segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A felicidade e uma mezinha ao estilo do Padre Fontes


Por muito que possa soar estranho, há um dia em que alguém nos convida para ir assistir a uma palestra sobre a Felicidade, algo vendido ao jeito de uma Bimby para onde se deitam os ingredientes todos da vida e se cozinha esse tão desejado estado de alma… e do corpo.
“Cozinhar esse estado” é força de expressão porque segundo a palestrante, 50% da felicidade é inevitavelmente genética, 10% fruto das circunstâncias boas ou más que nos ocorram, restando apenas 40% para nós podermos controlar pela atitude; algo de que discordo totalmente, pois atribuir a maioria absoluta (60%) ao destino torna-nos demasiado passivos na construção da felicidade.
É uma rendição demasiado óbvia ao fado e eu acho que nós temos muito mais espaço de manobra para construir um grande futuro.
Relativamente aos 40% que nós controlamos, foram apresentadas dez comportamentos a seguir (fé, generosidade, ser positivo, foco no presente, etc.), numa espécie de versão revista e remix do decálogo, com a palestrante a dizer que há uma tendência natural para sermos pessimistas na maioria dos 60.000 pensamentos que em média temos por dia.
Também estou em completo desacordo, eu acho que há dias em que não tenho sequer um pensamento negativo (desde que não veja o telejornal).
Pois bem, não tendo passado por Harvard para aprender a teoria sobre estas coisas da Felicidade, e correndo assim o risco de ser considerado o Padre Fontes no fornecimento de mezinhas ao estilo de qualquer feira de Vilar de Perdizes, eu não resisto a deixar a minha receita muito pessoal.
Assim e segundo o meu ponto de vista, a felicidade não tem nada de genético (0%), tem algo a ver com as circunstâncias, mas eu incluo esse pouco nos 100% que estão sobre a nossa responsabilidade; pois mesmo sendo algo de menos positivo pode sempre ser trabalhado no sentido de nos fazer crescer e sentir bem.
Relativamente à receita para ser feliz deixo então alguns conselhos muito pessoais:
  1. Apaixonarmo-nos e amarmos sem reserva para que pelo menos 50.000 dos 60.000 pensamentos diários sejam com a pessoa que mais desejamos ter ao nosso lado;
  2. Abrir a janela em cada manhã sempre a cantar algo alegre. Se o dia estiver feio até podemos afrontar o nevoeiro ou a chuva com um “vocês não me derrotam”;
  3. Cantar no duche uma cantiga bem disposta (o “Ele e ela” da Madalena Iglésias resulta sempre);
  4. Não sair da casa de banho sem nos olharmos ao espelho e dizermos a nós próprios: “és tão giro”;
  5. Vestirmo-nos ao som da música como se estivéssemos a gravar um videoclip sensual;
  6. Beber um café forte com uma torrada afogada em manteiga;
  7. Mandar uma mensagem bem temperada de paixão a quem amamos e nos faz felizes:
  8. Enfrentar o trânsito como se estivéssemos no “Fil-rouge” dos “Jogos sem Fronteiras” em que todos têm pontos;
  9. Dizer bom dia a toda a gente que encontrarmos, escancarando o sorriso para aqueles que desconfiamos que não gostam de nós (nada os irrita mais do que ver-nos sorrir);
  10. Trabalhar a sorrir para o monitor do computador e cantar qualquer coisa alegre sempre que alguém ao nosso lado se queixe de algo pessoal ou profissional;
  11. Almoçar bem e contar sempre uma anedota ou uma história alegre para funcionar como sobremesa;
  12. Escrever todos os e-mails com infinita simpatia como se fossemos a “Marta Neves” das “Selecções do Reader’s Digest”;
  13. Falarmos ao telefone como se fossemos a Ana Zanatti a apresentar uma canção no Festival;
  14. Combatermos qualquer tendência para a tristeza com a ingestão de uma Bola de Berlim;
  15. Utilizar sempre até à exaustão a técnica dos R’s (Rir, rezar, relativizar, responder bem;
  16. Não deixar de espreitar o pôr-do-sol e depois saudar a lua;
  17. Utilizar muitas vezes o comportamento ABC (abraços, beijos e carícias);
  18. Telefonar pelo menos a dois amigos;
  19. Comer bem ao jantar e não fugir ao petisco;
  20. Deitarmo-nos a cantar algo romântico mesmo correndo o risco de sermos apelidados de genéricos do Frank Sinatra.
Tudo isto servido com muito amor.
Experimentem e depois digam lá que não conseguem ser felizes…  
   

