quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.


Às vezes procuro-te incessantemente tacteando entre os lençóis de saudade com que a tua ausência cobre as noites.
E nunca te encontro entre os meus dedos.
Depois respiro fundo, coloco o braço e a mão direita por debaixo da almofada, reclino o rosto apoiando-o sobre a face direita, e abraço-me sem reservas ao generoso silêncio que me oferece o tempo todo para pensar em ti.
Relembro as histórias, revisito todas as palavras, sinto o teu cheiro, a força do teu abraço, o toque suave da tua pele, o mundo todo que espreita pelo teu olhar… e consigo até fazer renascer todos os detalhes dos beijos perfeitos que me dás.
E acho que sorrio na escuridão do quarto por mérito deste vígil e consciente modo de sonhar… que o sonhar assim acordado é sempre bem mais fiel à nossa vontade.
E tu és o centro de toda a minha vontade.
Vejo-te claro na noite que afasta então todo o linho da saudade, e é fácil entender que só um grande amor consegue povoar assim o pensamento e o coração de um homem que está aparentemente só no silêncio de uma cama muito vazia.
Sim, eu amo-te muito…
E assim tão intensamente em mim, porque é que eu haveria de ficar triste só por não te encontrar entre os meus dedos?
O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.
E por te sentir assim em mim eu sinto-me rei no trono do universo inteiro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Recusar envelhecer por entre “Nancy’s atómicas” e “Bolo-rei de Adão e Eva”


Desço a rampa em espiral do El Corte Ingles de Lisboa, sempre com a sensação de ter sido deglutido por um dinossauro, e não tarda o momento em que estarei munido da minha carta de compras para poder escolher presentes de Natal para as pessoas cujo nome consta numa lista que levo escrita num post-it e que vou riscando à medida que envio “material” para o piso -4, o sítio aonde mais tarde o irei recolher já embrulhado e identificado com o nome do destinatário.
Por entre pisos e subindo e descendo escadas rolantes, apercebo-me que aquele “jogo” do Menino Jesus que chegava de manhã para nos deixar os presentes no presépio da casa de Vila Viçosa, não terminou para mim; e que a posição de fornecedor ou receptor é totalmente indiferente, tal qual a ordem dos factores numa operação matemática de multiplicação.
Eu sei que os pisos estão cheios de espelhos que reflectem este meu ar de quase cinquenta anos, o que no contexto até ganha algum sentido extra pela aparência de Pai Natal; mas a festa é a de sempre.
Na secção de brinquedos surpreendo-me com a nova face da Nancy, totalmente diferente daquela que comprávamos em Badajoz no Simago e que fazia as delícias das raparigas a quem se destinavam. Sinais dos tempos, a boneca foi ao cirurgião plástico e estes ofereceram-lhe um rosto mais quadrado e totalmente “esgazeado”. Uma amiga da minha mãe que há uns tempos resolveu vestir de Nossa Senhora uma boneca da filha e pô-la num oratório como relicário, com esta já não conseguia cumprir com os seus intentos tão devotos.
Depois, eu sofro do mal crónico de não conseguir acertar facilmente com os tamanhos da roupa, com uma tendência super desagradável para adquirir peças de dimensões imensas, o que me expõe bastas vezes ao comentário em forma de pergunta:
- Estás a chamar-me gordo/a?
Desta vez tive isto em atenção e comprei tudo com números mais baixos, com o desconforto no entanto de sentir que estou a oferecer roupa que assentará às pessoas como uma cinta apertada na barriga de uma gorda.
Mais uma vez tive de fazer conversa sobre um assunto que desconheço, e com o i-phone e uma mensagem do meu irmão como teleponto, consegui dialogar com um assistente sobre o “Trash Wheel Playset”, todos excepto o Hambúrguer, sem fazer a mais pálida ideia do assunto.
Estava esgotado e terei de ir repetir a representação num “ToysRus” algures aqui por perto.
Já quase a terminar achei que o Natal exige um bolo-rei em casa, e mesmo sabendo que a consoada me levará até ao Alentejo, lá fui comprar um, antes de recolher as prendas no tal piso -4, ficando a saber que há bolo-rei de maçã…
Desconhecia.
Cheguei a casa já pelas nove da noite com um “bolo-rei normal” e a lista toda riscada.
E o que me consegui rir sozinho entre Nancy’s e bolo-rei ao estilo de Adão e Eva…
Envelhecer?
Pois eu acho que isso é algo que não se quer comigo.
E não será apenas pela doce persistência do meu pai a tratar-me a mim e ao meu irmão pelos “meus gaiatos”, ou então por mérito sagrado de algum elixir de composição secreta que a minha condição de farmacêutico me tenha facultado…
É a magia de acreditar que o melhor tempo é sempre aquele que temos para viver.
Tenho saudades das pessoas que me fizeram os Natais passados e que entretanto já partiram?
Tenho, e muitas.
Mas ressuscito essas pessoas colocando-as na forma intensa de viver o Natal presente com aqueles que entretanto chegaram e que me fazem sorrir.
É a melhor forma de honrar a sua herança.
Eu até estou apaixonado e adquiri ontem um presente especial que nos Natais passados não tive o privilégio de comprar…  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A fogueira acende-se no local de onde varremos as cinzas de outros fogos que o tempo apagou


