quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Estar feliz entre o melhor de mim


Talvez o Natal seja um pouco de tudo, mas seja sobretudo este caminho que nos traz de volta a casa por entre o frio e a geada de uma manhã de Dezembro.
Jesus nasceu, é um Menino, e Ele será sempre esta rota traçada nos dias com destino ao melhor de nós.
O sol brilha olhando-me de frente no meu rumo a leste, e reconheço todos os detalhes, as pedras, os muros que o tempo cravejou de musgo à medida que nos temperava de cãs e nos enchia a alma de gente, palavras e afecto, tantos benefícios que recebemos a partir desta força de nunca desistir de viver.
Gente, palavras e afectos… amor, tudo aquilo que enobrece a nossa essência, perpétuo ser irmão dos choupos que vejo através do carro, que mesmo assim sem as folhas após o rigor do Outono, jamais desistem de indicar as linhas de água que percorrem a planície.
Há amigos que chegam à tarde, partilhamos filhós, presentes, palavras, histórias e afectos…
Rimo-nos muito.
Há chocolate quente na mesa da consoada e sabe tão bem o calor do pai e da mãe aqui sentados ao meu lado…
Há presépios, meias, cachecóis, licores, palavras e afectos…
Está o teu amor expresso na fidelidade ao doce pensamento perpétuo que tem o teu nome…
E eu por entre a minha essência levantar-me-ei cedo para ir à missa e beijar o Menino Jesus.
É Natal…
E eu não resisto a aproveitar cada detalhe deste estar feliz entre o melhor de mim.
  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NATAL DE 2014


O caminho de Belém
Arquitectura de estrelas
Vontade do céu
É a rota para a casa de um pobre berço
Que aquilo que é grande a Deus
Bastas vezes merece dos Homens…
O desdém

E Maria que é mãe pela simples fé de um sim
E José que é pobre e carpinteiro
Guardam nas palhas
O Menino Deus
Homem que por ser Jesus
É simples assim
Mas é Rei para o mundo inteiro

Nem com magos
Poderosos
Nobres ou doutores
Neste presépio igual ao do ano primeiro
Eu sigo feliz contigo pela rota dos pastores
Dando corpo à mais simples verdade do ser

E no canto a vozes que abafa o frio de Dezembro
Os olhares
As mãos
Tudo em nós fala de amor

É o Natal a acontecer
E nem é preciso que se acenda o lume para sentir calor

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

É Natal mas o verdadeiro Cristo morre-nos aos pés


Acenderam-se as luzes sobre as avenidas da cidade como que multiplicando por milhões a estrela de Belém, ouve-se música de festa, fala-se despudoradamente de paz, amor e alegria, as mesas afogam-se nos aromas das mais ricas iguarias, há um pinheiro gigante iluminado junto ao rio… mas o Menino Jesus morre de frio enrolado em papelões no átrio de mármore de uma loja cara onde durante os dias limpam os pés os Reis Herodes na posse das coroas humanamente reconhecidas mas muito pouco religiosas dos seus milhões.
Com a roupa de há tanto tempo, todo o dia vagueou triste pela cidade naquele andar por andar de quem nunca tem para onde ir; e a gente que nos templos beija Meninos Jesus de barro virou-lhe a cara e continuou o seu trajecto guardando para si o ouro, o incenso e a mirra… e deixando-o infinitamente mais triste no interior deste túmulo frio de onde é impossível sonhar com a ressurreição de um domingo de aleluias.
As mãos lavadas na água benta do descartar dos políticos inconscientes, Pilatos do nosso tempo empenhados na gestão de carreiras e estatísticas; o voto e a condenação dos senhores da lei, dos hipócritas e dos poderosos, a coroa de espinhos, a sede, a via-sacra feita de quedas, promissórias, empréstimos, prestações; e sem Simão de Sirene, a generosidade de uma Verónica ou o solidário pranto das mulheres de Jerusalém… esta dolorosa crucificação sem pregos mas de pé sujo e descalço pela cidade mais bonita do universo.   
Não fosse a lua que nunca falha e persiste a brilhar para ele por cima das árvores da Avenida; e neste Getsémani sem oliveiras mas com um estranho glamour escutar-se-ia em Português um aflito e legítimo “Pai porque me abandonaste?”.  
Lisboa.
São quase seis da manhã, o frio está no topo, as palhas quentes são pedras geladas, Maria é um grito chorado entre a dor e a saudade num Ave de como quem chama pela mãe…
A cidade está prestes a despertar para um dia de festa.
É Natal mas o verdadeiro Cristo morre-nos aos pés.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Um até já solto de um beijo e o meu melhor Natal


