quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O nosso Cante



Colou-se-nos à voz a dolência de oiro das espigas
E do chão de barro que bendiz os nossos passos
Colhemos cantigas
A poesia que entrelaçamos com a voz num eterno abraço

Do tom rubro das papoilas
De sangue vivo se nos faz a coragem que esmaga o pranto
O sol intenso do meio-dia
As aleluias que ecoam livres pelos campos...

E o suor é mote deste nosso canto 

Com a teimosia dos sobreiros
O alento do pão
A alegria do tinto
O tom da sinfonia que nasce da água que corre nos ribeiros...

Somos a festa dos amigos que flutua entre a alvura da cal das ruas
Às vezes com tanto de saudade

O nosso canto
O Alentejo colado à minha voz...
À tua
O hino da terra e da gente a cruzar a eternidade


terça-feira, 25 de novembro de 2014

FERNANDO EZEQUIEL


Há sorrisos e palavras que nos tornam os dias felizes, detalhes como flores raras que nascem de gente suculenta como as plantas.
Sorrisos e palavras que brotam dos afectos mais profícuos que o coração nos manda seguir, neste ciclo do tempo em que cada dia é como uma lição de piano que não tem mais nada em vista a não saber o saborear do prazer inscrito na sequência e nos tempos que cada tecla, como cada instante, nos poderá oferecer.
E é tão fácil gostar de ti, seguindo a recomendação do coração.
Tenho a certeza de que tu e os astros terão por certo outra justificação muito menos simplista do que esta minha de poeta, para o facto do meu mau feitio de Caranguejo sensível se ter encontrado à esquina do tempo com o teu perfil fantástico de Sagitário; para meu claro benefício, pois por entre afecto e palavras, colho de ti infinitos sorrisos; não sei se já te deste conta de uma particularidade facial que te assiste, é que mesmo quando pões um ar sério e zangado, não consegues, e sorris.
Até mesmo quando és actor e te chamam gordo desaprovando a utilização de roupa mais ousada…
E assim, por entre os teus sorrisos, os dias são sempre melhores e felizes quando contigo por perto.
Quando falamos horas seguidas, com ou sem o aporte gourmet e a paz de que o Fernando é divino mestre, eu descubro-me sempre melhor pessoa e infinitamente mais rico.
E porque tu lês os astros e eu leio a Eurovisão, sempre te digo que nasceste no último ano sem Festival da Canção e sem participação Portuguesa, mas no ano em que a Dinamarca ganhou com a canção “Dansevise” interpretada pelo duo Grethe e Jorgen Ingmann.
“Dansevise” quer dizer algo como uma balada para dançar e foi um prenúncio em Março para o teu nascimento em Novembro. Tu és uma “balada” tranquila que nos faz dançar.
Parabéns.
E não é fácil escrever algo de ti… por excesso de coisas boas para dizer.

domingo, 23 de novembro de 2014

Como se numa caneca de leite azedo o mais importante fosse a forma da porcelana


Eu não sou filiado em nenhum partido político, não tenho sequer uma fiel simpatia por qualquer agremiação de natureza partidária.
Eu nunca me abstive numas eleições e reconheço o valor que os partidos políticos têm no contexto do funcionamento da democracia. Voto em consciência naquilo e naqueles que num determinado momento me parecem melhor opção para governar o meu país.
Eu nunca me filiarei num partido político, já o sabia há muito mas reforcei a minha convicção.
Nos últimos dias, mais do que o incómodo de um ex-primeiro ministro preso, choca-me a ridícula defesa fiel e cega do indivíduo feita por gente que considero honesta e intelectualmente superior.
Com a liberdade entrincheirada nas masmorras das fidelidades partidárias e políticas, consegue até apelar-se à justiça, ferindo-a simultaneamente de morte, desprezando-a; uma vez que o apelo é sempre feito no sentido do reconhecimento da inocência, e isso é abrir-lhes os olhos que devem permanecer cegos, ensinando-lhe o caminho num determinado e muito específico sentido.
É como se a justiça fosse algo importante mas só até à porta da "nossa" casa, onde o cartão de militante tem o valor de um registo criminal limpo.
E foge-se do essencial, como se numa caneca de leite azedo o mais importante fosse a forma da porcelana.
Eu não condeno ou declaro inocente o senhor ex-primeiro-ministro. A justiça que o faça.
Eu prezo muito a minha liberdade e gosto muito de fazer as minhas escolhas e ter as minhas opiniões usando-o em pleno.