A fogueira acende-se no local de onde varremos as cinzas de outros fogos que o tempo apagou.
Varremo-las e deitámo-las ao vento, restando apenas quiçá algum pó que se nos cola à pele e aos lábios; pó e palavras ditas como pedaços de uma história que dá lugar agora ao brilho incandescente que acendemos sobre a madeira que a floresta na sua generosidade criou para nós.
E com o fôlego do muito querer, sopramos intensamente sobre o lume até ao momento em que as chamas sobem no ar e colhem de nós a sombra de um beijo que projectam ao longe na parede que é branca por bênção da mais pura cal.
E tu dispensas o calor da fogueira e pedes às minhas mãos que aqueçam as tuas quando o último vestígio de pó se me solta dos lábios pela insistência nos beijos e no pronunciar sussurrado da palavra amor.
A fogueira que não se apaga e que crepita noite fora embalando-nos no sono que cobrimos com um abraço.
Depois…
Tu aproximas-te de mim que te espero sentado numa das mesas do Nicola. É Dezembro e em Lisboa, no Rossio, sente-se o frio de quase Natal.
Caminhamos com o passo alinhado no rigor perfeito do abraço de quem se ama… mas de repente tu paras e pedes que te aqueça as mãos.
É verdade.
Tudo é igual ao sonho de há pouco ali sentado acordado à mesa do café.
Tu existes mesmo e aqueces-me a noite com o fulgor de uma fogueira acesa sobre as cinzas e mortalhas de todos os lumes da minha história.

domingo, 14 de dezembro de 2014

E às vezes é Dezembro!


Degustamos sonhos “amassados” pelas nossas próprias mãos sob a bênção de ancestrais receitas herdadas da nossa história; sonhos doces polvilhados de açúcar…
Colocamos luzes, desenhamos caminhos, contamos histórias, ousamos falar de esperança… sobre o musgo acumulado pelo tempo ao longo de tantos dias em que não vimos o sol…
Escrevemos listas para não esquecer ninguém dos que amamos. Todos têm de estar sempre presentes…
Perdemos o pudor e as reservas todas para à vontade falarmos de amor, mandarmos beijos, abraços… Até conseguimos dizer e escrever: “eu gosto muito de ti”…
Não poupamos nas palavras; as doces e as de revolta perante a injustiça da dor de alguém…
Não intrometemos a nossa sábia racionalidade entre as crianças e a magia e a poesia que se soltam delas…
Não nos rendemos às coisas banais que sustentam as desculpas para adiarmos por mais algum tempo aquele jantar, um encontro; às vezes só uma conversa à volta de um café…
E vamos seja onde for, fazemos quilómetros só para dar um beijo…
E telefonamos mesmo que só para dizer olá…
Acendemos as lareiras, bebemos mel, brindamos com o melhor Porto, comemos chocolates…
Ousamos falar de Cristo e assumimos que Ele nasceu…

E às vezes é Dezembro!

sábado, 13 de dezembro de 2014

A chuva e um homem que sorri


Talvez poucos entendam porque é que um homem sozinho sentado aqui a escrever em frente a uma janela a que a chuva matou o horizonte e de onde apenas se avistam as árvores despidas rendidas ao inevitável inverno, se sinta o homem mais feliz do universo.
O silêncio foi sendo rasgado pela Sinfonia número dois de Mahler.
E bastaria Mahler…
Mas a riqueza de um homem será sempre aquilo que ele sente, muito mais do que qualquer detalhe que dele se vislumbre ou possa contar; e hoje eu tenho em mim, por ti e para ti, um amor capaz de esmagar todos os silêncios e solidões do mundo.
Quando ontem vi o sol despontar por sobre a planície fazendo brilhar a geada que de alvo manto revestira o campo, quando entrei na minha velha escola para contar às dezenas de netos dos meus amigos de sempre, que a poesia é a vida inteira… talvez eu já desconfiasse que a noite me traria o teu abraço, e que por Lisboa e entregue ao cuidado do teu olhar perfeito, eu cumprisse o sonho maior de amor que carrego em mim desde menino.
E nem importa se às vezes se nos falham os traços ou as palavras, se entre nós se faz todo o amor que nos preenche, e ainda sobra amor para nos fazer sorrir.
Como agora…