Há silêncios onde moram infinitas palavras…
Há momentos de estar só que são fonte de muitos beijos…
Há ruas e cidades que condensam em si o mundo inteiro…
Há campos vazios abandonados à chuva e ao sol de inverno, mas que transpiram já aromas das flores que lhes vestirá a primavera.

Há o estar parado e a sentir que se voa…
Há mãos vazias envoltas no eco de carícias…
Há poentes com a esperança de um amanhecer…
Há o nada que é tudo…
O não que é sim…
O raro que é especial…
O normal que é anormal…
Há o caso sério que é um entrudo…
E o carnaval que por nos juntar e fazer rir… tem algo de Natal

Há um simples chá partilhado que vale uma consoada…
E há aquele perfeito momento em que depois de me teres dado o presente, e mesmo ali diante de toda a gente, me dizes que o futuro será nosso…

Depois…
Um até já solto de um beijo, um beijo só, que não se poderá comparar com absolutamente mais nada…
E eu que canto pelo caminho.

Este é por ti, o meu melhor Natal.
Com o amor a fluir entre beijos, palavras e desenhos…
Sem presépios, estrelas, pinheiro e azevinho.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Por entre esta ilusão de primavera


Em cima da mesa adornada com um bolo-rei já partido, o café fumega e parece rimar com o sol que brilha intenso para lá da vidraça; o sol que aqui de casa por momentos me faz esquecer que é inverno e que há frio lá fora, neste que será um dos dias do ano em que o astro-rei partirá mais cedo para lá do horizonte.
O sol esconde o inverno e o frio, como as palavras ao redor da mesa, o tom e a cor de festa do bolo de Natal, até as gargalhadas… escondem a saudade de não te ter aqui.
Penso em ti por sobre tudo e por sobre os instantes passados com toda a gente.
Não há nada mais fiel ao coração do que pensamento.
E nós somos muito mais de quem carregamos na fidelidade da lembrança, do que tudo o mais que vemos e até conseguimos abraçar.
O amor na intimidade mais íntima de nós mesmos.
E envolto no pensamento, deixo órfãs as palavras, e coçando a barba faço passar os dedos na proximidade dos meus lábios. Há aromas teus que permanecem na minha pele…
Sinto mais do que nunca as saudades de um beijo.
Peço então ao sol que te leve um beijo por mim e que te faça sorrir por entre esta ilusão de primavera… e decido que vou passar o dia a pensar em ti. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.


Às vezes procuro-te incessantemente tacteando entre os lençóis de saudade com que a tua ausência cobre as noites.
E nunca te encontro entre os meus dedos.
Depois respiro fundo, coloco o braço e a mão direita por debaixo da almofada, reclino o rosto apoiando-o sobre a face direita, e abraço-me sem reservas ao generoso silêncio que me oferece o tempo todo para pensar em ti.
Relembro as histórias, revisito todas as palavras, sinto o teu cheiro, a força do teu abraço, o toque suave da tua pele, o mundo todo que espreita pelo teu olhar… e consigo até fazer renascer todos os detalhes dos beijos perfeitos que me dás.
E acho que sorrio na escuridão do quarto por mérito deste vígil e consciente modo de sonhar… que o sonhar assim acordado é sempre bem mais fiel à nossa vontade.
E tu és o centro de toda a minha vontade.
Vejo-te claro na noite que afasta então todo o linho da saudade, e é fácil entender que só um grande amor consegue povoar assim o pensamento e o coração de um homem que está aparentemente só no silêncio de uma cama muito vazia.
Sim, eu amo-te muito…
E assim tão intensamente em mim, porque é que eu haveria de ficar triste só por não te encontrar entre os meus dedos?
O amor sente-se, muito mais do que se tacteia algures por entre a noite.
E por te sentir assim em mim eu sinto-me rei no trono do universo inteiro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Recusar envelhecer por entre “Nancy’s atómicas” e “Bolo-rei de Adão e Eva”


