sábado, 15 de novembro de 2014

Quatro letras e a mesma dimensão de amor e vida


Numa longa conversa ontem ao telefone com uma “velha” e querida amiga, fiquei a saber que recentemente e numa reunião de índole religioso e católico em que ela participou, dois indivíduos se envolveram numa discussão em que entre gritos competiam sobre as horas que um e outro dedicam diariamente à oração.
Se o diálogo inter-religioso não vai bem, digamos que o intra-religioso não vai melhor…
E Deus que já é tantas vezes apenas e só, um bom pretexto para arear visons ao domingo, até porque as igrejas costumam ser bem arejadas e cheias de correntes de ar; vira assim assunto de discussão ao nível de um penalti mal assinalado que se discute no balcão do café numa manhã de segunda-feira.
Presumo que estas discussões sejam aceites em fóruns religiosos, mas só a partir do momento em que se saiba que nenhum destes indivíduos é gay ou já cometeu o gravíssimo pecado de recasar, porque isso sim é que são atitudes graves na ofensa a Deus, apesar de envolverem honestidade e fidelidade ao amor por nós e pelos outros.
O resto, até mesmo esta banalização que reduz Deus ao estatuto de uma coisa mundana, não interessa nada; ou pelo menos parece continuar a ser bem aceite.
Não o faço muitas vezes, mas estando em Vila Viçosa no fim-de-semana passado, resolvi ir até ao cemitério, no Castelo, e passear um pouco pelas memórias dos “meus mortos”.
Sem qualquer intuito de natureza mórbida ou semelhante, começo por saudar a Florbela Espanca e deixo-me ir por entre corredores de lápides de mármores cravejadas de nomes e fotografias, pensando mais do que rezando quaisquer orações formais, deixando que os nomes façam aflorar à lembrança as histórias de muitos dias em que fomos felizes, os dias que me fizeram assim como gosto de ser.
Passo sempre pela memória da D. Joana, que por acaso até era ateia e foi uma das minhas maiores amigas e a pessoa que mais contribuiu para o formar da minha consciência social, e recordo sempre o pedido que ela fazia quando brincava a dizer que queria ser enterrada envolta em cartão canelado porque era o que mais tinha no armazém da livraria.
E saio sempre com a certeza de que não rezando, eu rezei, porque fiz ressurgir detalhes de um amor profundo com pessoas que em mim serão eternas porque jamais as deixarei morrer.
Voltando à discussão das criaturas…
Talvez lhes faça falta aprender que na vivência do amor, da liberdade, da paz e da verdade do que somos, se louva a Deus, muito mais do que com centenas de fórmulas debitadas em genuflexão perante os sacrários do mundo; e nessa perspectiva todos temos 24 horas disponíveis para a oração.
Mas isso aprende-se quando se vive Deus muito mais no íntimo do que na esfera de um adorno social…
Ou tão-só quando se vive o essencial, e é inevitável voltar à palavra que o define e que tem quatro letras, tantas quanto a dimensão da vida: o amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

My hands


I’m giving you my hands
Mothers of caresses
Hands from the genetics of an endless love
Address of blessings harvested from the angels’ cots

I’m giving you my laugh that knows so well how to supplant the weeping
My lips that have dressed kisses in singular bodies.
Guardians of gold and diamonds souls

I’m giving you my words
A forever yes
And this human being that never resigns and nothing see too far

I’m giving you the Day
The Night
The lap that it will be your home
The Lights
The Party
The Magic…

And I will make you fly
Without needing any wing

I’m giving you my eternal life
The sky that I see in everything and it is part of me

Marco?
Celia?

