quinta-feira, 30 de outubro de 2014

As virtudes dos abraços e os cansaços que se diluem num sono feliz


É quase meia-noite quando o carro entra finalmente no parque e sinto aquele típico estalar das rodas sobre a brita. À minha frente a imponente fachada do hotel agora quase apenas e só à mercê da lua em quarto crescente, a mesma luz impotente para me fazer matar saudades das roseiras que eu recordo, ladeiam o lago central.
Cheguei à Curia.
O dia começou cedo em Ponta Delgada com as nuvens e a chuva a insistirem tapar-me a vista para o Atlântico.
Depois, uma longa espera no aeroporto, o avião que chegou com três horas de atraso, a explosão de azul após romper as nuvens, e finalmente Lisboa, já ao entardecer.
A auto-estrada até Évora faz-se num ápice desde o aeroporto, e hoje nem há tempo para beber histórias das sombras com que o luar veste os sobreiros do meu Alentejo.
O pai está melhor, fala comigo enquanto brinco com ele entre as colheres de sopa.
Não resiste:
- Esta é a quinta colher que dizes ser a última.
Está definitivamente melhor.
À porta do hospital há amigos de Vila Viçosa e acabamos a falar de poesia.
É um facto que ela está onde mora a vida.
Devolvo-me ao luar, como uma sopa na Área de Serviço, e faço-me à estrada que vai ser longa mas que se encurta pelas palavras dos amigos; e esse nosso namoro que hoje fala dos abraços e das suas virtudes.
Sou um homem cansado mas feliz quando chego à Curia. Percorro sozinho os corredores do Palace com o soalho a ranger rompendo o silêncio e eu a sentir-me a chegar à montanha mágica.
Nem me fixo nas sombras para que tudo isto não ganhe um ar de Hitchcock ou de Agatha Christie, e eu tema que a meio da noite tenha que chamar o Tommy e a Tuppence Beresford para tomarem um chá comigo e juntos resolvermos algum homicídio.
Depois… finalmente uma cama.
Preparo-me, apago a luz e só me lembro de começar:
- Pai-nosso...
Se depois continuei a rezar foi já em algum sonho.
Há dias assim, cheios de tudo e com muitas cores; porque até mesmo não vendo o Atlântico e as roseiras da Curia, sei que passei por eles.
Mas o que importa em que nem uma só gota de energia fique por consumir e se desperdice, e que ninguém daqueles a quem amamos adormeça sem sentir que estivemos perto num abraço nascido de um querer intenso.
É isso que nos faz ganhar os dias porque o cansaço… esse dilui-se num sono bom e feliz. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

E a ilha…


Por te querer assim guardo em mim cidades, muito mais de sete, e colou-se-me ao rosto, em tom de mistério, um azul tom de céu em rima com o verde que reveste o basalto, o chão da eterna Atlântida.
Romeiro em preces pelos trilhos de onde nunca se perde o cúmplice voo das gaivotas, bate em mim, por ti, um coração de fogo em perpétua paixão; e o meu sangue é lava que se estende até já não haver horizonte, que não há outro que não seja o mar, que tomou de ti a cor… do teu ser, do teu olhar.
Romeiro aqui, nos impérios todos de além pranto; que as tristezas deixei-as quando o alento tomei de ti na margem de uma lagoa quente, onde o borbulhar constante nunca poupa nas palavras para nos contar as lendas de eternos heróis.
Romeiro em fé nos milagres de Cristo, “Ecce Uomo”, Rei sem trono coroado de espinhos no Pretório de Pilatos numa tarde de Páscoa em Jerusalém.
E sinto o teu abraço, os teus beijos; quando pelas lembranças caminhas assim comigo, Romeiro de passos entregues aos dias; e os pensamentos se enfeitam de hortênsias azuis.
E sinto a festa e o canto que me ofereces quando estendes a mão e me prendes ao melhor que tem a vida.
E a ilha…
Sou eu aqui feliz rodeado de tanta história triste do que fui antes de ti; eu abraçado a um sonho que tendo a minha idade, nasceu apenas naquela tarde escura do nosso primeiro abraço.
Porque às vezes se nasce num simples abraço.
   

