quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Até o Liffey ganhou ares de Tejo…


Numa conversa que começou com assuntos exclusivamente profissionais e que desembocou em Portugal com a admiração e o porquê de eu falar um Castelhano fluente (Juan Blas andas sempre a ser falado!), uma médica de nome Maria, da Cidade do México e, suponho, porque não lhe perguntei, com uma idade algures pelos setenta anos; disse-me que conhecia muito bem Lisboa e o Rio Tejo.
Perguntei-lhe quantas vezes é que ela tinha estado por ali, e a resposta, surpreendeu-me:
- Nenhuma.
E explicou:
- Conheço Lisboa e o Tejo através das canções de Amália Rodrigues.
Nem mais.
Eu respondi-lhe com a minha admiração por Chavela Vargas, e assim, num Centro de Congressos em Dublin e a mirar o Liffey, a conversa acabou com um dueto improvável entre as duas divas, imortais como assim se prova.
E porque o Tejo voltava sempre à conversa, eu falei-lhe de Camões, das Tágides, ninfas evocadas para dar inspiração em “Os Lusíadas”, e de como o nosso rio é então berço de tantos deuses que inspiram poetas… e apaixonados; e disse-lhe que às vezes não resisto e vou namorar para as margens onde o rio beija a cidade e onde beneficio de uma vista de 180 graus de um intenso azul.
E depois chego a casa e escrevo sobre o amor.
Ela sorriu e disse-me baixinho:
- Não é inspiração. As almas dos poetas andam todas por ali e sussurram-lhe coisas bonitas ao ouvido, e o senhor nem dá conta.
Eu brinco:
- Pois não, só tenho olhos para a pessoa mais bonita do mundo, que me acompanha.
Ela sorriu, despediu-se agradecendo a conversa e desejou-me sorte.
Já havia mais gente à espera para eu atender.
Sinceramente não sei se os poetas andam pela beira Tejo ou por aqui, tão pouco sei se me sussurram coisas ao ouvido, o certo é que a poesia existe e se solta de tudo e de onde às vezes menos se espera.
Até de uma brevíssima e improvável conversa de trabalho.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O mundo, esse T0 tão apertado


Começar o dia a comer um Bolo Finto torrado trazido na véspera de Vila Viçosa…
Tomar o café na pastelaria da D. Isabel, que é de Proença-a-Nova e conhece dezenas de pessoas que eu também conheço, aproveitando como sempre para falar do tempo, das viagens que a minha mala sempre denuncia, e das ocorrências transmitidas pelas notícias da TV…
Uma manhã de trabalho no escritório em Porto Salvo, em conjunto com os meus colegas, e almoçar com eles uma muito agradável e saudável “Pescada Cozida com Todos”…
Tomar um chá em Dublin depois de aterrar pelas seis da tarde e de ter descoberto no ar que a Air Lingus nem uma bolacha de água e sal nos serve a bordo. Vá lá que descobrimos na revista de bordo algumas palavras em Gaélico que são semelhantes ao Português. A revista chama-se “Cara” (amigo) e até narra a história de um bebé que nasceu a bordo há quarenta anos, que recebeu o nome de Patrick em homenagem ao santo dos Irlandeses… bebé que por acaso até é Português…
Jantar com o meu colega em Temple Bar com o empregado Brasileiro a descobrir que falávamos a mesma língua e a contar-nos que tem dupla nacionalidade porque a avó era de uma aldeia próxima de Castelo Branco, Louriçal do Campo, que por acaso até é a terra do meu amigo Celso. Acabamos a falar das cerejas, e como a história é recorrente, depois de a Tonicha em 1971 ter cantado em Dublin, na Eurovisão, a “Menina do Alto da Serra”, nós acabamos os três a falar da avó / menina Florinda e das suas aventuras no alto da serra… da Gardunha…
Regressar ao hotel, apanhar um mapa na recepção e ser interceptado por um funcionário do hotel que fala Português com sotaque do nosso e é de Viseu…
Sentar-me na reunião ao lado de um colega Francês que me pergunta se a minha agenda tem uma capa que reproduz um trabalho do Picasso. Eu explico-lhe que não e vou mostrando todas as gravuras que tem dentro e que são do nosso Almada Negreiros…
Esta sucessão de acontecimentos que envolvem gente de diferentes continentes, diferentes línguas e diferentes culturas, bem poderia ser chamada de “Uma aventura no T0 que é o mundo”.
Tudo porque quando nos fixamos naquilo que nos une, muito mais do que aquilo que nos separa, as distâncias encurtam e tudo parece bastante mais próximo; e até o mundo parece bem mais pequeno.
Como as estruturas mais pequenas e simples são teoricamente mais fáceis de gerir do que as outras, talvez este fosse um caminho para vermos tudo de forma diferente e podermos eliminar certas dificuldades que o mundo enfrenta.
Com boa vontade, que é algo que ajuda sempre nestas coisas.  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Mas sim… amor…