Names are irrelevant details from the dreams that put flowers in our days
From heroes who win the time and create a piece of paradise in everything I see

Nunca mais é verão…


Atravessar a ponte 25 de Abril em direcção a Lisboa num fim de tarde ao redor do São Martinho não conseguindo ver um palmo à frente do nariz, debaixo de uma chuva torrencial e sob um vento aterrador que nos abana a nós, ao veículo e à própria ponte; faz-nos desde logo pensar que é infundada a expectativa de um verão patrocinado por uma qualquer santidade, e os tempos são definitivamente outros e capazes de desmentir o “Borda d´Água”, que até é distribuído pela minha editora…
Desde logo porque os heróis já não são os generosos que rasgam as capas para as poderem partilhar com os mendigos; muito antes pelo contrário, são “santos” elevados aos altares pelo mediatismo e pelo marketing político, social ou outro, que sacam os “K’s” ou até os milhões de Euros em seu proveito fazendo com que floresçam mendigos.
E o Homem, cuja definição foi afinada para “ser vivo que respira e que vive rodeado por bancos”, deixou de ter a felicidade como objectivo último, para passar a ter esse grande sonho de conseguir “viver” tendo outras companhias que não só o “banco do jardim” e o “banco alimentar”.
Sob tamanha falta de generosidade, já não há motivos para que as nuvens desanuviem e brilhe o sol de um verão, mesmo que fugaz.
Sigo… mesmo que a abanar.
O rádio ligado e com o som em competição clara com o ruido da chuva e do vento, debita os últimos desenvolvimentos do escândalo de corrupção dos “vistos gold”, da privatização da TAP e da situação da PT; e fico com a sensação de que a desonestidade dos liberais é o mais eficaz fertilizante para que floresçam “comunistas”; até porque quase que nos apetece que construam um muro entre nós e essas imbecis criaturas criadas nos laboratórios da política.
E para além da saudade do verão de São Martinho, isto quase que faz ter saudades de um “verão quente”.
Depois chego a casa e dedico algum tempo aos programas dos canais de notícias que são hoje uma espécie de “jogo da honestidade” com bola cá e bola lá num campeonato em que os pontos são dados por conexões e nomeações partidárias.
Por mim ficam empatados porque ninguém se conseguiu destacar… pela positiva.
Desligo a televisão e vou escrever. Sou definitivamente um eleitor órfão à procura do sol por entre um denso nevoeiro que também não traz um “D. Sebastião”.
A chuva e o vento vieram comigo e batem forte na vidraça.
Apetecia-me ir ver o mar.
Mas porque é que nunca mais é verão? 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Há manhãs às quais pedimos silêncio para podermos usufruir do eco das noites


Caminho rumo ao sul por entre sombras, e a pouco e pouco, e coberto pelas nuvens, o sol vai despertando as cegonhas que há muito têm casa no cimo das ruinas de um velho moinho que fica mesmo ao lado da auto-estrada.
As árvores emergem da penumbra, e só os choupos e uns raros plátanos insistem em falar de Outono por entre a constância verde dos sobreiros e também das muito mediterrânicas oliveiras alinhadas nos seus corredores traçados a régua e esquadro.
Do café onde paro para descansar um pouco tenho vista para uma festa de ruborizados medronhos e para o desenhado voo de uns muito animados tordos que os namoram.
O castelo de Evoramonte está envolto pelas nuvens e adensa mistérios nas convenções que não rejeitamos nunca fazer com o além.
E eu sigo sozinho e na aparência de não viajar por entre palavras, muito ao jeito de quem segue pé ante pé, por não querer despertar o dia.
Há manhãs como esta, manhãs às quais pedimos silêncio para podermos usufruir do eco das noites.
Eu penso em ti e o meu silêncio é afinal um mar privado, secreto e eterno das palavras que de noite bebi de ti e do teu olhar.
Prometo, e faço-o por mim:
- Jamais te deixarei morrer nas palavras e no tudo que me dás.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

E sempre sem margens…


Aqui sob os suspiros cúmplices do luar de Lisboa, faço-me irmão deste rio e esqueço todas as margens na suprema ambição de ser mar.
Aqui, no momento que tu me ofereces e de onde tudo se avista pequeno; que a eternidade não poderá ser mais nada, para lá deste abraço que nos faz respirar o mesmo ar ao jeito de um longo beijo onde por entre barbas se libertam palavras de amor.
Sem margens… 
Nós, a eternidade e o mar.
E o futuro, promessa deste instante, será um entrelaçado caminhar numa rua de Lisboa atapetada de flores, por sobre as relíquias das lágrimas cravejadas na espera em que apenas me alimentava da esperança que chegasses.
Uma rua que conduz inevitavelmente ao mar.
E o futuro seremos nós, o amor e um abraço de onde se soltam palavras de amor…
A eternidade… e sempre sem margens. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os melhores dias para plantar flores


