sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A razão entre mim e…


Há sempre aquele laivo da razão que espreita por entre os sentidos e me chama tonto, naquele momento em que vejo uma flor, e não resisto a fotografá-la para mais tarde, por cima dela, eu escrever doces palavras de amor.
E chamo-lhes de amor, por serem para o meu amor, colhidas como são daquele jardim de pensamentos eternos e bons que cruzam comigo os dias e viajam pelas ruas da cidade.
A maldita da razão faz-me olhar às vezes para o retrovisor do carro e chama-me tonto por me ver ali sozinho e a sorrir daquela maneira.
Quando isso me acontece, logo exorcizo tal juízo e fazendo do volante uma improvisada bateria, marco o ritmo que acompanha a voz numa canção...
De amor, pois claro, que mais poderia ser?
E aí penso tantas vezes como foi possível o poeta lembrar-se daquilo que efectivamente sinto, e fazer disso letra de canção.
Até posso chorar, mas quando me chega à boca o gosto a cloreto de sódio, lá vem outra vez a razão:
-Olha, olha... o tonto a molhar as barbas brancas e a chorar aqui ao volante.
Abro o vidro, deixo entrar o vento que já traz ar com cheiro de Outono e uma brisa fresca.
Penso no meu amor que adora esta estação e, parado no semáforo, sonho agora com aquele fim-de-semana em que partilharemos uma manta, beijos e palavras num fim de tarde no Alentejo.
Mas a razão ataca de novo e apita atrás de mim.
Avanço.
Sinto fome e penso numa Bola de Berlim.
As Bolas de Berlim são o bolo preferido do meu amor.
A razão diz que é um bolo pérfido e faz-me coçar a barriga que está maior.
Bolas...
Menos mal que a viagem está a chegar ao fim.
Muito sofre um apaixonado quando a razão não desiste e passa a vida a intrometer-se entre mim e... mim.
Mas sem sucesso, está bem de ver; afinal, não há razão que seja capaz de incomodar um amor assim.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mas até quando?


Entre actuais e antigos colegas, somos três à conversa na mesa do almoço, naquela natural satisfação da curiosidade acerca dos últimos tempos e de como estamos e de como se encontram aqueles de quem mais gostamos.
O meu ex-colega reformou-se há pouco depois de 34 anos de descontos e de um período de três anos a receber subsídio de desemprego, ainda está longe dos 60 anos mas ainda mais longe de qualquer emprego, e por isso fê-lo com uma penalização que entre taxas e sobretaxas somou 42%.
Tem dois filhos casados, um deles vive em Portugal e está desempregado, o outro emigrou com a mulher para Moçambique e vive as agruras de quem está num país e numa realidade cultural nos antípodas da nossa.
À reforma teve então de aplicar uma característica extra, a elasticidade, acudindo à vida dos filhos que já têm mais de 30 anos e estão licenciados há mais de 5.
No restaurante onde nos encontramos, as televisões passam imagens na Ministra das Finanças, e em rodapé a grande conclusão da sua audição no parlamento no âmbito da Comissão de Inquérito ao BES: há uma forte possibilidade de os cidadãos terem de suportar financeiramente esta “aventura”.
Já há muito o sabíamos mas sempre nos haviam dito que não seria assim, cumprindo mais um episódio triste da promiscuidade entre a política e a mentira; tão tristemente aceite.
Os bancos, esses nossos amigos tão generosos que nos oferecem um juro fantástico quando lhes “emprestamos” dinheiro, quase igual ao que nos cobram quando a situação se inverte; os bancos tão bem geridos por gente séria e de famílias respeitadas…
Os bancos são hoje o núcleo de entre as prioridades do país. Mesmo que, como acontece, se assentem despudoradamente os alicerces da finança sobre a agonia do povo.
Saberá Deus, as campanhas eleitorais e os imensos favores, o porquê de tal acontecer.
O futuro está hipotecado e, bons políticos são algo que parece que continuará a não existir: António José Seguro “deixa” a política e vai ministrar a disciplina de Ciência Política na UAL…
O meu almoço termina com o meu colega a mostrar-nos as fotografias do neto e do encanto que é sentir-se infinitamente amado, sobretudo naqueles instantes em que ele lhe sorri e lhe estende a mão. Confessa-nos:
- Vocês não imaginam como é bom.
Imaginamos sim e até nos comovemos com ele.
Os afectos não pagam impostos (ainda) e vão compensando enormemente outras dores e desconfortos que a alma carrega.
Mas até quando?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aquelas pedras brancas à beira dos ribeiros