sábado, 22 de novembro de 2014

Abrimos as portadas e vimos o mar


Sobre a mesa-de-cabeceira, a do lado direito, por onde entro sempre na cama, tenho um pequeno livro com poemas de Pessoa que veio substituir há pouco "O búzio de Cós" de Sophia, que morou por aqui algumas semanas.
Leio sempre algo antes de apagar a luz, nesse instante em que por entre Pai-nossos e Ave-Marias, os meus braços invejam o pensamento por não te terem aqui para te abraçar.
Poemas, orações e as preces dos meus lábios, detalhes de uma imensa fé e de um querer infinito, para que um sonho te traga até aqui à minha noite, e para que o sono não corte o eterno pensamento que estando vígil, sempre me traz o teu olhar.
Mas a esta noite acudiu-me a sorte... sonhei contigo.
Havia um corredor imenso de um soalho que brilhava de cera, e os dois de mão dada, lado-a-lado, alternando olhares e passos, trocámos palavras até chegarmos a uma sala grande com janelas fechadas.
Abrimos as portadas e vimos o mar.
Depois, e sem que se explique, como sempre acontece ao sonhar, chegou o Hemingway e ficámos os três à conversa longas horas, sentados e animados por infinitas histórias… tendo cada um de nós a sua barba para coçar.
Mais tarde abrimos a vidraça de uma janela, despedimo-nos do escritor de "O velho e o mar", e dando novamente as mãos saltámos e voámos para longe cruzando oceanos e mares.
Só me lembro que parámos depois numa ilha e num cais adornado de oliveiras.
Seria Cós?
Demos um beijo sentindo que esta ilha há milénios esperava por nós; e por entre o beijo, cumprindo a eterna insatisfação dos enamorados, eu só me recordo de pensar:
- Não, acordar agora? Não.
Mesmo que o pensamento seja eternamente teu, agora estás aqui para eu te abraçar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

JOSÉ MARIA


Na minha pequena sala onde agora escrevo há dois quadros pendurados na parede a que tu ofereceste os teus traços.
Os traços e as palavras são elementos na mão dos poetas nessa doce alquimia de cantar a vida e tudo aquilo que os dias vão oferecendo.
Ofereceste-me cada um destes quadros em Vila Viçosa, exactamente nos dias em que lancei os meus dois livros de crónicas e de memórias. Num dos quadros há a Praça da nossa infância, com laranjeiras e a igreja de São Bartolomeu; no outro estou eu com uma expressão em que me reconheço.
Quando os dois percorríamos juntos a Alameda do Carrascal para apanharmos a automotora das sete e vinte da manhã que nos levaria para as aulas em Estremoz; talvez nunca tivéssemos sonhado que as nossas palavras e traços se cruzariam tantas vezes assim, brotando da amizade, alimentando memórias, cantando os nossos dias felizes no contexto de uma perfeita estereofonia de sentidos.
Ou talvez sim… que a ousadia também nunca a deixámos órfã por entre o choro da lamúria e a resignação.
Ontem… há trinta anos, quando petiscávamos empadas à sombra dos sobreiros e galgávamos montes cheios de estevas ali para o lado da Fonte dos Castanheiros, com a Manuela, o Manuel, as manas Duarte, e tantos outros amigos; jurámos mil vezes que iriamos ser felizes não traindo jamais a fé que nos juntava.
A forma mais verdadeira de louvar a Deus é a louvar a vida, à nossa escala, enchendo-a da certeza de que em qualquer amanhã iremos ser mais felizes do que hoje.
E a felicidade é tão-só sermos nós na fidelidade aos sonhos e ao destino que sonhámos, custe o que custar, fique incomodado quem o quiser ficar.
Foi, e é esta fé, e esta ousadia, que nos juntaram na amizade que dura há décadas, e também na cumplicidade dos traços e das palavras que oferecem voz à poesia que “cantamos”.
Sempre a rirmo-nos muito de nós e de tudo o que nos vai acontecendo à medida que tu ficas sem cabelo e eu o vejo crescer cada vez mais branco na face; ao ritmo da ginja, do brinhol, das viagens e dos cafés à sombra do Restauração.
É a vida no seu melhor com o patrocínio total dos amigos.
Zé, um grande abraço de parabéns e que continues a ter dos melhores argumentos para desenhares muitos e bons quadros.
Eu ofereço-te a amizade, as palavras e as paredes vazias que ainda vão existindo aqui por casa.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Roma e um serão


