quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os meus versos

Por vezes perguntam-me o que é que existe
Que segredos habitam os meus versos
Se é coisa alegre, assim-assim, ou triste
Temas pacíficos ou controversos

Nos meus versos há estradas e ruas
Há casas onde mora muita gente
Há festa, palavras minhas e tuas
Na rima perfeita de estar contente

E os meus versos são veias, correntes
De sangue, amor, paz, fé e liberdade
Há ideias tranquilas ou mais quentes
Mas sempre com o que importa: a verdade

E os meus versos têm trigo e pão
Vinho, café, arroz doce, aletria
Têm a acidez quente de um limão
Ou o mel de te ter em cada dia

Às vezes sente-se neles saudade
E os meus versos parecem um fado
Que a saudade é dor de qualquer idade
Basta apenas amar e ser amado

E os meus versos, meu amor-perfeito,
São afinal doces beijos para ti
A história simples contada ao meu jeito
Dos dias mais felizes que já vivi

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A abjecta discriminação


Domingo, a missa das 18.30 na Basílica dos Mártires, ao Chiado, tinha começado há algum tempo, e um homem avança pela coxia central procurando um lugar na igreja quase cheia, enquanto outro o tenta impedir puxando-lhe pelo braço.
Na primeira igreja construída em Lisboa depois da reconquista em 1147, 867 anos depois de D. Afonso Henriques ter lançado a primeira pedra num templo destinado a enterrar os mártires do cerco da cidade, que lhe dão título; ainda há Homens que por questões mundanas e nada divinas tentam impedir que outros tenham acesso ao “altar”, neste caso porque o indivíduo em causa tinha o aspecto andrajoso de quem tem de vaguear pelas ruas e não tem um tecto.
Seria a minha fé uma ilusão, que não é, se eu não considerasse aquele indivíduo alguém em tudo igual a mim, e para naquela circunstância lhe abrir espaço para que ele se pudesse sentar ao meu lado. Não o fiz porque ele rompeu a resistência do outro e subiu pela coxia; mas houve quem o fizesse mais à frente dando-lhe a possibilidade de ele se sentar e permanecer por ali até a missa terminar.
Por todos os motivos e ainda mais aquele que está sempre à mão para nos diferenciarmos dos demais, nem nos damos conta de que a nobreza não é feita de títulos e estatutos, mas é tecida por carácter.
Um Homem grande não é um juiz bacoco entregue ao permanente desprezo pelos outros e à incessante procura das diferenças que o promovam socialmente; um Homem grande é aquele que busca tudo aquilo que o possa ligar à humanidade inteira.
E aos olhos de Deus...
A discriminação, seja ela qual for, é a negação do próprio Deus e um desprezo pela fé.
Infelizmente, a igreja ainda é um refúgio para gente muito importante mas analfabeta no entender da palavra de Deus, e gente inerte na hora de a aplicar.
Infelizmente, a mão daquele homem que puxou o outro ainda é representativa das mãos de muitos outros Homens.
Valha-nos a esperança dos que pensam e agem de forma diferente, daqueles que desprezam os fúteis aspectos mundanos e sentam os irmãos ao seu lado.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Rima anti-depressiva para sobrevivência na A5


A neblina é densa
E a auto-estrada
Onde não se vê quase nada
Fica propensa a um despiste
Um acidente
Algo que enerve toda a gente
Porque quem é a pessoa que resiste à agonia de estar parada?

E de repente…

Isto já não anda
Ali à frente alguém se despistou
Bateu
O piso está escorregadio
O asfalto parece um rio
E ninguém sabe o que lhe deu
A criatura acelerou
E o controlo perdeu

Entre buzinas
Acelerações traquinas
Sente-se a ânsia de uma ambulância
Que quer chegar depressa ao acidente
Afasta-se para a berma toda a gente
Uma apita a um mais distraído que pela postagem do Facebook foi traído
E se esqueceu de chegar à frente

Eu desligo o motor
Quase esqueço que sou condutor
Agarro o jornal
Leio as gordas
O país segue mal
Há faces ocultas descobertas em grandes açordas

Não vale a pena desesperar
Pouso o jornal
Agarro o i-Phone
Esta espera é normal
Lisboa ainda é uma miragem
E antes que eu fique com falta de ar...

De repente...

Escuto

Atrás de mim já houve um que bateu noutro depois de uma grande travagem

Abro a janela

No carro ao lado um casal aproveita para namorar
Do outro lado há uma que acaba de se maquilhar
Outro toca bateria no volante

Não há meio de que a neblina se levante

E eu...
Antes de me irritar

Já sei

Vou pôr isto tudo a rimar

Já que estou aqui sozinho e continuo sem poder andar...

Dirão vocês que eu não estou bom
Mas também nunca o fui

Ui
Finalmente

Ligo o motor
Recomeço a andar
E não demora muito a que chegue ao pé do chui

A tipa da maquilhagem
Pára mesmo à frente da cena
E abana a cabeça como que a dizer
Ena
Ena

De aqui a pouco estará no café
Heroína a contar a toda a gente
A história da não travagem

Ah pois é

Se não fosse o acidente
O que teria ela para contar?