Dispensando quaisquer escrituras notariais que certifiquem a posse, é legítimo que chamemos nosso ao chão onde assentam os passos que concretizam as nossas vontades, nesses instantes em que a fidelidade a nós, muito mais do que a qualquer outra crença, nos oferecerá às narinas o ar temperado com o aroma perfeito da liberdade.
O aroma que nos faz sorrir da maneira mais intensa e verdadeira com o à-vontade e o conforto de quem está sempre na sua “casa”.
Nós somos sempre de onde queremos estar, quer falemos de tempo ou de um espaço qualquer.
Um dia enquanto passeávamos pelo campo, o meu avô Joaquim sentou-me junto a ele na margem de uma ribeira que quase tocava a parede de um velho colmeal num lugar chamado da Silveirinha.
Cada um tinha a sua pedra como assento, e por entre o assumido cheiro a poejo que o inverno oferecera àquele lugar feito tão longe à luz do nosso lento caminhar; divagámos sobre a geografia e até sobre qual o concelho a que pertenceriam aquelas pedras; sem termos dúvidas porém de que naquela manhã, ali com o canto dos pássaros e das cigarras, aquela terra não era de mais ninguém, pertencia-nos inteiramente por entre aquela falsa sensação de solidão, ilusão por não vermos qualquer outra pessoa algures em algum ponto do muito que a nossa vista nos oferecia.
A imensa generosidade que o Alentejo sempre dá a quem se dispuser a olhar para ele.
Antes de nos levantarmos, colhemos um ramo de poejos que nos aromatizaram a açorda, já no interior da casa que existia dentro dos muros do colmeal, e onde uma osga imponente nos guardava zelosa espreitando sempre por uma das traves de madeira do tecto já muito velho e cúmplice de tantas histórias.
As histórias que somadas se fazem uma herança de liberdade que jamais iremos querer trair, seja qual for o preço que tenhamos de pagar.
E assim têm todos vocês de ler a resposta que ofereço a uma colega que ontem me perguntou à volta de uma bica porque é que eu estava sempre tão bem disposto.
Pois…
É que, para além disso, tenho a mania de ver as cadeiras do café como pedras brancas de um ribeiro num mundo que é meu.
A genética do campo que jamais se apaga e... só me falta o cheiro a poejo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

“Somewhere over the rainbow…”


Com a previsibilidade de um “Estado” que tinha “Novo” como sobrenome, mas que insistia em nunca se renovar, nós entrávamos para a escola sempre na mesma data, 7 de Outubro; e de tal forma se entranhou em mim este dia, que nunca me esqueço de tal facto.
E assim como quem vai ali viver à pressa, recordo-me de repente que faz hoje precisamente 42 anos; já quase terminava o ano da graça de 1972, quando eu entrei para a Primeira Classe na Escola Masculina de Vila Viçosa.
Isso mesmo, não havia mistura de géneros.
Os bibes eram iguais para todos, e se eram brancos os das meninas que “moravam” na outra escola, os nossos eram azuis e brancos com uns quadradinhos ínfimos. Pelas gavetas da casa dos meus pais ainda consigo encontrar o meu, costurado pela minha mãe a partir de uma sarja própria comprada a metro na loja do Senhor Domingos. Abotoa do lado esquerdo com uma fileira de meia dúzia de botões.
Acompanhado pela minha mãe e com uma mala às costas carregada de material novinho em folha comprado na livraria da D. Joana, entre o qual o eterno Livro de Leitura de capa cor-de-laranja que algures dizia que “o gato comeu o carapau, o gato é guloso”, acho que me senti a pessoa mais importante do mundo.
E ali com um companheiro de carteira na fila mais próxima da janela e depois do professor nos ter alinhado por alturas, consegui ver-me muito crescido com o Caderno Escolar e caneta Bic transparente na mão; que é uma coisa muito difícil de explicar quando hoje pego no bibe e no capote que sobrou desse tempo.
Mais importante me senti ainda nesse primeiro dia de escola quando fui a casa almoçar e pelo caminho já sabia que a letra i resultava da subida de um foguete até ao céu, artefacto pirotécnico que deixava por lá uma pequena nuvem de fumo, regressando depois tranquilamente à terra para ser a primeira letra da palavra “Igreja”.
Já não consigo lembrar-me qual a brincadeira no recreio da tarde depois de ter comido o papo-seco com marmelada que a minha mãe me preparou e que eu levei envolto numa saqueta bordada a ponto cruz pela Tia Carlota. Mas algo de interessante terá sido por certo.
E assim, nos anos seguintes, o dia 7 de Outubro foi sendo o do regresso à escola no culminar de umas férias longas de quatro meses que tinham todos os benefícios, e mais aquele de querermos muito voltar a ver os nossos colegas e o professor.
Só a chegada da liberdade em 1974 quebrou esta previsibilidade de calendário, para além de ter trazido algumas raparigas até à nossa escola e ter levado uns quantos de nós até à escola delas, sem que as cores dos bibes tivessem sofrido qualquer alteração.
Definitivamente e por entre uma manhã de chuva que bate na vidraça e nos acorda cedo, nada melhor do que pegar no i-Pad e começar a desenhar com palavras os pensamentos que nos assaltam.
Vemo-nos a sorrir por esses dias e acabamos também a fazê-lo antes de aparar a barba branca e sentir o duche tépido a cair-nos em cima enquanto cantamos:
- “Somewhere over the rainbow…”

