terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pai Natal em Setembro


Quando uma criança de seis anos nos olha com um ar entre o surpreendido, o intrigado e o feliz, franze o sobrolho e espontaneamente nos atira:
- Tu és o Pai Natal!
É impossível não sentir que já atravessámos a estrada do tempo e estamos definitivamente do outro lado da magia.
Ele sente a necessidade de justificar-se perante a admiração manifestada pelos pais:
- Tens as barbas brancas.
Mas eu resolvo entrar no jogo:
- Pois sou o Pai Natal. Só que hoje resolvi vir vestido de outra forma e não vim de vermelho.
Foi a minha vez de surpreender porque definitivamente ele não deve estar habituado a que alguém com as barbas já tão brancas, a assim com algum jeito de ter juízo de adulto, se disponha a entrar na sua brincadeira, levando-o a sério.
E continuo:
- Se quiseres diz-me quais os presentes de Natal e assim já não tens de escrever a célebre carta.
Os pais assustam-se mas o pedido vem logo de seguida:
- Quero os Stikeez.
Não me surpreende, o meu sobrinho Luís anda louco por estes bonecos que oferecem no Lidl.
Surpreendo-o eu:
- E queres com estojo ou sem estojo.
E ele quer sem estojo porque já tem um.
- Combinado.
Atiro-lhe eu antes de lhe apertar a mão e de ele me recomendar que no Natal passe cedo pela sua casa.
Em relação ao presente fico descansado pois os pais estavam a assistir à conversa e por certo tomarão conta do assunto.
Mas depois de uma conversa destas, é inevitável chegar ao carro e usar o retrovisor para confirmar se a criança tem razão.
E tem, claro.
O importante é que, independentemente do lado do caminho da magia onde o tempo nos coloca, deveremos assegurar a ausência de bloqueio a essa tão doce festa da mais saudável ilusão.
Que flua a magia.
Assim até nem nos sentimos a envelhecer; depois de dispensado o retrovisor, como é óbvio.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A face nova de todas as velhas ruas


A lua nova acesa atrás de mim é irmã da cidade que descubro diferente quando lhe entrego o meu olhar.
As mesmas ruas, os mesmos templos, as mesmas casas… mas tudo se revela novo nesta hora em que o teu respirar insufla no meu a atmosfera única dos mais perfeitos beijos de amor.
Os teus lábios a temperarem de sonhos e rosas, a brisa fresca e cor de Tejo, da noite de Lisboa.
E aquele abraço…
Aquele instante em que a minha mão se funde com a tua e descemos juntos com a cidade aos nossos pés, sem sabermos nunca onde acaba um, onde começa o outro; felizes juntos e apenas porque este Outono é nosso, como serão todas as demais estações.
E bebo do teu cheiro e sinto a minha pele a saciar-se na tua…
No Carmo, a liberdade transpira de todos os recantos, das tílias, da promessa lilás dos jacarandás; e nós, os filhos da madrugada, fazemos desta hora a festa rubra de todas as flores.
Cumpre-se o amor sem os grilhões que lhe apagam a verdade, e assim se grita a liberdade.
Gosto tanto de ti…
Sinto-o em tudo e também na saudade que soluça em mim no trajecto de volta a casa. Rádio desligado, músicas rendidas ao silêncio, que tantas e perfeitas são as tuas palavras que ecoam em mim nesta hora e se prolongam pela noite em que te peço aos sonhos.
Algures pela manhã, a guitarra afinará o toque com as palavras de amor que se soltaram dos dias deste ser feliz que semeaste em mim.
Todas as palavras de amor que ditaste à poesia…
O tocador arrancará da guitarra os “Verdes Anos”, de Paredes, enquanto as palavras dirão o que nós somos.
Somos tudo, o futuro, cúmplices e príncipes de todas as luas.
Somos a liberdade, a voz, a paz, a melhor cidade…
Somos a face nova de todas as velhas ruas.
Somos os dias…
E eu gosto tanto de ti.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O anormal ali era eu