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Estas ruas onde nunca me sentirei só


Vila Viçosa, um sábado de Outubro.
Acordo com o ruído dos pavões no Jardim do Bosque, onde por entre o desenhado buxo se guarda a memória da espera de D. Luísa de Gusmão nos dias de Dezembro de 1640 e da Restauração.
Estamos no final de Outubro mas a aragem é quente e a fazer lembrar Maio, tomo um café na pastelaria do costume e subo depois a Avenida beneficiando da sombra das laranjeiras, tendo aquele cuidado tão Calipolense de me baixar perante os troncos mais rebeldes e que se intrometem no meu caminho.
Entro no Castelo, rezo à Senhora da Conceição, e ali ajoelhado, sinto-me um inevitável herdeiro beneficiário de uma fé que não se apaga. Ajoelhei-me por ali com os meus avós.
Não tardo a devolver-me à Avenida, depois à Praça e mais tarde à Corredora para poder regressar a casa, cumprindo os “mandados” entre o Multibanco na Caixa Agrícola, os Bolos Fintos na Pastelaria, o Expresso na Comercial e o pão na Padaria.
E um trajecto que em condições normais eu faria em vinte minutos, fi-lo em hora e meia, não tendo noção no final, do número e dos nomes das pessoas com quem me cruzei e com quem fui falando do estado de saúde do meu pai.
Quando se tem uma terra como eu tenho a minha, para além do abraço das árvores e do conforto natural das pedras que nos oferecem um eterno chão, para além do ar que é a nossa casa, temos este benefício da gente que nos abraça, que nos beija e que nos envolve de afectos na forma de olhares, gestos e de palavras.
Uma gigantesca e informal família…
E nunca nos sentimos sós.
Os dolorosos silêncios para onde a vida às vezes nos abandona à mercê de pensamentos difíceis, apagam-se assim por entre o brilho da gente que nos cuida e nos conforta, com algo de divino e de recompensa para quem reza; ou não fosse cada Calipolense um porta-voz informal da Senhora da Conceição que no coração de cada um, muito mais do que no Castelo, tem a sua casa.
Da varanda da casa dos meus pais vejo o Palácio, escuto os pavões e apercebo-me que o lilás que me perfuma a Páscoa, este ano e por mérito do sol voltou a florir como que visitando as romãs.
Sorrio, escrevo um poema de amor para quem trago no coração e sinto o abraço da gente.
O sol dos amigos rompe os impossíveis e até faz florir em Outubro aquilo que parece ser de Abril.
E é impossível sentir-me só.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Eu pressinto a eternidade


Aqui junto ao rio, os nossos dois corpos abraçados são na tarde de Lisboa, um pequeno T0 onde cabem em segredo infinitos metros quadrados de paixão.
Os meus braços encontraram finalmente o seu destino e eu sinto a brisa que me chega carregada com a herança do mar, mas perfumada por ti, pela loura seda aparada que te reveste a face.
Na perfeição desta hora tento agarrar a eternidade: não quero jamais sair daqui; e sinto medo que a noite regresse e que cale o azul do teu olhar como o fez ao rio.
Mas as águas persistem no seu beijo ao Terreiro e entre as colunas; a essência do Tejo sobrepõe-se ao breu numa melodia que o meu peito acompanha ao ritmo do teu coração que de tão perto se faz siamês do meu. Igual que a alma que há muito já o é.
Então eu pressinto a eternidade, aconchego-me mais a ti e sei que por sobre qualquer noite eu irei amar-te sempre assim… e que jamais partirei daqui.
E dou-te um beijo, igual e do tamanho do Tejo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O amor é este instante…