E eu sigo
Agora feliz e quase a cantar

Lisboa já se vê

Sem acidentes
A cidade seria mesmo aqui ao pé

Já em Lisboa
Já estacionado
Acabo a rima com afinco
Estou estoirado e a precisar de um café

Que boas e lindas são as manhãs da A5

Ah pois é

domingo, 7 de setembro de 2014

(Sem título)

Conhecedora deste intercâmbio permanente entre Céu e Terra, uma das estrelas mais brilhantes do firmamento, e que se destacava de entre todas as que nos enchem as noites de infinitas e mágicas cores; andava há muito inquieta a olhar para a Terra e com uma enorme vontade de se tornar uma menina igual a tantas outras que habitam o Planeta Azul.
Confidenciou este propósito às estrelas vizinhas que de imediato lhe chamaram louca pela atracção por tal propósito.
- Tu vais deixar de ser uma das estrelas mais brilhantes... Não faças isso, estamos tão bem aqui em cima a ver tudo, e aquilo lá por baixo não parece andar muito bem.
E lembravam sempre:
- Para além de que o nosso pai não gosta que nos antecipemos às suas decisões.
Mas ela insistia:
- Eu quero ser uma menina como aquelas que eu aqui de cima vejo por ali a baloiçar, a mergulhar na água dos oceanos, a comer chocolate…
E tanto pensou e era tanta a força desta vontade que um dia foi mesmo falar com o pai de todas as estrelas e lhe confidenciou este desejo.
A princípio ele ficou triste com esta possibilidade de ir perder uma das suas estrelas mais reluzentes, mas prometeu ir pensar no caso.
- De aqui a uns dias mando-te chamar.
A estrela agradeceu, ficou esperançosa numa resposta positiva, mas ao mesmo tempo demasiado inquieta.
E se ele lhe dissesse que não.
Uma espera com dúvidas é sempre tão difícil.
E o tempo que parece uma eternidade…
Passou uma semana e o pai das estrelas chamou então a sua discípula de volta à sua presença.
Com um ar muito sério começou:
- Continuas com vontade de te tornar uma menina?
- Sim senhor.
Respondeu a estrela de imediato.
- Muito bem. Eu pensei no teu assunto e vou deixar-te ir.
A Estrela rasgou o sorriso mas ele continuou imperturbável:
- Vais, mas vais ter de prometer que não trairás nunca a condição de estrela. Porque uma estrela é sempre uma estrela. E todas as crianças são estrelas.
A Estrela sorriu feliz.
- Eu aceito.
- Mas há uma outra condição essencial que eu te imponho, já que tens tanta vontade de ir, terás de ficar por lá pelo menos cem anos.
- Eu aceito.
Respondeu novamente a estrela.
E depois de agradecer ao seu Pai, retirou-se e foi desde logo preparar as malas para fazer a viagem num destes dias.
A estrela está a preparar a bagagem, e este texto não tem nome porque as estrelas que habitam a Terra e a quem foi anunciada a chegada deste reluzente ser, ainda não decidiram que nome ele irá ter.
Por isso este texto aguarda e um dia terá esse nome feliz.

sábado, 6 de setembro de 2014

Esta noite…

Esta noite...
Toda a noite sonhei contigo.
Voávamos juntos cruzando o céu que o pôr-do-sol desarmou de azul e tingiu de laranja, como pássaros livres e enamorados pela geometria perfeita das quadrículas das ruas da Baixa de Lisboa.
Aqui e ali, numa esquina, a ver o rio, o Chiado ou o Castelo, pousávamos para que as palavras pudessem sair envoltas no acrescento da verdade doce que sempre lhes oferece o olhar.
E eu não me canso nunca de te olhar...
Caminhante sequioso em busca de uma fonte, sou eu pelos dias nesta vontade de te ter por perto... e poder voar.
Às vezes por entre o olhar e as palavras, enquanto voamos ou caminhamos sobre a calçada, interpõem-se as mãos, indutoras perfeitas do despertar sensorial desta  infinita paixão que começa na alma, muito a montante do que é humanamente explicável.
E tão siamesa é esta vontade que faz com que as minhas mãos suspirem de amor pelas tuas...
E os meus braços pelos teus braços…
E os nossos lábios nos convoquem para a hora de um beijo...
Quem voa, mesmo que às vezes apenas num sonho, conhece o enormíssimo valor da liberdade, e foi ela por certo que nos inspirou o canto deste tanto querer, num voo que com o anoitecer se fez cúmplice da lua e colheu dela toda a magia.
Toda a noite sonhei contigo, e o mais curioso é que não me recordo de ter pedido ao sonho para não se deixar morrer, como sempre fazemos quando eles são bons e se aproxima a madrugada.
Eu sei que num amor assim a consciência e o estar vígil nunca conseguem matar a nossa capacidade de sepultar os impossíveis nos panteões, deixando-nos ir pela liberdade.
E depois há Lisboa…
Se há cidades que nunca dormem, Lisboa, pelo contrário e por ti, dorme todas as noites abraçada a mim.
E tu e ela fazem-me voar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Viver ao sol

