sábado, 8 de novembro de 2014

Os dias aos quais nem os impossíveis resistem


Há dias em que as palavras esperam por nós à esquina das horas e se nos colam à voz dando uma fantástica expressão de verdade aos sentimentos.
São aqueles dias aos quais nem os impossíveis resistem.
Na velha pasta preta de cabedal levo as palavras escritas que chegaram de um serão em casa quando o pensamento se elevou até às histórias dos anjos que pela alma são maiores do que quaisquer corpos que os envolvem. 
A Rainha de Espanha está na plateia pronta para me ouvir e as palavras fluem facilmente porque elas exprimem a verdade dos heróis que serão sempre maiores do que os ocupantes de quaisquer tronos humanos; e maiores do que quaisquer reservas que eu possa ter perante uma real plateia.
Eu sou apenas o porta-voz do mérito desses heróis imensos maiores do que o tempo ou quaisquer circunstâncias.
Aprecio a lua cheia quando em Vila Viçosa saio de casa e vou em direcção à tertúlia que inspirada na minha conterrânea Florbela Espanca, nos convoca hoje para falar do Alentejo e das palavras escritas.
Não tarda a que se solte a poesia…
E mais uma vez as palavras a oferecerem rosto ao sentir da terra que me ofereceu berço; as palavras que cantam o espaço e o tempo de onde sou.
Depois, o copo de vinho tinto, as castanhas assadas, o riso, as conversas e o desprender das cumplicidades dos amigos… também tecidas por palavras.
Deitei-me há pouco, o iPhone pisca e leio palavras de amor que me enviaste. Sorrio, o dia foi exactamente como tu disseste pela manhã que seria: brilhante.
Tu dizes que eu brilho sempre para ti mas eu acho que o meu brilho é consequência directa de te ter na vida e de sentir tantas vezes as tuas palavras.
Há dias como o de hoje, que parecem trazer-nos horas maiores do que qualquer sonho, mesmo os mais ousados.
E as horas trazem palavras como expressões de um sentimento único: o amor.
E ao amor nada resiste, nem os impossíveis.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AS MINHAS MÃOS


Entrego-te as minhas mãos
Mães de carícias
Mãos da genética de um amor sem quanto
Morada das bênçãos colhidas dos berços que embalaram anjos

Entrego-te o meu riso que tão bem sabe suplantar o pranto
Estes lábios que vestiram beijos em corpos singulares…
Guardiões de almas de ouro e de diamante

Entrego-te as palavras
Um eterno sim
E este ser que nunca se resigna e nada vê distante

Entrego-te o dia
A noite
O colo que será a tua casa
As luzes
A festa
A magia…

E faço-te voar
Sem que para tal precises de qualquer asa

Entrego-te a vida que eterna se me colou ao ser
O céu que vejo em tudo e guardo em mim

Marco?
Célia?

Os nomes são meros detalhes de sonhos que de flores nos enchem os dias
De heróis que vencem o tempo e jamais terão um fim

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mas o que importa a noite?


O relógio de casa permanece na hora antiga, mas também, o que é que isso importa?
O dia é o sol que o faz com independência da forma como contamos o tempo.
Estamos os dois sentados com as pernas cobertas pela saia que esconde a braseira acesa por debaixo da camilha.
Já é Outono.
As nossas mãos acariciam-se à medida que o creme que cheira a limão te tenta matar a “secura” provocada pelas semanas de hospital.
Soltam-se palavras, e claramente já realinhámos as memórias. Voltaram os dias mais felizes.
Depois vem o chá, as torradas, a compota de abóbora, e continuamos a conversar.
Parece que as palavras entre nós nunca se acabam e nascem da arte de saber cuidar; só o tempo faz alternar a definição de emissor e receptor.
E as palavras são apenas detalhes de um imenso amor.
Em breve irá anoitecer, o sol já se escondeu por detrás do palácio.
Mas o que importa a noite?
O sol em breve voltará a fazer o dia acontecer.
E nós nunca contamos o tempo… e jamais tememos a noite.
Nós somos assim fortes por estarmos juntos, e somos eternos, tal qual o sol e o nosso amor.
Pai, parabéns; o dia dos 74 anos passado em casa sabe bem melhor.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Basta tão-só querer muito


