sexta-feira, 21 de novembro de 2014

JOSÉ MARIA


Na minha pequena sala onde agora escrevo há dois quadros pendurados na parede a que tu ofereceste os teus traços.
Os traços e as palavras são elementos na mão dos poetas nessa doce alquimia de cantar a vida e tudo aquilo que os dias vão oferecendo.
Ofereceste-me cada um destes quadros em Vila Viçosa, exactamente nos dias em que lancei os meus dois livros de crónicas e de memórias. Num dos quadros há a Praça da nossa infância, com laranjeiras e a igreja de São Bartolomeu; no outro estou eu com uma expressão em que me reconheço.
Quando os dois percorríamos juntos a Alameda do Carrascal para apanharmos a automotora das sete e vinte da manhã que nos levaria para as aulas em Estremoz; talvez nunca tivéssemos sonhado que as nossas palavras e traços se cruzariam tantas vezes assim, brotando da amizade, alimentando memórias, cantando os nossos dias felizes no contexto de uma perfeita estereofonia de sentidos.
Ou talvez sim… que a ousadia também nunca a deixámos órfã por entre o choro da lamúria e a resignação.
Ontem… há trinta anos, quando petiscávamos empadas à sombra dos sobreiros e galgávamos montes cheios de estevas ali para o lado da Fonte dos Castanheiros, com a Manuela, o Manuel, as manas Duarte, e tantos outros amigos; jurámos mil vezes que iriamos ser felizes não traindo jamais a fé que nos juntava.
A forma mais verdadeira de louvar a Deus é a louvar a vida, à nossa escala, enchendo-a da certeza de que em qualquer amanhã iremos ser mais felizes do que hoje.
E a felicidade é tão-só sermos nós na fidelidade aos sonhos e ao destino que sonhámos, custe o que custar, fique incomodado quem o quiser ficar.
Foi, e é esta fé, e esta ousadia, que nos juntaram na amizade que dura há décadas, e também na cumplicidade dos traços e das palavras que oferecem voz à poesia que “cantamos”.
Sempre a rirmo-nos muito de nós e de tudo o que nos vai acontecendo à medida que tu ficas sem cabelo e eu o vejo crescer cada vez mais branco na face; ao ritmo da ginja, do brinhol, das viagens e dos cafés à sombra do Restauração.
É a vida no seu melhor com o patrocínio total dos amigos.
Zé, um grande abraço de parabéns e que continues a ter dos melhores argumentos para desenhares muitos e bons quadros.
Eu ofereço-te a amizade, as palavras e as paredes vazias que ainda vão existindo aqui por casa.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Roma e um serão


Há um homem velho sentado que vende castanhas
E uma gorda de ancas tamanhas...
Que para disfarçar a sua idade
De tão loura que está ofusca o sol sem dó nem piedade

Um Japonês pragueja com o sinaleiro só porque ele o separou do guia
Está furioso...
A criatura distraiu-se na hora de atravessar a passadeira para fazer uma fotografia

Numa loja de roupa...
Um homem compra umas meias
E na montra do lado...
Um vestido de noiva faz sonhar duas raparigas feias

Passa uma executiva toda perfumada
Um casal dá um beijo
E dois homens não travam o desejo...
E caminham de mão dada

Indianos vendem xailes e bugigangas
Recipientes de onde saem bolas de sabão 
Um pobre apela à caridade
E passa um padre e uma freira que pelo esbracejar do cura está a levar um sermão

Já passa das dez da noite
Estou em Roma a passear
E penso em ti

Ai se estivesses aqui...

Dar-te-ia tantos beijos que os meus lábios não teriam sequer tempo para o que estão a fazer agora
Para se entreterem...
Resgatam da memória uma canção e estão a assobiar