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pesadelos e afins


O Dr. Mário Soares afirmou recentemente que o país está de cócoras, e eu tenho de concordar com ele pois fiz exactamente a mesma avaliação quando o vi recentemente à porta da prisão de Évora a pedir aos jornalistas que levassem recados a um juiz.
Esperava mais do ícone da nossa democracia.
Mais tarde ouvi o Dr. António Costa afirmar que o país necessita de uma cambalhota, o que geralmente até exige previamente um posicionar de cócoras; e pensei à partida que o exercício gímnico para a comparação não era o mais feliz, pois no final de uma cambalhota estamos exactamente na mesma posição de antes, só que um pouco mais à frente.
Mas quando o Dr. António Costa, que até já convidou o Dr. Ferro Rodrigues para líder parlamentar, sugeriu ao Dr. Jorge Sampaio para se candidatar à presidência, entendi o recurso à “cambalhota”. É mesmo para dar uma volta e ficar tudo na mesma.
Depois do Dr. Sampaio ter demorado um mês a pensar para dar posse a um governo liderado pelo Dr. Santana Lopes, e depois da performance actual do Prof. Cavaco Silva, o Palácio de Belém foi definitivamente promovido a jazigo mais caro do país, lugar para os despojos dos companheiros de carteira da Lili Caneças.
Leio depois uma carta do Sr. José Sócrates (suposto engenheiro) escrita a tinta vermelha e a dizer mal dos políticos. Não estranhei a cor da tinta pois se tal significa mandar alguém à m…, houve mais algum sítio para onde ele sempre nos tivesse mandado?
E os políticos? Eu por acaso até concordo com ele mas a minha opinião é em grande parte fundada no julgamento que faço da sua acção como tal, político.
Pelo caminho ouço a Dra. Ana Gomes no “Conselho Superior” da Antena 1 a afirmar que se Sócrates for culpado deverá ser exemplarmente punido, e se for inocente, a justiça fica com uma muito má imagem. Ainda bem que esta senhora existe e tem esta mente brilhante pois ainda ninguém tinha chegado a esta conclusão…
Conselho Superior? Nem imagino o que possa ser o inferior...
Ligo para a SIC Notícias e tenho a noção que desde a Operação Pirâmide, da Cruz Vermelha Portuguesa e do principio dos anos oitenta, que uma emissão não durava tanto tempo. Dois primos “Espírito Santo” em luta de argumentos para claramente sair vencedora a memória de Vasco Gonçalves, o primeiro-ministro que nacionalizou a banca.
Ainda tive tempo para ir ao multibanco e confirmar que a Senhora Ministra das Finanças me retirou 55% do subsídio de Natal, mas por entre o sorriso e a tranquilidade de que o país está bem e de que todos deveremos agradecer-lhe e erguer-lhe uma estátua algures numa rotunda por aí.
Acabei por desligar a televisão, o rádio, rasgar o talão do multibanco…
Já chega de pesadelos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Depois, cheguei a casa e coloquei palavras na poesia que tinha bebido de ti


Os dias são como os Homens e não se medem aos palmos; e por isso, porquê temer que desde aqui e até ao solstício de inverno, lá para o próximo dia 21, o tempo de sol seja cada vez menor.
Para além do facto das noites serem afinal pedaços de dia em que não vemos o sol mas temos a lua e as estrelas, a vida ganha-se tantas vezes num breve instante, com independência de brilhar ou não o sol no firmamento; que bem mais importante para isso são os detalhes de luz que insistimos em não apagar em nós.
Ainda esta semana irei ter à minha frente um grupo de alunos do ensino básico para quem irei falar de poesia.
Sobre o que é a poesia.
A missão não se me afigura fácil e por isso tenho pensado insistentemente no assunto.
Durante o fim-de-semana em Vila Viçosa fiz inclusive trabalho de campo com o meu sobrinho João, e os dois sentados à braseira tentámos construir uma história que tivesse em si a própria poesia.
Propôs ele que o argumento se poderia centrar numas crianças que ensinariam o pai a fazer aviões de papel. E vincou muito bem:
- Mas aviões daqueles bons e que voam mesmo.
E pareceu-me interessante.
Desde logo porque o “fluxo na poesia” vai das crianças para os adultos e não o contrário; e depois porque a poesia é apresentada como uma capacidade de voar… mas voar mesmo.
Em relação à sessão desta semana já me deixa mais tranquilo porque serei eu quem à partida irá à escola “colher” detalhes da poesia; e depois, e se a poesia é a capacidade de voar, mas de voar mesmo; fica explicado porque é que eu senti ter asas quando estava sentado à tua frente no outro dia, e entre palavras e histórias, me abstraí um pouco para saborear o pensamento de que contigo a vida tinha ganho tudo e um sentido.
E até não havia sol.
Brilhava a lua cheia sobre Lisboa, brilhavam as estrelas e o teu olhar; e o dia de Dezembro que até poderia ser alcunhado de pequeno foi dos maiores que já vivi.
Depois, cheguei a casa e coloquei palavras na poesia que tinha bebido de ti.