A pequena Jéssica, chamemos-lhe assim por inspiração do seu fato de treino cor-de-rosa com a “Hello Kity” da cabeça aos pés, é claramente uma princesa para o pai, que olha embevecido para aquele esplendor anafado ao estilo de uma “Morcela de Burgos”.
A mãe, precursora daquela forma extra lipídica de ser, parece ter andado a roubar roupa a gente que vestia três números abaixo dela, e os calções deixam-lhe as pernas à porta do casting para o anúncio aos melhores presuntos de Chaves. Bebe o café revelando umas unhas pintadas de vermelho mas já muito descascadas, não se percebendo muito bem se estão a meio caminho da acetona ou do próprio verniz comprado na banca da Feira de Carcavelos.
Há ainda um irmão com piercings e que rapou parte da abundância de pêlos das pernas para fazer uma tatuagem com uma figura imperceptível; mas esse, recostado na cadeira como se estivesse na praia, nem levanta os olhos do i-phone.
A mãe fala com o pai mas este só lhe responde com monossílabos emitidos de forma tão violenta que é como quem lhe atira pedras.
Mas ela insiste em falar-lhe enquanto ajeita os cabelos que estão tão bem pintados quanto as unhas.
Esta senhora e as tintas parecem ser duas rectas inevitavelmente paralelas de encontro ao infinito.
Mimos, o pai só tem para a “princesa” que come um folhado misto, não nos privando das intimidades do seu longo processo de mastigação intra cavidade oral.
Na televisão ao fundo do café, Passos Coelho parece dar explicações no parlamento relativamente ao caso Tecnoforma, mas o aparelho está sem som porque no ar soa Leonard Cohen em cuja música me concentro para usufruir de alguma paz.
Bastaram uns poucos minutos a olhar para o Primeiro-ministro para concluir que o som da televisão é dispensável e nem sequer é por eu saber ler nos lábios, os argumentos dos “nossos” políticos são-nos familiares e infelizmente pelo conteúdo, são demasiado previsíveis.
Por falar nisso, aposto que a família da Jéssica nem sonha que no seu país há um Primeiro-ministro, quanto mais que se chama Passos Coelho e que anda a tentar justificar recebimentos em cima de um pedido de subsidio de reinserção laboral após trabalho de deputado em exclusividade.
Eu acabo de tomar o meu café e saio para a rua a fim de regressar ao trabalho.
O acto normal de tomar uma bica?
Entre a TV e a cena à minha frente eu fico com sérias dúvidas.
Contribuinte certinho, sem direito a qualquer subsídio social de inserção seja para onde for, cabelo rapado a pente três e sem tintas, roupa com o tamanho certo, sem fazer escândalo e uma presença discreta.
Não…
O anormal ali era eu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Há tanta vida que se esconde nos dias escuros


É noite de uma segunda-feira que inundou Lisboa, e chove também copiosamente quando já noite, eu me despeço de Vila Viçosa da forma de sempre, rezando uma ave-maria à Senhora da Conceição ali naquela rampa que liga o Terreiro do Paço e o depósito da “cegonha” e me faz passar ao portão do meu velho liceu.
Tenho sempre a sensação de que expresso um “até já” a tanta coisa minha que persistirá sempre por ali.
Sigo…
A auto-estrada para Lisboa está um breu só rasgado pelos faróis do meu carro e de uns muito poucos que se cruzam comigo, e também pelos relâmpagos da trovoada que generosamente me vão revelando a elegância dos sobreiros e dos montes, meus fiéis companheiros em tantas tardes de viagem pelo Alentejo.
E não fosse a trovoada, até o castelo de Evoramonte passaria despercebido, ganhando no entanto com estes flashes, um semblante misterioso a lembrar os sumptuosos repousos eternos dos desinquietos espíritos dos condes da Transilvânia.
Não vejo corvos a rasgar os céus.
Só consigo vislumbrar dezenas de sapos que a chuva convocou para a auto-estrada, e fosse eu supersticioso e acharia que estava a ser carne de bruxaria no percurso para uma grande desgraça.
Eu vou com calma e a cumprir limites de velocidade, por entre palavras de amor prometi a alguém que o faria.
E a viagem segue na coerência deste breu e na fidelidade da trovoada, de tal forma que o Castelo de Palmela, poiso dilecto de “Templários” admiradores do apóstolo São Tiago, apresenta um perfil semelhante ao seu congénere alentejano que albergou a convenção que nos fez oficialmente “liberais” na rendição do “absolutismo” de D. Miguel, algures por 1834.
Não tarda e chego à ponte.
Já vejo Lisboa e já não chove.
Estou quase a chegar a casa e a primeira coisa que vou fazer depois de pôr a água a ferver para um chá de jasmim, é tirar algumas notas.
Há tantas histórias que nos assaltam (como os sapos saltitantes) durante duas horas de viagem por uma estrada escura à mercê de relâmpagos para ver algo mais do que o asfalto e os separadores e sinais.
Pois é…
Há tanta vida que se esconde nos dias escuros.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um cardápio demasiado pobre