Lisboa é um detalhe sublime, e a luz que se apaga ao ritmo lento do anoitecer vê-me vaguear pelas palavras na doce impotência de contar ao mundo o sentir que nasce do toque da tua pele na minha.
O divino não se escreve.
O amor jamais se vergará à linguagem banal com que os Homens fazem listas de supermercado.
Eu sigo a olhar para ti…
O miradouro, o verão que irrompeu rebelde pelo Outono, uma tília centenária, a mesa, os dois copos de Ginger Ale, a lua… e o meu braço colado ao teu no beijo que bebe das mil vidas que guardas no teu ser.
Há aromas de paraíso, o toque grená das romãs maduras… e este instante é o amor que a tudo oferece um sentido novo; o passado foi a estrada tantas vezes indecifrável para chegar aqui, e o futuro, nada mais poderá ser para lá deste querer multiplicado pelos dias todos que me restam.  
Mais tarde desceremos a calçada buscando o rio, passo com passo, pele com pele… e um abraço longo com a cumplicidade do som das ondas da água, vénias do Tejo à realeza azul da cidade.
Um abraço, pele com pele…
E o amor é este instante que não se escreve, mas onde o corpo todo estremece num doce arrepio intenso que queremos estender pela eternidade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sigo por ti… para me encontrar


Este caminho tem os traços e todos os detalhes da genética da minha vontade, nasceu do esboço dos dias que sempre ousei sonhar.
Esta estrada, tomo-a como minha rota pela mais do que consciente entrega de todos os meus passos.
Tu chegaste num dia escuro, iluminaste a tarde por entre aromas de açucenas que indiciavam primavera; entregaste-me as tuas mãos, os teus braços; e na dispensa assumida das palavras, ateaste em mim este não sei quê que mata antigas ilusões, que despreza agonias, dores, equívocos e faz avançar a nossa história.
Este não sei quê que é maior do que tudo o que demais se sente, e só pode ser o alvo eterno do canto de todos os poetas, aquele único e definitivo amor que por sobre todas as promessas e desilusões, cada vida merece e está destinada.
Da tua face loura de onde transborda o azul mar do teu olhar, de onde transpiram todas as lendas de antigos heróis, bebi então a fé que renasce e floresce em mim em cada alvorada.
Este meu caminho… és tu.
E rebelde, sem a bússola ou o sextante da sensatez, sigo por ti fazendo breves todos os instantes e encurtando o mar.
Sigo por ti… para me encontrar. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os aromáticos dias do imprevisto


Para quê desesperar em prévio sofrimento com a perspectiva negra do que quer que seja, se até o calendário nos surpreende e nos oferece generoso, dias de verão em final de Outubro, algures entre o “verão que amadurece os marmelos” e o “verão de S. Martinho”, duas “instituições” de que sempre ouvi falar aos meus avós.
E apesar de sabermos que “Outubro quente traz o diabo no ventre”, também não esquecemos o muito que já choveu, e assim, “Outubro meio chuvoso torna o lavrador venturoso”; e estamos garantidos…
Que de chuva e sol se querem os meses e se compõe a vida, tão mais pobre quanto mais monótona e previsível.
De cada vez que regresso do Alentejo trago comigo um pão de meio quilo que deixo ficar duro para poder preparar uma Sopa de Tomate daquelas que importam para a minha cozinha, os cheiros por entre os quais cresci.
Frito as “capelinhas”, escolho o fruto maduro, tempero de orégãos, acrescento um ovo, o pão partido em “sopas”… e o jantar fica perfeito.
No meu prédio e à frente do meu apartamento, vive há vinte anos a minha vizinha D. Maria, Angolana, que insiste em preparar os seus pratos de uma forma tão intensa de sabores, que não há ninguém que saia dos elevadores e fique indiferente a tão fantástico perfume.
Ontem à hora do jantar e por ser Segunda-feira, a D. Amélia da empresa “Ferro Expresso” veio a minha casa recolher a roupa para engomar e viu-se de repente no epicentro de um dueto Alentejano-Angolano entre uma Sopa de Tomate e uma Muamba de Galinha, com os quiabos em agradável sintonia com o pimento verde e os orégãos.
Confessou que já não queria sair dali do meio daquele encontro com tanto de imprevisto quanto de bem cheiroso.
E os dias melhores são como os patamares onde se misturam aromas num inédito casamento.
Os dias do imprevisto de onde às vezes nasce um verão em pleno Outono.