domingo, 19 de outubro de 2014

Essa misteriosa e versátil meia-idade


Por muito optimistas que sejamos, e eu sou; e por muita que seja a esperança com raiz na justificação técnica que a médica nos transmitiu de forma tão simpática; será sempre estranha a sensação de percorrer o caminho de volta ao carro depois de deixarmos o nosso pai internado no hospital, trazendo connosco os seus haveres num saco de plástico que transportamos debaixo do braço.
Já antes, quando o ajudava a despir a camisa para vestir o pijama, senti pesada a batuta neste inevitável ciclo que nos faz ser fortes perante a fragilidade de quem foi sempre a rocha e a firmeza onde apoiámos a nossa fé.
Vale ter um irmão fantástico que compartilha igualmente esta “direcção da orquestra”, ter um amor que manda um beijo de ânimo, e ter os amigos que se juntam sempre para as palavras e os afectos nos ajudarem a esmagar a solidão que estes momentos sempre transportam consigo.
E entre Évora e Vila Viçosa, sozinho no regresso, faço das árvores confidentes e companheiras.
Há anos que as conheço das curvas deste caminho onde às vezes passo triste.
O Manuel chegou depois para me visitar e conversarmos um pouco no café em frente a casa. Acabamos a rir quando me descreve a cara de espanto dos filhos de 11 e 14 anos quando descobriram esta semana o que era escutar música de um gira-discos, e quando perceberam que o vinil emitia a música que nós dançávamos.
Até pediram ao pai para dançar ao som dos Singles e LPs para poderem descobrir alguma particularidade jurássica.
E ali a conversar com o meu amigo de sempre, eu o novo e forte do Hospital de Évora, talvez agora a coçar a barba branca entre os goles da Água das Pedras, até me senti velho; mas só até ao momento em que automaticamente fiz a média e percebi que isto é o que chamam a meia-idade; qualquer coisa como ser simultaneamente filhos e pais, no privilégio de poder ser um pouco de tudo.
Se todas as idades são boas, a versatilidade desta destrói claramente a monotonia e auto-sustenta-nos em grande parte naquilo que ao ânimo diz respeito.
Talvez esta percepção derive do facto de nunca nos demitirmos de viver com intensidade cada momento; os muito bons e os claramente menos bons e agradáveis, numa relação equilibrada de custo-benefício.
A força anda sempre algures à nossa volta enquanto a vida gira, umas vezes a 33 outras a 45 rotações; e a riqueza de um Homem da minha meia-idade será sempre o facto de vir da sua história em direcção ao seu futuro, percorrendo um caminho tecido pela sua coerência, vontade e pela sua fé; e um caminho perfumado de afectos.
Sem demissões, que os dias nascem para que os façamos e enchamos do nosso querer, e nunca para que assistamos à sua passagem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A terra quente que nos faz poetas


Para cima ou para baixo, a A2 entre Lisboa e o Algarve dá-me quase duzentos quilómetros de Alentejo, um longuíssimo corredor da "minha casa" que gosto de percorrer com música mas sem palavras, que essas, sou eu quem as vai colhendo e guardando pelo caminho.
A colheita é demasiado fácil…
Não preciso sequer de abrir as janelas, conheço de uma vida, o cheiro que se solta da terra revolta que aguarda a sementeira, ou então da erva molhada a que se entregam as ovelhas de um imenso rebanho.
E sim... também sei de cor o canto dos pássaros, dos grilos e das cigarras quando o sol beija a terra e parece querer atear o horizonte.
O relógio do campo dá-me o tempo certo; com o sol a dizer-me a hora, o tom da seara a revelar-me a estação; e os anos, conto-os pela cor da cortiça que vai crescendo no seu doce abraço ao eterno sobreiro.
E as oliveiras alinhadas em corredores tingidos de relva verde dizem-me hoje também que não tardarão as manhãs em que as mãos beijarão a geada para colher o fruto precursor da luz sagrada que acompanha Deus pelos altares, como os destas ermidas que vão pontuando o meu caminho de barrocos detalhes de alvenaria e fé pintados de branco e de azul.
As casas são montes, e são igualmente brancas, por também serem divinas, com poiais debruados num tom ocre abandonado ao verde que lhes oferece a chuva. Invejo do poial o assento que mostra os horizontes, mas compenso-me com a infinita vista para o todo que a imaginação permite, na sombra com que as nuvens tocam a terra.
E de noite, seria sempre a lua a devolver-me a esse ser menino e a levar-me destemido pelas histórias todas.
Deixo-me ir pelo sonho à medida que os quilómetros passam...
Vou como se fosse uma ribeira debruada a fetos e hortelã, em direcção ao rio, e depois, sempre, até ao mar.
Comigo vou acumulando as palavras que dão forma à poesia.
O Alentejo não é definitivamente uma terra de poetas, o Alentejo é uma terra que nos faz poetas.
Uma terra quente…
A minha casa!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os anjos nunca têm asas