domingo, 5 de outubro de 2014

Amo-te como nunca te saberei dizer


Talvez eu nunca venha a saber qual a cor dos nossos entrelaçados passos pela cidade, quando os braços e as nossas mãos nos acompanham na vontade, e se tocam na suavidade e na paz de um eterno, certo e completo desejo...
Talvez eu não consiga jamais encontrar palavras na nossa e nas outras línguas, que possam fazer justiça ao sentir perfeito que nasce de um amor assim; tu, aquele que a vida me diz ser o meu amor, único, primeiro e derradeiro, porque irrepetível...
Talvez não nasça nunca a música tecida pela inspiração dos mestres, canção ou sinfonia que possa rimar com este momento que matou as saudades e fez real a esperança e todas as promessas...
Talvez não haja flores que bastem para narrar à gente o tom do sorriso que nos reveste as faces...
Talvez não haja fé igual à nossa aqui nesta hora, nem mesmo na fusão das preces dos milhões de dedos que acariciam infinitos rosários...
Talvez não exista pódio para a glória deste olímpico tempo nascido afinal da vontade de não ser mais forte, não ir mais longe e nem mais alto; a glória de sermos apenas nós mesmos coroados pelo louro da mais pura verdade...
Talvez...
Mas o que são os nomes e os adjectivos perante a essência de um instante que sentimos valer pela vida toda?
O verdadeiro amor é inenarrável.
Hoje ao acordar, ainda consegui palpar nos meus lábios, o toque e os aromas perfeitos que lhes deram os teus; e no silêncio do leito onde às vezes choro por ti, senti que te amo tanto, mas tanto... como nunca te saberei dizer.

sábado, 4 de outubro de 2014

Praxes, não obrigado!