Desço a rampa em espiral do El Corte Ingles de Lisboa, sempre com a sensação de ter sido deglutido por um dinossauro, e não tarda o momento em que estarei munido da minha carta de compras para poder escolher presentes de Natal para as pessoas cujo nome consta numa lista que levo escrita num post-it e que vou riscando à medida que envio “material” para o piso -4, o sítio aonde mais tarde o irei recolher já embrulhado e identificado com o nome do destinatário.
Por entre pisos e subindo e descendo escadas rolantes, apercebo-me que aquele “jogo” do Menino Jesus que chegava de manhã para nos deixar os presentes no presépio da casa de Vila Viçosa, não terminou para mim; e que a posição de fornecedor ou receptor é totalmente indiferente, tal qual a ordem dos factores numa operação matemática de multiplicação.
Eu sei que os pisos estão cheios de espelhos que reflectem este meu ar de quase cinquenta anos, o que no contexto até ganha algum sentido extra pela aparência de Pai Natal; mas a festa é a de sempre.
Na secção de brinquedos surpreendo-me com a nova face da Nancy, totalmente diferente daquela que comprávamos em Badajoz no Simago e que fazia as delícias das raparigas a quem se destinavam. Sinais dos tempos, a boneca foi ao cirurgião plástico e estes ofereceram-lhe um rosto mais quadrado e totalmente “esgazeado”. Uma amiga da minha mãe que há uns tempos resolveu vestir de Nossa Senhora uma boneca da filha e pô-la num oratório como relicário, com esta já não conseguia cumprir com os seus intentos tão devotos.
Depois, eu sofro do mal crónico de não conseguir acertar facilmente com os tamanhos da roupa, com uma tendência super desagradável para adquirir peças de dimensões imensas, o que me expõe bastas vezes ao comentário em forma de pergunta:
- Estás a chamar-me gordo/a?
Desta vez tive isto em atenção e comprei tudo com números mais baixos, com o desconforto no entanto de sentir que estou a oferecer roupa que assentará às pessoas como uma cinta apertada na barriga de uma gorda.
Mais uma vez tive de fazer conversa sobre um assunto que desconheço, e com o i-phone e uma mensagem do meu irmão como teleponto, consegui dialogar com um assistente sobre o “Trash Wheel Playset”, todos excepto o Hambúrguer, sem fazer a mais pálida ideia do assunto.
Estava esgotado e terei de ir repetir a representação num “ToysRus” algures aqui por perto.
Já quase a terminar achei que o Natal exige um bolo-rei em casa, e mesmo sabendo que a consoada me levará até ao Alentejo, lá fui comprar um, antes de recolher as prendas no tal piso -4, ficando a saber que há bolo-rei de maçã…
Desconhecia.
Cheguei a casa já pelas nove da noite com um “bolo-rei normal” e a lista toda riscada.
E o que me consegui rir sozinho entre Nancy’s e bolo-rei ao estilo de Adão e Eva…
Envelhecer?
Pois eu acho que isso é algo que não se quer comigo.
E não será apenas pela doce persistência do meu pai a tratar-me a mim e ao meu irmão pelos “meus gaiatos”, ou então por mérito sagrado de algum elixir de composição secreta que a minha condição de farmacêutico me tenha facultado…
É a magia de acreditar que o melhor tempo é sempre aquele que temos para viver.
Tenho saudades das pessoas que me fizeram os Natais passados e que entretanto já partiram?
Tenho, e muitas.
Mas ressuscito essas pessoas colocando-as na forma intensa de viver o Natal presente com aqueles que entretanto chegaram e que me fazem sorrir.
É a melhor forma de honrar a sua herança.
Eu até estou apaixonado e adquiri ontem um presente especial que nos Natais passados não tive o privilégio de comprar…