos pecados e nas virtudes que parecem “abraçados” ao ADN dos Homens, cruzando consigo todas as Idades.
Por debaixo dos meus passos, sinto-o, há segredos e passos de milénios, e antes de mim quantos Homens se terão sentado aqui nesta pedra grande e polida situada na berma da vereda que beneficia da sombra agora ao fim da tarde?
De quantos sentimentos foi ela informal pedestal, e de quantos Homens tomou cumplicidades por via do seu canto, de um assobio, de um suspiro, do pranto ou da expressão de qualquer vontade?
Tenho na mão um livro, cumprindo um velho hábito de quando passeio só por uma cidade. Não interessa qual o livro, talvez nunca chegue a abri-lo, mas faz-me companhia por aqui enquanto ao longe sinto o ruído contínuo das lambretas que aceleram na estrada de granito, e perto de mim passa gente vinda de todas as latitudes e longitudes do planeta.
Eu sou apenas mais um, um enamorado que vem dos sonhos e vai de mão dada contigo até ao fim da estrada dos dias.
Eterno como os pecados e as virtudes, o amor faz-me sorrir ao ritmo daquilo que me assalta o pensamento.
Trouxe comigo um livro apenas porque não te tenho aqui, mas dele nem sequer vou ler uma palavra porque não consigo parar de pensar em ti, e esta pedra que falará de tantos, um dia falará de mim… de nós.
Levanto-me para continuar o meu percurso e talvez por ter saído do trabalho e estar com um ar de muito pouco turista, sou confundido com um qualquer “Romano” e interpelado por dois homens que me pedem informações. Sorrio enquanto explico que não sou sequer Italiano.
O mais velho, que fico a saber ser pai do rapaz que o acompanha, pergunta-me de onde sou e sorri quando descobre que sou Português. São Israelitas, de Telaviv, e estão por aqui de férias.
E o homem sorriu porque gosta de Portugal por ser uma terra de destemidos marinheiros, que inventámos a saudade pelo meio de uma língua “doce”, e repete-o em hebraico depois do inglês “sweet”, “hamod” segundo o som que fixei.
Agradeço-lhes o elogio e desejo-lhes boas férias, seguindo então definitivamente o meu caminho e sendo inevitavelmente um Português em Roma: alma de marinheiro, saudade…
E doce?
As palavras, tantas, em Português, que se soltam da poesia de te amar assim.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A fé e a essência das giestas

O calor palpa-se com o olhar à medida que o táxi avança pela cidade vindo do aeroporto.
Aterrei há pouco em Roma, é domingo, mas a multidão de turistas faz com que as ruas mantenham a azáfama de um dia de semana com a gente a acorrer aos seus deveres laborais.
O meu trabalho por aqui só começa no dia seguinte e por isso resolvo juntar-me à massa de gente que invade as ruas.
Passo pelo Quirinale e no museu em frente há uma fila interminável para ver as obras de Frida Khalo, a exposição encerra hoje e ninguém a quer perder.
Eu também não a perderia, mas a fila está impossível.
Desço a colina em direcção à Fontana di Trevi que está em obras e sem água. Nem olho e prefiro levar na lembrança o eterno beijo de Mastroianni a Anita Ekberg no meio da água da Dolce Vita, de Fellini.
Hoje não será definitivamente o meu dia.
Sigo para o Panteão e para além dos turistas há Meet marcado pela Internet. A Europa anda estranha e nem os heróis têm descanso. Tivesse eu excesso de auto-estima e acharia que centenas de adolescentes tinham gritado por me verem dobrar a esquina.
Preciso de um café e vou ao Santo Eustáquio.
Pelo menos ali a fila é suportável embora os grupos organizados de turistas abalroem tudo e até as chávenas com o melhor Cappuccino do mundo.
Fujo e sento-me depois numa esplanada na Piazza Navona, com um gelado, pois claro.
Estou um pouco cansado mas simultaneamente apetece-me andar e por isso decido caminhar para São Pedro. Vou devagar e só paro sobre o Tibre para fazer uma foto ao Castelo de Sant’ Ângelo. O reflexo da ponte sobre a água é irresistível.
Já é tarde, os grupos de turistas recolheram aos hotéis e nem sequer há fila para a segurança antes de entrar na Basílica de São Pedro.
Tenho o caminho quase só para mim, aprecio o tamanho das colunas que só assim ao pé parecem gigantescas e partilho a visão da Pietà com um pequeníssimo grupo que por ali se encontra.
Logo a seguir está o altar de São João Paulo II com o respectivo túmulo e resolvo sentar-me perdendo-me no tempo.
Do sofisticado ouro e do fausto de São Pedro, deixo-me voar até 32 anos atrás quando entre as giestas da primavera de Vila Viçosa me cruzei com o Papa.
Por mais brilhante que seja o ouro dos Homens, nunca será igual em nobreza ao ouro das giestas quando o sol se lhes entrega nos campos. Porque no ouro das giestas está Deus.
E a minha fé tem e terá sempre a marca da simplicidade das giestas, muito mais do que a opulenta exibição das virtudes materiais que os Homens insistem em colar ao divino.
Não me peçam jamais que me vista com uma opulenta capa do ouro de um qualquer humano política e socialmente correcto.
Um Homem com fé, sou eu ali na tarde de Roma sentado entre gente que não conheço, com as minhas verdades, os meus segredos, carregando a mochila com a minha História e todas as dores e inevitavelmente todas as esperanças.
Um irmão das giestas aqui bebendo o sol por detrás dos sorrisos de todos os que amo e que me foram passando pela lembrança.
Fico até a Basílica fechar e vou caminhando depois de volta ao hotel ao ritmo do entardecer, por entre a gente que mantém a azáfama, mas agora para procurar poiso para jantar.
E um Homem com fé sou eu a caminhar feliz com as minhas verdades e a minha essência.
A vida, La Dolce Vita, é no fundo como a Fontana di Trevi, porque por mais que lhe tentem tirar a água, ela terá sempre a essência do amor e de um beijo fantástico.
E um Homem com fé sou eu a caminhar feliz e a sorrir apesar das imensas saudades de um beijo.