Há dias que apelam aos óculos de sol para que possamos camuflar aquela lágrima furtiva rematada pela alma e que não é defendida a tempo pelo autocontrolo que a razão sempre nos impõe envolto pelos panos opacos da discrição.
E por mais que alguém se esforce para nos fazer virar o pescoço e colocar o olhar de frente para o lado mais colorido e viçoso da vida, somos invadidos por uma crónica rigidez muscular que nos torna fieis a esse lado obscuro e lunar onde tudo é, ou pelo menos parece, negativo.
Nem as palavras, nem as memórias, as gargalhadas, nem o café quente aromatizado com açúcar…
A obsessão é total e nada parece eficaz como “relaxante muscular”, porque a cada argumento positivo que alguém nos apresente, nós respondemos com pelo menos dois em sentido contrário, dos tais que justificam este estado de espírito.
E a lágrima lá vem por aí acima.  
Acontece a todos e até aos melhores, e acontece muito particularmente quando saímos daquela zona de onde bebemos conforto por termos tudo segundo as regras apertadas que estipulámos para nós próprios.
Ontem ao final da manhã, em Vila Viçosa, e quando eu já quase não tinha argumentos para rebater esta espiral negativa de uma amiga, até porque a Sopa da Panela já estava em casa a arrefecer à minha espera por entre um intenso sabor a hortelã, “atirei-lhe” com aquele que é para mim um principio de vida:
- Quando saio de casa e me cheira ao esterco que alguém me colocou no tapete, aproveito porque esse é o dia ideal para plantar flores.
Ficamos nós muito bem porque temos flores frescas em casa, e irritamos sobremaneira quem nos deu o esterco na esperança de nos ver por ali martirizados eternamente pelo seu mau cheiro que atrai as moscas.
E assim pelo menos fi-la sorrir, tanto quanto pude ver para lá dos óculos de sol que serviam de biombo.
É que mesmo todos os dias são tempo demasiado curto para que nos rendamos a uma qualquer derrota.

sábado, 8 de novembro de 2014

Os dias aos quais nem os impossíveis resistem


Há dias em que as palavras esperam por nós à esquina das horas e se nos colam à voz dando uma fantástica expressão de verdade aos sentimentos.
São aqueles dias aos quais nem os impossíveis resistem.
Na velha pasta preta de cabedal levo as palavras escritas que chegaram de um serão em casa quando o pensamento se elevou até às histórias dos anjos que pela alma são maiores do que quaisquer corpos que os envolvem. 
A Rainha de Espanha está na plateia pronta para me ouvir e as palavras fluem facilmente porque elas exprimem a verdade dos heróis que serão sempre maiores do que os ocupantes de quaisquer tronos humanos; e maiores do que quaisquer reservas que eu possa ter perante uma real plateia.
Eu sou apenas o porta-voz do mérito desses heróis imensos maiores do que o tempo ou quaisquer circunstâncias.
Aprecio a lua cheia quando em Vila Viçosa saio de casa e vou em direcção à tertúlia que inspirada na minha conterrânea Florbela Espanca, nos convoca hoje para falar do Alentejo e das palavras escritas.
Não tarda a que se solte a poesia…
E mais uma vez as palavras a oferecerem rosto ao sentir da terra que me ofereceu berço; as palavras que cantam o espaço e o tempo de onde sou.
Depois, o copo de vinho tinto, as castanhas assadas, o riso, as conversas e o desprender das cumplicidades dos amigos… também tecidas por palavras.
Deitei-me há pouco, o iPhone pisca e leio palavras de amor que me enviaste. Sorrio, o dia foi exactamente como tu disseste pela manhã que seria: brilhante.
Tu dizes que eu brilho sempre para ti mas eu acho que o meu brilho é consequência directa de te ter na vida e de sentir tantas vezes as tuas palavras.
Há dias como o de hoje, que parecem trazer-nos horas maiores do que qualquer sonho, mesmo os mais ousados.
E as horas trazem palavras como expressões de um sentimento único: o amor.
E ao amor nada resiste, nem os impossíveis.