Mesmo que os quilómetros tenham o sabor a décadas que parecem não ter fim, envolve-me e embala-me a certeza de chegar a ti naquele instante que reescreve a História, reordena a vida, despreza todo o supérfluo, e sepulta as dores e todas as solidões.
A oeste nada de novo… mas a oriente há uma ponte que desenha uma curva sobre o rio e que me transporta para o essencial: para ti e para o teu abraço, de onde sei, sempre se solta a poesia.
Encontro-me comigo e com todo o melhor do universo na hora em que me entrego ao teu olhar, e quando por entre a timidez que nos ofereceram os anos, nos dizemos:
- Amo-te!
E se outra palavra maior existisse para cumprir fidelidade a um tão grande e perfeito sentir, por certo habitaria aqui.
Mas sim…
Amor…
E amor somos afinal nós os dois; e de nós soltam-se milhões de palavras que enchem a tarde da cidade.
Há um barco muito pequeno com homens à pesca no Mar da Palha, há formigas em delírio a trepar por um banco à sombra do jardim, há um lençol tecido de betão que estendido, oferece sombra no pavilhão do Siza, há dois copos de Gin, há meninos em triciclos, há uma luz de indefinida cor que tinge as nuvens na hora do pôr-do-sol…
E estamos nós de mãos entrelaçadas e a escrevermos juntos a mais bonita história de amor.
   

domingo, 14 de setembro de 2014

Instantes de uma romaria


Vindo do lado do Castelo vejo a lua tímida por entre as nuvens e por cima da Igreja de São Tiago. Na igreja mais antiga de Vila Viçosa, as pedras carregam letras de outras devoções.

Endóvelico? Presorpina?

Nós somos simples elementos de um universo gigante e somos instantes, pedaços de uma História longa feita de muitas devoções e muitos outros templos.

E a marca desta noite, o que a História e o universo nos pedem por aqui quando por cima de nós há um tecto de luzes coloridas, é a celebração da festa. 


A vida cantada por afectos, beijos, abraços, palavras, gestos...

A amizade saboreada como uma fartura polvilhada de açúcar e celebrada num brinde com sabor a ginja.

Antes do fogo de artifício, sobem ao céu então as muitas palavras, as gargalhadas tecidas das cumplicidades de anos e nascidas do assumido cruzamento das nossas histórias, o que nos faz tão bem, como se fosse pão a fornecer as raízes do alento.

E fazem-se projectos porque de aqui à próxima festa há doze meses para preencher da melhor vida; e para a grande maioria de nós os cinquenta são já uma realidade.

Voltaremos sempre num sábado de Setembro.

Para a romaria?

Sim, mas...

Para nos mimarmos.

sábado, 13 de setembro de 2014

Capuchos 2014 - Dia 1 / Programa de prevenção da depressão



Aos doze dias do mês de Setembro do ano da graça de dois mil e catorze reuniu-se em távola rectangular de febras e grelhados no ancestral Largo dos Capuchos, em Vila Viçosa, o grupo de amigos mais fantástico do universo.


À sombra da igreja da Senhora da Piedade, não tivemos qualquer piedade para a má disposição e numa terapia feita de gargalhadas renovamos os votos de felicidade para o ano que se segue.