Somos os mesmos dois de há trinta anos, quando precisamente em Outubro de 1984, o meu pai veio comigo a Lisboa por alturas da matrícula na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, e até fomos juntos comprar um guia da Carris para me ajudar a movimentar na cidade que em grande parte eu desconhecia.
Hoje o meu irmão veio trazê-lo ao Campo Pequeno e agora vamos juntos a caminho da Avenida Defensores de Chaves, quase na hora da consulta de urologia.
Sinais dos tempos... e o ciclo da vida a funcionar neste “quem toma conta de quem”.
É quinta-feira à tarde e junto ao semáforo cruzamo-nos com um grupo de estudantes que solta palavras de ordem como se não fosse haver amanhã. Uns vão de capa e batina, outros de calções, mas todos levam na mão, garrafas de um litro de cerveja.
Mais tarde irão dispor-se em fila à porta do touril, e já de longe vejo-os rastejar, pôr a cabeça no chão, fazer flexões, etc.
Ao passarem por nós torna-se bem audível a mensagem de uma estudante para um caloiro:
- Meu caloiro de m...
E é um pouco difícil explicar ao meu progenitor, que tem a quarta classe mas que nos educou na base de que há palavras impróprias para um relacionamento saudável em família ou em comunidade, como é que uma certa “elite” do país faz uso e abuso desta mediocridade linguística.
Vamos caminhando os dois sem nunca nos calarmos, como é nosso hábito, tentando encontrar nem que seja apenas um só aspecto positivo para as cenas degradantes que vemos por ali com o alto patrocínio da cerveja de litro.
Não encontramos.
Integração?
A humilhação segrega e não ajuda a integrar ninguém.
Tradição?
É legítimo que o tempo a corrija no sentido da dignidade.
Passar um bom bocado?
Eu nunca experimentei mas acho que beijar a calçada do Campo Pequeno não será a actividade mais agradável e sugestiva.
Detesto praxes e assumo-o convictamente não lhe reconhecendo como disse um único benefício, que não seja possivelmente a satisfação muito pessoal de natureza sadomasoquista dos seus intérpretes.
A postura e estas práticas atentam contra a dignidade da pessoa e beliscam decisivamente o bom senso e o sentido de responsabilidade que se exige a instituições que no âmbito público ou privado se dispõem a formar cidadãos de uma forma superior.
Para a grande maioria dos jovens, entrar para a Faculdade é hoje bilhete para um carnaval de Torres Vedras, mas mais excessivo, com a duração de três ou mais anos passados debaixo de um disfarce de corvos alcoolizados.
E apanhem-nos à saída dos cursos e vejam como conhecem melhor a graduação alcoólica do Vodka do que o autor de “O Memorial do Convento”.
Voltando há trinta anos...
A Universidade tinha o apelo do conhecimento e da liberdade que ainda era mais jovem do que eu.
Sem capas que não as dos jornais que liamos e debatíamos à mesa da cantina.
Sem batinas ou rótulos de qualquer “farda”.
E sem praxes, que a solidariedade expressava-se na partilha dos caminhos, dos livros e de tudo o que nos compunha os dias.
Claro que também com a recomendação do meu pai:
- A portar-se com juízo e a fazer-se um Homem que é para isso que aqui estás.
Vá lá que a consulta atrasou e na hora de espera ainda acabámos os dois a recordar esse mês de Outubro de 1984 em que eu ia resistindo a tudo até ao momento do silêncio ao serão que quase sempre me fazia chorar.
Chorar em segredo, está bem de ver.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O tempo é vida muito mais do que dinheiro


Por nos ser demasiado caro, bastas vezes afirmamos que o tempo é dinheiro, sendo que ele é efectivamente muito mais vida do que o vil metal; por muito que as retribuições de âmbito salarial sejam estabelecidas com base em qualquer unidade que o meça e o desdobre (dias, horas…).
E sendo assim, se o tempo é vida, há que vivê-lo muito mais do que apenas passá-lo de uma forma passiva tomando maneiras de um espectador rendido à inevitabilidade de um filme embrulhado por Deus nas projectáveis bobines do destino.
Encher os dias de paz, gargalhadas, choros, gritos, murros na mesa, momentos de amor, festa, viagens, encontros, abraços… é nossa obrigação; e com algum sentido de urgência.
Há alguns anos quando visitava uma familiar num lar de idosos sentei-me à volta de uma mesa com uns quantos, e por entre os bombons de chocolate que lhes levei, e as palavras, muitas, que sempre me saem soltas, uma senhora de mais de noventa anos não resistiu a falar-me:
- Está a ver aquela janela ali por detrás do limoeiro do pátio?
Espreitei e confirmei.
- Sim, vejo. É uma janela com as portadas pintadas de branco.
- De aqui do meu sofá sempre colocado nesta posição, eu passo horas a ver aquela janela. Muito pouco consigo ver para além dela.
Continuou:
- O tempo que a si lhe falta nessa sua correria louca pelo mundo, sobra-me a mim aqui sentada enquanto não faço mais nada se não vê-lo passar à medida que vai contribuindo para que quando eu morrer, ninguém tenha qualquer pena de mim. Todos dirão que já vivi muitos mais anos do que a média dos demais mortais.
Prossegue:
- E o tempo oferece-me simultaneamente a mim, momentos de sobra para pensar em tudo aquilo que não fiz e poderia ter feito, porque disso tinha muita vontade.
O muito tempo nem sempre é sinónimo de muita vida.
E olhámos os dois ao mesmo tempo para a inevitável janela, e a mim apeteceu-me voar para ir viver intensamente e com urgência.
Num jantar desta semana, um amigo de sempre soltou uma das frases que associada à inércia, mais erupção cutânea me consegue provocar:
- O que é que queres que eu faça?
Eu é que não faço mais nenhum comentário.