domingo, 7 de dezembro de 2014

Passei hoje à rua onde nasci...

Passei hoje à rua onde eu nasci.

Parece muito mais pequena do que então e até foi estranho explicar ao meu sobrinho João que era alta, a janela do primeiro andar onde morávamos; é demasiado baixa.

A dimensão das coisas está na forma como nós as vemos, quer sejam ruas, janelas ou quaisquer outros detalhes da nossa história.

E se o tempo fez encolher a minha rua, para sempre persistirá o eco das pessoas que nela me fizeram feliz. Lembro-me de todas elas, e as portas nunca terão números, em vez deles têm nomes de amigos; os nomes que permitem usufruir sempre de uma história quando por ali passo.

O João escutou com muita atenção quando lhe contei que na esquina entre a casa da vizinha Jerónima e a garagem da família Monte havia um recanto que era o paraíso para quem queria ganhar sempre que jogávamos às escondidas.

Tinha saudades quando cheguei ao cimo da rua e entrámos na Praça.

O dia está frio mas o sol faz brilhar intensamente as laranjas que enfeitam a Praça.

Saudades...

Mas apetece-me sorrir.

A raiz só se sente viva enquanto os frutos sorrirem; e por mim a minha rua nunca morrerá.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Eu troco…


Não existirá noite em que eu não queira trocar a vista de todas as cidades do universo pelo teu olhar; se há em ti muito mais de céu e se é de ti que me alimento.
E troco a lua pelas palavras com que me envolves, nesses instantes em que a alma me confidencia que chegou ao sonho, e não há letras no universo inteiro que possam reunir-se para dar verdade à poesia que se solta em mim.
E troco a magia toda que tu tens pela das luzes coloridas que o Natal semeou pela cidade.
E troco a brisa pelo teu cheiro.
A rota de todas as ruas pelo caminhar contigo mão na mão.
E troco a vida toda pelo teu abraço; porque há nele muito mais vida do que aquela que existe e sempre existiu em mim.
Tu e eu somos muito mais do que apenas dois, somos um amor perfeito… sou eu no mais feliz que alguma vez me consegui imaginar.
E pelo meio desta troca que me faz ser eu, se algum escravo da racionalidade um dia disser que eu sou um louco que anda a escrever poemas pelo mundo; eu não me importo.
Lá no fundo, onde mora o essencial, tu sabes que os meus poemas são todos para ti e sabes que, passe o que passar... eu serei sempre teu.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Detalhes da minha infância já com estatuto de museu


Em casa da Tia Maria e do Tio João existia um oratório de madeira com portas de vidro tapadas por umas cortinas, onde para além de outras pequenas imagens de santos existia um Menino Jesus assente numa pienha e com um coração na mão direita; e também um crucifixo quase do mesmo tamanho do oratório.
Sempre que eu ia àquela casa na Rua de Santa Luzia, pedia para me abrirem a porta e poder espreitar o Menino Jesus, que só abandonava a pienha e o oratório para passar algum tempo deitado nas palhinhas durante o período em que o presépio estava montado.
A insistência deste pedido para espreitar o Menino levou a Tia Maria a dizer que um dia ele seria meu.
E foi.
O meu irmão que entretanto tinha nascido solicitou justiça e com toda a legitimidade lembrou:
- Se o Menino Jesus é do Quim, eu quero o Cristo na cruz.
Mas foi mais longe:
- E como o Cristo é maior do que o Menino Jesus, eu levo também a “casinha”.
E também se cumpriu o desejo na sus vertente dupla.
Um detalhe importante é que até hoje o Menino Jesus ainda não saiu do oratório onde também está o Cristo na cruz e todas outras imagens de santos. Achei eu e o meu irmão que não haveria melhor sítio para os mantermos do que a casa dos nossos pais, o nosso terreno comum e sagrado.
E lá estão então agora, com o Menino Jesus a lucrar de vez em quando um novo vestido por obra e arte da Mãe Inácia.
Esta história teve no entanto outra consequência: eu comecei a fazer uma colecção de presépios.
Para além do gosto de os ter confesso que é um detalhe da minha existência que me liga inevitavelmente de forma doce à infância feliz que tive e sempre me proponho prolongar em mim.
Há já algum tempo que digo ao meu sobrinho João que a colecção é nossa e acho uma certa graça quando ele faz visitas guiadas aos armários existentes em Vila Viçosa e conclui sempre com o dedo indicador a tocar no peito:
- E são todos os meus.
Pois são, mas alguns deles vão estar a partir deste fim-de-semana em exposição no Museu de Arte Sacra de Vila Viçosa.
Vão até lá e espreitem.
Entretanto e sem que eu me tivesse dado conta, já há detalhes da minha infância que têm estatuto de museu.
Oh tempo…
Oh idade…