Há um homem velho sentado que vende castanhas
E uma gorda de ancas tamanhas...
Que para disfarçar a sua idade
De tão loura que está ofusca o sol sem dó nem piedade

Um Japonês pragueja com o sinaleiro só porque ele o separou do guia
Está furioso...
A criatura distraiu-se na hora de atravessar a passadeira para fazer uma fotografia

Numa loja de roupa...
Um homem compra umas meias
E na montra do lado...
Um vestido de noiva faz sonhar duas raparigas feias

Passa uma executiva toda perfumada
Um casal dá um beijo
E dois homens não travam o desejo...
E caminham de mão dada

Indianos vendem xailes e bugigangas
Recipientes de onde saem bolas de sabão 
Um pobre apela à caridade
E passa um padre e uma freira que pelo esbracejar do cura está a levar um sermão

Já passa das dez da noite
Estou em Roma a passear
E penso em ti

Ai se estivesses aqui...

Dar-te-ia tantos beijos que os meus lábios não teriam sequer tempo para o que estão a fazer agora
Para se entreterem...
Resgatam da memória uma canção e estão a assobiar

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Três sentidos e meio


Sair ontem de Lisboa com um princípio de otite no ouvido direito e ser agitado sobre a Sardenha como o gelo num shaker, resulta numa semi-surdez com uma ressonância intracraniana de pôr louca qualquer criatura.
Nem consigo saber se estou aos gritos, e com medo de estar, tenho tendência para falar mais baixo e ninguém me ouvir, o que já me irrita entre tantos “desculpe” e “sorry” que me atiram.
Para além disso e nesta onda de “bem-estar”, resolvo ter graça e mandar uma mensagem em Italiano, com o Google a dizer-me que “um beijo infinito” se escreve “un bacio infinito”. A princípio soa bem mas depois de relido em Português é um pouco estranho pois parece que estamos a acusar a outra pessoa de sofrer de poliúria e não fazer outra coisa a não ser “xixi”.
Desinspiração.
Depois de uma noite de trovoada o dia amanhece com sol, eu continuo a ouvir mal, mas tudo parece ser diferente até ao momento em que no pequeno-almoço começo a ver o buffet a escorregar, por pura ilusão pois os meus óculos resolveram fazer uma espargata definitiva com cada lente progressiva a cair para seu lado e a visão de perto e a de longe a misturarem-se de forma demoníaca.
Depois do ouvido…
Acabo por ir para a reunião sem óculos e com a esquizofrénica sensação de que ainda ouço pior por não ter óculos.
Na reunião e como a formadora tinha uma cópia impressa dos slides, a coisa até não iria correr mal de todo, já que a partir do táxi não consegui ver nada ao longe; e se eu por acaso vos disser que me cruzei aqui em Roma com a Sophia Loren, relevem, poderia muito bem ser até o José Castelo Branco.
Resta-me o tacto, o cheiro que me revela um taxista pouco asseado, e o gosto, aquele que pela minha tendência para a gula deverá ser o derradeiro sentido a abandonar-me.
Estava eu neste episódio tortuoso de “Mr. Magoo visita Roma” quando me chega uma mensagem escrita a desejar-me “um dia cheio de sol e cheio com o meu amor”.
Eu estava a dizer-vos que via ou ouvia mal?
Pois… mas esqueçam.
Continuo sem óculos e com o ouvido entupido, mas o que é que isso interessa?
Os sentidos são pequeníssimos detalhes desprezíveis na sua limitação perante uma alma inteira e feliz.
O amor preenche-nos em todos os sentidos… e todos os sentidos, e assim não há dia que possa correr mal.
Três sentidos e meio?
O que é isso quando comparado com um coração feliz.