Há muito me habituei a escutar o vento que sopra forte ao redor de casa, por entre o silêncio que procuro e patrocina as palavras que vou escrevendo.
Às vezes paro e presto atenção ao ruido que se solta da lareira e que com o tempero da imaginação se converte rapidamente numa voz que sussurra estranhos ou doces segredos; talvez porque tudo pode ser muito mais do que o simples que é de verdade, tudo pode ser aquilo que queiramos que seja.
Basta tão-só querer muito.
Ontem enquanto recolhia a roupa que secara à janela e que eu estendera na véspera, caiu-me aos pés uma pequena folha de plátano com uma assumidíssima cor castanha, detalhe de Outono que o vento, que tantas vezes conversa comigo, fez subir até ao sexto andar do meu prédio e fez prender-se a alguma das minhas camisas.
Recolhi-a, apreciei-lhe a perfeição, e pousei-a depois no móvel da entrada junto a um dos presépios da colecção.
Continua lá depois de me ter proporcionado um serão com muitas palavras de Outono.
Os dias trazem detalhes que na aparência de um mero lixo que se sacode, são preciosidades que nos fazem sorrir, e nos oferecem palavras; da mesma forma que às vezes carregam as desilusões do nada que resulta de quem ou do que muito se espera.
A dor dos silêncios quando tanto esperávamos essas mesmas palavras.
Confesso que sobre estas incógnitas e surpresas que oferecem emoção ao acto de viver, gosto de me fixar nas primeiras e aproveitar a boleia de um plátano e do vento para eu próprio poder voar, sobre tudo e também por sobre as desilusões.
Não há muito tempo e num passeio de namoro ao fim da tarde, isso mesmo conversávamos sobre o tão pouco que é necessário para sermos felizes.
Basta tão-só querer muito.
E amar é querer até ao infinito.
Pensando bem, eu acho até que a folha de plátano com cor de Outono é um beijo teu que a noite me entregou por entre o desatino da saudade que sempre me oferece o luar… 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Bardana e a Higiene Íntima Feminina


Ontem durante um almoço fiquei a saber que as senhoras que escrevem e opinam nos blogues da moda cobram em média 1.500 Euros por uma menção positiva a um determinado produto ou serviço, provando que as tias começaram por vender croquetes e carapaus com natas mas depois alargaram definitivamente o seu âmbito de acção, aproveitando a atracção que o seu estilo de vida exerce na populaça em geral, sobretudo nas candidatas a Miss Quinta da Marinha.
Um amigo que comercializa um produto destinado à higiene íntima feminina, solução fantástica de pH alcalino suave enriquecida com Bardana e sem parabenos, corantes e fenoxietanol, foi muito recentemente confrontado com esse facto.
Para que as autoras pudessem dizer que a Bardana lhe proporcionava uma fantástica sensação de frescura, era necessária a transferência da tal quantia; e possivelmente com gorjeta até seriam capazes de dizer que o tal produto até põe os bidés a cantar jazz e a bater palmas.
Ora perante este facto, apraz-me dizer desde logo que nem todos os blogues são iguais e que eu jamais recebi um cêntimo por ter dito bem do que quer que seja ou de quem seja, nomeadamente dos meus amigos a quem expresso elogios nos textos que vou escrevendo e publicando nos dias dos seus aniversários.
É tudo gratuito e natural, e como diria o grande e inimitável Jorge Jesus:
- “Limpinho, limpinho…”
E depois, e para que o meu amigo não possa ficar órfão de menção num blogue, ofereço-lhe este tempo gratuito no Pomar, mas com uma desvantagem clara em relação às senhoras que falam das carteiras Chanel, dos implantes de pestanas, dos penteados e das roupas da moda; é que eu percebo tanto de higiene íntima feminina como da cultura da beterraba ou da exportação de aglomerados de plástico.
Mas se o meu amigo me garantiu ontem enquanto nos refrescávamos nós com uns magníficos gelados do Santini (e o de Ananás da Ilha de São Miguel é realmente fantástico – menção gratuita, espontânea e natural da minha parte) de que a Bardana é excelente e refresca, quem sou eu para duvidar de tal facto.
Amigas leitoras avancem já todas em força para o consumo e utilização da dita Bardana.
E já agora deixo uma outra sugestão: se puderem depois passar pelo Santini, comam um geladinho porque a frescura a 360 graus é outra coisa. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Tu teces as manhãs em que me apetece cantar