No meu país a grande maioria das pessoas está objectivamente de costas voltadas para a política, e quem não está parece virar-se para o “Costa”, muito empenhado nas primeiras “Primárias” nacionais, num tempo em que este léxico até foi retirado às escolas que passaram a ser “Básicas”.
Mas primária ou básica, pouco importa, para a escola ou para o ideário deste “estrabismo socialista” que parece motivar mais pela atracção pelo poder do que propriamente por um projecto exequível e credível, o qual ainda estará a ser construído tendo em vista o calendário eleitoral.
Para quem pede eleições antecipadas há tanto tempo…
Do outro lado dão-se “Passos” para as eleições que supostamente todos deveríamos mandar “lixar” a bem da nação; e directamente do “Cadafalso”, o carrasco que há muito nos cortou a cabeça quer pôr-nos na boca um rebuçado adocicado por migalhas de IRS ou Salário Mínimo.
Meu amigo, só pode ser para que os nossos cadáveres fiquem mais doces e as formigas (as mesmas ou outras siamesas no carácter e na credibilidade) nos ataquem mais depressa nesse dia zero da nova legislatura em que continuaremos sepultados pelas “pazadas” de terra enviadas por Madame Lagarde a partir da “Torre do Descontrole” do FMI e do “Reichstag” de Herr Merkel.
E assim eu, contribuinte reputado e de boas contas, digo perante este menu:
- Não como nada disto.
Uma amiga militante de um partido confidenciava-me um outro dia entre ginjas que não era possível, eu teria forçosamente de seleccionar algo entre este “arco do poder”.
Se isto é um arco, eu diria que está como o da Rua de São Bento esteve durante anos desfeito em peças numeradas na placa central da Praça de Espanha (e até o nome da praça tem o seu simbolismo histórico e político).
E não, não tenho forçosamente de escolher, nem isto nem as terceiras vias bacocas, exibicionistas, bazófias, popularuchas e fúteis.
Num restaurante quando o menu não agrada, pedimos desculpa e saímos, não nos obrigando a ingerir iguarias de que não gostamos.
Aqui é igual e é esta a raiz da orfandade do eleitor nacional perante um “cardápio” tão pobre e repleto de um “dejá vu” demasiado caro para tão pouca qualidade.
Sebastianismo?
Não porque as espadas não ficaram sepultadas nas praias de Alcácer Quibir e estão desenferrujadas e prontas para a luta.
E desistir é coisa de fracos que Portugal não merece. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Derrota? Uma vitória por goleada.