Duas deliberações importantes a registar, vamos reiniciar os passeios de Outono e Primavwra mas em versão Low Cost - Crise 2014, e aprovamos novo plano anti-depressão.
Relativamente a este último ponto, cada elemento do grupo deverá olhar-se ao espelho pela manhã, louvar a Deus pela sua beleza e repetir de seguida:
"Eu sou fantástico(a), quem gosta de mim tem um gosto de excelência e quem me deixa comete suicídio".
Se ao longo do dia sentir a auto-estima a fraquejar, deverá repetir o gesto.
Foi declarado por unanimidade que a camisola vermelha da Madalena que tem um burro e a frase "Olá mano" é património material de interesse do grupo e de que a cápsula do Manuel, onde ele se enfia, é da mesma forma um bem imaterial... e já agora, difícil de entender.
As decisões foram brindadas com ginja, à excepção de um elemento que não bebeu porque ainda tinha de se levantar e não podia dormir nos Capuchos.
Publique-se!

De saída e já depois de chegar a casa, encontrei a minha mãe muito feliz pelos dez poemas de amor publicados e pelo sentimento que eles encerram.
Leu e gostou muito.
Troquei beijos por SMS com a inspiração dos poemas e não resisti a adormecer a sentir-me amado e imaginem... mais maduro do que nunca.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A previsível terrível queda do pão do pobre e a possibilidade de comer um bom fiambre


Talvez a saudade seja da mais arável e fértil terra para deixar florescer a poesia; e não estranho que na manhã de Setembro em que já chove como no mais adiantado Outono, eu siga pelo trânsito infernal da manhã, pensando em ti e sentindo que o universo se faz meu.
Todo meu e com a vantagem de que no universo que me dás não chove nem há engarrafamentos.
Hoje é 11 de Setembro.
Em Março de 2001 passei por Nova Iorque numa viagem de trabalho. Tinha 24 horas para estar na cidade que nunca dorme e encontrava-me na companhia de um colega que nunca tinha estado por ali e a quem eu tinha prometido uma visita relâmpago pelo que eu rotulava de mais importante da "Grande Maçã" depois de algumas visitas.
Prometi:
- Não desperdiçaremos nem um segundo.
Chegámos ao início da tarde com uma chuva terrível que quase nos impedia de sair do hotel.
O Pedro comentou:
- O Joaquim mentalize-se de que o pão do pobre cai sempre com a manteiga para baixo.
E parecia esse o nosso irresistível fado.
O dia seguinte amanheceu com um sol radioso, e com muito menos tempo para cumprir o prometido, eu desafiei-o:
- Vou mostrar-lhe a cidade toda mas só que de uma outra forma.
E fomos juntos até ao topo do World Trade Center para vermos a cidade, mas numa perspectiva de quem está “quase no céu”.
O Pedro ficou com a impressão de que afinal nem tudo se desperdiçara com a queda do pão.
Seis meses depois, a 11 de Setembro caiam as Torres Gémeas ruindo com elas esta possibilidade de ver a cidade toda numa só manhã e num só olhar.
O imprevisível ensina-nos que não há momentos desprezíveis e até aqueles que parecem mais rotineiros, mais difíceis e com estatuto de recurso, podem ser instantes únicos, irrepetíveis e gravados para sempre na nossa história pessoal.
Uma manhã no trânsito infernal com a manteiga viradíssima para baixo na queda do pão de pobre, mas a pensar em ti, pode ser afinal uma excelente oportunidade para comer o melhor pitéu, o melhor fiambre, e é algo único e irrepetível.
E quem diz comer fiambre diz colher e soltar a poesia; vivendo cada instante como se fosse o último.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os meus versos

Por vezes perguntam-me o que é que existe
Que segredos habitam os meus versos
Se é coisa alegre, assim-assim, ou triste
Temas pacíficos ou controversos

Nos meus versos há estradas e ruas
Há casas onde mora muita gente
Há festa, palavras minhas e tuas
Na rima perfeita de estar contente

E os meus versos são veias, correntes
De sangue, amor, paz, fé e liberdade
Há ideias tranquilas ou mais quentes
Mas sempre com o que importa: a verdade

E os meus versos têm trigo e pão
Vinho, café, arroz doce, aletria
Têm a acidez quente de um limão
Ou o mel de te ter em cada dia

Às vezes sente-se neles saudade
E os meus versos parecem um fado
Que a saudade é dor de qualquer idade
Basta apenas amar e ser amado

E os meus versos, meu amor-perfeito,
São afinal doces beijos para ti
A história simples contada ao meu jeito
Dos dias mais felizes que já vivi