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Pelo amor, claro.


A noite de Lisboa acendeu a ponte e o Natal já espalhou milhares de outras luzes na expressão de um tempo de negócio, muito mais do que de boa vontade.
A cidade faz-se inteiramente minha ao redor da meia-noite, e apenas um eléctrico que passa em direcção ao seu repouso em Santo Amaro, me retira o privilégio de uma rua rasgada só para mim.
O rio está ali bem perto e sinto-o na face, no fresco que o meu passo acelerado ainda atrai com mais veemência.
Há noites como hoje em que brotam ilhas de afecto no mar de indiferença e solidão da cidade, e levo comigo nesta viagem até ao carro, a esperança colhida do rosto feliz de quem vive à margem e para quem um prato de carne com massa é infinitamente mais Natal do que uma luz semeada pela Junta de Freguesia.
A esperança na alma que suplanta hoje em mim e definitivamente qualquer dor nos pés ou o cansaço nas pernas.
O que são as minhas dores e os meus cansaços de uma só noite quando comparados com os da gente que os sente em todas as noites?
Acelero o passo.
Está frio.
São vinte e três horas e dezanove minutos quando soa uma mensagem tua. Tratas-me por amor e eu não resisto e rasgo um sorriso que descompõe definitivamente o cerrar de dentes que enfrenta o frio que vem do Tejo.
Tu és o amor que sempre desejei para os meus dias e todas as minhas noites. Sinto-o cada vez mais certo.
E um homem feliz é irremediavelmente aquele que caminha envolto no amor que preenche cada mais pequeno detalhe da sua vida; sem excepções.
Sigo a pensar em ti…
E pisco o olho à ponte.
Afinal, somos da mesma idade, estamos iluminados nesta noite fria e ambos matámos a distância que há entre todas as margens.
Pelo amor, claro.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

NATAL 3 / Os Borrachos


São as minhas filhós preferidas de Natal.
A Avó Natividade preparava-as como mais ninguém, mas aquelas que a minha mãe continua a fazer quase em exclusivo para mim, aproximam-se muito dessa excelência frita e com um nome de bêbedo, o que é perfeitamente legítimo perante os ingredientes utilizados.
Assim…
500 g de farinha
1 Colher de chá de fermento em pó
1 Ovo inteiro
250g de banha de porco
2,5 dl de vinho branco
1 Cálice de aguardente
Sumo de uma laranja
1 Colher de café de canela
Açúcar para polvilhar
Coloca-se a farinha e o fermento em pó num alguidar abrindo-se um espaço ao centro dessa montanha alva de pó do trigo para onde se verte a banha derretida e a escaldar.
Dizem que este passo é o segredo de um bom borracho.
Evitando quaisquer queimaduras, mistura-se muito bem a banha com a farinha, deitando de seguida a canela, o vinho, a aguardente, o sumo de laranja e o ovo inteiro.
Amassa-se tudo muito bem até que o preparado adquira uma consistência elástica, podendo juntar-se mais farinha se tal for necessário.
A massa descansa cerca de 10 minutos até ser estendida até ao mais fino possível com a ajuda do rolo.
Corta-se de seguida com a ajuda da boca de uma caneca, recorrendo-se depois a um dedal para fazer um corte muito mais pequeno no centro do círculo.
Se ouvirem dizer que um tal Americano de nome Hanson Gregory inventou os donuts, cujo nome deriva do Inglês “doughnut” (rosca frita), esqueçam; fomos nós Alentejanos que os inventámos nestas filhós fantásticas.
Os Americanos não inventaram nada, e os donuts beberam inspiração na forma destas filhós Alentejanas.
Depois de cortada, a massa deve descansar mais uns dez minutos, fritando-se de seguida em óleo muito quente e abundante. Depois de frito deixa-se escorrer e polvilha-se com açúcar e canela.
É do melhor que há e eu até diria que estas filhós conseguem falar, pois colocadas num enorme prato na mesa da sala e tapadas com um pano, juro que as ouço muitas vezes a chamarem por mim quando passo por perto:
- Joaquim.
E eu nunca resisto…