Os anjos nunca têm asas, por vezes nem sequer falam; são tão-só olhares, que chegam e nos preenchem os momentos de uma inédita paz que se estranha, e que depois, de tão intensa, se entranha em nós oferecendo-nos o universo inteiro com tanto de desconhecido.
Os anjos são imprevisíveis e chegam sem avisar naqueles instantes tantas vezes banais e que quase sempre nos oferecem uma expectativa positiva de grau zero ou muito pouco.
Os anjos são por vezes muito tímidos e discretos, e refugiam-se atrás de um poente, de uma canção, do perfume de uma manhã passada junto ao mar, de um chão de árvores de Outono, de um gesto ou até de um poema.
Os anjos podem ser identificados pelo toque da nossa pele na deles, pelos lábios no sabor doce de um beijo, e também pelo calor intenso com que nos abraçam.
Os anjos podem às vezes esconder-se em nós, ficando disponíveis para nos acompanharem nos instantes de aparente solidão, espreitando generosos de todos os cantos da memória. E assim caminham connosco e jantam sentados à nossa mesa, iluminando-nos as noites frias de um Outono com chuva.
Os anjos não tocam trombetas no alto dos céus, confidenciam-nos segredos e fazem-nos revelações, quase sempre com vista para o melhor de nós, que até apostávamos nem sequer existir.
Os anjos…
Os anjos somos todos nós chegados ao instante e a quem definiu o sonho e a vontade.
E o meu anjo és tu… e chegaste numa tarde fria e num abraço com janelas para o infinito.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARLA MARIA


Pelo afecto que o envolve, qualquer simples café que tomemos juntos pela manhã, e tomamos um todos os dias antes de começar a laborar; assemelha-se em tudo a um “Breakfast at Tiffany’s”, que a Audrey é uma paixão em comum e a amizade é como os diamantes e imune a qualquer desgaste provocado pelo tempo.
E porque com amigos “A vida é bela”, nada melhor do que começar o dia no pré-café com um “Buongiorno Principessa” a que eu tomei a liberdade de acrescentar um “Atómica” pelo risco elevado de explosão de gargalhadas que por vezes resulta das nossas conversas.
Cada conversa sempre “… com vista sobre a cidade”, qualquer delas de entre as muitas das nossas viagens; ou então com vista para o simples e complicado que nos vai preenchendo os dias, para aquelas músicas que trouxemos dos melhores anos das nossas vidas, aqueles que compartimos com os “Amigos de Alex”; as conversas também com vista para a poesia, que a alma bem precisa ser afagada assim pela manhã, sobretudo nos dias de chuva que nos deixam com uma predisposição para a depressão. Nós não nascemos definitivamente para fazer uma qualquer “Serenata à chuva”.
As segundas-feiras são em geral péssimas, sobretudo as que se seguem a um “Fim-de-semana alucinante”; a vindimar na Beira Baixa, a viver uma romaria popular com ou sem procissão e quermesse; a comer algum irresistível petisco; ou tão-só simplesmente a passear e a “pousar” algures aí por qualquer recanto de Portugal, daqueles que ambos gostamos e que não estão muito congestionados.  
E os dias correm sempre bem melhor depois destes cafés com palavras e muito da vida, das nossas vidas.
Porque os dias são sempre melhores e bem mais fáceis quando são recheados pela partilha com os amigos.
A verbalização e a partilha de algo muito bom dá-lhe corpo e forma, amplia-o através do eco que o amigo lhe oferece na sua alegria; e a partilha de algo menos bom, desdramatiza-o e reduz o seu impacto, naquela inevitável palavra de desvalorização, conforto e carinho que um amigo sempre nos oferece quando as nuvens parecem querer cobrir-nos o sol.
Às vezes a vida surpreende-nos e faz-nos descobrir assim um amigo para a vida de entre os colegas que connosco partilham os caminhos do trabalho; e até de entre as pessoas do Sporting…
Mérito das cumplicidades?
Por certo que sim, mas não só, mérito seu “M’na Carla” que quer faça chuva ou sol me garante o astro-rei sempre que chego ao trabalho.
E o quanto nós multiplicamos as alegrias quando as partilhamos… o eco chega a todo o universo.
Este texto deveria ter sido publicado no dia 18 de Março, o dia do seu aniversário, mas por ser tão especial, é o único publicado num dia diferente e imprevisível.
Mas teria mesmo de ser escrito e publicado pois o “Calendário dos Amigos” ficaria amputado numa página de ouro.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Nós somos tecidos por pedaços de um amor inoxidável