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Três sentidos e meio


Sair ontem de Lisboa com um princípio de otite no ouvido direito e ser agitado sobre a Sardenha como o gelo num shaker, resulta numa semi-surdez com uma ressonância intracraniana de pôr louca qualquer criatura.
Nem consigo saber se estou aos gritos, e com medo de estar, tenho tendência para falar mais baixo e ninguém me ouvir, o que já me irrita entre tantos “desculpe” e “sorry” que me atiram.
Para além disso e nesta onda de “bem-estar”, resolvo ter graça e mandar uma mensagem em Italiano, com o Google a dizer-me que “um beijo infinito” se escreve “un bacio infinito”. A princípio soa bem mas depois de relido em Português é um pouco estranho pois parece que estamos a acusar a outra pessoa de sofrer de poliúria e não fazer outra coisa a não ser “xixi”.
Desinspiração.
Depois de uma noite de trovoada o dia amanhece com sol, eu continuo a ouvir mal, mas tudo parece ser diferente até ao momento em que no pequeno-almoço começo a ver o buffet a escorregar, por pura ilusão pois os meus óculos resolveram fazer uma espargata definitiva com cada lente progressiva a cair para seu lado e a visão de perto e a de longe a misturarem-se de forma demoníaca.
Depois do ouvido…
Acabo por ir para a reunião sem óculos e com a esquizofrénica sensação de que ainda ouço pior por não ter óculos.
Na reunião e como a formadora tinha uma cópia impressa dos slides, a coisa até não iria correr mal de todo, já que a partir do táxi não consegui ver nada ao longe; e se eu por acaso vos disser que me cruzei aqui em Roma com a Sophia Loren, relevem, poderia muito bem ser até o José Castelo Branco.
Resta-me o tacto, o cheiro que me revela um taxista pouco asseado, e o gosto, aquele que pela minha tendência para a gula deverá ser o derradeiro sentido a abandonar-me.
Estava eu neste episódio tortuoso de “Mr. Magoo visita Roma” quando me chega uma mensagem escrita a desejar-me “um dia cheio de sol e cheio com o meu amor”.
Eu estava a dizer-vos que via ou ouvia mal?
Pois… mas esqueçam.
Continuo sem óculos e com o ouvido entupido, mas o que é que isso interessa?
Os sentidos são pequeníssimos detalhes desprezíveis na sua limitação perante uma alma inteira e feliz.
O amor preenche-nos em todos os sentidos… e todos os sentidos, e assim não há dia que possa correr mal.
Três sentidos e meio?
O que é isso quando comparado com um coração feliz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Há instantes que são infinitamente maiores do que a hora que os acolhe


Há instantes que são infinitamente maiores do que a hora que os acolhe porque concentram em si a dimensão da própria vida.
E vive quem cumpre desejos com a convicção de se alinhar com o destino, muito mais do que quem colecciona o tempo deslizando passivamente pelos dias sem que neles ouse deixar o perfume de uma sua qualquer marca.
A noite está amena, Lisboa insiste em oferecer-nos calor mesmo por sob algumas luzes de Natal já acesas no Chiado; eu caminho contigo ao meu lado e aqui e ali, sem que por vezes tu dês conta, olho feliz para a perfeição que o meu desejo vê em ti.
Os meus passos sentem-se alinhados com o destino, porque a minha vida não pode ser mais nada do que este cúmplice caminhar contigo.
Este instante tem então uma dimensão muito maior do que apenas um fim de tarde, tem raízes de quase cinco décadas e a vontade de um futuro que o multiplique até à eternidade em milhões de pétalas e folhas que de amor me perfumem mesmo os recantos mais escondidos de todos os dias.
Eu amo-te, e mesmo correndo o risco de ser alcunhado de um tonto numa recorrência doentia, não me importo e digo que sou e serei sempre teu.
Porque só assim vivo…

sábado, 15 de novembro de 2014

Quatro letras e a mesma dimensão de amor e vida


Numa longa conversa ontem ao telefone com uma “velha” e querida amiga, fiquei a saber que recentemente e numa reunião de índole religioso e católico em que ela participou, dois indivíduos se envolveram numa discussão em que entre gritos competiam sobre as horas que um e outro dedicam diariamente à oração.
Se o diálogo inter-religioso não vai bem, digamos que o intra-religioso não vai melhor…
E Deus que já é tantas vezes apenas e só, um bom pretexto para arear visons ao domingo, até porque as igrejas costumam ser bem arejadas e cheias de correntes de ar; vira assim assunto de discussão ao nível de um penalti mal assinalado que se discute no balcão do café numa manhã de segunda-feira.
Presumo que estas discussões sejam aceites em fóruns religiosos, mas só a partir do momento em que se saiba que nenhum destes indivíduos é gay ou já cometeu o gravíssimo pecado de recasar, porque isso sim é que são atitudes graves na ofensa a Deus, apesar de envolverem honestidade e fidelidade ao amor por nós e pelos outros.
O resto, até mesmo esta banalização que reduz Deus ao estatuto de uma coisa mundana, não interessa nada; ou pelo menos parece continuar a ser bem aceite.
Não o faço muitas vezes, mas estando em Vila Viçosa no fim-de-semana passado, resolvi ir até ao cemitério, no Castelo, e passear um pouco pelas memórias dos “meus mortos”.
Sem qualquer intuito de natureza mórbida ou semelhante, começo por saudar a Florbela Espanca e deixo-me ir por entre corredores de lápides de mármores cravejadas de nomes e fotografias, pensando mais do que rezando quaisquer orações formais, deixando que os nomes façam aflorar à lembrança as histórias de muitos dias em que fomos felizes, os dias que me fizeram assim como gosto de ser.
Passo sempre pela memória da D. Joana, que por acaso até era ateia e foi uma das minhas maiores amigas e a pessoa que mais contribuiu para o formar da minha consciência social, e recordo sempre o pedido que ela fazia quando brincava a dizer que queria ser enterrada envolta em cartão canelado porque era o que mais tinha no armazém da livraria.
E saio sempre com a certeza de que não rezando, eu rezei, porque fiz ressurgir detalhes de um amor profundo com pessoas que em mim serão eternas porque jamais as deixarei morrer.
Voltando à discussão das criaturas…
Talvez lhes faça falta aprender que na vivência do amor, da liberdade, da paz e da verdade do que somos, se louva a Deus, muito mais do que com centenas de fórmulas debitadas em genuflexão perante os sacrários do mundo; e nessa perspectiva todos temos 24 horas disponíveis para a oração.
Mas isso aprende-se quando se vive Deus muito mais no íntimo do que na esfera de um adorno social…
Ou tão-só quando se vive o essencial, e é inevitável voltar à palavra que o define e que tem quatro letras, tantas quanto a dimensão da vida: o amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