Por mais que insistam em falar-nos do destino, a verdade é que somos nós os arquitectos da nossa própria história, oferecendo ao tempo essas "mãos" impulsionadas pelo muito querer e inspiradas em tudo o que sonhamos e desejamos muito.
Por isso, meu querido amigo, não foi o tempo que te fez assim por artes de magia ou até por um simples acaso, foste tu que sempre te sonhaste e fizeste grande.
Por ti, as lágrimas das saudades de casa confidenciadas aos tachos gigantes quando aos quinze anos os lavavas no hotel perdido no meio da serra, se fizeram hoje coloridos cristais de açúcar que tu moldas dando uma expressão única ao amor de tantos.
Por ti, por exclusivo mérito teu, os quilómetros percorridos a pé entre a cidade e a aldeia quando os escudos eram poucos para o autocarro, se tornaram hoje caminhos por entre flores e sorrisos, e são os tapetes para sorrires por entre o teu sucesso.
Por ti, a neve fria do inverno da serra que te gelava os pés, é hoje um manto gigante que te acaricia e embala em todos os sonhos, tornando legítimos mesmo até os mais ousados.
Por ti, os aromas todos se soltaram como que por magia por entre tudo o que a terra nos oferece.
Por ti, o choro se fez um fado alegre, os silêncios encheram-se de palavras grandes e únicas, os medos se converteram em aleluias, e as sombras morreram pelo benefício do sol mais generoso, o sol que acompanha os especiais.
Por isso, por ti e para ti, haverá sempre uma música inspirada que tempere o ar de poesia, e por ti, e para ti, a Nana Mouskouri será sempre eterna a interpretar Vivre au soleil.
Rui, parabéns pelo meio século de vida que hoje cumpres.
Segue assim porque há no mínimo mais cinquenta anos para seres feliz e para nos fazeres pessoas mais felizes.
Um brinde especial… por ti!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Entre Sophias e Ginas

Depois de uma viagem de táxi para o aeroporto em que o meu estômago foi agitado como numa montanha russa pelas travagens e arranques da condução de um motorista louco que passou o tempo todo ao telemóvel com um tal de Massimo qualquer coisa; regressar de Roma num avião cheio de peregrinos Italianos que vêm para Lisboa para depois irem até Fátima é uma espécie tão estranha de paraíso que quase nos faz querer e desejar muito todas as chamas do inferno.
Nada poderá ser pior do que isto.
As primas afastadas da Sophia Loren gritam como se não existisse amanhã, não conseguem escutar que o embarque será feito por filas, não vêm a sinalética com os números dos lugares, bloqueiam a coxia com as suas ancas avantajadas alimentadas a Lasanha, esparguete e Cannelloni, tropeçam nas bengalas umas das outras, chamam alto pelos maridos; e por entre os copos de vinho tinto que pedem às meninas da TAP, dão cabo da cabeça ao padre que as acompanha e que ganhará um indiscutível estatuto de santidade no final de tal viagem.
Perante esta visão dantesca, as hospedeiras adoptam um bem Italiano enigmático sorriso de Gioconda, assim algures entre o estar feliz e o estar incomodado com uma forte dor de barriga, acabam por desistir em pôr ordem na aeronave; enquanto eu, sentado a uma janela e acompanhado por um casal em que a mulher, sentada na coxia, é tão gorda que cria uma intransponível barreira entre mim e qualquer espaço de mobilidade que eu possa ter, acabo por matar as pouquíssimas saudades daquelas excursões em que o “Malhão, malhão” era acompanhado pelo toque de uma pandeireta e as anedotas eram contadas ao microfone por alguém que já tinha bebido um pouco mais do tinto que ia no garrafão.
O momento de maior aflição vivo-o no entanto quando a mulher tenta baixar a mesa à sua frente para poder comer a parca refeição que lhe iam oferecer, pois não conseguindo endireitá-la mas não desistindo de tentar e fazer pressão, eu fico com a claríssima sensação de que os pulmões lhe irão saltar pela boca a qualquer momento e acertar-me em cheio algures descompondo-me o fato.
As vendas a bordo também foram interessantes, com as “Ginas Lollobrigidas”, temendo por certo os raios de sol da Cova da Iria, a experimentarem todos os óculos de sol existentes no carrinho e sorrindo umas para as outras com um estilo entre o Jô Soares e o Benny Hill no apogeu dos seus respectivos programas de humor.
Depois finalmente Lisboa, a viagem de autocarro até ao terminal nos mesmos preparos, mas consigo finalmente perceber que viajámos todos num avião de nome José Régio.
Agora não me espanta nada, pois o que vivemos foi a incorporação do mais negro de todos os cânticos.
E como diz o magnifico poeta, repito eu agora já liberto deste “Tiramisú” mas de travo bem ácido:
- “Não, não vou por aí!”
Ou melhor, antes não tivesse vindo.