Espreito o Rupert Everett a desafiar a Julia Roberts para dançar ao som the “I say a litle prayer for you”, numa batida que reinventa a famosa canção da Dionne Warwick, e naturalmente alinho a minha voz com o som que se solta do i-Pad.
Há manhãs assim, em cujo despertar parece insistir em querer prolongar os sonhos da noite, inundando-nos dos melhores pensamentos naquele instante em que abrimos os olhos e nos espreguiçamos alarvemente em todo o esplendor dos lençóis brancos que ainda cheiram ao aroma campestre do detergente.
E às vezes acabamos por saltar da cama a cantar.
Acho que dormi toda a noite entrelaçado nos teus beijos, senti o tom quente dos teus braços nos meus, e dormi embalado pelas tantas palavras que se soltaram de nós naqueles instantes em que a lua chegou para nos alumiar na generosidade e na ousadia de substituir o sol.
Guardei detalhes, sorrisos, respirares, desabafos, segredos, revelações… e o teu olhar foi hoje o primeiro pensamento por entre a consciência de acordar e sentir o dia.
Fui todo eu quem soltou o teu nome entre o mais doce espreguiçar.
E depois, o café, o Bolo Lêvedo torrado, a compota… e a Dionne Warwick a puxar-me para cantar.
Há manhãs assim…
E eu já não consigo imaginar uma manhã em que tu não sejas o primeiro pensamento do meu despertar.  

sábado, 1 de novembro de 2014

Bruxas e autoproclamados santinhos


Detesto bruxas, e o inevitável convívio diário que a vida me impõe que tenha com elas, leva-me a quem nem morto as celebre em qualquer noite especial dedicada ao efeito.
Sim, porque as bruxas andam por aí em todo o lado, sem nome, filiação ou género específico, a voarem sem vassouras por sobre a inteligência humana; sem nunca sequer conseguirem pousar para lhes tomar um arzito que seja.
Se o diabo veste Prada, as bruxas vestem qualquer marca, e até pode ser a Zara, porque acham que tudo lhes assenta bem aos corpos espremidos em horas de ginásio e toma de diuréticos que as tornam escravas dos mictórios da humanidade.
Acham-se lindas, quando algumas são mais feias do que bater na mãe; e não fosse o gloss que aplicam nos lábios mais ou menos retocados com bótox, e também nenhum brilho seria emitido pelas suas bocas, já que as palavras, por muito que se esforcem, são mais baças que as entrevistas da Teresa Guilherme no confessionário da Casa dos Segredos.
Porque mesmo vestidas de Vogue, as bruxas não conseguem travar os arrotos da natureza que abunda em si: o correio dos leitores da revista Maria.
Por isso, o mais longe que seria capaz de ir numa noite de 31 de Outubro, era partir-lhes uma abóbora nas suas cabeças de pedra onde têm os olhos incrustados, aproveitando depois o recheio das ditas (abóboras) para sopa ou compota.
No lado oposto, confesso, também não acho muita graças a santos, sobretudo aqueles que se “auto canonizam” a um ritmo quase tão acelerado quanto o que o Vaticano utiliza para colocar os seus Papas nos altares.
Essas criaturas que têm uma tendência natural para conjugarem virtudes na primeira pessoa do singular, mas de uma forma tão marcada e tão destorcida da realidade que ganham automaticamente o sufixo “inhos”; acabam por ser santinhos mas totalmente alinhados com o pior que descrevi das bruxas voadoras.
Os extremos tocam-se nos pontos reconhecidos como os piores da vaidade humana.
E aqui, é como se a frequência das sacristias e o convívio com o cheiro a mofo de qualquer arcaz bastassem para nos fazer bons, e funcionasse como um caldeirão onde borbulha essa poção magnifica feita de infinitos méritos e virtudes; e os santinhos enfiam-se todos como piolhos na celebração do dia de hoje.
Assim, entre as noites e os dias que a vida me disponibiliza, o que gosto mesmo é de esquecer bruxas e santinhos, e celebrar com os amigos, muitos e bons, amigos colegas de trabalho, amigos amigos, amigos família, etc.; aproveitando todas as horas para estar bem e construir um pouco de céu, aqui na Terra, porque o outro a seu tempo chegará e por certo sem ser por autoproclamarão da minha parte ou por decreto assinado por Homens, por muito importantes que eles sejam.
Por estes dias de Outono, venham então os amigos, os abraços, as gargalhadas, as castanhas assadas e as Bolas de Berlim…
E o céu assim me acontece porque quem tem fé não pode gostar de bruxas e santinhos.