My hands


I’m giving you my hands
Mothers of caresses
Hands from the genetics of an endless love
Address of blessings harvested from the angels’ cots

I’m giving you my laugh that knows so well how to supplant the weeping
My lips that have dressed kisses in singular bodies.
Guardians of gold and diamonds souls

I’m giving you my words
A forever yes
And this human being that never resigns and nothing see too far

I’m giving you the Day
The Night
The lap that it will be your home
The Lights
The Party
The Magic…

And I will make you fly
Without needing any wing

I’m giving you my eternal life
The sky that I see in everything and it is part of me

Marco?
Celia?

Names are irrelevant details from the dreams that put flowers in our days
From heroes who win the time and create a piece of paradise in everything I see

Nunca mais é verão…


Atravessar a ponte 25 de Abril em direcção a Lisboa num fim de tarde ao redor do São Martinho não conseguindo ver um palmo à frente do nariz, debaixo de uma chuva torrencial e sob um vento aterrador que nos abana a nós, ao veículo e à própria ponte; faz-nos desde logo pensar que é infundada a expectativa de um verão patrocinado por uma qualquer santidade, e os tempos são definitivamente outros e capazes de desmentir o “Borda d´Água”, que até é distribuído pela minha editora…
Desde logo porque os heróis já não são os generosos que rasgam as capas para as poderem partilhar com os mendigos; muito antes pelo contrário, são “santos” elevados aos altares pelo mediatismo e pelo marketing político, social ou outro, que sacam os “K’s” ou até os milhões de Euros em seu proveito fazendo com que floresçam mendigos.
E o Homem, cuja definição foi afinada para “ser vivo que respira e que vive rodeado por bancos”, deixou de ter a felicidade como objectivo último, para passar a ter esse grande sonho de conseguir “viver” tendo outras companhias que não só o “banco do jardim” e o “banco alimentar”.
Sob tamanha falta de generosidade, já não há motivos para que as nuvens desanuviem e brilhe o sol de um verão, mesmo que fugaz.
Sigo… mesmo que a abanar.
O rádio ligado e com o som em competição clara com o ruido da chuva e do vento, debita os últimos desenvolvimentos do escândalo de corrupção dos “vistos gold”, da privatização da TAP e da situação da PT; e fico com a sensação de que a desonestidade dos liberais é o mais eficaz fertilizante para que floresçam “comunistas”; até porque quase que nos apetece que construam um muro entre nós e essas imbecis criaturas criadas nos laboratórios da política.
E para além da saudade do verão de São Martinho, isto quase que faz ter saudades de um “verão quente”.
Depois chego a casa e dedico algum tempo aos programas dos canais de notícias que são hoje uma espécie de “jogo da honestidade” com bola cá e bola lá num campeonato em que os pontos são dados por conexões e nomeações partidárias.
Por mim ficam empatados porque ninguém se conseguiu destacar… pela positiva.
Desligo a televisão e vou escrever. Sou definitivamente um eleitor órfão à procura do sol por entre um denso nevoeiro que também não traz um “D. Sebastião”.
A chuva e o vento vieram comigo e batem forte na vidraça.
Apetecia-me ir ver o mar.
Mas porque é que nunca mais é verão?