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

NATAL 2 / As férias


Sempre foram as minhas preferidas por serem de Natal, por nos proporcionarem tardes e serões de histórias ao redor do lume, e também porque os amigos se mantinham todos por Vila Viçosa, a nossa casa e a casa dos nossos Natais.
Depois, não faltavam actividades nas duas a três semanas de descanso que nos ofereciam após o primeiro período de aulas.
Na Livraria Escolar a azáfama era grande e superava a de todas as outras épocas do ano. Era lá que eu passava grande parte dos meus dias entre o aconselhar de livros, jogos, carrinhos miniatura ou qualquer outra coisa que pudesse funcionar como presente; e também a fazer os embrulhos.
Ainda hoje quando vou ao "ToysRus" consigo surpreender com a prática todos os outros clientes, a maioria sem jeito para embrulhar os brinquedos.
Dos livros que mais se vendiam recordo-me de "Os cinco", "Os sete", a colecção "Mistério", as "Quatro Torres" e "As gémeas"; havia a "Anita" para as raparigas e o "Tó" para os rapazes juntamente com a banda desenhada do "Asterix", do "Michel Vaillant" e do Lucky Luke.
Para adultos faziam sucesso os livros da "Colecção Dois Mundos" dos "Livros do Brasil" com os autores Pearl Buck ou Ernest Hemingway; também os livros policiais da Agatha Christie.
Para quem queria livros só para enfeitar a estante sempre havia a encadernação a vermelho das obras do Eça e a verde das do Fernando Namora.
Dos jogos da Majora recordo-me por exemplo do "Jogo da Glória", do "Mikado", do "Sabichão", do "Cluedo", do "Master Mind"...
Os dias eram tão atarefados que às vezes nem havia tempo para lanchar o habitual Bolo Finto comprado na padaria, acompanhado por um Sumol que eu ia comprar ao Café do Sr. Cândido, que ficava mesmo em frente.
Interessante era conhecer previamente os presentes que alguns colegas e amigos iriam ter ao chegar a meia-noite de Natal. Na casa dos meus amigos da família Duarte eu era cúmplice e todos no segredo a manter relativamente às surpresas.
Para além da Livraria, o nosso grupo de jovens tinha sempre a incumbência de ensaiar um teatro para apresentar nas festas. E se começámos por fazer sucesso com peças como "O discurso do Tonecas", acabámos já mais tarde a dramatizar poemas do Jorge de Sena.
O sucesso das peças era garantido pois o público, constituído essencialmente pelos nossos pais era fácil de conquistar. E até conseguiam dizer que eu tinha jeito para representar…
As notas relativas ao primeiro período chegavam quase sempre a casa na primeira semana e as minhas costumavam ser boas, o que não invalidava que eu não dispensasse também algum tempo para estudo e trabalhos naquelas alturas em que o presépio já estava feito e a minha mãe preparava os fritos do Natal "perfumando" a casa de uma forma que mais parecia a Barraca do Brilhol (farturas).
E para além de tudo isto havia ainda tempo para os amigos e para conversarmos das nossas coisas, há braseira que os dias iam frios.
As férias terminavam habitualmente depois do Dia de Reis e era comum apresentarmo-nos na escola com novas peças de roupa que tinham aparecido no sapatinho.
E íamos vaidosos, claro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