Há dias em que o mundo parece ter sido convocado por alguma entidade divina para nos massacrar arduamente e testar o nosso espírito de resistência…
Hoje foi assim.
O despertador tocou ainda o sol não tinha nascido, o arrancador da lâmpada fluorescente da cozinha não cumpriu a sua função e o pequeno-almoço foi tomado às apalpadelas, o café da vizinhança não abriu hoje por motivos de ordem pessoal e não houve hipótese de tomar uma bica, o trânsito para Lisboa estava caótico e a esperança de encontrar fluidez ao virar de cada esquina foi sempre uma ilusão, as “louras” motivaram dezenas de apitadelas por se esquecerem que há piscas no carro, as pessoas estavam antipáticas, os guarda-chuvas pingavam-nos os pés nos elevadores, a fila para a bica estava como a do trânsito…
À medida que as situações se sucedem, nós vamos sentindo interiormente uma fúria a trepar por nós que nos vai tomando conta da voz só entregue agora a monossílabos lançados como pedras, os olhares transformam-se em lança mísseis visuais, os gestos fazem-se bruscos e a violência com que por exemplo se bate com a agenda na mesa traduz uma vontade de dar um par de bofetadas em alguém.
Mas então sentamo-nos, começamos finalmente a tomar a bica, respiramos e pensamos:
- Joaquim Francisco, por favor. Estar neste estado e sentir-se derrotado pelo trânsito e pelo infortúnio do arrancador da lâmpada da cozinha é quase tão ridículo como ser campeão e deixar-se perder em casa com o modesto Moreirense.
E a fúria começa a apagar-se chegando ao ponto em que até já conseguimos sair um pouco de nós e vermo-nos por ali sentados a sorrir ligeiramente.
Vem então a reacção definitiva ao estilo de pontapés de tiro ao golo, e tudo acaba restituído à sua condição de segunda liga… e avançamos definitivamente para a vitória.
Ali ao lado há um jardim muito bem cuidado, e que bem sabe estar do lado de cá a admirar as flores com infinitos tons; a senhora que recolhe a chávena sorri como resposta ao meu sorriso; chegou uma mensagem de amor, e até o menino na mesa em frente que conta as aventuras que viveu na consulta de oftalmologia ainda há pouco, consegue ter alguma graça.
Quando voltamos ao trânsito já demos a volta e já estamos a ganhar ao “Moreirense”, põe-se uma música no carro e já se assobia.
O mundo contra nós?
Mas o que é o mundo inteiro quando comparado connosco?
Não há hipótese. Vitória por goleada. 
Muito mais seria preciso para nos derrotar.

sábado, 20 de setembro de 2014

Estas palavras que nos oferecem asas


Quando o silêncio se impõe a qualquer hora, pesa muito e faz com que me sinta só; confesso-vos que a esferográfica e um pedaço de papel são os meus melhores amigos.
Por palavras vou registando tudo aquilo que a mente vai ditando, e de repente, morreram os impossíveis, o silêncio também foi enterrado com eles... e eu estou muito para lá das quatro paredes onde fisicamente me encontro; com o privilégio de estar onde quero realmente estar.
E com quem quero estar.
Do meu quarto vejo um jardim com plátanos de folhas amarelecidas e avermelhadas, sinto o Outono, e leva-me a memória para os finais das tardes de Vila Viçosa, quando o aquecedor já se agradecia aceso por detrás do balcão da Livraria Escolar, servindo simultaneamente para assar bolotas e castanhas que nos aqueciam as mãos e a alma, esta então solta e empenhada em tantas histórias.
Acho que foi aí que aprendi a força das palavras e me fiz eternamente seu amigo, aprendendo a voar com elas muito para lá do óbvio, por mais que ele pareça um destino irreversível.
Há pouco apanhei uma folha vermelha de plátano que vi de repente aos meus pés no jardim do hotel, está aqui e faz-me companhia a mim e a quatro botões de rosa de cor vermelha que tenho sobre a secretária, enquanto escrevo que um dia passearei contigo cruzando de mão dada todos os Outonos que a vida nos der para fazermos nossos.
Só?
Definitivamente não estou, apesar de não haver mais ninguém aqui comigo.
Durante o nosso passeio pelo parque até já parámos os dois à beira de uma velha fonte de granito tingida de folhas da cor do Outono para um beijo e para que num abraço eu te sussurrasse ao ouvido que, claro, sou teu.
E sigo pelas palavras que assim me dão boleia para um sonho que sabe a mel… e a castanhas.