Em arrumações, reencontrei há dias num armário da despensa uma pequena e velha lamparina de álcool já muito oxidada.
E quem guarda objectos da sua história, mais cedo ou mais tarde ganha o privilégio de contar muitas histórias.
Esta velha lamparina foi comprada pela Tia Maria na velha loja do Senhor Eduardo Pina, à Rua de Cambaia, e foi-me oferecida quando vim estudar para Lisboa há trinta anos e fiquei alojado num quarto que não tinha qualquer cozinha anexa.
Acompanhou-a uma pequeníssima cafeteira de alumínio que também ainda existe lá em casa, e a recomendação:
- Não quero que saias de casa sem teres a oportunidade de tomar uma caneca de leite quente.
E assim eu embebia um pouco de algodão em álcool, puxava-lhe fogo com um fósforo e aquecia o leite enquanto me preparava para sair, descer a Calçada da Glória e vir apanhar o Metro aos Restauradores, naquelas manhãs em que me ia apaixonando por Lisboa, espreitando-a em São Pedro de Alcântara.
A lamparina está hoje definitivamente inoperacional e oxidada, mas a história que me recorda é muito mais do que um velho pedaço de metal sujo e gasto pelo tempo; lembra-me que eu sou afinal o resultado de um entrelaçado de tantos detalhes simples de amor, mas daquele amor que resiste às humidades e às agruras, o amor que jamais oxida.
Os cuidados e a simplicidade que fluem tão naturalmente daqueles que muito nos amam.
E o sortudo que eu fui e ainda sou como alvo de tantos e bons mimos.
Na minha sala de estar tenho uma foto abraçado à Tia Maria no dia em que ela cumpria sessenta anos, 24 de Junho de 1969, e em que eu estava a dias de cumprir três anos.
Em quarenta e oito anos de vida é a minha foto de que mais gosto.
A preto e branco, só eu me recordo que a minha camisola era cor de mel, e isso é apenas um pequeníssimo detalhe comparado do doce que transparece dos nossos sorrisos serenos.
Não é por acaso.
E a lamparina?
Permanecerá no armário à espera que eu volte a limpar-lhe o pó e se soltem histórias de ouro… e que sabem a mel, tal como o mago na lenda do velho Aladino.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A mais doce das alvoradas


A persistente chuva de Outono cessou há pouco, e as calçadas de Lisboa, vistas assim em contraluz, são espelhos de múltiplos passos, destinos e infinitas histórias.
Histórias como a nossa, tecida de palavras e de olhares, cumplicidades soltas nestes momentos que sabem a destino, de tantas vezes… e de tanto o termos sonhado.
E uma tarde de Outono faz-se um cais que abriga o mais perfeito dos encontros.
Eu cheguei.
Sinto-o no nosso abraço que despreza as solidões antigas, sinto-o no riso que aqui e ali se nos solta como um eco do que a alma sente, sinto-o nos tantos beijos que a hora nos pede e que nós cumprimos pelo benefício apenas de um olhar…
Sinto-o numa inédita paz que me faz rogar a morte do tempo, e esse infinito querer de fazer de ti a minha eternidade.  
No ar há hoje um quente aroma de castanhas assadas, há tímidos pregões nas múltiplas línguas da gente que como nós vagueia livre pelas calçadas.
Em Lisboa.
O mais perfeito dos Outonos.
Eu e tu.
Eu já te disse que quando estou contigo qualquer hora tem sabor à mais doce das alvoradas?