NATAL 1 / O Presépio


As aulas terminavam sempre a tempo de podermos organizar um passeio ao campo onde com os amigos recolhíamos o musgo da face virada a norte das oliveiras mais velhas que encontrássemos no nosso caminho; isto sobretudo nos anos em que o Outono e o Inverno tinham sido generosos de chuva e humidade.
Levávamos cestos de verga para o acomodar em camadas, e nunca deixávamos de competir pela área de algum pedaço que a forma do tronco da oliveira e a nossa arte permitiam que fosse maior que os demais.
Às vezes regressávamos com os joelhos ou as calças rasgadas, fruto destas intrépidas ambições de chegar mais alto e mais longe. Esquecíamo-nos de que é muito fácil escorregar de um tronco pejado de musgo.
A preparação era depois na casa de cada um em recantos próprios da sala ou de outra divisão nobre e acessível a nós e às visitas, e com as figuras que durante o ano guardávamos uma a uma enroladas em pedaços de jornal e devidamente acomodadas em caixas de cartão onde alguém há muito tempo havia escrito “presépio”, para que não fosse necessário andar a palpar todas as caixas da arrecadação.
Em minha casa as figuras eram de barro e tinham sido compradas nos mercados de Quarta-feira ou nas feiras, pelo que, adquiridas em alturas diferentes e ao jeito de uma colecção, criavam algumas bizarrias interessantes como o facto de termos uma ovelha com o volume de seis das outras e o dobro da altura do pastor, o galo ser maior do que a vaca e o burro; ou a casa ser mais pequena do que qualquer figura que supostamente lá morava e tinha saído nessa noite para ir seguir a estrela e ir ver o Menino Jesus nas palhinhas da gruta de Belém.
Colocávamos um celofane verde num orifício da cabana onde por detrás acendíamos uma lâmpada, enrolávamos uma tira de papel prateado em celofane azul para fazer o rio onde a lavadeira se ajoelhava a lavar, recortávamos uma estrela de cartão enrolada posteriormente em papel prateado, polvilhávamos tudo com a farinha do mesmo pacote de onde se fariam as filhós e as azevias para criarmos a ilusão de neve… e a obra ficava pronta.
Não era raro organizarmos “excursões” a casa de cada um dos amigos para podermos espreitar as obras de arte que apareciam ou não junto das árvores de Natal que não eram obrigatoriamente pinheiros. Havia azinheiras, oliveiras ou até medronheiros com o vermelho dos seus frutos poderiam acrescentar alguma originalidade.
Nestas visitas ninguém saía sem trazer um frito de Natal entretanto já preparado para a consoada.
Às vezes aproveitávamos a ida ao musgo para trazer também alguns pedaços destinados à preparação do presépio da igreja de São Bartolomeu. Combinávamos uma tarde, e lá íamos nós invadir as sacristias à procura das figuras bem maiores que as nossas lá de casa, uma busca muito ao género da descoberta de tesouros feita pelos “cinco”; mas à nossa escala muito alentejana.
A boa disposição elevava o nível de risco de disparate, e não foi com surpresa que se constatou o facto de um Menino Jesus ter acabado um dia sem cabeça, num verdadeiro erro de casting pois tal seria mais compreensível com uma figura de São João Baptista.
A profusão de teias de aranha ao redor das figuras também levou a que um dos meus amigos tivesse liderado um movimento anti beijo ao Menino Jesus pelo risco acentuado de doenças que poderiam “colher-se” da pouca assepsia que o assistia durante os meses do ano em que permanecia na sacristia.
Não teve mais sucesso do que o muito recente risco de epidemia da Gripe A.
Voltando a nossas casas e ao redor dos dias todos do Natal…
Cantava-se ao Menino Jesus, fazia-se a festa, retiravam-se os presentes… e os presépios eram desmanchados só depois do Dia de Reis, mas aí já eram as mães que o faziam.
Nunca me lembro de ter desmanchado um presépio e ter sido eu a devolver à arrecadação a caixa com as figuras.